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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

A história de um "velho" do mundo rural

Nasci no dia 7 de Agosto de 1945, no término da segunda guerra mundial. Era filho de pais humildes, que trabalhavam de sol a sol, para nos darem alguma coisa para comer. Eramos sete irmãos e hoje em dia acho que tenho apenas uma irmã viva, mas sem certezas, pois nunca mais tive contacto com ninguém. Quase todos emigraram, saíram deste país antes do 25 de Abril e por lá ficaram... Poucos foram os que voltaram!

Fui crescendo no campo, a trabalhar também eu de sol a sol. Trabalhavamos no campo, nos terrenos de um burguês que tinha muito dinheiro na altura. Semeavamos tudo o que a terra poderia "colher". Gostavamos particularmente de ver o processo de crescimento dos legumes e dava-nos um gozo imenso quando os íamos colher e posteriormente comer. As coisas sabiam melhor nessa altura, e é uma grande verdade.

 

Trabalhei toda a minha vida no campo. Começava com o nascer do sol e terminava quando este se punha no horizonte. Era um trabalho árduo. Talvez por isso hoje em dia tenha tantas dores nas pernas e nas costas. Mas o que é certo é que nunca faltou comida na mesa. Comiamos o que a terra nos dava, consoante a altura do ano. E a carne que caçavamos ou o peixe que pescavamos. Éramos felizes, verdadeiramente felizes. Tudo o que tínhamos trazia-nos felicidade. Hoje comíamos um arroz de coelho e era uma festa, sabiamos aproveitá-lo bem. Amanhã chovia torrencialmente, o que era necessário para a terra naquela altura, e até as lágrimas nos vinham aos olhos. Tudo eram uma benção. 

Hoje em dia têm tudo de mão beijada e não dão valor a nada. Os valores já são outros, que acompanham esta evolução constante numa sociedade que não tem tempo de pedir desculpas ou de dizer obrigado.

 

Apesar das minhas dores, continuo a trabalhar. Continuo a ir à horta, tratar das minhas coisas. Continuo com as minhas ovelhas e as minhas vacas. Tenho uma casinha pequenina, no meio do Alentejo. Casei-me e tive duas filhas que há muito que saíram de casa. Foram viver para a cidade, dizem que a vida é melhor lá... Não sei como! Carros, barulho, muita gente, muita confusão. Não deixaria o meu Alentejo e o meu sossego por nada.

Não posso caçar já, as minhas pernas não me deixam, mas o meu genro ainda me traz umas perdizes e uns coelhos para comermos aqui. 

 

Mas conto-vos a minha história, porque há algo que me tem afligido (e muito) ultimamente. Não é que a minha história vos interesse, mas talvez seja uma história igual à de tantos outros homens com a minha idade. Velhos, demasiado velhos para que os jovens de hoje em dia se importem; no entanto, ainda temos uma palavra, nesta sociedade muito evoluída.

 

Porque querem vocês acabar com a nossa vida, com o nosso mundo rural? O que sabem vocês de trabalho? Sim, trabalho verdadeiro, de sol a sol, trabalho árduo, em que andamos a cavar a terra e as pingas de suor correm-nos pela testa. Nunca compreenderão isso, porque o vosso trabalho remete-se a estarem sentados numa cadeira, o dia todo, e a pensar de que forma podem prejudicar as pessoas.

Preocupam-se com os animais, com o seu bem estar; mas nunca vi nenhum engravatado do governo a virem cá às minhas terras, ao meu Alentejo, ajudar-me a dar comer aos animais, a preparar um parto para uma vaca ou a tosquiar uma ovelha. O que sabem vocês sobre o comportamentos das espécies? Como protege um pardal os ovos dos predadores? Porque é que as enguias abandonam os ovos? Qual é a espécie que mete os ovos em ninhos alheios?

Tudo isto são "pormenores" do conhecimento para aqueles que vivem no campo, que lidam com os animais verdadeiramente e que fazem disso vida. A minha vida sempre foi no campo, com as minhas culturas, mas com os animais.

Não admito que me queiram tirar isso e, acima de tudo, que queiram destruir o meu (nosso) mundo rural, só porque sim. Só porque agora é moda ser diferente, ser do contra ou ser de um partido político "fashion".

 

Sabem qual seria o resultado de tudo isto? Caso as vossas preces fossem ouvidas?

Zonas de Portugal desabitadas. Economia decrescia muito. Animais mortos. Espécies em vias de extinção. Pragas de predadores no meio urbano. Animais infelizes. Acabavam-se os animais de companhia. As crianças nunca mais veriam um leão ao vivo, pois os Jardins Zoológicos seriam proibidos. O mundo tornava-se num mundo somente humano, onde os valores predominantes seriam a raiva, o ódio, a zanga e o desrespeito.

Valores esses que hoje em dia já estão bem patentes, no entanto, e como já vi tanta coisa na minha vida, vou continuar na esperança de que as coisas possam mudar e de que esta malta nova perceba que as coisas não são assim tão fáceis e que temos de lutar para termos alguma coisa na vida e para sermos alguém.

Acabar com o mundo rural, com a minha (nossa) casa, com os meus (nossos) animais é acabar com o mundo inteiro e provocar uma catástrofe global!

E como podem ser vocês tão bondosos e generosos quando, no dia a dia, celebram a morte de seres humanos, que são caçadores?

Pensem nisso. Pensem no extremismo em que as vossas vidas se tornaram e não celebrem a morte! Isso é macabro!

ML.

 

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