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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

A despedida

Falar de despedidas ou de últimos momentos é sempre difícil... Deixam-nos sempre com o coração pesaroso, envolto em melancolia e alegria! Melancolia do que já passou e não volta mais... Melancolia de uma época que termina! Contudo alegria... Alegria de jornadas de caça que ficam para sempre na memória e no coração! Alegria de momentos que nos tornam, com certeza, melhores caçadores e, acima de tudo, melhores seres humanos. 

E é com essa tal alegria que descreverei o meu último fim de semana desta época cinegética. É com essa tal alegria que me questiono da sorte que me perseguiu, vezes sem conta, durante estas jornadas de caça... Uma sorte que me levou a ver a caça (ainda mais) como a minha forma de estar nesta breve passagem a que chamamos vida!

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Sábado: Sem horários... Sem "obrigações"... Sem compromissos... Só com a vontade de querer respirar ar puro fomos dar uma volta com os cães... Cães de parar, jovens e com uma paixão incrível pela caça! Uma paixão oriunda da genética mas que se fomenta, dia após dia, com o contacto com a caça. Estava um frio de cortar a respiração mas ao passar vedações, ao subir "montes e vales", ao correr atrás dos cães quando era necessário... O frio passa a ser um mero pormenor. Respirar ar puro. Sentir a liberdade. Estar em contacto com a Natureza... Ver os animais... Passaram tordos, perdizes, bandos de pombos... Ouvir os melros, os corvos... No fundo, um passeio para os cães esticarem as pernas e nós "esticarmos" a alma e o coração! Eles lá andavam todos contentes, a caçar. A fazer aquilo que mais gostam. Aquilo para o qual tinham nascido. De repente, começam a ladrar de forma extenuante para umas silvas. Seria porco? Raposa? Rapidamente as silvas começam a mexer-se... Ganharam uma nova vida! E uma nova (ou velha) vida sai repentinamente das silvas, com uma rapidez incrível e sem que ninguém o conseguisse ver... Mais uma vez, a comprovar a astúcia desta espécie cinegética... Continuamos o passeio! Os cães continuam na sua alegria contagiante, até que uma delas faz uma paragem absolutamente incrível, aguentando-a minutos a fio... Uma cadela tão jovem e já com tanta cabeça! Subitamente, sai uma galinhola linda, com um voo silencioso e rápido, caracterizando-a na perfeição! 

No último fim de semana da época ainda tinhamos a sorte (esta tal sorte de que tanto falo) de contemplar estas belas espécies... Até olhar para o lado e ver uma raposa a furtar-se... Naquele seu movimento elegante e diria, um tanto ou quanto vaidoso e matreiro... Lindíssima! Estava longe, mas contemplei-a durante uns segundos, que se tornaram minutos... Todo o caçador conhece esta sensação! 

Meto-me a pensar nesta tal sorte. Que sorte esta que eu tenho que me leva sempre a presenciar momentos absolutamente incríveis. "O quê? Ver uma raposa ou sentir um javali?" Não será bem mais que isso? Claro que é! Nós, caçadores, sabemos que é... Obrigada a ti sorte, por me estares sempre a presentear!

 

Domingo: O tão aguardado último dia... O dia que deveria acabar em grande! Que deveriam viver-se os melhores lances, os melhores momentos, as melhores aventuras... 

No entanto, o meu último dia de montaria era recheado de expetativas muito baixas. Ao nível de javalis era zero; tinha dado como terminada a minha época o fim de semana passado; pois já sabia que este fim de semana iria para os gamos. Apesar dos convites para manchas, à partida, muito boas; queria tentar algo diferente. E esse algo diferente prendia-se com gamos e gamelas; não com o intuito exaustivo de os matar mas, primordialmente, para os observar.

Então lá fomos... Um grupo pequeno, numa manhã gelada e ventosa... Dois homens com um pau e um podengo, que iriam espantar os bichos! E mais nada... Coloquei-me onde me disseram. Preparei a Winchester... Diziam que seria difícil, pois eram bichos muito espertos e que, a qualquer sinal, poderiam fugir sem que dessemos por eles... Estava envolta nesses pensamentos, quando vejo uma manada de gamelas a correr, a cerca de 80 metros. Cerca de 15 a 20... Tudo fêmeas! Lindas! Mais um daqueles momentos em que os segundos viram minutos e os minutos parecem horas... Corriam elegantemente, todas umas atrás das outras, como se tivessem treinado horas e horas, para agora se enaltecerem perante nós! De repente, desaparecem... Não atirei, apesar de nos terem dito que poderíamos atirar às fêmeas! Somente uma opção pessoal... 

Passados cerca de 10 minutos juntamo-nos todos, pois os bichos já tinham fugido. Chegam os senhores com o cão, afirmando que tinham visto 3 gamos. A esperança eleva-se, pois ainda iríamos fazer uma segunda mancha. Contudo, no caminho para a mancha, começamos a perceber que seria difícil, pois as vacas andavam por todo o lado. As opiniões divergiam: uns afirmavam que os gamos não se aproximavam delas; outros diziam que eles andavam atrás delas... Enfim! Só estudando o comportamento dos animais e observando-os podemos ter tais certezas... A vida animal, por vezes, é uma incógnita e aí reside toda a beleza deste mundo! Ao descobrirmos essas pequenas incógnitas, sentimo-nos sempre um bocadinho mais realizados... Mas será que essas incógnitas, quando descobertas, são absolutas para todos os animais? Creio que não...

Fomos colocar-nos em sítios estratégicos que nos tinham aconselhado... Como estava tudo, ou quase tudo, sem esperança, e como aquilo era, efetivamente, uma pequena brincadeira com dois homens com um pau e um cão; ficamos três numa porta, de conversa. E outro senhor bem ao nosso lado, sentou-se no seu banco, calmamente, fumando um cigarro e observando a Natureza... Quais seriam os seus pensamentos? Os seus medos e as suas tristezas? Os seus problemas? Comecei a pensar em tudo isto, paralelamente ouvia os meus companheiros a susurrarem qualquer coisa e de repente ouço dois tiros. Automaticamente pensei que tinham saído os gamos. Olho bem para o fundo e, numa fração de segundos, avisto um porco e aviso-os "está ali um porco". Corro logo para a frente, escondo-me atrás de uma árvore, a cerca de 5 metros da vedação (eles estavam do outro lado da vedação). O meu coração já começava a palpitar mais depressa (se bem que já tinha tido a sua dose de palpitação, ao ver as gamelas). Mas acho que a sorte ainda me tinha reservado mais qualquer coisa... Esta sorte...

De repente, e muito lá no fundo, vejo três javalis, uns atrás dos outros, a correrem desalmadamente. Estavam a fugir de alguma coisa, espantados. Seriam os homens com um pau e um cão que tinham feito todo este reboliço? Consigo vê-los; senti-los assustados e ofegantes, mas ainda estão longe... Mantenho-me escondida... Olho de relance para trás, para ver os meus companheiros. Estão mais atrás e de olhos atentos! Olham para mim e sorrimos. Respiro fundo. Tenho de aprender a controlar estas palpitações frenéticas do meu coração! 

Eles começam a andar a trote... Sentem que já não correm perigo, possivelmente. Consigo agora vê-los nitidamente e ver que são três porcos, um deles bem grande. O vento está muito forte, mas muito favorável a que venham ter connosco. Estou numa posição desconfortável, com um joelho no chão e com outro em suspensão, mas agora não me posso mexer... Agora não! Os javalis começam a encostar-se mais para a vedação. Se tudo corresse bem e se eu tivesse calma eles iriam passar a 5 metros de mim. Colocam-se em fila indiana, cada um atrás do outro e vêm tranquilos pela vedação. Reparo logo se vêm bebés atrás, pois já sabemos o que esperar nesta altura... Mas vêm somente estes três. Não há nada a temer! Espero... De repente ouço um susurro lá atrás, muito abafado pelo vento "Calma!". Eu estou calma! Apesar das mil palpitações por minuto do meu coração, este é sempre daqueles momentos em que a calma e a tranquilidade me invadem por completo. É um sentimento total de bem estar, um expoente máximo de felicidade! Não poderia estar melhor... E também tenho e devo compensar esta sorte que me acompanha... E, para isso, tenho toda a calma e todo o tempo do mundo! Espero... Observo e, sobretudo, aprecio-os... Aprecio aquelas suas incógnitas, que falava há pouco! Nunca meto a arma à cara, senão tenho a certeza que não conseguiria deslumbrar nem metade (mas percebo que há caçadores que o façam). Eles estão quase a passar por mim... Nesta altura, vou ter de colocar a arma, subtilmente, para que depois não se assustem com movimentos bruscos. Coloco a arma à cara... Não retiro os olhos deles... Grandes, negros, com uns olhos esbugalhados... Lá vêm eles! Parecem despreocupados, mas cansados... Despreocupados, mas sempre em alerta... De repente ouço "pum"! Um dos companheiros que estava atrás deu um tiro repentinamente. Todo o momento calmo e tranquilo é quebrado por um tiro rápido! Os porcos, despreocupados há segundos atrás, começam a correr de forma desalmada... Meto a arma à cara e disparo o gatilho, quando o porco maior me passa a 5 metros. Mesmo no coração... Depois dou um segundo tiro no último porco, um tiro cruzado, mas que lhe acerta (creio eu). Metem-se entre umas estevas e não os vejo mais, mas ouço e vejo os tiros que os meus companheiros dão e o senhor pensativo da porta ao nosso lado. Um dos meus companheiros começa a atirar à porca que eu tinha atirado (sem saber, claro) e ela fica no chão. Levou dois tiros de coração e, ainda assim, aguentou tanto... O outro companheiro ainda lhe manda um tiro traseiro... Tudo foi parar àquela porca (talvez por ser a maior)... Eu, no meio de tudo isto, em vez de carregar novamente a arma e ajudá-los a segurar os outros porcos, perco-me com os meus olhos, que encaram com quatro listados a correrem... As lágrimas começam a cair-me dos olhos... Não ouço mais tiros, não ouço o vento... Não ouço mais nada... Os listados corriam, depois paravam, depois voltavam a correr juntos, depois quase que vieram ter connosco e voltam a correr... Não pararam na porca que eu tinha morto, o que me levou a pensar que não seria a mãe. Graças a Deus! Mas tudo isto tem uma beleza incrível... Ver estes bebés... Não tenho palavras para descrever o que sinto e o que senti... Esboço sorrisos de felicidade, simultâneos com as lágrimas de felicidade... "Felicidade por veres quatro porcos pequenos?" Sim! Essa felicidade... Que tenho pena que muitos caçadores só a alcancem (se é que alcançam) quando os têm mortos nas fotografias! Caçadores não... Matadores, desculpem! 

Eles fogem e eu depressa apercebo-me do que estava ali a acontecer... Levanto-me... Sim, ainda estava naquela posição desconfortável... E olho para eles... Uns foram à procura dos outros javalis e outros já me vêm dar os parabéns, quando se apercebem de que a porca já levava um tiro de coração... Dizem também que o outro porco levava um tiro e não estava longe... Contudo, não o conseguimos encontrar... Eram terrenos difíceis e não tínhamos cães para nos ajudar! Vejo a porca, não está parida! Era enorme e linda. Tinha uma boca (para porca) linda! Uns dentes e umas amoladeiras enormes, como nunca tinha visto... 

Mais um momento que esta tal sorte (vamos chamar-lhe assim) me proporcionou... Uma caçada aos gamos, com poucas expetativas, devido à dificuldade que já conhecíamos, acabou com um lance incrível!

Obrigada! 

ML.

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O Respeito na caça

É urgente que nós caçadores saibamos respeitar os animais melhor do que ninguém... Se não formos nós a dar o exemplo, quem será? Depois queixamo-nos que as pessoas não nos percebem? Que está tudo contra nós? Este poderá ser um dos diversos motivos...

Há vários tempos que me deparo com algumas fotografias, nas tão mediáticas redes sociais, de jornadas de caça, que se finalizam com peças de caça abatidas.

Partilhar uma fotografia de um animal morto no facebook ou no instagram não é nem pode nunca ser assim tão linear. Há liberdade, há democracia e por isso podemos partilhar aquilo que queremos... Penso que não é bem assim! A liberdade e a democracia só devem existir se nós soubermos ter respeito.

E hoje venho falar de RESPEITO! Respeito pelos animais, respeito pela caça, respeito pelas peças abatidas e, sobretudo, respeito pelo nome que representamos: caçadores.

Matar uma peça de caça não é somente dar um tiro. Matar uma peça de caça envolve muito mais do que isso. Ao cair morta no chão, a peça de caça terá de ser tratada com todo o respeito. Ela merece toda a dignidade até ser ingerida por nós, humanos. 

Falemos do exemplo da caça menor: matamos uma perdiz. Alguns vão buscá-la e enfiam-na no colete, ficando toda engelhada. Nem sequer chegam a apreciá-la; a apreciar o bom trabalho que fizeram. O lance único que houve. Um momento que jamais será igual... Depois do tiro, devemos apreciar o cobro do cão, limpar a perdiz e "penteá-la", cuidar dela, tirar as penas estragadas do tiro e pendurá-la no fim. Nós conseguimos uma peça de caça, mostramo-lo com orgulho e repeitamo-la acima de tudo e não a "enxuvalhamos" dentro de um lugar frio, escuro e inóspita, como o colete.

Outro ponto importante: nunca atirem uma peça de caça morta pelo ar a outro caçador... Não preciso de detalhar... É somente um ato de ignorância e falta de respeito. Lá vem novamente a palavra respeito...

Na caça maior é onde me tenho deparado com coisas terríveis. Sim, terríveis. Primeiro que tudo, muitas pessoas que fazem montarias e que matam um javali, por exemplo, acham que é só isso. Matar o javali.

Jamais!

Algumas vezes, nem sequer os vão buscar ao sítio, esperando que cheguem os matilheiros (que não têm essa função) ou alguém da organização no fim. Claro que há situações que sozinhos não conseguimos tirar o javali de certo sítio; contudo, há outras que podemos puxá-los para junto de nós e ter todo um ritual de respeito e orgulho naquilo que fizemos. Apreciem o tiro que deram, apreciem o animal que têm à vossa frente. Coloquem-no à sombra, se possível, para não ficar ao calor, com moscas e varejas por cima. Nos meses quentes isso acontece muito, visto que as montarias iniciam-se em Outubro e acabam no último fim de semana de Fevereiro. Coloquem-no numa posição que fique respeitosamente bonito. Lavem-lhe os dentes se tiverem sujos de sangue ou lama. Limpem o pêlo que poderá estar sujo de ter caído no mato.

E depois... Depois vêm as fotos de grupo. Fotos que relatam manhãs mais ou menos divertidas... Fotos que relatam uma história! Uma história que pode ou não ter um final feliz... Nós caçadores temos o dever de escolher esse final. E é tão fácil darmos um final feliz a uma montaria, por exemplo. Porquê?

Porque basta termos respeito.

Senão reparem naquelas fotografias que, por vezes, invadem o facebook de porcos todos uns em cima dos outros... Isto é respeito pela peça de caça abatida? Não me parece.

Reparem naquelas fotografias que, por vezes, invadem o facebook de porcos com listados (que até podem ter sido apanhados pelos cães), mas que fazem questão de os incluir na fotografia. Isto é respeito pela peça de caça abatida? Não me parece.

No outro dia deparei-me com uma fotografia e um vídeo de um javali morto em cima de uma moto. Os risos eram muitos... A diversão também! E a peça de caça abatida estava a ser gozada em cima de uma moto... Isto é respeito pela peça de caça abatida? Tenho a certeza que não...

Uma utopia? Detalhes insignificantes? Sensibilidade a mais? Julgo que tudo isto se resume numa única palavra, aquela que proferi há pouco e neste inteiro desabafo: Respeito!

É urgente que saibamos ter respeito pela caça abatida. A nossa liberdade termina quando começa a liberdade do outro... Se damos liberdade à espécie, aprendamos a dar-lhe "liberdade" quando ela é nossa... 

ML.

 

 

Um sopro do coração

Um sopro do coração... 

É assim que começo hoje... Porque é assim que começo todos os meus fins de semana... Com um sopro do coração, que invoca por mais dois dias de pura felicidade... Dois dias em que este meu coração pode viver várias emoções e experiências... Em que este meu coração vai bater de forma mais intensa, vai suster-se quando assim tem de ser, vai tranquilizar ou, paralelamente, "explodir" com tamanhas sensações... Mais uma vez, falar-vos-ei deste meu fim de semana que, infelizmente, já terminou. Terminou, também ele, com um sopro do coração... Um sopro de tristeza e melancolia, mas com recordações infinitas.

 

Sábado: O despertador toca. Abro os olhos, vejo que ainda está escuro lá fora... É cedo, deve estar frio, tenho duas princesas (podengo português) a dormir profundamente a meu lado, mas tenho que me levantar! Custa-me mais por elas, do que por mim... Eu levanto-me com a maior alegria, como é óbvio... Hora de equipar-me à caçadora (e não à matadora) e levar bastante roupa, porque davam temperaturas muito baixas. Numa montaria, sempre quietos, e com muito frio, não é fácil. Chego à montaria (uma daquelas à séria) e já estão a tirar as portas. Eu ia ficar juntamente com uma pessoa na porta, que era postor nessa montaria e tinha uma porta para ele e que me tinha feito o convite, e eu aceitei.

Sorteio realizado, o pai nosso proclamado e lá vamos nós... Mesmo que não sentisse nada, já estava maravilhada com a mancha que iríamos ter. As fotografias que coloco aí em baixo acho que descrevem melhor do que qualquer palavra minha. Era uma mancha enorme (eram mais de 60 portas), dividida entre portugueses e espanhóis. Depois de colocarmos alguns caçadores nas suas portas, fomos para a nossa, que se situava num género de uma cova entre duas linhas de água. O vento não era intenso e o sol brilhava cada vez mais. O calor fazia-se sentir... Estudei todo o terreno, os sítios para atirar e achei que seria difícil. Muito mato, silvas, estevas velhas... Perderia facilmente um porco, se não fizesse um tiro certeiro, num segundo também certeiro. 

Sentei-me (desta vez levei cadeira, que nunca levo). Respirei fundo, fechei os olhos e senti o sol intenso a bater-me na cara... Que saudades do Verão... Parece que no Verão todos os problemas se desvanecem... E cientificamente sabe-se que há muitas depressões sazonais no Outono/Inverno devido a isso mesmo, ao tempo. Bem... Não vamos divagar sobre depressões ou sobre o tempo... Divaguemos antes sobre a Natureza! Vejo duas perdizes bravas a voarem por cima de mim... Pousam e começam a cantar. Acompanharam-nos toda a manhã, com os seus cantos... Quanto é que isto não vale, não é? 

Os cães e os matilheiros passam por nós (eram cerca de 16 matilhas). Ouviram-se tiros toda a manhã. Pelo menos, estava muita gente a divertir-se, sem dúvida... Os cães passam, na maioria podengos, a caçar, a seguirem rastos, a fazer o que os deixa mais felizes: caçar! 

Num ápice vão-se embora... Não detetam nada ao nosso redor! Os tiros continuam... Eu vou apreciando as borboletas... Umas amarelas, mas a maior parte são brancas... O cantar das perdizes continua... E, de repente, começa o cantar de um melro... Levanto-me e, simultaneamente, sai um melro de umas silvas espantado, na encosta. Vem aí um javali... Já o sinto..

Muita gente me pergunta qual o meu segredo ou truque... Como é óbvio, não é nenhum... Tenho tido sorte! Mas, além disso, também sinto! Ou seja, consigo (não me perguntem como) sentir os porcos a alguma distância. Sentir quando vêm... Quando param... Nas esperas, por exemplo, mesmo que adormeça, sinto logo quando estão a vir... Um dom??? Talvez uma sensibilidade acrescida, direi...

E nisto tudo entra um porco... Entre mato e silvado, vejo-o de relance, na subida enorme de uma encosta... Meto a arma à cara, mas rapidamente a retiro, porque sei que não vou conseguir dar um tiro daqueles (àquela distância e no meio de tanto mato). Como prefiro não dar tiros sem ter a certeza de nada, tiro a espingarda da cara e... Pum! O meu companheiro dá um tiro! Foi um dos melhores tiros que já vi na minha vida... Melhores e mais difíceis. O porco cai, o meu companheiro corre encosta acima para rematá-lo (vimos logo que não tinha caído seco). De repente, ele grita "traz a faca rápido". Vi logo que o porco já deveria estar em sofrimento. Corri o mais que pude... Subi aquela encosta como se fosse a Rosa Mota... Cheguei num ápice, por entre silvas e troncos de árvores, entrego-lhe a faca. A porca estava deitada no chão, a tentar atacar! Batia os dentes e era difícil lá chegar, mas conseguimos. Depois para a puxar é que foi mais difícil mas, como é óbvio, teríamos também de conseguir, pois isso faz parte. Matar, rematar (quando assim tem de ser, para o animal não sofrer mais), cobrar, e puxar os porcos para a nossa porta... Infelizmente, alguns caçadores, aliás, matadores, não o fazem!

A porca ficou ao nosso lado... Para além das borboletas e das perdizes, agora tinhamos moscas a zumbirem o tempo todo! Mas faz parte da caça! Volto-me a sentar... Sinto um porco à minha frente, nas silvas! Sei que já está ali há algum tempo... Não posso fazer nada, até virem os cães, portanto ficamos a guardá-lo. 

Sentada, envolta com os meus pensamentos e com a Natureza... Sinto qualquer coisa. Levanto-me num ápice! Sinto que vem lá do fundo... Os meus olhos nem fecham... O meu coração já deu vários sopros! E lá vem ele... Estrada fora... Calmo e tranquilo... Passo a passo! Gosto tanto quando eles vêm assim! Apreci-os de forma mais calma e tranquila, do que quando vêm a furtar-se aos cães. O meu companheiro de porta nem sequer o viu nunca! Porque estava mais no meu alcance! Espero que ele se aproxime o mais possível, senão seria um tiro muito longe e arriscado. Não me mexo... Fico como uma estátua... Até que aqueles olhos arregalados focam-se nos meus... Era agora ou nunca! Ou atirava (e era um tiro difícil, claro - tiro de cabeça a uma distância considerável) ou ele escapava de forma súbita, entre as milhares de silvas que se encontravam na sua esquerda e na sua direita. Aponto-lhe e o meu dedo prime o gatilho. O tiro era muito longe, a mais de 40 metros e eu estava de espingarda... Como estou e estarei sempre... Sem carabinas, sem miras, sem modernices... Mas é só o meu gosto pessoal! Eu e a espingarda... Eu e dois canos sobrepostos... Somente! 

O porco vira-se de repente para o lado direito e sobe encosta acima, por entre mato e mais mato... Deixo de o ver... Ainda dou um tiro, sem sucesso, porque era impossível... Pensei tê-lo errado com o primeiro tiro! Contudo, senti que o porco não ia a 100% quando começou a subir a encosta... Mas, pelo sim pelo não, que o tivesse errado, em vez de o ter ferido!

Sento-me... Triste? Triste não, porque sabia ser muito difícil; mas sempre com dúvida do que teria acontecido ali... E ficariam para sempre essas mesmas dúvidas! 

De repente, passam os cães... Entram nas silvas e sai um melro... Aquele porco que estava ali há algumas horas sai... Mas saiu por dentro das silvas e nunca o vi, só o sentia e ouvia! Mais um belo momento...

Passa novamente um cão... Vai no rasto do porco que eu tinha atirado e nunca mais o vejo... Nem ouço! Falhei-o de certeza! Passada mais um bocado vem um podengo... Grande e lindo... Vai também no rasto e perco-o de vista nas silvas e nos meus ouvidos! 

A fome aperta e como umas bolachas que tinha levado, pois já sabia que a montaria iria ser demorada. De repente ouço um barulho do meu lado direito... Por entre aquelas silvas e uma pequena ribeira que havia nas minhas costas. Era porco. Passam dois cães e vão lá, mas nada... Nem sinal! Mas eu senti que havia ali qualquer coisa. Mais um bocadinho e começo a ouvir uma mexida... Uns passos aqui e ali e um silêncio absoluto... Levanto-me, com a espingarda nas mãos e fico tipo estátua durante mais de meia hora. Durante mais de meia hora que ouço qualquer coisa ali... Essa qualquer coisa começa a fazer um som... Não consigo explicar o que é... Mas um som que transmitia dor e sofrimento... Achei aquilo estranho mas, num ímpeto, lembrei-me que poderia ter acertado no porco e ele poderia estar a sofrer. Seria ele? Ou seria qualquer outra coisa? Não me mexo... O meu coração nem um único sopro pode presentear... Os segundos viram minutos, e os minutos parecem horas... Sei que o que está ali, está a sofrer! E nunca mais sai... E, num segundo, que virou um dos momentos mais bonitos da caçada, sai um porco das silvas, nas minhas costas e sobe encosta acima... Sobe com muita dificuldade... Vejo logo que está ferido e automaticamente tenho a certeza que lhe acertei naquele tiro! Meto a espingarda à cara, para tentar acabar com todo o sofrimento, mas era quase impossível, pois estamos a falar de tiros muito longes e com mato e mato... Disparo! Ele continua a correr... Não o vejo mais e também não o ouço mais. Passamos os arames, a pequena ribeira e vamos a correr... Havia sangue... Tendo ou não acertado com este último tiro, havia sangue e ele estava ferido. Ainda tentamos procurá-lo, mas era impossível. Sem cães... Sem nada que nos cortasse caminho de tantas silvas... Fiquei em desespero! Não poderia perder um porco assim... Principalmente porque sabia que estava a sofrer... 

Esperei os matilheiros. Por sorte, estavam a vir e gritei-lhes que viessem rápido. Expliquei-lhes a situação e pedi-lhes que me ajudassem a encontrá-lo. Os matilheiros, já cansados e desgastados de tanto andarem, foram incríveis e foram logo procurar o porco. Os cães, também me foram ajudar... Pegaram logo no rasto do porco, andaram poucos metros, os matilheiros corriam atrás e começam a ouvir-se ladras... Eu tive de esperar ali... Indefesa e sem poder fazer mais nada... Sentimo-nos tão pequeninos, perante determinadas situações. Eles estavam com o porco, mas as ladras ficavam cada vez mais distantes... 

Que astúcia e que força têm estes animais... Astúcia que o levou a meter-se dentro da linha de água e que dificultou o faro dos cães que iam passando... Força e paixão que levaram os cães a nunca desistirem e a correrem kms e kms... Deixei de os ouvir. Perderam o porco... Soltei um suspiro, um sopro do coração e comecei a arrumar as coisas (pois já tinham dado ordem para acabarmos). De repente, vejo um matilheiro correr na minha direção e que me grita "Já agarramos o seu porco. É um navalhecas. Tem um tiro na mão, de frente. Parabéns".

Obrigada. Obrigada a vocês que me ajudaram a cobrar este difícil navalhecas. Obrigada aos cães por não desistirem. Obrigada a alguém ou a alguma coisa (não sei e acho que nunca saberei o nome) por me dar oportunidades destas e lances destes. Obrigada ao meu pai por me ter feito caçadora. Obrigada ao meu companheiro de porta por me proporcionar momentos destes. Como dizemos sempre, ninguém sabe da dificuldade que é estarem duas pessoas numa porta a atirarem.

 

Domingo: Abro a janela e está outro dia de Sol brilhante. Respiro fundo e agradeço por ter mais um dia que se adivinha bom. Basta-me estar no campo, em contacto com a Natureza, para ser bom.

A mancha era grande e bonita. Colocaram-nos na estrada, frente à ribeira. Pegadas frescas e passagens batidas de há horas pressuponham uma manhã divertida. Sentei-me... E esperei! Nunca me tinha acontecido, mas adormeci. Aquele Sol intenso batia-me na cara e levou-me a fechar os olhos durante algum tempo. Não se ouviu barulho dos cães, nem dos matilheiros durante umas horas... Paralelamente, ouvia as perdizes a cantarem... Também nesta mancha foi contemplada por perdizes bravas, borboletas, pombos torcazes... Será que já se avizinha a Primavera? 

Depois de ter estado com os olhos fechados para o céu durante algum tempo, olho e deslumbro uma águia. Uma protegida águia. Estava a pairar por cima das perdizes e começou a descer... Nem estava a acreditar naquilo que estava a ver! Não gosto de águias, não gosto de cegonhas... Atacam os lebrachos e os perdigotos com uma fúria... Enfim... A águia começou a subir o voo, deixou as perdizes e foi-se embora! 

Ao fim de algumas horas, ouço os cães a iniciarem a ribeira. Queria-me colocar mais para a frente, mesmo junto à ribeira, mas as portas estavam mais atrás e não quis faltar ao respeito a ninguém. Mas sabia que seria muito difícil um porco sair da ribeira cá para fora, pois lá dentro têm várias proteções. Começo a ouvir um cão a ladrar e o som cada vez mais a aproximar-se. Entre várias paragens e outras mexidas, sinto o porco... Penso que deva ser um porco velho, pela forma como se move. Anda mais velozmente durante uns instantes, depois para... Poucos cães lhe fazem frente... E deixo de o ouvir! Os matilheiros passam por mim e dizem "não há porcos nenhuns aqui". Eu digo "está aqui um porco", mas é desvalorizado por eles, afirmando que era raposa (e eu com a certeza que era um porco). Continuam ribeira abaixo e finalmente encontram os porcos. Nesta altura já me cheguei à ribeira (e os companheiros das outras portas também), pois sabíamos que seria melhor. Sinto os porcos todos na ribeira... Estou cá de fora e ela é coberta de silvas. De repente, sinto que os porcos estão a vir para trás... Olho para a frente e vejo-os a passar do outro lado da ribeira, um a um. O alcance de tiro não é fácil. Tenho muito pouca visibilidade, devido às silvas, mas vou correndo para encontrar uma aberta que me permita disparar. O primeiro porco passa e não consigo, pois não cheguei a tempo... Vem outro porco, calmamente, como se nada fosse com eles. Aponto a espingarda, quase a primir o gatilho e de repente parou tudo, pois lembro-me que pode estar alguém do outro lado (a fechar a ribeira) e pode ser perigoso. Baixo a arma e deslumbro os javalis a passarem, mas muito rapidamente, pois o meu campo de visão é muito redutor. Como preso muito a segurança, decidi não arriscar - e depois fiquei a saber que não estava ninguém do outro lado. Foi uma má comunicação, mas fica para a próxima, pois a forma como vivemos e deslubramos os porcos com espingarda ou sem espingarda é sempre diferente. 

Pensei que tinha de fazer alguma coisa, pois sentia os porcos todos dentro da ribeira e não podia fazer nada. Sentia-me impotente. Travo a arma, deito-me no chão e passo na passagem dos porcos, para tentar entrar na ribeira. Cheio de silvas. Vou por cima, tento entrar nas silvas, passá-las como se fossem flores de jardim... Arranho-me toda mas consigo chegar ao topo da ribeira (é um alto, a ribeira está em baixo, coberta de silvas). Pensei "porque é que não fiz isto mais cedo?" se o tivesse feito, teria visto os porcos, mas seria uma falta de respeito com quem me colocou na porta e com os meus outros colegas e, portanto, nunca o iria fazer.

Sinto os porcos novamente. Os matilheiros já estavam a passar outra vez por nós e avisamos que os porcos estavam lá dentro. Incentivam os cães a irem e começam logo as ladras... Os porcos vão para a frente, os cães apanham um e acaba a caçada... Acaba, mas com a certeza que ainda ficaram lá porcos e quiçá um grande navalheiro.

Mas a caça é mesmo isto! E ainda bem... É destes lances que vivemos e temos de os tornar únicos, mesmo sem porcos abatidos (porque claro que isso não é tudo). 

Ao fim da tarde, fui fazer uma espera... Fui ver os cevadouros, todos mexidos... É totalmente diferente quando vamos fazer uma espera a um sítio qualquer, uma única vez; do que quando temos os "nossos" cevadouros e tratamos deles... Imaginamos uma série de coisas... Quantos porcos vão, que porcos são, o que fazem eles nos cevadouros... Será que também se zangam lá? Será que os porcos vão "namorar" as porcas no nosso cevadouro? As histórias que vou fazendo...

Estava a andar para ir para o carro (iria fazer a espera dentro do carro), quando vejo duas garças reais a levantar voo. Simplesmente lindo! Deu-me um sopro no coração! Depois vêm as curiosas das vacas ter comigo... Quase que eram cães a pedir mimos! Aproximavam-se todas, uma a uma, a cheirarem-me... Acho que, para isso, para que não as assustemos e para que se cheguem a nós também temos que ter uma sensibilidade peculiar ou não? 

Acredito nessa tal sensibilidade peculiar... Acredito que a tenha e acredito que todos os fins de semana o sopro do meu coração seja maior devido a tal sensibilidade...

Estava uma noite gelada... Os porcos não apareceram, mas também não fiquei muito tempo... Começa uma trovoada intensa, caem bolas enormes de gelo e achei melhor ir embora e dar mais um desfecho feliz ao meu fim de semana, com um último sopro do coração, que foi ver uma lebre na estrada a fugir à frente do carro...

ML.

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Os Caçadores... E os matadores!

"Caçador assassina cão a tiro e manda corpo ao rio". 

"Hoje 7 caçadores foram apanhados com aparelho dos tordos,em 3 zonas de caça".

"GNR detém caçadores ilegais em Celorico da Beira".

"Seis veterinários e 26 caçadores detidos por mutilações em cães".

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São estas as notícias mais recentes que têm saído nos meios de comunicação social. Ora, se queremos fazer alguma coisa pela caça e levar o nosso nome (caçadores) a algum sítio, nunca poderá ser com notícias destas. Claro que muito do que acontece a culpa é e sempre será dos caçadores. Neste sentido, podemos ser as vítimas. No entanto, também há caçadores (ou matadores) que têm culpa. Que não deviam sequer ser designados como tal. Hoje saiu um artigo que escrevi sobre este mesmo tema, na Revista Caça e Cães de Caça. Transcreverei para aqui... Para mudar mentalidades, temos de mudar primeiro as mentalidades de alguns caçadores!

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"Pensei muito em escrever sobre este tema! Primeiro, porque sei que irei tocar em algo delicado e que, muita gente, poderá não gostar. Depois, porque talvez seja uma realidade um pouco abafada por todos os caçadores! Mas não consigo ficar indiferente à nossa situação. À situação que, a meu ver, tende a crescer, de dia para dia.

Se, em tempos, escrevi sobre o porquê de não sermos contra a caça; hoje escreverei sobre o porquê de não sermos contra os caçadores. Mas somente contra os caçadores. Porque os matadores… ou os “matam tudo”… esses creio que devemos ser contra. Não sei se diga contra; mas, pelo menos, que façamos alguma coisa para os “mudar” – se é que podemos mudar alguém.

Não me vou pôr aqui em longas linhas sobre o que é ser um matador ou um “mata tudo” e quais são as consequências dessa atitude. Em vez disso falarei apenas das diferenças entre um matador e um caçador. No meu ponto de vista, claro está. Só quero com isto que percebamos, de uma vez por todas, o porquê da caça poder estar no patamar que está! Só por causa disto? Não só! Mas acredito que possa ajudar muito.

 

Um caçador não mata só por matar. Um matador sim.

Um caçador preocupa-se com uma gestão cinegética adequada. Um matador preocupa-se com o maior número de peças que consegue abater.

Um caçador atira às peças que pode matar e, muitas vezes, até as poupa, porque sabe que não vale a pena. Um matador atira sobre aquilo que vê.

Um caçador fala com alegria sobre os lances dos seus cães. Um matador fala sobre os seus tiros e peças derrubadas.

Um caçador fala sobre os seus cães com um brilho nos olhos e relembra outros com uma lágrima. Um matador fala sobre os cães que abandonou, que não prestavam para a caça.

Um caçador não se senta à mesa, para almoçar (seja que horas forem), sem antes tratar, cuidar e agradecer aos seus cães. Um matador pensará nisso, depois de almoçar… quiçá de jantar.

Um caçador vê um coelho e, nesta altura, talvez nem o mate, devido a tudo aquilo que sabemos. Um matador vê um coelho e não pensa duas vezes em matá-lo (afinal de contas, poderá ir dizer aos amigos que matou uma espécie que já começa a ser escassa).

Um caçador poupa muita caça. Um matador não pode fazê-lo, pois seria um desperdício.

Um caçador mata uma peça de caça parada pelo cão. Um matador mata uma lebre na cama, se for preciso.

Um caçador vê a Natureza como a sua casa, que deve cuidar. Um matador vê a Natureza como a sua mansão, para se divertir.

Um caçador ouve os mais velhos e os mais novos, tentando sempre aprender mais qualquer coisa. Um matador já sabe tudo.

Um caçador, muitas vezes, guarda a arma e deslumbra-se a Natureza. Um matador mata! Seja um porco com 20 kg ou uma porca com listados.

Um caçador erra e admite-o. E nunca culpa a espingarda ou os cães. Quando um matador erra (se é que erra!), a culpa nunca será dele.

Um caçador veste umas calças velhas e uma camisa rasgada de passar pelos arames e silvas. Por norma, usa o colete mais velho com nódoas de sangue ou até mesmo o colete do pai ou do avô. Um matador, muitas vezes, veste as melhores calças e o casaco topo de gama.

Um caçador é humilde. Um matador é vaidoso.

Um caçador defende a caça! Um matador ataca-a (mesmo que seja de forma inconsciente)!

Um caçador é feliz com o que tem. Um matador quer sempre mais, nunca conseguindo alcançar tal felicidade.

 

Ser caçador é ser diferente. Ser caçador é amar a caça, uma forma de estar na vida... é respeitar todas as espécies e o próximo! É ser educado! Infelizmente, o caçador poderá estar em vias de extinção! Ou não?"

ML.

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Dia dos Namorados

Mais um fim de semana que passou... Este que era esperado, por muita gente, com uma grande ânsia e inquietude. Afinal de contas era o Dia dos Namorados... Aquele dia em que todos ou quase todos os casais decidem estar juntos, fazerem juras de amor eterno, darem um passeio aqui ou ali, irem jantar ou almoçar fora... Enfim, fazerem as coisas normais de pessoas normais! 

Se sou caçadora não sou normal... Pelo menos aos olhos de muitos... E, deste modo, também não iria ter um fim de semana ou um Dia dos Namorados dito "normal". Estava com ânsia e impaciência para que o fim de semana chegasse, é verdade! Mas essa ânsia e essa impaciência não eram de jantares românticos, de ramos de flores ou de palavras mais carinhosas... Era de dias no campo, do contacto com a Natureza e da minha liberdade emocional...

Um fim de semana que, como todos os outros, prometia ser bom... Mesmo havendo manchas melhores que outras, para mim, é sempre bom e sempre magnífico. 

 

Sábado: Um dia chuvoso. Calcei os botins do meu avô, as camisolas do meu pai, pus a capa da chuva e o meu chapéu. A faca de remate e as balas (que me acompanham sempre) também estavam prontas. Retiro o cadeado da espingarda, meto-a ao ombro e caminhei até à minha porta (que diziam ser muito boa). Mas, como alguém costuma sempre dizer "as portas boas só se veêm no fim"! E no fim veríamos se tinha ou não sido boa... Como disse, um dia muito chuvoso. Contudo, sentei-me numa pedra (encharcada), e esperei... Esperei um barulho... Esperei uma silva a mexer... Esperei um melro a cantar... Esperei... Esperei... E nestes períodos de espera os sentimentos e as emoções são tantos... Tudo se torna simples... A Natureza tem o poder de me fazer ver e sentir que as coisas são tão fáceis... Que estes pequenos momentos, tornam-nos felizes. Que a felicidade está tão perto de nós... Basta, por vezes, esticarmos os braços para a agarrarmos. E neste turbilhão de pensamentos ouvem-se os cães... Levantei-me! Começo a ouvir tiros... Uns de carabina, outros de espingarda... Os porcos estão aí! De repente olho para o lado e vejo um listado... Ando com uma sorte com os bebés... Todos os fins de semana vêm ter comigo... Enchem-me o coração de alegria. Ainda parou ao meu lado... Depois seguiu viagem... Esperto como tudo! É impressionante a agilidade e a astúcia que estes bichos têm, desde logo! Entrou surrateiramente e saiu ainda mais silencioso... Os ouvidos falharam-me, mas os olhos fizeram com que conseguisse deslumbrar este momento...

Passado mais algum tempo, e sempre a sentir os cães, as ladras... Olho para o relógio e vejo que já é tarde... A volta estava a acabar. A chuva continuava a cair, já estava "ensopada"... Sentei-me novamente... Estava à espera que me dissessem que era para irmos embora! De repente, começo novamente a ouvir os cães... Ouvi um a ganir... Pensei que pudessem estar a levar "porrada" (desculpem a expressão, mas é mais fácil falarmos assim por aqui, tal como no campo) de um porco... Comecei a ouvi-los a correr atrás dele... A ladra começava a aproximar-se, mas teimavam em não sair de certo sítio... Uns cães ganiam... Outros ladravam compulsivamente... Pensei que seria um porco grande! De repente vejo-o lá no cimo com cães à frente e cães atrás... Todos corriam... Com o mesmo objetivo? Os cães de o agarrar... O porco de fugir e de se salvar... Mas todos com o instinto de presa e predadores... Ainda esperei um bocadinho... O vento estava favorável, ele iria sair onde eu estava! Calculei eu... Mas os animais são imprevisíveis e todos sabemos disso... O melhor? O melhor é pensarmos como um porco, nestas alturas... O que faríamos nós se fossemos um javali, naquele momento? As ladras começam a sentir-se cada vez mais perto, mais intensivamente e... Eis que ele aparece! A correr desalmadamente... Esperei. Esperei que se aproximasse o mais possível. Na caça temos de saber esperar. E temos de ter toda a calma e atenção do mundo. Esperei calmamente, enquanto ele corria desesperadamente... Atiro-lhe! Foi um tiro demasiado à frente, mas dei-lhe e ele acusou e quebrou! Mas com a força que tinha continua na correria com os cães atrás dele... Dou-lhe um segundo tiro de rabo... Ele continua... Corro desalmadamente atrás deles... O porco, os cães, e nós... Não é fácil... Corremos com todas as forças que temos e que, por vezes, nem sabiamos... Continuo a correr... O porco passa por um senhor que estava num porta e que lhe dá dois tiros... Mas sem sucesso... O porco começa à cabeçada à rede e a armar-se todo para os cães... Dava-lhes "porrada" como nunca vi... Atirou um cão pelos ares... E era um porco com cerca de 50 ou 60 kg. Imaginemos quando é um navalheiro grande... De repente ele passa a rede e continua a correr... Os cães continuam... Parece que não há desistentes nesta batalha! Eu desisto! Não consegui correr mais atrás deles... O meu coração parece que sai da boca... Quando parei, senti que não tinha mais forças... A adrenalina foi muita, começou a ser descarregada e sentei-me... A sorte é que uns aguentam mais que outros e continuam a correr atrás dele... Dizem que ele virava-se aos cães com uma raiva e uma força incriveis (mesmo depois de já ter tiros). Estes animais aguentam tanto... 

A fuga acaba com um tiro que lhe deram de coração, para acabarem com todo o sofrimento (tanto dos cães como dele). Ele cai à barragem e os cães "caem" também com todo o cansaço... Mais um porquinho, mais uma história e um lance fantástico que fica! Agradeço a quem não desistiu dele e a quem deu o tiro de remate... E aos cães e aos matilheiros, claro... 

 

Domingo: Um Dia dos Namorados chuvoso, com um vento muito forte e um frio que congelava até a alma dos mais apaixonados. Fomos fazer um gancho numa Associativa que tinha duas áreas diferentes onde poderiam estar os javalis. O primeiro sítio era mais curto e reduzido e seria rápido. As portas eram poucas para toda a gente e, em muitas delas, ficaram 2 a 2. Contudo, apesar das portas estarem próximas, devido à área reduzida, estavam todas em segurança. Eu fiquei com um grande caçador ao meu lado. O material todo pronto e colocaram-nos na porta. O vento, que estava muito favorável, fazia com que as lágrimas me escorrecem de forma sistemática dos olhos. Depois de lermos o terreno, de vermos as passagens, ficamos otimistas. A queda do terreno era muito favorável. Não ouvíamos muito bem os cães, devido ao tempo... Estavamos em pé, com aquela emoção que só nós caçadores (feliz ou infelizmente) conhecemos! Este, que foi dos melhores dias de caça da minha vida, foi marcado por lances muito repentinos e, devido a toda a emoção, por vezes quero lembrar-me de certas coisas que já nem consigo. Calculamos por onde é que os porcos poderiam vir, o comportamento que eles poderiam ter e... vejo os arbustos a mexer. Sabia que vinha um porco. Esperei. Normalmente não meto logo a arma à cara. Gosto de apreciar o mais que puder. Sai uma porca grande... Olho... Espero... Vinha a correr... Dou-lhe um tiro. Acusa logo! O meu companheiro de porta, depois de esperar que eu atirasse em primeiro (esperou sempre, em todos os lances), atira de seguida. O facto de estarem duas pessoas numa porta requer o dobro da concentração para atirar e não é nada fácil. Principalmente, tem de haver sintonia entre os dois caçadores. 

A porca vai para trás e acaba por morrer lá em baixo. Esbocei um sorriso porque o meu coração já estava preenchido com tanta felicidade e amor neste Dia dos Namorados. Entretanto, vem mais um porco... Mais pequeno. Dou-lhe logo um tiro de cabeça. Caiu, deu uma volta e levantou-se. Este porco tem o mesmo comportamento que a primeira porca e volta para trás, para morrer lá em baixo. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim... 2 porcos... E em tão pouco tempo... Estou eu a começar a digerir tudo isto, mas nem tenho tempo... Aparece outra porca... Enorme! Pensei que poderia ser um navalheiro. Aparece de frente e dou-lhe tempo! Queria fazer um tiro certeiro. Sabemos como é difícil e a resistência que estes bichos têm! Dou-lhe um tiro de barriga, que ela acusa logo... O meu companheiro continua, ela cai, levanta-se, vai contra a rede, com uma fúria incrível! E acaba por morrer! Era enorme esta porca (cerca de 100 a 120 kg). Mais um... Eu nem queria acreditar... Achava que aquilo estava a ser um sonho! Pensei que não poderia matar mais nada... E já só tinha uma bala! Devemos ir prevenidos, é claro... Mas nunca imaginamos tal coisa... Aparece mais uma porca que o meu companheiro atira e mata.. Depois aparece outra e ele dá-lhe um tiro no pescoço (um tiro lindo) mas, mesmo assim, ela foge e ele vai atrás dela... Dirigi-me ao senhor da outra porta, a pedir balas... Mas já não tínhamos mais nada... De repente vem outro porco... Pelo lado dele (não entrou como os outros). Eu já só tinha uma bala! O senhor falha esse porco e diz-me "Atira". Esperei o porco (isto tudo são segundos, claro). O porco passou por mim, dou-lhe um tiro de coluna com a espingarda Winchester de sobrepostos (o que eu adoro esta espingarda) e ele cai. Levanta-se a acusar alguma coisa nas pernas de trás e começa a fugir. Normalmente nestes tiros eles ficam vivos, mas sem mexer a parte de trás. Arrastam-se com as mãos, com uma fúria incrível e estão sempre prontas para nos atacar. Pensei que não poderia deixá-lo sofrer mais ou que fosse morrer longe. Virei-me para os senhores e disse "tenho de lá ir com a faca". Mas eu nunca tinha feito nada disto... Estava sozinha, com um porco macho ferido e furioso e com uma faca cortante nas mãos. Acontecesse o que acontecesse tinha de lá ir... Era eu e ele e que vencesse o mais forte (eu sei que estou em vantagem). Tirei a faca, fui a correr atrás dele para o mato (deixei a porta) e ele não se deixava apanhar bem... Passa um listado por mim nesta altura... Olhamos um para o outro e continuamos o nosso caminho, cada um para seu lado... Entretanto os senhores também correram junto a mim... E diziam "Espete a faca, espete a faca!" Pus-me de joelhos, agarrei no porco, que se mexia, esperneava, lutava contra mim... Agarrei-lhe na orelha com a mão esquerda bem firme. O meu coração deveria bater com tanta ou mais força que o coração dele... E com a mão direita espetei-lhe a faca, bem no coração... Ele parou, fechou os olhos e agradeceu-me ter morrido de forma tranquila e não ter sofrido mais... Nem estava a acreditar no que tinha feito! Os senhores que estavam comigo deram-me logo os parabéns e disseram "É uma grande caçadora e uma grande mulher"... O meu coração, que já estava cheio de felicidade, ficava cada vez mais cheio de orgulho, de amor, de alegria... Enfim! Voltei para o meu posto e fui a correr para outra porta chamar dois amigos para virem atirar connosco. Já tinha tantos porcos, que achei que eles também iriam ficar contentes de ver e atirar... Só que não apareceu mais nada... 

Não consigo descrever mais do que isto... Foram momentos únicos, de tamanha felicidade e de tamanha responsabilidade. A confiança que depositaram em mim e o respeito que tiveram em mim nunca mais serão esquecidos. Agradeço a todos os que lá estavam, a todos os que me deram os parabéns e a todos os que sorriram comigo e que partilharam esta felicidade comigo. Afinal de contas, ser caçador é também ser família! E apesar de não nos conhecermos todos, tornamo-nos família em segundos... Fomos recolher os porcos todos (para puxar a primeira porca desde lá debaixo tiveram de ser 10 homens com uma corda, imaginem...).

Ainda fomos fazer a segunda mancha, mas ficamos numa porta que sabíamos, à partida, que não seria muito boa, pois não havia passagens nem nada. Vimos ainda uma gamela a correr, linda... Nunca tinha visto! Pensei que o meu coração poderia explodir com tamanha felicidade, a qualquer momento!

Obrigada mais uma vez a todos... Ao meu GRANDE companheiro das portas e GRANDE caçador. Aos matilheiros e aos cães que sem eles nada disto seria possível. A toda a organização. A todas as pessoas que estavam lá e que viveram tudo isto comigo. E sem esquecer ao senhor ao meu lado da porta, que foi um companheiro incrível também e que estava felicíssimo com a minha caçada!

E não é por ter morto 4 ou 20 porcos num dia... É por toda esta magia que envolve tudo isto! Vocês sabem do que falo... 

ML.

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Caçar com arma de fogo ou caçar com máquina fotográfica?

"Se tens tanto amor pelos animais porque caças com uma arma de fogo, ao invés de caçares com uma máquina fotográfica?" 

Fizeram-me ontem esta questão... Achei-a magnífica e com um toque poético, digamos assim. Prometi que iria responder da melhor forma que conseguisse e aqui vai:

Não caço só com arma de fogo... Caço com muito mais... Diria até que a arma de fogo é a minha última instância na caça, pois é o último objeto de que me lembro e de que me sirvo. Antes disso caço com tanta coisa...

Caço com umas botas de borracha boas e fortes, para quando os meus cães estiverem parados com uma peça de caça eu correr com todas as forças até eles...

Caço com as memórias dos meus avôs... Usando roupas velhas de um, assim como a sua calibre 12, e com os botins do outro...

Caço com um apito... Para nunca perder os meus cães, quando estes estão mais entusiasmados com alguma peça de caça...

Caço com uma garrafa de água... Para quando os meus cães não tiverem onde beber água (porque, por exemplo, os terrenos não têm barragens ou estão muito secos) poderem hidratar-se...

Caço com uma aspirina e um pacote de açúcar... Nunca se sabe quando os cães podem ter algum ataque (e já me aconteceu algumas vezes)...

Caço com os meus documentos... Porque sou legal!

Caço com uma máquina fotográfica... Para registar tudo o que de mais belo tem a nossa natureza...

Caço com o meu coração, a minha cabeça, a minha alma e o meu espírito... Porque só assim consigo sentir coisas que muita gente não consegue...

Por fim... Caço com a minha arma de fogo... E para quê? E porquê? Nem sempre o meu objetivo primordial é matar caça... Não preciso de levar a arma para me sentir feliz... Mas... Eu mato animais para comer! "Sim, a desculpa de sempre". Não, não é. Não compro carne há anos. Porque me faz tanta confusão comprar carne de animais que estão "enjaulados" sem se conseguirem mexer... Que são sujeitos a hormonas e antibióticos para crescerem rapidamente... Que não têm a liberdade de viver como gostariam... Acredito que se todos nós lhes perguntassemos se eles preferiam viver num matadouro ou viverem na natureza e serem mortos por caçadores a resposta seria bem explícita e simples. 

Porque, no fundo, todos temos de morrer. Senão vejamos três pontos que acho fundamentais para percebermos a essência do que é a caça:

 

1) A espécie humana desenvolveu-se e foi-se adaptando ao meio ambiente devido à caça e à pesca... Sem a proteína animal talvez não tivessemos conseguido sobreviver e, portanto, a caça começa desde logo a ter uma importância total na sobrevivência e na continuidade da espécie humana (e de outras espécies, claro). Acabava a caça e, quiçá, tinha acabado a espécie humana...

 

2) O Homem dos dias de hoje, um ser inteligente e adaptado ao mundo real, deve reequilibrar, através de uma gestão cinegética o que a natureza de per si já não consegue reequilibrar e aqui corre-se o risco de extinção de algumas espécies, porque já não há predadores naturais. Reequilibrar, por exemplo, o lobo, os cervídeos, as rapinas, as aves de pena e de espécies de pêlo reorganizando a pirâmide ecológica. E isto damos na escola, no 5º ou no 6º ano e não há muito mais a dizer. E alguém acha que se não forem os caçadores a preocuparem-se com isto serão os indivíduos das grandes cidades, que celebram os fins de semana em estádios de futebol ou em centros comerciais e que não sabem sequer quando é a época de reprodução do coelho? Ou como é que poderemos proteger as perdizes com a quantidade de águias que as comem? Enfim... Acaba a caça e as espécies em vias de extinção vão ser muitas!

 

3) O controlo de espécies é necessário. Temos o exemplo dos javalis. Claro que os citadinos não convivém tão de perto com este problema; contudo, as pessoas que vivem nos campos e da agricultura bem sabem do que falo. As culturas ficam todas estragadas e, desta forma, as pessoas veêm o seu meio de subsistência a ir "por água abaixo". Se não controlarmos os javalis, nós caçadores (claro, porque mais ninguém o faz); o que poderia acontecer? Acaba a caça e acaba os meios de subsistência de muitas famílias... 

 

4) Sem a atividade cinegética, ou sem a caça, as zonas desfavorecidas do interior cada vez ficarão mais desertas. A caça cria restauração, hotelaria, emprego, fixação de populações... Quem quer ir para uma aldeia que só tem terreno e mais terreno? Não há nada para fazer... Mesmo que seja "dar uma volta na natureza", existem os jardins e parques da cidade... O interior acabaria por morrer, não? E ninguém imagina o quão belo é... Porque os caçadores não vão para o interior (ou para onde quer que seja) só para matar. O deslumbrar as paisagens e o que nós temos de bonito, também é de uma grande importância. Acaba a caça e acaba muito da nossa economia e do nosso país...

 

5) A caça ajuda a preservar o meio ambiente, mantendo alguma produção agrícola e cultivo de campos que, de outra forma, estão destinados ao abandono e ao mato (com o desequilíbrio das espécies e da pirâmide alimentar). Acaba a caça e acabam alguns tipos de produção agrícola...

 

6) O desaparecimento da caça trará, inevitavelmente, a extinção dos cães de caça e, em particular, de raças que são património nacional há séculos e séculos (como é o caso do perdigueiro português). Se não há caça; para quê ter um cão de caça? Para companhia? Então aí os defensores dos animais também devem pensar nos sentimentos dos cães, que foram feitos para caçar e que iriam, sem sombra de dúvidas, viver num desgosto e numa tristeza incríveis... Acaba a caça e acabam as raças de cães de raça, incluindo raças portuguesas...

 

Em vez de condenarmos, vamos tentar unir-nos todos para que haja um equilíbrio na nossa fauna e flora!

ML.

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O Amor

 

 O que é o amor? É tão difícil definirmos esta palavra... Esta palavra que, por vezes, nos deixa no pico da felicidade e, logo a seguir, nos pode derrubar com todas as suas forças. O amor é algo que não se explica, sente-se... Várias pessoas o dizem e todos nós, seres humanos, conseguimos senti-lo (nem que seja uma vez na vida). Pelo menos é sinal de que estamos vivos. De que temos emoções e sentimentos e de que, o amor, também a nós nos consegue tocar... Mas o amor... Esse ambíguio sentimento... Será que ele tem o poder de nos definir como pessoas? Como seres humanos? 

Eu creio que sim... Creio que o amor, em todas as suas dimensões, consegue transformar-nos em seres humanos melhores... E todos os dias... Se estivermos dispostos a isso. Eu transformo-me, todos os dias, numa pessoa melhor... Com o amor... Sim! Simplesmente com o amor... Porque transformo esse amor em felicidade... Estes pequenos (ou grandes) momentos de ou com amor em grandes momentos de felicidade. E assim vou sendo feliz. Com o amor que sinto. E, neste sentido, com o amor que sinto pelos animais... Sim, a caçadora assassina e mortífera consegue ter e sentir amor pelos animais... E tanto amor que nem o consigo definir!

Um amor que me foi tornando na pessoa que sou hoje! Um amor que me deixa viver a vida e aproveitá-la da melhor forma possível (pelo menos, para mim)... Um amor que me faz chegar a casa, todos os dias depois do trabalho, com uma alegria imensa pois sei que tenho sempre "alguém" que me recebe com a maior felicidade do mundo. Um amor que me faz viver todos, ou quase todos, os fins de semana com uma intensidade e uma felicidade que não são normais... A caça... Os cães... Ou este amor pela caça e pelos cães permitem-me ir mais além... Permitem-me sentir este amor no seu expoente máximo! E ainda bem que o meu amor não se vinculou a centros comerciais ou a tardes de sofá... 

Que bom que é amar... Que bom que é amar os animais! Que bom que tive a possibilidade de os poder amar desde bem cedo... Que bom que hoje sou uma mulher invadida por este amor animal e cinegético! Este amor que me faz, constantemente, compreender a caça e os caçadores (não os matadores). Este amor que me faz compreender a felicidade e o amor que as espécies cinegéticas têm em viver livres e no seu habitat. Este amor que me faz compreender o amor dos cães na sua função de caçadores. E entramos no ciclo vicioso... O ciclo vicioso do amor... O ciclo vicioso do amor, da caça, dos animais e dos caçadores!

ML.

Fim de Semana Cinegético

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Mais um fim de semana... Um fim de semana cinegético...

Muitos me perguntam como é que tenho "paciência" para me levantar cedo, todos os Sábados e Domingos para ir para a caça? Como é que eu posso preferir ir para a caça do que, por exemplo, sair à noite? Na verdade, muitas vezes tenho de recusar jantaradas, saídas, convívios, etc. só para ir caçar, sim. "Só para ir caçar". Então vou tentando explicar que gosto muito mais de ir respirar ar puro, de conviver com a Natureza e de me sentir livre e feliz, do que ir para um bar ou uma discoteca, falar aos berros, levar com fumo, deitar-me às 6 ou 7 da manhã e, no dia a seguir, acordar às 3 ou às 4 e não fazer mais nada do que dormir. Feliz ou infelizmente esse não é o meu estilo de vida.

O meu estilo de vida e a minha forma de estar na vida é a caça, sim. É passar um fim de semana, como este, em contacto com os animais e com a natureza. 

No Sábado fui dar uma volta com os cães num terreno com uma vista fantástica. A alegria dos cães é algo inexplicável: a forma como entram no carro (já sabem para o que vão); como vão o caminho todo ansiosos e excitados; como saem da caixa com uma alegria notória e, no fim, como vão para o campo. No fundo, como vão fazer aquilo para que nasceram e aquilo que lhes traz mais felicidade...

Os pombos bravos eram muitos, passavam por cima de nós a distâncias mais curtas, outras nem tanto. Depois, com as barragens que embelezavam o terreno, os patos bravos também nos sentiam e logo abriam asas, para fugirem o quanto antes! Tudo parecia mágico... Aliás, tudo era mágico! Os cães ainda levantaram três lebres da cama. Corriam desalmadamente à frente deles. Os cães, cães de parar, tornavam-se galgos atrás delas...

Até que "tropecei" numa lebre bebé. E tudo "parou". Consegui tirá-la da cama, agarrar nela e ficar assim... Com ela nos meus braços o resto de todo o percurso de caça... Os cães nem deram por ela (e aqui, ainda bem). Era um bebé! Pequenina, quentinha e linda! Quem me dera ter ficado com ela... Ainda ponderei, mas era impossível! Se defendo que todos os animais devem estar em liberdade e serem felizes na Natureza, não poderia fazer uma coisa dessas! Voltei a pô-la na cama... A mãe certamente iria buscá-la mais tarde! 

Acabamos este passeio de caça com um banho na barragem com todos os cães... O cansaço era extremo e nada melhor que um banho de água gelada para acabar mais uma jornada cinegética e um Sábado frio de Inverno.

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Toca o despertador! Horas de ir para a caça! Hoje um gancho entre amigos... Encontramo-nos todos, debatemos sobre as portas, sobre o tempo, sobre onde se vão largar os cães... Vou para o meu "posto", caraterizado por uma passagem enorme dos porcos. Palpitava-me aquele sítio... Que era ainda companhado de uma vista soberba (que está na fotografia). Depressa começo a ouvir os cães com os porcos. Tinham dado com eles... A adrenalina e o que sentimos é inexplicável! Como costumo dizer "só quem vive é que pode sentir". Não vos consigo transcrever tais emoções. E de repente... Ouço os arames! Um porco a passar a passagem! Olho... Um listado (um javali bebé). A passar-me aos pés... E aqui tudo se desmoronece! Os terríveis e assassinos caçadores ficam deslumbrados com este cenário. Sentei-me. Sentei-me a apreciá-lo e a pensar em como a Natureza é bonita! Em como tenho pena que todos os defensores dos animais (e não só) nunca possam assistir a uma coisa destas. A um bebé a viver em liberdade e com total felicidade. A mãe e os irmãos também andavam por lá (não os vi) e, COMO É ÓBVIO, ninguém atirou... 

Mais um fim de semana... Mais uma panóplia de emoções, sensações e sentimentos... De facto, a caça é a minha felicidade! 

ML.

 

 

 

Diário de uma Caçadora

Criei este blog com o intuito de mostrar a todas as pessoas o que é caçar e o que nós, caçadores, sentimos. Claro que, por palavras, irá ser difícil de vos explicar; contudo, acredito que possa conseguir. 

Gostaria que este fosse um blog onde não houvesse julgamentos, onde todos nós pudessemos mostrar a nossa opinião (porque cada um tem a sua, como é óbvio). Sei que há milhares de pessoas contra a caça e os caçadores. Não quero que mudem a vossa opinião e que se tornem todos caçadores. O objetivo não é esse. Quero apenas que nos compreendam e que nos aceitem como somos, tal como nós o fazemos. 

Quero que entendam que nós, caçadores, não somos matadores. Não somos pessoas sem sentimentos. Muito menos somos bárbaros e assassinos. Somos pessoas normais. Que, acima de tudo, amam os animas. Sim, é possível ser caçador e amar os animais. Como? 

Temos cães. Tratamos deles com todo o amor e carinho. Emocionamo-nos quando eles vão para o campo fazer aquilo que mais gostam e para que nasceram: caçar. Emocionamo-nos quando param a primeira peça de caça. Emocionamo-nos quando eles correm até nós eufóricos, como se nos agradecessem ter nascido e sermos nós o seu dono. Entramos em desespero se algo lhes acontece. Entramos em desespero quando os perdemos. E isto é amor!

Quanto à caça... Ao matar as espécies de caça... Se não fossem os caçadores (aqueles que realmente fazem uma gestão cinegética adequada) será que ainda haveria algumas das espécies de caça? O caso do coelho bravo. Muita gente pode não estar a par da situação. Mas o coelho bravo está a desaparecer. A culpa é dos caçadores que os matam a todos? Claro que não. Os caçadores têm tentado, por todas as vias, fazer alguma coisa para inverter a situação e para combater uma série de doenças que atacam os coelhos sem "dó nem piedade". Os caçadores lutam, todos os dias, para que a situação melhore.

Os caçadores amam os animais. Como? Deixam-nos viver livres na Natureza. Não os metem em aviários, sem se poderem mexer e sem viverem em liberdade. Os caçadores amam os animais porque se vêm uma lebre ferida vão fazer tudo para a salvar. Se vêm uma porca com bebés, ficarão a deslumbrá-los com toda a magia que isso envolve. E isso é amor pelos animais! É respeito e, acima de tudo, dar-lhes a liberdade para eles serem felizes...

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