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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

A inveja

Hoje venho falar sobre sentimentos. Sobre um sentimento muito específico, mas tão intrínseco no mundo da caça. Infelizmente....

Infelizmente, a inveja, esse tal sentimento, é cada vez mais patente e mais inexplicável. Um dos 7 pecados mortais que poderá estar a "matar" (e muito) a nossa caça.

Há cada vez mais um desejo exagerado por tudo o que é dos outros. Na Caça isso é visível. Se um mata mais, amanhã teremos de matar ainda mais. 

Se nesta Lua o caçador x matou um navalheiro, então teremos que ir todos os dias (horas a fio) encontrar um navalheiro. 

Se um tem um cão de uma certa raça, que é muito bom, então terei também de comprar um assim, tal e qual (esquecem-se que cada cão é diferente e, sobretudo, cada dono do cão é diferente).

Se ontem alguém caçou 5 ou 6 coelhos na Herdade X, amanhã terei de me fazer Sócio, para ver se também consigo tal proeza.

.... E continua... E é nesta base que muitos vivem! Com inveja, dominada de um certo ódio e maldade. 

Como pode acabar isto com a Caça? Quando há sentimentos de ódio, emoções mais negativas, tudo acaba. É a ganância de querermos sempre mais e não nos contentarmos com aquilo que temos. E depois gera-se uma ganância ainda maior com as espécies cinegéticas, que nada deveriam estar associadas a esta problemática.

É raro ouvirmos uma palavra mais carinhosa. Um simples "Parabéns", sem ser denotado com algo mais sôfrego. Um olhar puro, de felicidade, por termos conquistado algo importante para nós, é impensável. Esse tal olhar está sempre (ou quase sempre) com algum ciúme à mistura. 

Mas meus amigos... Deixem a inveja num outro mundo, que não o nosso. Seja na Caça ou na vida pessoal. A inveja afeta, de forma impetuosa, a auto estima. Estamos tão focados nos outros que nos esquecemos de nós próprios. De quem somos, da missão que temos neste mundo e, acima de tudo, do quanto valemos. Esquecemo-nos, a toda a hora, desse pequeno (grande) pormenor. O que valemos nós? 

Não é por matarmos mais que valemos mais (muito pelo contrário). Não é por caçarmos mais que valemos mais. Não é, de todo, por termos mais posses monetárias que valemos mais. Isso equivale a um status ou a um tabu imposto por uma Sociedade Moderna (se é que podemos intitulá-la de tal forma), em que "escravos" dessa mesma Sociedade se regem. 

 

Chegamos a um ponto que, se calhar, envolvemo-nos de tal forma nesta inveja que já não a conseguimos dissipar. Queremos sempre mais. E esse mais pode ser algo inalcançável por nós. E se um dia quisermos alcançar esse mais, teremos de estar repletos de humildade e simplicidade. De sentimentos puros e bons. Porque só aí vamos dar valor às nossas conquistas. Só aí iremos olhar aquilo que conseguimos e/ou temos de uma forma, outrora, diferente. Quando deixarmos a inveja nesse outro mundo, todos os lances terão uma nova história e todas as peças cobradas vão ser sentidas e vividas como se fosse a primeira vez. Com a inveja a reinar, as nossas conquistas valerão pouco, pois as dos outros são mais importantes. Criar um mundo sem inveja, onde a felicidade se instala - com as conquistas dos outros e as nossas, é possível. Basta querermos e abrirmos o coração para esse mundo cor-de-rosa que, afinal de contas, até poderá existir...

ML.

O Medo

No dia 22 de Março de 2016, Bruxelas foi alvo de atentados terroristas. Morreram 34 pessoas. Mais de 140 pessoas estão feridas. O mundo está louco! As pessoas mais loucas estão. 

Começamos a ter medo. Um medo intenso. Um medo que nos poderá começará a dominar a nós, cidadãos do mundo. 

 

Paralelamente a este medo, nós cidadãos do mundo, mas numa classe muito menos representativa (caçadores) vivemos com um medo redobrado. Medo este, pelo Mundo em que estamos inseridos. Medo este, pelas consequentes notícias arrebatadoras sobre a caça.

No dia 16 de Março de 2016 os caçadores foram alvo de notícias com novas taxas para a utilização do chumbo. E o medo começa a tornar-se bem poderoso: será o início do fim?

 

Uns não estão para se chatear e acabam com aquilo que os faz feliz, caçar. Outros não têm posses monetárias para o fazer, portanto acabam também por desistir. Outros têm medo. Medo das represálias que a Sociedade Democrática e Liberal nos impinge, constantemente. Um paradoxo, não?

 

O medo não nos pode comendar. Mas sim os sonhos. Como dizia António Gedeão... "O sonho comanda a vida". E temos de acreditar nos nossos sonhos e comandar a nossa vida por eles e com eles. Deixemos o medo de lado. Tornemos os nossos sonhos reais.

Para isso, é preciso unir-nos. Mostrar à Sociedade Democrática e Liberal que não estamos a fazer nada de errado. Que hoje somos quem somos, porque um dia alguém se lembrou que caçar faria a espécie humana evoluir. Que caçar sempre foi feito, por todas as espécieis. Devemos também mostrar a esta Sociedade que aceitamos quem não se identifique com as nossas ideias, mas que nos respeite. Nós também os respeitamos. É na base do respeito que os sonhos podem emergir.

 

Aos Senhores Governantes e aos Senhores que instauram Leis, pensem em nós. Pensem que nós, caçadores, também somos importantes para o País. Principamente, para a Economia do País. Para vocês e, sobretudo, para o Povo. Para quê estarem a cobrar-nos taxas e mais taxas?... Para quê estarem a submeter pessoas com poucas posses a que tenham de desistir dos seus sonhos e da sua felicidade?...  

Não acabem connosco. Lutem por nós. E sabem porquê? Porque conseguimos mexer na nossa Economia (feliz ou infelizmente tão importante para vocês Governantes). Senão reparem:

 

- Carta de Caçador e Licença de Uso e Porte de Arma;

- Licenças e mais licenças... Taxas e mais taxas...;

- Lojas de Armas e Munições: Espingardarias e Armeiros (Compra de Espingardas e/ou Carabinas; compra de Balas e Cartuchos; Arranjo de Armas; Material para a Caça);

- Lojas ou secções de material de caça (por exemplo, Decathlon);

- Cães (criadores de cães);

- Veterinários;

- Comprimidos ou Produtos para cães nas Farmácias;

- Licenças para Cães;

- Lojas de Rações para Animais;

- Talhos com carne para os cães;

- Criadores de Animais (exemplo: perdizes/ codornizes);

- Licenças de Caça;

- Combustível e portagens;

- Manutenção dos carros e reboques;

- Pagamento das taxas das zonas de caça;

- Cafés e/ou Restaurantes que sobrevivem com os caçadores (almoços, lanches, pequenos almoços);

- Hotéis que sobrevivem com os caçadores;

- Lojinhas e artesanato rural que sobrevivem com os caçadores;

- Carne de caça;

- Investigações;

- Gerir uma zona de caça tem custos... Muitos custos... Muitos ganham...;

- Gerir Associações de Caça e pagamento de ordenados (por exemplo, guardas);

- Taxidermistas;

 

Não será suficiente, Senhores Governantes?

Não será que nós, caçadores, pagamos muito e, simultaneamente, recebemos tão pouco de vocês?

Arranjamos emprego (sim, nós também nos preocupamos com essa questão). Gerimos. Não deixamos zonas do País ficarem ainda mais esquecidas. Não deixamos que muitas pessoas fiquem sem o seu ganha pão. Não deixamos que comerciantes fechem os seus estabelecimentos. Preocupamo-nos com as espécies. Desenvolvemos todo um trabalho para que não acabem. Damos dinheiro ao Estado. Muito dinheiro. E o que temos em troca? Insultos, provocações, desrespeito.

 

Não merecíamos um bocadinho mais de respeito e consideração? Não merecíamos, também nós, sermos livres? De viver sem Medo, neste sector? 

O Medo já é tanto neste Mundo fora... Deixem-nos ser Felizes... Seguirmos sonhos! Mas sem Medo, por favor. Estejam connosco, com o vosso Povo, com as vossas Pessoas. Porque nós Caçadores somos isso. Somente isso: Pessoas que lutam pelos seus sonhos e que só querem ser felizes, com o pouco que têm ou que ainda tentam ter.

Que sejamos todos felizes até podermos... Até os terroristas ou os Governantes nos deixarem...

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Gosto de ti Pai. Tanto!

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Falar de um Pai é sempre difícil... Falar do meu Pai, ainda mais difícil o é... Mas essa dificuldade está, paralelamente, embuída de uma facilidade pura e espontânea. 

Gosto de ti Pai. Tanto.

Obrigada por seres o Homem que és. O Homem da minha vida! Obrigada por me tornares na mulher que sou hoje... Espero ser o teu orgulho, em tudo o que faço.... Espero que gostes de mim. Tanto como eu gosto de ti.

 

A relação que temos os dois é inexplicável... Ser Pai é algo singular e muito peculiar, tal como ser filha. Pais e filhos caminham de mãos dadas (ou pelo menos deveriam fazê-lo) numa viagem a que chamamos vida. Mas a forma como unimos as nossas mãos é tão diferente...

Devido a tudo aquilo que criamos os dois...

Lembro-me de ti, desde que estava na barriga da mãe. Lembro-me, desde logo, das tuas gargalhadas carismáticas e da tua sensibilidade apurada, mal me viste a nascer... 

Depois foi um crescimento! Um crescimento de amor! Do amor... Do nosso amor.

Gosto de ti Pai. Tanto!

Lembro-me quando dormiamos os dois, ainda eu era uma recém nascida... Lembro-me quando todos os fins de semana ia a correr para a vossa cama, deitar-me contigo. Lembro-me também quando a mãe foi para a maternidade ter a outra anhuca e tu fizeste de mãe e pai... Comiamos batatas fritas à "Caixaria" e ovos à "Zé Pedro Leitão".

Nas nossas viagens na tua carrinha, eu deitava-me no teu colo e adormecia... Lembro-me de te ter sempre por perto, estivesse acordada ou a dormir!

Lembro-me de ser tão pequena, quase do tamanho dos teus botins da caça e, mesmo assim, calçá-los e andar com eles a passear pela casa... Lembro-me de adorar a tua corneta das provas de cães e andar a apitar pela casa toda... 

A mãe devia cansar-se connosco! Mal ela sabia que em vez de um, teria dois caçadores...

Desde logo que me transmite a paixão pelos animais e, sobretudo, pelos cães... Cães de caça, que sempre foi os que tivemos. Cães grandes ou pequenos... Com muito ou pouco pêlo, mas que faziam parte das nossas vidas! 

Gosto de ti Pai. Tanto.

Gostava de ir contigo para o campo. Com os cães. Gostava de estar sempre contigo, no fundo. Como hoje. Como sempre! Gostava de dar comer aos cães contigo. Gostava de ir lavar os canis contigo. Gostava de te chatear a pedir para dormir com os cães na minha cama. 

 

Lembro-me da altura em que fui contra a caça e contra ti. Julgava-te, sem sequer tentar conhecer. E a caça esteve sempre tão presente nas nossas vidas. Mas eu teria de passar por isso, para me tornar naquilo que sou hoje. Teriamos ambos de passar por isso, para sermos o que somos hoje!

Gosto de ti Pai. Tanto!

Um dia decidi ir contigo. Acho que nesse dia decidi ser como tu. Nesse dia descobri que tu eras aquilo que eu gostava de ser. Amiga. Sincera. Honesta. Sonhadora. Lutadora. Divertida. E... Caçadora. 

Lembro-me do dia em que me disseste "Esta era a arma que o pai tinha comprado para ti, a calibre 20". E tudo mudou aí. Olhei-te nos olhos e prometi-te, mesmo que silenciosamente, só para mim, que um dia irias ter ainda mais orgulho de mim! Um dia irias perceber que não era preciso teres tido um filho... A tua filha dar-te-ia todas as alegrias na caça. 

E todos os dias luto por isso. Tu sabes... Faço-o por mim... Por todos nós... Mas acima de tudo, por ti Pai. Porque gosto de ti. Tanto!

A caça uniu-nos ainda mais. As aventuras que partilhamos, os momentos em que me ensinas tantas coisas, as gargalhadas que damos porque estás a fazer xixi e passa-te um coelho à frente ou porque erras porcos atrás de porcos (isto é uma piada). Os olhares cumplices que trocamos são suficientes para todos entenderem que gosto de ti Pai. Tanto. E para sempre...

 

Páginas da Vida

O meu nome é Ricardo, mas costumam tratar-me por Ricky. Eu até nem gostava muito, ao princípio, mas agora já me habituei. Portanto, sou o Ricky, tenho 59 anos e sou do Alentejo. Uma região cheia de encantos, cores e sabores. Uma região conhecida por tantos, mas verdadeiramente apreciada por tão poucos...

Pedira-me para responder a uma questão; uma simples questão "O que é para ti a caça?". Decidi ir mais além e contar a história da minha vida. Pode ser que assim percebam o que é para mim a caça ou o que foi para mim a caça.

Sou caçador desde que me conheço. Lembro-me de mal saber andar e já ir à caça com o meu pai. Tinhamos muitos cães, mas estavam sempre a variar. Nunca ficamos muito tempo com nenhum, porque realmente acho que nunca tivemos a sorte de ter o cão, o tal cão - bom para todo o tipo de caça. E, por esse motivo, andavamos sempre à procura de mais e melhor. Verdade se diga, não podiamos abrigar todos os cães, pois não é fácil sustentá-los. Tinhamos de fazer opções e sempre vi o meu pai a fazê-lo. Segui-lhe as pisadas...

Aos 10 anos o meu pai deixou-me dar o meu primeiro tiro, com a sua espingarda. Lembro-me como se fosse hoje. O meu coração palpitava e senti-me, naquele momento, um verdadeiro Homem. Tinha de ir a correr contar aos meus amigos e foi o que fiz. Ficaram cheios de inveja. Vi-o nos seus olhos, embora não me tivessem dito. Achava-me o maior! Eu, Ricky, um puto com 10 anos a poder dar tiros de espingarda...

Daí até matar a minha primeira peça de caça foi um pulo. Matei um coelho. Havia tantos nessa altura. Mas não me fiquei só por um... Sempre tive esta peculiaridade de querer sempre mais. Em tudo na vida. Seja na caça, no trabalho ou com as mulheres... Sempre quis mais do que aquilo que tinha ou do que aquilo que poderia ter, na verdade. Mas dei-me mal! Hoje reconheço-o. Poderia ter feito tudo de forma diferente. Era um puto imaturo, na altura. Até há bem pouco tempo, em rigor...

Dos coelhos, passei para as perdizes, pombos, tordos, patos... Tudo o que viesse à rede era peixe, como se costuma dizer. Não olhava para os números e, muitas vezes, não olhava para as espécies. Também não olhava para o facto de ser fêmea, macho ou uma cria. Gostava de atirar. Gostava de meter a arma à cara, premir o gatilho e acertar no alvo. E depois, no fim, ver todas as peças que tinha morto. Achava-me o maior. 

Um dia lembro-me de um caçador dizer-me "Ricky não achas que devias respeitar um bocadinho mais a caça e aquilo que é nosso? Temos de elevar o nosso nome, e não é com esse tipo de atitudes. Já que gostas tanto de atirar, vai para um campo de tiro, não precisas de matar é a caça toda". Mas não era a mesma coisa, eu sabia que não era...

Continuei a minha vida como caçador. Sentia que ainda corria aquela inveja, nos putos (agora também homens). Sabiam que eu era bom... Senão o melhor. Matava tudo o que aparecesse. Era sempre o caçador com mais peças de caça e com histórias e mais histórias para contar... Às vezes também acrescentava algumas histórias que, na realidade, não tinham sido bem assim... Mas ninguém iria saber, certo? 

Gostava de sentir que os outros me bajulavam... Na caça, gostavam sempre de ir comigo... Gostavam sempre de me ver atirar e tinham curiosidade em ver os meus cães. Se bem que sempre foram o meu ponto fraco. Nunca tive um cão que pudesse vanglorizar-me, como já vos contei anteriormente. Vinham uns, iam outros... Depois acabava a época de caça e o que é que eu fazia com tanto cão? Alguns tinha de deixar no campo... Eles conseguiriam escapar! Se nenhum amigo os quisesse, era a minha única solução, para não os abater. Nunca verti uma lágrima ou nunca senti uma emoção mais negativa com isso... Cães há muitos... Sempre foi o meu pensamento! Tive podengos, tive várias raças de cães de parar... Mas todos muito medrosos, todos esqueléticos... E eu dava-lhes comida três vezes por semana (diziam ser o suficiente e eu também partilhava dessa opinião). Mas mesmo assim... Na caça não me serviam para nada, ou quase nada. Ou era eu e a minha pontaria, ou então...

Lembro-me uma vez, num daqueles Domingos solarentos, mas com um frio de cortar a respiração. Fomos à caça... Foi há sensivelmente pouco tempo. Para um homem com 59 anos, o tempo já é visto de forma diferente. Fomos caçar aos coelhos, numa aldeia perto de onde vivo. Carreguei os meus podengos e encontrei-me com os meus amigos. Às 7 da manhã, já estava com uma dose de álcool no sangue. O vinho tinto sempre foi um dos meus aliados na caça. Que bom que era beber 5 ou 6 copos de vinho, antes de ir caçar. Estava tudo desmoralizado, devido à situação do coelho em Portugal (tinha começado recentemente). No fim da jornada, eu apareci com 5 coelhos e os meus companheiros não tinham nenhum. Senti-me, mais uma vez, tão poderoso. Nada me detia. Até que um amigo se vira para mim e diz "Como é que tens tantos coelhos?". Eu sabia que tinha morto metade deles parados, porque nem sequer tinham forças para correr. Seria da doença? Não sei... Mas aconteceu. Mas claro que lhes disse que tinham sido os meus cães, e a minha pontaria, que nunca me deixara ficar mal. Até que um rapazito, que nunca o tinha visto mais gordo me disse "O senhor deveria deixar os coelhos procriarem, deviamos todos tentar acabar com a doença. E não é a matar tudo o que vemos ou todos os coelhos que vemos, que vamos conseguir isso". Ri-me. Ri-me com ar de desdém dele. Um rapazito, que nem sabe o que é a caça a dar-me lições de moral? Era o que mais faltava. Ignorei-o. Aliás, lembro-me de lhe ter dito para se calar e ir aprender a ser caçador. Todos olharam para mim, como se tivesse cometido um pecado. Não os entendi, mas também não fiz por isso. Tirei os meus 5 coelhos do colete (estavam todos uns em cima dos outros) e atirei-os para o chão. Disse-lhes "podem ficar com eles, já que não os conseguem matar".

A partir daí tudo mudou. Senti que estava a chegar uma nova época da caça e uma nova época na caça. Senti que estavam a chegar novos reforços para este nosso desporto. Sim, para mim sempre foi um desporto. Uns nadam, outros jogam futebol e eu caço. Eu mato animais. Ou matava. 

Há cerca de 1 ano que deixei de caçar. Por motivos de saúde. Este maldito cancro apareceu na minha vida, como em tantas outras vidas. E não é que ele pode mesmo dar cabo de nós? Fisica e psicologicamente. Senti-me sem forças para nada. Até para caçar, o que eu mais gostava, eu já não tinha forças. Hoje estou deitado numa cama de hospital, pois desceu-me muito a tensão e tive de ser internado. Há três semanas que continuo internado. Como pode a tensão influenciar de tal forma o meu estado, para ter de ficar aqui tanto tempo?

Há uma enfermeira que deixou de me vir ajudar. Recusou-se. Percebeu que eu era caçador e perguntou-me porquê. Eu respondi "Porquê o quê?"; "Porque é que tem de matar os animais?" , disse ela. Eu respondi, o que sempre respondi a esta gente que não sabe nada "Ouça lá e porque é que você tem de comer as plantas? Vá chatear outro, porra, gentinha...". 

Não tenho razão? Cambada de ecologistas, estão sempre aqui a chatear e a serem contra nós. Se percebessem alguma coisa disto.... E, passado umas horas, entra um rapaz, também ele enfermeiro, na minha sala. Vinha na minha direção e pensei que já conhecia aquela cara de algum lado. Pensei que deveria vir substituir a outra louca. Ele olha para mim, sorri e diz: "Não se lembra de mim?" Eu reconhecia aquela cara, mas não me lembrava de onde. Pelo que tive de dizer que não. Então ele sorriu, ao mesmo tempo que me media a tensão e disse "Sou aquele rapazeco caçador que esteve consigo há alguns anos, a caçar aos coelhos. O rapazeco que não matou nada e que lhe disse que também não o deveria fazer". Senti-me a ficar de todas as cores. Eu, Ricky, um homem sem medo de nada. Senti-me tão pequenino, que achei que ninguém iria reparar mais em mim. Não sei porque fiquei assim. Não sei que tipo de poder teve aquele enfermeiro caçador em mim, mas ele fez-me corar. Ele fez-me sentir algo que outrora não imaginava ser possível.

Respondi-lhe a medo, e com um ligeiro tremor na voz "Sim, lembro". 

Ele sentiu o meu embaraço e despediu-se, dizendo que a tensão estava alta. Teria de me acalmar. Mas eu estava calmíssimo. Achava eu. Não consigo encontrar a palavra que possa definir o que me aconteceu naquele dia. Vergonha? Medo? Não sei se será bem isso. Mas como é que um rapazeco, que não sabe nada de caça, poderia mexer comigo daquela forma?

Ele voltou. Todos os dias voltava para me medir a tensão. Todos os dias me provocava aquele sentimento inexplicável. Dizia-me boa tarde, media a tensão, dizia o que eu deveria fazer e ia-se embora. Todos os dias. Até ao dia que não aguentei mais e lhe disse: "Continua a caçar?"

"Sim, continuo. É a coisa que mais gosto de fazer na minha vida, estar em contacto com a natureza, os animais e com os meus cães."

"A sua colega enfermeira é que não gosta de caça, ficou muito ofendida comigo, por eu ser caçador."

"Sabe Sr. Ricardo... Às vezes basta escolhermos as palavras certas. Basta colocarmos toda a nossa sensibilidade nessas mesmas palavras e explicar. Explicar o que é a caça, tudo o que envolve. Percebermos o porquê de serem contra a caça, para que eles possam também compreender o porquê de nós não sermos contra a caça. Basta isso. Basta que não ataquemos logo."

"Pois... Então e a espingarda? Tem morto muito?"

"Sabe Senhor Ricardo... O matar é a última instância no acto de caçar. Para mim, a caça não se resume a matar. Há tanta coisa que caracteriza a caça e só nós caçadores sentimos e vivenciamos. Isso é unico. A natureza, os animais, os cães..."

"Ah, tem cães bons é isso?"

"Os cães são bons para mim. Eu adapto um cão às minhas necessidades e, por esse motivo, tenho sempre cães bons. Temos de os adaptar à nossa realidade, a nós, e sabermos viver com as suas limitações ou pormenores, tal como eles fazem connosco, todos os dias."

"Nunca tinha pensado nisso assim. Mas que histórias tem você para contar aos outros das peças que mata? Se não mata quase nada... Que emoções vive você? Que sentido faz a caça para si, então?"

"Vivo tanto e sinto ainda mais. As histórias que eu tenho para contar? São tantas, sobrepõem-se tanto ao disparo do gatilho. O ver os animais, sentir a Natureza como o meu Mundo e cuidar dela como se fosse a minha casa. Partilhar a alegria dos meus cães e a amizade dos meus amigos caçadores. Tudo isso são histórias que não acabam mais. A caça é a minha forma de estar na vida. Mas é a caça; não o matar".

Olhei para ele, olhos nos olhos, e deslumbrei o brilho com que falava da caça. Acho que nunca tive esse brilho, que nunca vivenciei a caça dessa forma. Hoje consigo percebê-lo! Tudo o que eu vivia na caça cingia-se ao objetivo de matar. Este miúdo fez-me ver que a caça é muito mais do que o acto de matar...

Tenho pena que não possa mais viver a caça. Hoje, aqui nesta cama de hospital, penso que nunca terei esta oportunidade de sentir e vivenciar coisas que, outrora, não conhecia. E pensar que nunca fui um caçador... Um verdadeiro caçador que vive a caça, pela Natureza e pelos animais... Hoje é tarde demais... O cancro ditou o meu fim na caça! Ou eu dite-o, quando decidi tornar-me um matador, e não um caçador...

ML.

 

 

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Conferências sobre Caça Arruda dos Vinhos

 

 

Vou participar no Ciclo de Conferências Arruda dos Vinhos, falando sobre uma temática tão importante para mim: a Caça e os Cães. Deixo-vos aqui o programa:

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"A Caça como uma forma de estar na vida", por Mafalda Rodrigues Leitão, 3 de Abril às 10H00, Arruda dos Vinhos!

 

1) Porque é que a caça é a minha forma de estar na vida? A minha história como caçadora: quando comecei, porque comecei...

2) Como é que nós, Caçadores, poderemos estar a acabar com a Caça: os caçadores e os matadores. O Futuro da Caça

3) Os cães de parar e o podengo português na Caça

4) Provas de Caça e Cães de Parar e Provas de Santo Huberto

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“Cães de rasto de sangue”, por Luis Barata, dia 3 de Abril às 11H00, Arruda dos Vinhos

 

1) O Cão - Caraterísticas do cão de sangue, Raças e a Seleção do Cachorro

2) Caraterísticas do Condutor, Preparação do condutor, Comportamento do Condutor

3) A preparação do cão de sangue, Equipamento de treino, Obediência básica, Treino específico

4) As espécies de Caça Maior, Descrição básica, Anatomia, Pegadas e outros indícios

5) Técnicas de Rastro, Equipamento (para o cão e para o condutor)

 

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Dar o melhor de nós...

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A Caça é feita de momentos doces! Os caçadores são feitos de bondade e pureza.
Quero agradecer a um Senhor que me fez tudo isto: chapéu com dentes de javali; faca de remate e paus de apoio para carabina (um deles com dentes de javali).
O meu coração fica tão recheado de alegria e carinho.
Porque a caça é também isto: um Senhor que pouco me conhece, mas que tem sempre a amabilidade e a amizade de me presenciar com tudo isto; para me fazer e ver evoluir como caçadora.
Um verdadeiro Caçador vive o verbo DAR, como uma forma de estar na vida. Damos tanto... Mas recebemos ainda mais! Todos os dias...
Obrigada!

Dia da Mulher...

 

Para mim, todos os dias são dias da mulher... Dias do Homem... Dias da criança... Dias dos animais... Enfim! Dias em que não há nenhuma distinção entre nada, nem ninguém.

Contudo, a instauração do Dia da Mulher, surgiu no contexto das lutas femininas, por melhores condições de vida e trabalho e pelo direito ao voto, no início do século XX. 

Claro que nós, mulheres de uma Sociedade totalmente desenvolvida e avançada, não damos valor a isto ou, por outras palavras, não sentimos que haja diferenças sociais. Ou será que ainda há? Independentemente de tudo isso, eu não as sinto e nunca senti. 

E falo como mulher que tem certas "nuances de homem". Quero com isto dizer que sou uma mulher que caça, que gosta de estar com os animais, que não tem medo de ratos ou de aranhas, que passa os fins de semana no campo, ao invés de centros comerciais e, portanto, poderia sentir algum tipo de discriminação. Uma discrimincação oriunda de qualquer sítio.

Mas nunca a senti. Mas também nunca me coloquei numa posição para que isso fosse possível.

E falando na caça... A caça, um desporto maioritariamente de homens. Uma mulher que chegue ao mundo da caça pode balançar um pouco e sentir talvez que ser mulher é ser diferente. Todavia, sempre senti o contrário. Sempre senti que ser homem ou mulher na caça é, simplesmente, ser caçador. E nada mais que isso... Não há diferenças sócio económicas naquele momento, nem de estratos sociais, diferenças físicas ou ainda diferenças de personalidade. Todos somos iguais e o que difere, no meu entender, é a simplicidade de que cada um de nós é feito. Não é por ser mulher que sou diferente, na caça. É por ter a minha maneira única. Tal como todos a têm. E, por esse motivo, todos somos especiais e únicos. Todos somos caçadores e todos precisamos uns dos outros.

Neste Dia da Mulher, quero deixar uma palavra de agradecimento a todas as mulheres caçadoras com quem convivo diariamente mas, sobretudo, a todos os homens caçadores. Homens que, com as suas nuances, sempre me respeitaram, me valorizaram e me aceitaram num grupo onde a mulher poderia ser olhada de lado. 

Mas para os laicos na matéria também gostava de explicar que ser mulher caçadora não é sinónimo de roer as unhas, de ter bigode ou de vestir à homem. E para esses mesmos laicos gostava de explicar que ser homem caçador não é ser bêbado, não é ser brojeço/bimbo ou não é ser assassino. Ser mulher caçadora e ser homem caçadora é tão mais que isso. Nós somos pessoas "normais" (se é que a normalidade existe) e temos uma vida tão normal, tão pura e tão simplista. 

As diferenças não devem existir e, caso assim seja, que aprendamos com elas para evoluirmos para um futuro melhor. Sendo homem ou mulher, obrigada a todos os que são caçadores e que tentam elevar o nosso nome; seja ele feminino ou masculino.

Todos juntos, nós Caçadores, faremos a nossa diferença!

ML.

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