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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Caçadores colaboram no estudo da doença hemorrágica viral

Como é do conhecimento comum, a espécie coelho bravo, está a ser dizimada devido à doença hemorrágica viral. Este é um problema gravíssimo que afeta não só a espécie em si, como os restantes animais, como é o caso do lince - se não têm base de subsistência, será difícil a sobrevivência.

 

Há algum tempo várias entidades criaram o projeto MAIS COELHO, que tem como objetivo a recuperação do coelho bravo. Para isso, começou por haver uma recolha sistemática de amostras de sangue, tecidos (fígado, baço e duodeno) e parasitas em coelhos abatidos em zonas de caça. 

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A ANPC selecionou um conjunto de 14 zonas de caça cujos concessionários e gestores se disponibilizaram para colaborar no projeto, permitindo não apenas a recolha de amostras em coelhos caçados durante a época venatória, como a recolha de cadáveres de coelhos encontrados ao longo do ano, para além de um trabalho de monitorização detalhada das populações de coelho e de predadores, por forma a detetar flutuações populacionais e a determinar a suas causas, ao que acresce um trabalho de caracterização detalhada dos modelos de gestão utilizados, com destaque para as medidas destinadas à recuperação das populações de coelho bravo.

E este fim de semana, a ANPC, juntamente com os caçadores de uma
 Zona de Caça Associativa, em Vila Nova de Milfontes e de uma Zona de Caça Turística, a pouco quilómetros da fronteira com Espanha, na região de Mértola; juntaram-se para a recolha de mais amostras e para conseguirem, efetivamente, ajudar o coelho bravo.

 

Porquê estas duas zonas de caça? Primeiramente, porque são zonas onde ainda existem muitos coelhos e, depois, porque são zonas de caça que albergam (ou albergaram) linces e cujos gestores fizeram (e fazem) grande trabalho para a preservação desta espécie bem como de outras espécies com elevado estatuto de conservação.

A ZCT de Mértola, com 4 exemplares de lince ibérico na atualidade, incluindo crias nascidas este ano, ao passo que a ZCA das Casas Novas ficou famosa por ter acolhido o Hongo, lince espanhol proveniente de Doñana, que veio até Portugal, estabelecendo-se nesta ZCA durante longo período.

Voltando ao Hongo, a presença deste macho de lince-ibérico foi detetada pelas câmaras que a ZCA usa para monitorizar a fauna e comunicada ao ICNF pelos próprios gestores desta zona de caça, em 2013, numa altura em que a espécie era considerada extinta em Portugal. A Direcção da ZCA das Casas Novas foi inclusivamente galardoada com um prémio, pela colaboração que deu na preservação do lince, tendo-se empenhado ativamente para que o Hongo tivesse as melhores condições possíveis e colaborando permanentemente com a equipa de monitorização do ICNF, no terreno. Foi assim, com grande pesar que, passados cerca de 2 anos e meio da primeira deteção do Hongo, tiveram conhecimento da morte deste exemplar por atropelamento (em outubro de 2015, em Vila Nova da Barquinha), no decurso de uma das explorações que este macho periodicamente fazia a outras paragens (talvez em busca de companhia!), sendo que nos anteriores passeios, regressava sempre a Milfontes, onde sabia dispor de comida e tranquilidade.

 

Então, e voltando à história do fim de semana, um grupo de caçadores juntou-se para ajudar neste projeto de investigação. Um dia difícil, com temperaturas muito elevadas e, sobretudo, com um terreno caraterizada pela seca extrema que se vive. Na ZCA de Vila Nova de Milfontes, havia indícios frescos e abundantes da presença de coelhos, contudo, as inúmeras covas (em chão de areia) localizadas em zonas de tojal e zimbral denso, dificultaram em muito a tarefa dos caçadores e dos cães, já que ao menor ruído recolhia tudo para os abrigos -  a progressão (destes e dos cães) no terreno, torna-se particularmente ruidosa e audível a grandes distâncias.

 

E, portanto, apesar de todas estas dificuldades, os cães fizeram um trabalho exímio e permitiram que se recolhesse 20 amostras no terreno. Não podia deixar de fazer um parêntese aos cães, mais concretamente, à raça Podengo Português. Bem sabem o carinho que tenho por esta raça. E a matilha do Nuno Ferro demonstrou ter muito nível, não só pela forma como detetaram a caça mas, sobretudo, pelas condições adversas que tiveram de enfrentar e, ainda assim, nunca desistiram. E quem conhece o podengo, sabe que está é uma das caraterísticas base da raça: nunca desistem, mesmo quando achamos que já não conseguem mais!

 

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As amostras foram surgindo e, enquanto o grupo progredia no terreno, a ANPC recolheu sangue, fígado, baço, duodeno e parasitas dos coelhos caçados, prontamente entregues pelos caçadores para que fosse possível colher o sangue por punção cardíaca, antes que se iniciasse a coagulação.

 

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Creio que, uma vez mais, não existem palavras suficientes para expressar a boa vontade deste grupo de caçadores e a boa vontade deste grupo da ANPC, que se disponibiliza a fazer um trabalho exímio na recuperação desta nossa espécie. Perdem-se dias, horas, momentos em família, momentos de descanso, para conseguir salvar o coelho bravo. Obrigada à ANPC! Obrigada ao Nuno Ferro e à sua matilha! Obrigada a todos os outros caçadores e restantes envolvidos. É por existirem pessoas assim que conseguimos pensar que o mundo pode ser um lugar um bocadinho melhor, todos os dias.

 

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 ML.

 

(Fotografias e parte do texto retirado da página de Facebook ANPC)