Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Bragança, um lugar encantado!

Pintada de tons quentes numa terra fria, Bragança é um dos locais mágicos de Portugal. Com um território rico em natureza, pessoas, costumes e tradições, esta terra conquista tudo e todos.

Não há tempo para sentir frio, não há forma de sentir Bragança como uma terra desconhecida. Quem lá vai, sente-se em casa. Quem lá fica, não quer voltar!

 

Este fim de semana que passou, partimos rumo a este território, com o intuito de julgar uma Prova de Santo Huberto, inserida na Feira da Caça, Pesca e Castanha. Há vários anos que lá vou mas, todos os anos, descubro e sinto coisas novas. E este não foi exceção.

Com uma viagem de muitos kms pela frente, o entusiasmo sobrepôs-se ao cansaço. Mas, simultaneamente, a tristeza pairava, quando passavamos por sítios que tinham sido atingidos pelo fogo. Devastador! Impressionante! Aterrorizante! E triste, muito triste... Estas foram as palavras que me surgiram para caraterizar as paisagens cobertas de negro que vi. Contam uma história, mas prefiro não pensar nela. Não neste momento...

 

 

Quando finalmente chegamos a terras transmontanas, fomos recebidos como uns verdadeiros "lordes". Mas isso já estou habituada, pois esta gente não sabe receber de outra forma. Jantamos na feira, javali com castanhas e finalizamos com umas castanhas assadas. Delicioso! Mas é impressionante constatar o efeito que a seca teve na agricultura e, neste caso, na castanha (castanhas muito pequenas).

 

No Sábado, decorreu a Prova de Santo Huberto, naqueles terrenos de caça típicos de Bragança, com uma paisagem a perder de vista. Estiveram presentes 16 concorrentes e foram feitas duas séries, que contavam para o Troféu da Norcaça, Norpesca e Norcastanha. Além disso, foi feita uma outra série de concorrentes que quisessem apresentar um segundo cão. 

Os juízes da prova foram o Fernando Fonseca, eu, a Paula Estrelo, o André Chaves (tirocinante) e a Liliana Sousa (juíz tirocinante da Fencaça, mas que aproveitou a oportunidade para aprender com outros juízes, numa outra realidade). Os postores, muito eficazes, foram o Sr. João, o Sr. Domingos e o Renato. 

As provas decorreram tranquilamente, num ambiente muito pedagógico. O André Chaves tirocinou comigo e, portanto, estivemos em constante aprendizagem e, além disso, tivemos oportunidade de falar com todos os concorrentes sobre a prestação de cada um. Creio que isso é uma mais valia no Santo Huberto.

Quando a prova terminou e nos dirigimos para junto dos concorrentes, ficamos a saber que o cão do Alexandre tinha parado uma lebre pequenina. O que fizeram? O Alexandre pegou na lebre (para o cão não fazer nada) e trouxe-a para junto de todos, guardando-a. Quando soube disto, fui a correr ver a pequena lebre, que era um doce. Ainda tiramos algumas fotografias mas, antes que ela entrasse em stress, soltamo-la no campo, no sítio onde a encontramos, para que continuasse a sua vida, em liberdade.

 

23361037_10156004461544455_1996162583_n.jpg

 

Todos os juízes julgaram a barrage, para decidir os 4 primeiros lugares para o Troféu e, entre chuva e sol, ficou assim ordenado:

1) David Faria, BAF

2) Jorge Silva, SIM

3) Luis Figueiredo, PM

4) Rui Vaz, SIM

 

Houve também um prémio para o melhor cão da série extra, que foi a perdigueira Piaf, do Paulo Fernandes.

 

23318859_10156004430064455_834914198_n.jpg

23231327_2113076868718163_781802136069456997_n.jpg

O almoço foi tardio, já marcava as 16:00h, e foi no recinto da feira. O ambiente era de boa disposição e companheirismo. Depois foi altura de dar uma volta à feira e ajudar o comércio local. Desde artigos de caça, a pinturas, passando pela parte alimentar, era possível encontrar alguma coisa que nos fizesse "perder a cabeça".

Pouco tempo depois, realizou-se uma Prova de Beleza, também no recinto da feira, que acolheu ainda muitos curiosos. Uma prova para cães de parar e para podengos, que continha vários prémios. Esta é uma prova que se faz sempre, para incentivar os concorrentes a mostrarem os seus cães e para enfatizar a importância da morfologia. Além disso, é sempre um momento de convívio, onde as várias pessoas que passam na feira, têm oportunidade de ver os cães e de conviver com eles. 

Obviamente que é uma prova não oficial, sem juízes oficiais e, portanto, os juízes da prova de santo huberto concordaram em ajudar e em julgar, mediante os seus conhecimentos. Houve prémios para todos, desde juniores a adultos, e britânicos a continentais.

 

23318857_10156004430674455_1371836710_n.jpg

23319084_127123174643350_8893889983470214632_n.jpg

 

Estavamos extremamente cansados, tinha sido um dia em cheio e, por volta das 21:00h, dirigimo-nos ao hotel, onde fiz um "novo amigo". Um cão típico da região de Trás os Montes, o Cão de Gado Transmontano, ainda muito confundido com o Rafeiro do Alentejo. Mas há diferenças e ainda são muitas. A origem desta raça une-se à história de todos os mastins ibéricos e a sua evolução está ligada à rota da transumância na Península. Tem funções específicas, nomeadamente, na guarda do rebanho contra o ataque dos lobos. Em todas as aldeias é possível verem-se estes cães. E, pelos vistos na cidade também. Ao chegar ao hotel vimos este cão de gado e foi difícil ter de o deixar. (Atenção que todos estes cães têm dono e uma função específica, nenhum está abandonado).

 

23361052_10156004432749455_1090558780_n.jpg

 

No Domingo, às 6 da manhã já estavamos acordados. Íamos caçar nestas terras maravilhosas, com paisangens encantadas e eu estava em êxtase. O Rui foi-nos buscar e ainda andamos muitos kms, entre curvas e contra curvas, até chegarmos a uma aldeia perto do Outeiro/Pineda. Saímos do carro, que já marcava os 0 graus. Estava frio, muito frio. Chegamos a uma casa de um senhor amigo do Rui, que depressa nos abriu as portas e nos deu tudo do "bom e do melhor", principalmente calor, comida e carinho.

 

23316249_10156004432954455_134251332_n.jpg

23377289_10156004432774455_1969926327_o.jpg

23318876_10156004433239455_1634016691_n.jpg

 

Quando chegaram os outros senhores que iriam caçar connosco, depressa nos preparamos para ir. Cães, espingardas, frio, mas muita vontade para descobrir os encantos daquele sítio. As ladras dos cães eram constantes, mas o terreno era difícil. Mesmo que saisse algum coelho ou lebre, poderiam facilmente escapar. E creio que foi o que aconteceu. Não vi nada, mas ouvia constantemente os podengos a laticar. Poderiam ser coelhos, mas também poderiam ser corços, pois aquela região está repleta destes duendes do bosque. Mas eu nem sei se estava ali a caçar ou a deslumbrar a paisagem e o terreno onde andava (mas isso também é caçar, não?) 

É maravilhoso. Não consigo encontrar palavras para descrever a caça em terras transmontanas. É totalmente diferente, mas totalmente surpreendente.

 

23336232_10156004433484455_1703002200_o.jpg

23316159_10156004436589455_1015409751_n.jpg

 

A uma dada altura, entramos num pinhal e, de repente, vimos umas estevas a mexer. Era sinal de que algum animal estava ali. Mas a forma como elas se mexeram, fez-nos constatar que não seria um javali, mas talvez um corço ou um veado. E estava bem perto de nós. O coração parou, nós paramos e sustemos a respiração. Olhavamos de um lado para o outro e as lágrimas tendiam a cair, pois nem piscar os olhos podiamos. Esperamos algum tempo, aproximamo-nos do local, mas este animal astuto tinha tomado outra rota. Não o vimos, mas sentimo-lo. E por vezes isso é bem mais gratificante.

Posteriormente, fomos ter a uma "mãe de água" onde, uma vez mais, a vista era incrível. Sentamo-nos, ao sol. Íamos vendo o trabalho dos pondegos (estavamos num ponto alto e conseguíamos ver melhor). De repente, vemos uma lebre a correr, junto às casas, mas era impossível atirar. A lebre fintou os cães e subiu encosta acima. Estes continuavam o seu trabalho, e ela furtou-se, com aquele seu zigue zague caraterístico. Um instante depois, os cães pegaram no rasto e seguiram até não os ver mais.

 

23376901_10156004437394455_948090727_o.jpg

 

Tivemos de ir almoçar cedo, pois à tarde iríamos fazer um gancho e anoitece muito cedo. Quando chegamos àquela casa onde tinhamos sido tão bem recebidos, o cenário encantou-me. Eles são diferentes, sabem? São calorosos, são hospitaleiros e sabem receber. Não é que nós não sejamos assim, mas é diferente.

Borrego assado, batata cozida com cebola e vinagre, pão e presunto. A mulher do dono da casa já havia posto a mesa e preparado tudo para nós. Um doce aquela senhora.

 

23315954_10156004438454455_1703032872_n.jpg

23316008_10156004438434455_1962828178_n.jpg

23315992_10156004425064455_1207775021_n.jpg

23360925_10156004437749455_401095737_n.jpg

 

Depois deste fantástico almoço, partimos para o gancho, um sítio que ainda não tinha sido monteado este ano. Preparavam as matilhas e qual não foi o meu espanto quando vi que o cão de gado transmontano também era usado para a caça ao javali. 

 

23336548_10156004438804455_1778821449_o.jpg

 

O local a ser monteado era absolutamente maravilhoso.

 

23377260_10156004438784455_1762918119_o.jpg

 

Estava frio. Estava demasiado frio para estar ali parada. Quando me colocaram na porta, depressa analisei as passagens, os caminhos e os sítios mais prováveis de fuga. Esperei. Como espero sempre e como espararei sempre que me for possível. Depressa começo a ouvir os cães. Latiam e voltavam a latir. Até que começo a ouvir um latido cada vez mais próximo de mim. Era um cão que vinha atrás de algum animal. Preparei-me. Tinha as mãos congeladas, os dedos já roxos, mas ainda assim preparei-me. O meu coração disparou. Olhava para todos os lados. Será que iria sair para mim? Será que continuaria? Eu estava num lameiro, numa baixa. O latido é cada vez mais forte e mais próximo. Parece-me apenas um cão. Os outros devem ter ficado para trás.

E, de repente, numa questão de segundos, vejo um corço a saltar no caminho. Eu estava um pouco longe, e esse caminho era encoberto por árvores. Ou seja, tinha apenas uma fração de segundos para disparar mas, o comportamento deste animal é bem diferente de um javali, por exemplo. Nunca tinha visto um corço e nunca tinha estudado o seu comportamento. Não atirei, claro, pois não podíamos. Continuei a ouvir o cão, mas cada vez se afastava mais. 

Sentei-me. Estava tudo molhado, mas ainda assim sentei-me e respirei fundo. Que emoção! Que sentimentos indescritíveis consigo sentir neste mundo. Os cães ladravam constantemente, mas eu parece que tinha ficado na história que tinha vivido ainda há pouco. Nada se passou, mas tudo se passou. 

Comecei então a ouvir muitas ladras. Os cães estão com outro bicho. Uma vez mais, as ladras começaram a ser cada vez mais intensas, tal como acontecera há pouco tempo. Desta vez o animal é diferente. Sinto-o a vir. Faz um barulho diferente, mexe-se de forma diferente. E passa por mim, no meio do mato à minha frente. Obviamente que não o vejo, mas sinto-o. Ele poderia ter o mesmo comportamento que o corço, e sair no caminho. Eu já me tinha colocado noutra posição, esperando que ele pudesse adotar esta atitude. Mas não o fez. Continuou no mato, onde provavelmente se sentiria mais protegido. Ouvi um matilheiro gritar "é um navalheiro enorme". Com o barulho que fazia, tinha de ser um porco grande, sem dúvida. Ninguém atirou. O Zé ainda o viu muito longe, mas não conseguia atirar e confirmou, efetivamente, que era um javali enorme.

Todos vimos, todos sentimos e todos ficamos felizes. Um dia é da caça, outro do caçador. Mas sabem... Senti que este foi o dia da caça mas, acima de tudo, foi o meu dia. Como caçadora, senti-me a crescer, senti-me a aprender e a viver uma forma de estar na caça diferente daquela em que vivo.

 

Obrigada Rui Vaz! Obrigada Professor! Sem vocês nada disto teria sido possível. Estou-vos tão grata. Obrigada por me terem proporcionado este fim de semana maravilhoso. O resto, a natureza encarregou-se de o fazer.

Brangança... Meu lugar encantado! Obrigada!

ML.