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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

A Caça Submarina

A Caça submarina tem vindo a fazer parte da minha vida, nos últimos tempos. Nunca liguei à pesca ou a atividades relacionadas com o mar; mesmo tendo um avô que era um pescador nato, ganhando várias medalhas; e mesmo tendo um primo que também lhe seguiu as pegadas. Ouvia algumas histórias que eles iam contando, comia vários peixes que pescavam e, ao Domingo, o meu primo dava-nos umas navalheiras deliciosas. Mas nunca passou disto... Nunca tive a curiosidade de saber mais, ou de ir um dia com eles à pesca.

 

Até ao dia em que conheci o Zé e, acima de tudo, conheci a sua paixão pela caça submarina. Mas do que se tratava isto? Nunca tinha ouvido sequer a expressão "caça submarina". Comecei então a acompanha-lo. No início, ficava na praia, enquanto ele ia caçar. Trazia uns peixes quaisquer, e até cheguei a comê-los grelhados. Eram deliciosos, mas não conhecia a sua história; quem eles eram; como se caçavam, porque é que se caçavam...

 

Então houve um dia em que decidi ir com o Zé no barco. Ele ia caçar, eu ficaria a ver e a tentar perceber algumas coisas.

"Se calhar vais enjoar".

"Não te preocupes, eu não enjoo", dizia-lhe eu.

"Normalmente estamos um dia inteiro no mar, vais-te cansar."

Mas eu não queria saber. Já tinha decidido que iria. 

Levantamo-nos cedo. Bem cedo. Até parecia que íamos para a caça. Ele já tinha o material todo arrumado, e lá fomos. Era um dia de Verão, o sol brilhava no Alentejo, mas quando chegamos a Sines, as nuvens encobriam-no e só sobressaía o vento, que nos arrepiava os pêlos dos braços. Preparar as coisas, arrumar todo o material e colocar o barco na água. Esta estava gelada, os peixes que rodopiavam nos meus pés eram imensos e o barco era alto. Subi, e partimos. Tirei o chapéu, não fosse ele voar nesta trajetória. Vesti o colete e não dizia uma palavra. Estava ansiosa demais. O que me esperaria? O mar estava um pouco agitado, aliado ao vento frio que se sentia. Levei vários casacos que não caraterizavam aquela altura do ano. O Zé preparou-se, assim como os outros, e depois de apoitarem o barco, lá foram eles. Tive medo de estar ali em cima sozinha. Tudo me passava pela cabeça, principalmente, depois de todas as histórias que já tinha ouvido. Tubarões (o Zé tinha tido um tubarão frade de 5 metros a passar-lhe por cima, há uns tempos atrás)... Barcos que se viravam... Tempestades... Ondas gigantes...

"Calma, estamos em Sines, tudo é calmo e tranquilo". E dormitei. Entrentanto, lá vinham eles ao barco, depositavam o que já tinham caçado e voltavam... O Zé, nesse dia, caçou um polvo gigante. Fiquei assustada, nunca tinha visto um polvo daquele tamanho, com uns tentáculos gigantes. Ria-me. Quem diria que iria passar por aventuras destas.

 

Depois desse dia, todos os outros vieram naturalmente. Depois desse dia, tornei-me na "melhor amiga" daquele barco e daqueles caçadores. Ficava lá em cima o dia inteiro, dormitava, lia um livro, comia e apanhava sol. Ajudava-os a carregar a caça, dava-lhes comida, assim como o material que precisassem. Sentia-me útil, de certa forma. Depois lavavamos o material, arranjava os peixes e finalizavamos mais uma jornada.

 

A Caça submarina começou, também a mim, a inspirar-me e a apaixonar-me. Ouvia histórias, durante horas, e deliciava-me. Mas confesso, também me assustava. Tinha medo, pensava que, em segundos, poderíamos perder a vida. Sim, é assustador, mas é verdade. Numa questão de segundos, tudo pode acabar. É demasiado perigoso e por isso estou certa de que só os melhores o conseguem (e podem) fazer.

 

Chegou o dia em que eu própria quis experimentar fazer caça submarina. Estava nervosa, sempre tive tanto respeito ao mar e iria fazer uma coisa destas. Mas decidi ir. Foi na Praia da Ingrina, num pleno dia de verão. O Zé equipou-me a rigor, e andou sempre comigo. Nesse dia, cacei um polvo. Não sei como consegui, digo-vos, porque a forma como estes animais se protegem e se escondem é exímia. São os verdadeiros mestres do disfarce. Fiquei maravilhada por ter conseguido. Mal chegamos a casa, assamo-lo nas brasas. Talvez tenha sido o melhor polvo que comi em toda a minha vida.

 

Depois desse dia, outros se sucederam.

Encostas a máscara na água e rapidamente te desligas do mundo e de tudo aquilo que te rodeia. É como se houvesse um interruptor na linha de água, que separa a nossa vida, da vida dentro do mar.

A vida dentro do mar é tão diferente. Tens milhares de coisas novas, a cada mergulho. Tens peixes que te acompanham a toda a hora. Conchas, corais, pedras, relevos diferentes e cores únicas. Um mundo que a cada dia te apaixona (ainda) mais!

 

Mas mais do que caçar, vive-se! Estou a tentar arranjar palavras para descrever o que se sente, o que se experimenta, o que se vive; mas é difícil. Há histórias únicas debaixo do mar. Quando começamos a perceber o comportamento das espécies, das milhares de espécies que por ali vivem, tudo começa então a fazer (ainda) mais sentido. Percebemos porque temos de ser seletivos, como devemos caçar, quais os melhores truques a fazer, e como é que cada espécie deve ser abordada. Todas tão diferentes, mas todas tão únicas. 

Senti-me tão pequenina. Senti que a vida é tão passageira, que há tantas coisas para além de nós próprios... Que o mar é uma imensidão de sonhos, de histórias e de sentimentos... Tanta coisa que se viveu lá, tanta coisa que é apagada por uma simples onda.

Talvez isso seja também a vida. De um dia para o outro, uma nova onda pode modificar tudo o que damos como garantido. Mas até lá temos que viver ao máximo, fazer aquilo que mais gostamos e que mais felizes nos deixa. Talvez a Caça Submarina me tenha ensinado isso mesmo...

Aproveita ao máximo, desliga-te de tudo, vive o presente, e sê feliz!

 

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