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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Caçadores alimentam animais depois dos incêndios

"Têm que proibir a caça nas zonas que arderam"

"Os caçadores não descansam enquanto não matarem os animais que restam dos fogos"

"Eles só querem estragar o pouco que ainda resta"

(...)

 

Estes são os comentários mais fáceis de se fazer; e os mais pronunciados nos últimos tempos. Mas sabem... Chega a um ponto que nos cansamos... Cansamo-nos de ser humilhados constantemente. Cansamo-nos de viver num mundo onde qurem acabar com a liberdade. Mas, sobretudo, cansamo-nos de viver num mundo onde existem pessoas más, demasiado más; em que o intuito de vida é julgar. Julgar os outros, sem olhar para si próprias. Condenar atitudes que não conhecem nem percebem, em prol de uma moda que os faz sentir bem.

E, portanto, sinto que não vale mais a pena perder tempo com pessoas assim. "Falam muito, mas não fazem nada..." 

E como o importante nesta vida são as pessoas boas, os sentimentos bons e os corações gigantes, trago-vos uma história real de alguém que "fala pouco, mas faz muito". 

Esta é a história de um grupo de pessoas, atacadas constantemente, porque são (imaginem) caçadores. Esta é a história que fez a diferença na vida de muitos animais. 

 

Os incêndios destruiram muita coisa. Para além de vidas humanas, de casas, de carros e de aldeias inteiras; os fogos destruiram a vida de milhares de animais e, consequentemente, a sua casa, a natureza. Árvores ardidas, plantações destruídas, esconderijos que desapareceram e vidas que ficaram queimadas para sempre.

O que temos nós, como cidadãos preocupados com a natureza, de fazer nestas situações? Esperar que as entidades atuem? Esperar que aconteça um milagre? Ou fazermos alguma coisa?

 

Foi isso que uma caçadora decidiu fazer: alguma coisa. Desde pequena que o que mais gostava era de ir para o campo, em Ferreira do Zêzere, brincar e acompanhar o seu pai. Quando cresceu, esse passou a ser o seu ritual e a natureza era, sem dúvida, a sua segunda casa. Mesmo trabalhando em Lisboa, todos os fins de semana voltava à sua terra de origem, onde conseguia chegar à natureza, com os seus cães e descomprimir, respirar ar puro e ser verdadeiramente livre. Conhecia todos os cantos daquela paisagem absolutamente incrível. Mas, de um dia para o outro, tudo desapareceu. Toda a sua infância, toda a sua juventude, tudo foi destruído, num ápice. Foi isso que sentiu, quando ligou a televisão e viu Ferreira do Zêzere a arder. As lágrimas escorriam-lhe. A dor era forte, muito forte. Por todos aqueles que lá estavam, mas por tudo aquilo que nunca mais veria. 

Chorou. Chorou muito. Pensou em quem poderia ter sido o culpado. Mas não era isso que importava naquele momento. Ligou para todos, confirmando que estavam bem, mas despedaçados. Assim como ela.

Depois de fazer o seu luto, das suas coisas, da sua segunda casa, decidiu pôr mãos à obra. Tinha de fazer alguma coisa; tinha de devolver à natureza um bocadinho de amor e de alegria, que ela lhe dava constantemente. 

E então decidiu ir ao local para ver como estavam as coisas:

 

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Sobraram umas árvores queimadas. O sol queria penetrar-se entre elas, mas até isso parece ser impossível. "O momento em que vês que tudo aquilo que conhecias se desvaneceu, é inexplicável. Não consegues pensar em nada. Só consegues sentir. Raiva, dor, zanga. Com o mundo, com todos à tua volta. E sentes que, por vezes, a vida é uma grande injustiça e que não há milagres. E eu senti que tinha de ser o milagre para o que restava aqui".

 

E foi isso que fez. Transformou-se no milagre para milhares de espécies que conseguiram sobreviver. Arranjou um grupo de pessoas que a ajudaram - com alimentos, com deslocações e com ajuda física. 

 

Começaram a ir a Ferreira do Zêzere todos os fins de semana e levavam muitos quilos de milho e trigo, para alimentar os animais. Além disso, criaram bebedouros para que não faltasse o indespensável à vida: a água.

 

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De Lisboa a Ferreira do Zêzere são cerca de 170kms para lá, 170kms para cá. Pagam-se portagens. Paga-se gasóleo. Paga-se manutenção do carro. Só não se pagam as horas livres que se perdem a ajudar algo ou alguém. Creio que realmente não há dinheiro que pague isso. Mas há muitos sentimentos bons que o conseguem fazer. E há muitas imagens também que o descrevem. E mostro-vos o exemplo disso:

 

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Passadas somente duas semanas este era o resultado. Pegadas de vários animais. Ou seja, o trabalho que todos tiveram estava a dar frutos. Os animais iam-se alimentar e refrescar no sítio que os caçadores estiveram a cuidar e preparar.

Esta é uma história básica para muitos: um grupo de pessoas que levava comida todos os fins de semana para os animais. E os animais alimentaram-se dessa comida. 

Mas sabem é tão mais que isso... Ninguém consegue perceber a dimensão destes actos, porque não os viveu e porque não tem a perceção de toda esta envolvência. 

Agradeço-vos a vocês caçadores por serem quem são e por terem estas atitudes tão importantes, que salvam a vida de milhares de animais, a quem lhes foi tirado tudo (alimento, casa, etc.).

Obrigada Helena e parabéns por seres assim, humana, preocupada e sensível a estas causas!

Que ruins são os Caçadores...

ML.