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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

A história de um menino nascido no campo...

A minha avó está constantemente a dizer "Não páras quieto um minuto Zé, parece que tens bicho carpinteiro"; "Senta-te um bocadinho a ver televisão com a avó". Mas eu não quero. Eu gosto de ir para a rua brincar... Gosto de correr até me doerem as pernas. Às vezes vou brincar com os meninos à bola mas, outras vezes, vamos brincar no campo e ver se encontramos lebres ou raposas. Quem encontrar primeiro ganha. 

Eu sou o Zé, tenho 12 anos e vivo no Alentejo. Tenho 4 cães e um deles anda sempre atrás de mim, menos quando vou para a escola. Aí ele não pode vir comigo. Eu não gosto muito de ir à escola, é uma "seca", mas eu percebo que tenho de aprender mais para quando for grande ter dinheiro e ser como o meu pai. O meu pai é o meu melhor amigo. Nos fins de semana eu vou sempre com ele e com os amigos para a caça. Ele ensina-me tantas coisas. Vamos ver os perdigotos, depois vamos tratar dos cevadouros, onde o meu pai todos os dias mete milho para os javalis comerem e, por fim, vamos ver se as raposas ou as águias não atacaram alguns animais lá no campo. É tão divertido. E os cães também vêm connosco, e acho que eles são muito felizes; pelo menos estão sempre a abanar o rabo e a minha professora na escola diz que quando os cães abanam o rabo é porque são felizes. 

Hoje cheguei a casa, depois de vir da escola a pé, e está tudo muito triste. A minha mãe está a olhar para mim, com as lágrimas nos olhos e diz:

"Zé, vamos ter uma casa nova".

"Uma casa nova? Porquê? É preciso mais espaço para os nossos cães?", pergunto eu.

"Não Zé. Vamos ter uma casa nova, num sítio novo. E tu vais ter também uma escola nova."

"Porquê?"

"Porque o pai tem de ir trabalhar para Lisboa e nós teremos de ir com ele, porque somos uma família e estaremos sempre todos juntos"

"Nessa terra também posso brincar com os cães e correr atrás das lebres?"

"Sim filho, hás-de poder".

E não disse mais nada. Eu estou triste porque tenho de deixar as coisas que eu mais gosto mas, se nessa terra também tem isto, então também vou ser feliz lá. 

 

Mudamo-nos muito rapidamente. No dia em que chegamos a Lisboa, estava muito calor. Mas no Alentejo ainda estava mais. Chegamos a nossa nova casa e eu fui logo ver o meu quarto. Era grande, só que a nossa casa tem mais casas. A minha mãe diz que se chama um prédio, com apartamentos. Pelo menos, é muito grande.

Hoje é o meu primeiro dia na escola nova. Esta cidade é estranha. Tem tantos carros e tanta confusão. De manhã, chegamos atrasados à escola e o pai estava chateado e toda a gente apitava. Ainda não vi foi o campo, mas não deve ser longe. Cheguei à escola e os meninos são diferentes. A mãe já me tinha avisado, porque são meninos de Lisboa e nós somos do Alentejo e os mundos são diferentes. 

 

O tempo foi passando... E eu fui-me adaptando a esta nova realidade... Ainda não vi foi o campo... E estou cada vez mais triste. Mas aos fins de semana, às vezes, vamos ao Alentejo, para eu e o pai irmos à caça com os cães e irmos visitar a avó.

Na escola... Na escola eu não estou muito bem. Os meninos estão sempre a gozar comigo. Eles não sabem brincar. Só falamos quando vamos jogar à bola (isso sabemos todos). Mas de resto... Eles andam sempre com telemóveis e a jogar jogos. Não fazem mais nada durante os intervalos e depois também falam dos programas da televisão. Às vezes penso que deveria ter visto televisão com a minha avó, como ela pedia, para agora saber do que eles falam...

Houve um dia que decidi perguntar ao Miguel, o menino que eu mais gosto da escola nova:

"Miguel, porque é que não largas o teu telemóvel?"

"Tás parvo Zé? Então estava a fazer o quê? A brincar às escondidas, não? Tenho de passar níveis nuns jogos que saquei e, além disso, tenho comentários para fazer no facebook".

"Tu não gostas de ir ver as lebres ou os javalis, no campo? O meu pai no outro dia viu uma mãe com 8 listados atrás dela..."

"Estás a falar do quê? Eu sei lá o que é um javali. A carne que nós comemos é porque a minha mãe compra no supermercado".

"A que é que tu brincas aos fins de semana?"

"No Sábado tenho jogo de manhã, depois vou a casa almoçar e à tarde costumo ir ao cinema com o meu pai, enquanto a minha mãe vai às lojas no Colombo. Depois Domingo ficamos em casa, eu posso jogar na playstation o tempo que eu quiser ao Domingo (depois de fazer os trabalhos) e ir ao facebook o dia todo. E depois à noite vemos a Casa dos Segredos".

"E quando é que tu brincas no campo? Ou com os animais?"

"No campo? Não se faz lá nada... E nem sequer tenho rede na internet. Eu nem sei onde é o campo aqui em Lisboa. Eu tenho um peixe no aquário, chamado Nemo. E tivemos um cão, mas o meu pai e a minha mãe estavam sempre a discutir sobre quem é que levava o cão à rua e olha... Tivemos de o dar".

"Entendo, Miguel... A tua vida é muito diferente da minha... Eu nunca mexi no facebook. Tenho sempre de ir ajudar o meu pai a tratar da Natureza e dos nossos animais. Ou então, aos fins de semana, vamos à caça...

"À caça? Vocês matam animais? Isso é ser assassino e não ter respeito pela vida animal"!

 

Será esta a realidade a que estamos a chegar? Parece-me bem que sim... Será que ter respeito pela vida animal é não saber, sequer, o que é uma lebre ou um saca rabos?  Será que ter respeito pela vida animal é pensar que a carne e o peixe vêm das prateleiras do supermercado?

Tudo começa com a educação e a transmissão de valores que temos, é certo. E agora eu pergunto: qual será a melhor educação para darmos aos nossos filhos? Qual será o melhor exemplo a reter? Uma criança retrógada "assassina" ou uma criança moderna "intelectual"?

ML.