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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

A despedida

Falar de despedidas ou de últimos momentos é sempre difícil... Deixam-nos sempre com o coração pesaroso, envolto em melancolia e alegria! Melancolia do que já passou e não volta mais... Melancolia de uma época que termina! Contudo alegria... Alegria de jornadas de caça que ficam para sempre na memória e no coração! Alegria de momentos que nos tornam, com certeza, melhores caçadores e, acima de tudo, melhores seres humanos. 

E é com essa tal alegria que descreverei o meu último fim de semana desta época cinegética. É com essa tal alegria que me questiono da sorte que me perseguiu, vezes sem conta, durante estas jornadas de caça... Uma sorte que me levou a ver a caça (ainda mais) como a minha forma de estar nesta breve passagem a que chamamos vida!

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Sábado: Sem horários... Sem "obrigações"... Sem compromissos... Só com a vontade de querer respirar ar puro fomos dar uma volta com os cães... Cães de parar, jovens e com uma paixão incrível pela caça! Uma paixão oriunda da genética mas que se fomenta, dia após dia, com o contacto com a caça. Estava um frio de cortar a respiração mas ao passar vedações, ao subir "montes e vales", ao correr atrás dos cães quando era necessário... O frio passa a ser um mero pormenor. Respirar ar puro. Sentir a liberdade. Estar em contacto com a Natureza... Ver os animais... Passaram tordos, perdizes, bandos de pombos... Ouvir os melros, os corvos... No fundo, um passeio para os cães esticarem as pernas e nós "esticarmos" a alma e o coração! Eles lá andavam todos contentes, a caçar. A fazer aquilo que mais gostam. Aquilo para o qual tinham nascido. De repente, começam a ladrar de forma extenuante para umas silvas. Seria porco? Raposa? Rapidamente as silvas começam a mexer-se... Ganharam uma nova vida! E uma nova (ou velha) vida sai repentinamente das silvas, com uma rapidez incrível e sem que ninguém o conseguisse ver... Mais uma vez, a comprovar a astúcia desta espécie cinegética... Continuamos o passeio! Os cães continuam na sua alegria contagiante, até que uma delas faz uma paragem absolutamente incrível, aguentando-a minutos a fio... Uma cadela tão jovem e já com tanta cabeça! Subitamente, sai uma galinhola linda, com um voo silencioso e rápido, caracterizando-a na perfeição! 

No último fim de semana da época ainda tinhamos a sorte (esta tal sorte de que tanto falo) de contemplar estas belas espécies... Até olhar para o lado e ver uma raposa a furtar-se... Naquele seu movimento elegante e diria, um tanto ou quanto vaidoso e matreiro... Lindíssima! Estava longe, mas contemplei-a durante uns segundos, que se tornaram minutos... Todo o caçador conhece esta sensação! 

Meto-me a pensar nesta tal sorte. Que sorte esta que eu tenho que me leva sempre a presenciar momentos absolutamente incríveis. "O quê? Ver uma raposa ou sentir um javali?" Não será bem mais que isso? Claro que é! Nós, caçadores, sabemos que é... Obrigada a ti sorte, por me estares sempre a presentear!

 

Domingo: O tão aguardado último dia... O dia que deveria acabar em grande! Que deveriam viver-se os melhores lances, os melhores momentos, as melhores aventuras... 

No entanto, o meu último dia de montaria era recheado de expetativas muito baixas. Ao nível de javalis era zero; tinha dado como terminada a minha época o fim de semana passado; pois já sabia que este fim de semana iria para os gamos. Apesar dos convites para manchas, à partida, muito boas; queria tentar algo diferente. E esse algo diferente prendia-se com gamos e gamelas; não com o intuito exaustivo de os matar mas, primordialmente, para os observar.

Então lá fomos... Um grupo pequeno, numa manhã gelada e ventosa... Dois homens com um pau e um podengo, que iriam espantar os bichos! E mais nada... Coloquei-me onde me disseram. Preparei a Winchester... Diziam que seria difícil, pois eram bichos muito espertos e que, a qualquer sinal, poderiam fugir sem que dessemos por eles... Estava envolta nesses pensamentos, quando vejo uma manada de gamelas a correr, a cerca de 80 metros. Cerca de 15 a 20... Tudo fêmeas! Lindas! Mais um daqueles momentos em que os segundos viram minutos e os minutos parecem horas... Corriam elegantemente, todas umas atrás das outras, como se tivessem treinado horas e horas, para agora se enaltecerem perante nós! De repente, desaparecem... Não atirei, apesar de nos terem dito que poderíamos atirar às fêmeas! Somente uma opção pessoal... 

Passados cerca de 10 minutos juntamo-nos todos, pois os bichos já tinham fugido. Chegam os senhores com o cão, afirmando que tinham visto 3 gamos. A esperança eleva-se, pois ainda iríamos fazer uma segunda mancha. Contudo, no caminho para a mancha, começamos a perceber que seria difícil, pois as vacas andavam por todo o lado. As opiniões divergiam: uns afirmavam que os gamos não se aproximavam delas; outros diziam que eles andavam atrás delas... Enfim! Só estudando o comportamento dos animais e observando-os podemos ter tais certezas... A vida animal, por vezes, é uma incógnita e aí reside toda a beleza deste mundo! Ao descobrirmos essas pequenas incógnitas, sentimo-nos sempre um bocadinho mais realizados... Mas será que essas incógnitas, quando descobertas, são absolutas para todos os animais? Creio que não...

Fomos colocar-nos em sítios estratégicos que nos tinham aconselhado... Como estava tudo, ou quase tudo, sem esperança, e como aquilo era, efetivamente, uma pequena brincadeira com dois homens com um pau e um cão; ficamos três numa porta, de conversa. E outro senhor bem ao nosso lado, sentou-se no seu banco, calmamente, fumando um cigarro e observando a Natureza... Quais seriam os seus pensamentos? Os seus medos e as suas tristezas? Os seus problemas? Comecei a pensar em tudo isto, paralelamente ouvia os meus companheiros a susurrarem qualquer coisa e de repente ouço dois tiros. Automaticamente pensei que tinham saído os gamos. Olho bem para o fundo e, numa fração de segundos, avisto um porco e aviso-os "está ali um porco". Corro logo para a frente, escondo-me atrás de uma árvore, a cerca de 5 metros da vedação (eles estavam do outro lado da vedação). O meu coração já começava a palpitar mais depressa (se bem que já tinha tido a sua dose de palpitação, ao ver as gamelas). Mas acho que a sorte ainda me tinha reservado mais qualquer coisa... Esta sorte...

De repente, e muito lá no fundo, vejo três javalis, uns atrás dos outros, a correrem desalmadamente. Estavam a fugir de alguma coisa, espantados. Seriam os homens com um pau e um cão que tinham feito todo este reboliço? Consigo vê-los; senti-los assustados e ofegantes, mas ainda estão longe... Mantenho-me escondida... Olho de relance para trás, para ver os meus companheiros. Estão mais atrás e de olhos atentos! Olham para mim e sorrimos. Respiro fundo. Tenho de aprender a controlar estas palpitações frenéticas do meu coração! 

Eles começam a andar a trote... Sentem que já não correm perigo, possivelmente. Consigo agora vê-los nitidamente e ver que são três porcos, um deles bem grande. O vento está muito forte, mas muito favorável a que venham ter connosco. Estou numa posição desconfortável, com um joelho no chão e com outro em suspensão, mas agora não me posso mexer... Agora não! Os javalis começam a encostar-se mais para a vedação. Se tudo corresse bem e se eu tivesse calma eles iriam passar a 5 metros de mim. Colocam-se em fila indiana, cada um atrás do outro e vêm tranquilos pela vedação. Reparo logo se vêm bebés atrás, pois já sabemos o que esperar nesta altura... Mas vêm somente estes três. Não há nada a temer! Espero... De repente ouço um susurro lá atrás, muito abafado pelo vento "Calma!". Eu estou calma! Apesar das mil palpitações por minuto do meu coração, este é sempre daqueles momentos em que a calma e a tranquilidade me invadem por completo. É um sentimento total de bem estar, um expoente máximo de felicidade! Não poderia estar melhor... E também tenho e devo compensar esta sorte que me acompanha... E, para isso, tenho toda a calma e todo o tempo do mundo! Espero... Observo e, sobretudo, aprecio-os... Aprecio aquelas suas incógnitas, que falava há pouco! Nunca meto a arma à cara, senão tenho a certeza que não conseguiria deslumbrar nem metade (mas percebo que há caçadores que o façam). Eles estão quase a passar por mim... Nesta altura, vou ter de colocar a arma, subtilmente, para que depois não se assustem com movimentos bruscos. Coloco a arma à cara... Não retiro os olhos deles... Grandes, negros, com uns olhos esbugalhados... Lá vêm eles! Parecem despreocupados, mas cansados... Despreocupados, mas sempre em alerta... De repente ouço "pum"! Um dos companheiros que estava atrás deu um tiro repentinamente. Todo o momento calmo e tranquilo é quebrado por um tiro rápido! Os porcos, despreocupados há segundos atrás, começam a correr de forma desalmada... Meto a arma à cara e disparo o gatilho, quando o porco maior me passa a 5 metros. Mesmo no coração... Depois dou um segundo tiro no último porco, um tiro cruzado, mas que lhe acerta (creio eu). Metem-se entre umas estevas e não os vejo mais, mas ouço e vejo os tiros que os meus companheiros dão e o senhor pensativo da porta ao nosso lado. Um dos meus companheiros começa a atirar à porca que eu tinha atirado (sem saber, claro) e ela fica no chão. Levou dois tiros de coração e, ainda assim, aguentou tanto... O outro companheiro ainda lhe manda um tiro traseiro... Tudo foi parar àquela porca (talvez por ser a maior)... Eu, no meio de tudo isto, em vez de carregar novamente a arma e ajudá-los a segurar os outros porcos, perco-me com os meus olhos, que encaram com quatro listados a correrem... As lágrimas começam a cair-me dos olhos... Não ouço mais tiros, não ouço o vento... Não ouço mais nada... Os listados corriam, depois paravam, depois voltavam a correr juntos, depois quase que vieram ter connosco e voltam a correr... Não pararam na porca que eu tinha morto, o que me levou a pensar que não seria a mãe. Graças a Deus! Mas tudo isto tem uma beleza incrível... Ver estes bebés... Não tenho palavras para descrever o que sinto e o que senti... Esboço sorrisos de felicidade, simultâneos com as lágrimas de felicidade... "Felicidade por veres quatro porcos pequenos?" Sim! Essa felicidade... Que tenho pena que muitos caçadores só a alcancem (se é que alcançam) quando os têm mortos nas fotografias! Caçadores não... Matadores, desculpem! 

Eles fogem e eu depressa apercebo-me do que estava ali a acontecer... Levanto-me... Sim, ainda estava naquela posição desconfortável... E olho para eles... Uns foram à procura dos outros javalis e outros já me vêm dar os parabéns, quando se apercebem de que a porca já levava um tiro de coração... Dizem também que o outro porco levava um tiro e não estava longe... Contudo, não o conseguimos encontrar... Eram terrenos difíceis e não tínhamos cães para nos ajudar! Vejo a porca, não está parida! Era enorme e linda. Tinha uma boca (para porca) linda! Uns dentes e umas amoladeiras enormes, como nunca tinha visto... 

Mais um momento que esta tal sorte (vamos chamar-lhe assim) me proporcionou... Uma caçada aos gamos, com poucas expetativas, devido à dificuldade que já conhecíamos, acabou com um lance incrível!

Obrigada! 

ML.

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