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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

A vida de Matilheiro

"A vida de matilheiro não é fácil"... 

Esta é a frase mais proferida por todos os matilheiros com que falei. E por saber que a vida de matilheiro não é fácil, decidi conhecê-la melhor. Perceber o que era mais difícil, o que valia a pena e o que movia estes homens a fazerem aquilo que fazem.

Com opiniões muito idênticas, com um ar cansado, mas com muito amor envolto, percebi que tudo o que vejo nas montarias é, de facto, real. Bom ou mau, é o que se passa! Mas... E vocês matilheiros, como se sentem? No fundo, quem são vocês?

 

Se voltarmos atrás no tempo, cerca de 30 anos, veríamos que o matilheiro é um homem completamente diferente de hoje em dia. As primeiras matilhas que se conheceram em Portugal, vieram de Espanha, da elite que caçava. E por aqui ficaram e por aqui continuamos nós, portugueses, a desenvolvê-las. Mas ainda nesse tempo, as matilhas tinham um dono, um proprietário. E esse dono contratava um matilheiro para ir bater o terreno com os cães. O proprietário das matilhas era um senhor, o matilheiro era considerado uma pessoa mais simples e humilde, que comia à parte dos outros caçadores. No fundo, o matilheiro andava com os cães, como um pastor anda com o gado. Inclusive, nos anos 90, surge a Associação Portuguesa de Proprietários de Matilhas, que apenas servia para os proprietários dos cães.

Os tempos mudaram, as coisas foram-se desenvolvendo; e esta prática foi desaparecendo. Hoje em dia, os matilheiros são os donos dos cães e cerca de 70 a 80% deles têm negócios próprios e boas profissões. 

Mas "a vida de matilheiro não é fácil" e rapidamente percebemos o porquê disso mesmo.

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Para se escolher esta vida tem de se ter uma paixão desmedida por cães, pela natureza e pela caça; e é essa paixão que os move, e que os faz abdicar de tempo com a família, amigos, férias, etc. Podem ter 70 cães, 80, 90, 100, mas todos eles têm um nome, um chip e uma identidade. Todos eles estão ali, naquela casa, porque têm uma função mas, acima de tudo, porque merecem estar. 

E todos os dias, seja debaixo de chuva, debaixo de sol, ou de um vento forte, estes cães são tratados, são alimentados e são acarinhados. Talvez ainda haja a ideia de que os cães de matilha estão acorrentados, que comem duas vezes por semana e que são vítimas de maus tratos. Sinceramente, acredito que isso ainda possa existir. Como em todo o lado, há pessoas boas e pessoas más. Mas se escrevo isto e se falo dos matilheiros e dos cães de matilhas com este carinho que estou a depositar nas letras que escrevo, não poderei sequer pensar nisso. Penso realmente que o que escrevo descreve um matilheiro digno, típico do papel que assume e, acima de tudo, uma pessoa com valores, princípios e ética.

Para mim, esse é o verdadeiro matilheiro e é dele que falo hoje.

 

Um homem que todos os dias tem de tratar dos seus cães, como disse anteriormente. Todos os dias lhes dá comida (que tem um preço). Todos os dias limpa a sujidade que os cães fazem (que também tem outro preço). Todos os dias fala com eles, quiçá desabafa os problemas, mesmo que interior e silenciosamente. Como se estes cães fossem um diário pessoal. Em que podemos escrever /dizer tudo, porque somos somente ouvidos e nunca julgados. Podemos rir às gargalhadas, podemos chorar compulsivamente, e podemos gritar "merda" bem alto. Eles estão ali, sempre ali, serenos, a olhar para nós, e a fazerem-nos sentir os melhores "gajos" do mundo. 

Talvez a matilha seja um apoio psicológico para aqueles dias menos bons. Talvez a matilha seja já parte da família. E aqui não posso pôr mais talvez; estou certa que sim, que a matilha é a peça fundamental de um matilheiro, como caçador mas, acima de tudo como pessoa.

 

Isto é feito todos os dias do ano. Mesmo no natal, mesmo quando estão de cama, com febre, mesmo quando o mundo parece estar a desabar. 

E chega a época de caça. Parece que estes cães pressentem... Astutos, destemidos, fortes e guerreiros. Vão fazer aquilo que mais gostam e sabem-no. De cor e salteado... Nos dias de montaria a vida para estas duplas não é fácil.

"Dependendo do sítio, saio de casa por volta das 04:00h da manhã. Durmo pouco e descanso ainda menos. Colocamos todos os cães no carro, demoramos cerca de 30 minutos. Tenho a ajuda do meu filho, senão seria impossível. Acho que é isso que ainda me faz andar aqui..."

"Fazemos manchas muitas vezes difíceis, ou quase impossíveis, mas damos tudo por tudo. Nós e os nossos cães. Não seríamos ninguém sem eles. Por vezes passamos por alguns monteiros que nem bom dia nos dizem; mas em contrapartida, outros até saem das portas para nos falar."

Caçam para os monteiros. Andam quilómetros e mais quilómetros para conseguir corresponder às expetativas da organização. E tudo isto em troco de quê?

"Obviamente que andamos nisto porque gostamos. Não é pelo dinheiro porque, por vezes, o que recebemos é uma minoria."

 

Há dias em que as montarias correm menos bem. Em que se ferem cães e precisam de ir urgentemente ao veterinário. Ou dias em que se perdem cães e estão até à noite, para os encontrar. E sem a ajuda de mais ninguém... 

"Passamos muitas noites no carro ou à volta de uma fogueira à espera que cheguem todos os cães para que depois possamos então ir para casa. Se eles não voltarem, então é certo que no dia seguinte, bem cedo já estamos lá à procura deles. O máximo que tive de esperar foram dois dias. Tive dois dias no sítio da solta à espera dos cães que faltavam. É desgastante, sem dúvida. Mas acredito que seja bem mais desgastante para o cão que está à nossa procura, desorientado".

 

Sabem... Esta época, todas as montarias em que fui, recolhi um cão perdido ou que estava mais afastado. Apercebi-me de que os matilheiros já os estavam a recolher e senti que era minha obrigação ter que os ajudar. Eu sei que não é, mas é o que sinto. 

Na última montaria a que fui, um cão veio ter comigo à porta, a querer morder no porco que cacei e que coloquei à sombra. Não deixei. O cão era assustado, não se chegava a mim, mas também não ia embora. Percebi que a montaria estava a acabar e que tinha de o levar comigo. Mas como, se ele não se aproximava? Sentei-me. E fui falando. Estive cerca de 30 minutos a falar com ele... Ele, timidamente, dava um passo aqui, outro passo ali. Entretanto, já todos tinham saído das portas e eu decidi continuar ali. Tinha de levar o cão comigo. Deitei-me de barriga para o ar, com o braço estendido e continuava a falar e, ao mesmo tempo a chamar o cão. Ele aproximou-se (ao fim de algum tempo) e sentou-se a cerca de 5 metros. Continuamos ainda algum tempo neste "jogo", até que ele sentou-se mesmo ao meu lado. Com medo e muito devagar, dei-lhe a minha mão. Lambeu-me. Tinha ganho confiança em mim. Isto demorou cerca de 1:30h. Mais 30 minutos de viagem, em que tive de ir numa carrinha de caixa aberta aos solavancos com o cão, para ele não fugir. Encontramos o matilheiro e deixamos o cão. Senti-me tão útil mas, ao mesmo tempo, com pena. Bem sei que estão ali porque querem. Mas isto mexeu comigo, não sei explicar. Porque é que ninguém os ajuda? 

 

"Porque esse é o trabalho dos matilheiros, são pagos para isso. E porque os monteiros pagam a porta e não é a função deles fazerem mais do que fazem". 

Percebo. Concordo. Não o consigo fazer. 

Fomos almoçar. Como em todas as montarias, o almoço é sagrado. Para os monteiros e para a organização. Para os matilheiros nem sempre o é. Há dias em que nem sequer podem almoçar, não têm tempo para isso. 

"Há montarias em que nem almoçam nos guardam, o que é triste (...) Acontece cada vez menos, mas ainda acontece".

 

Exemplos de uma vida em que são vários os sacrifícios feitos. Exemplos menos bons, mas que se menorizam, quando se fala do que realmente importa.

"O ponto mais alto para mim, como matilheiro, foi fazer uma montaria e chegar ao fim da mesma com todos os monteiros e organização a aplaudirem-nos de pé e a dizerem "parabéns, grande trabalho". São essas palavras que nos ajudam a esquecer um pouco as contas das despesas que se tem com a matilha".

 

As despesas são realmente muitas. Ração, coleiras, licenças, seguros, água, veterinários, chips, gasóleo, atrelados, etc., etc. Obviamente que os matilheiros recebem (e bem) sob o seu trabalho. No entanto, alguns referem que é pouco, para as despesas que têm. "Os preços das portas sobem, e o preço da proprina dos matilheiros não sobe e, em muitos casos, desce, o que é difícil para conseguir manter uma matilha".

Pelo que me apercebi, a maioria dos matilheiros só consegue cobrir algumas despesas com o dinheiro que lhes dão. E as que consegue. Obviamente que quando falamos deste mundo (como em todos os outros), em que o dinheiro gere muita coisa, vários pontos poderiam ser abordados e várias diferenciações poderiam ser feitas. Se calhar há matilheiros que se tentam prejudicar uns aos outros; que fazem negócios com alguns pontos de interrogação, que tentam organizar montarias quando essa não é a sua função; que cobram valores por portas mais altos do que a própria porta vale; mas, como disse no início, o que escrevo aqui é sobre a vida de um matilheiro a sério; de um matilheiro que vive para a caça e para os seus cães.

 

Outra das questões essenciais é a criação e seleção dos cães. Ora, para se ser um bom matilheiro tem de se ter uma boa matilha. Para se ter uma boa matilha, têm de se ter bons cães. E esse é um dos aspetos que vários definem como "muito importantes" desta vida que levam. 

"Sempre me ensinaram que uma matilha deve funcionar, tal como uma equipa de futebol. O matilheiro é o treinador, os cães de porte ou de agarre são os defesas. Os cães que caçam mais curto ou que nos acompanham mais são os médios. E os cães ponteiros são os avançados."

Não podia estar mais de acordo! Seguindo este exemplo, temos de ter em conta também outros fatores: do que é que mais gostam os nossos cães? Em que circunstâncias conseguem ser eles os melhores? 

"Há cães que gostam mais de caçar no mato: silvas, estevas, terreno direito ou dobrado. Cada cão tem o seu tipo de mancha. Claro que todos caçam e se adaptam, mas são mais eficientes no terreno que mais gostam. Há cães que caçam de focinho no ar, a apanhar ventos e emanações; há outros que caçam de nariz no chão. Uns ladram à vista, outros ladram no rasto e outros ladram nas ladras dos outros."

Certamente que este é um trabalho que o matilheiro tem de fazer, no seu dia a dia, no campo com os cães. Vêm quais as caraterísticas de cada cão e percebem onde e quando os podem/devem utilizar. E para que isto aconteça e seja feito de forma distinta, é preciso ser-se bom. Muito bom. E acima de tudo é preciso gostar-se do que se faz e conhecer o cão como ninguém. 

 

Algumas das queixas que fui percebendo, ao longo das conversas que tive com os matilheiros, foi a falta de apoio que existe para com os mesmos. Por exemplo, preços mais baixos nas rações e nos acessórios para os cães; pouco apoio de algumas organizações nos dias das montarias. 

"Cada vez mais se faz caça maior e a evolução da montaria ainda está muito atrasada. E sinto que há matilhas a mais em relação à quantidade de montarias que se fazem em portugal".

"No ano passado gastei 8.000€ a fazer um canil, com todas as condições para a minha matilha. Comprei uma carrinha com uma jaula certificada pela DGAV e todas as licenças para poder transportar os meus cães. E sabe... Sinto-me injustiçado! Porque sei que muitos matilheiros não têm condições de transporte, não têm canis adequados e estragam a imagem dos matilheiros e das matilhas".

 

Para representar e defender esta classe, a Associação Portuguesa de Matilhas de Caça Maior (APMCM), representa os matilheiros e discute os assuntos de interesse dos mesmos na AR. Dão apoio jurídico, ajudam a que tudo esteja em ordem perante a lei e, acima de tudo, defende-os. Creio que este é um trabalho muito importante e que deve também ser valorizado. Não é fácil ouvirmos opiniões tão diferentes e conseguirmos chegar a um objetivo comum. Certamente que os matilheiros não estão de acordo sobre certos assuntos, uns com os outros, e esse é também um trabalho a ser feito.

Neste momento, há cerca de 200 sócios na APMCM, e 9.000 cães inscritos (o que poderia significar cerca de 300 matilhas).

Segundo os dados do ICNF, há 789 matilhas inscritas (no ICNF), sendo que essa inscrição é facultativa e sem custos.

Então porque não é este número coincidente? Se se querem fazer ouvir, porque não lutam por isso mesmo? Porque não tentam "limpar a imagem que há sobre as matilhas e os matilheiros", como me dizem alguns deles?

 

Mas quando falamos desse assunto tão vulnerável, pensamos no quê? Qual é a imagem que temos destes homens? Que pensam os caçadores sobre os matilheiros e sobre as matilhas?

"Os matilheiros, para mim, são aqueles que amam os seus cães, que os treinam, que lhes dedicam todo o tempo do mundo. São aqueles que conduzem e perseguem as presas até às portas. Mas infelizmente, hoje em dia, vejo que a palavra matilheiro cada vez se adequa menos com as funções. Vejo matilheiros a organizar montarias, com conflitos e rivalidades entre si, enfim... Se estamos todos no mesmo barco, porque não remamos todos nos mesmo sentido?"

"É um assunto um pouco complexo, pois há bons e há maus, como em todo o lado. Mas certamente que são a chave fundamental do sucesso de uma montaria, a par da organização. Mas sem um matilheiro e a sua matilha não há montaria. É um trabalho duro, principalmente também para os animais, devido às condições meteorológicas, do terreno, tal como este ano. E é duro também para os matilheiros que, muitas vezes, estão até às tantas à espera dos cães".

 

"Os amigos que vou fazendo e que tenho conhecido, ao longo destes 10 anos, são parte essencial da minha vida. Já são como família. É também por eles que ando aqui".

Família, amigos, amor, amizade... Pode um caçador pedir mais do que isto?

Obrigada Matilheiros, pelo trabalho que têm! Pelos heróis que são. Não é fácil. Nada fácil. E vocês continuam, com todas as condicionantes que encontram pelo caminho. Com as horas que passam fora de casa, com a primeira palavra que perdem do vosso filho, com as lágrimas que gastam quando mais um cão fica ferido.... Não é fácil e por isso, para mim, são os heróis da montaria! Desculpem-me os restantes, mas o verdadeiro Matilheiro e a sua Matilha são os heróis! E pode ser que um dia alguns o percebam e deixem de vos intitular apenas como os "gajos dos cães".

 

(Um obrigada especial, do fundo do meu coração, a todos os matilheiros que falaram comigo, ao Presidente da APMCM; António Ramos; e aos restantes caçadores que contribuíram para este artigo. Obrigada!)

ML.

 

(Artigo publicado na Revista Caça e Cães de Caça, edição de Fevereiro)

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