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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Carta à Família do Toureiro Victor Barrio

Custa. Custa muito...

 

Ninguém imagina a vossa dor! Ninguém poderá sequer falar sobre ela... Ver um filho ou ver o marido a morrer, em direto, na televisão, é deveras doloroso. Aliás, nem sei bem qual o termo que devo empregar. Será que doloroso basta, para tentar caracterizar essa dor?

Não sei. Mas sei que custa. Custa muito...

 

Saber que aquela foi a última vez que olharam para ele. Um olhar com sofrimento e ansiedade. A última vez que o viram a movimentar-se, a fazer aquilo que mais gostava, aquilo para que tinha nascido! Mas, quis o tempo, ou quis alguém superior, que o Victor partisse. E será que devem culpabilizar esse tempo ou esse alguém superior?

Não sei. Mas sei que custa. Custa muito...

 

Todos temos o direito à vida. E todos sabemos que a nossa passagem por esta mesma vida é curta, demasiado curta por vezes. Mas todos temos o direito à mesma. Por isso aboliram a prisão perpétua em Portugal. Por isso aboliram a pena de morte em Portugal (última data - 1976). Porque acreditavam que até as piores pessoas do mundo tinham direito à vida. E aquela tal força superior é que tinha o poder de decidir quando terminaria isso, não os cidadãos comuns. Se está certo ou errado?

Não sei. Mas sei que custa. Custa muito...

 

A dor é enorme, parece um abismo sem fim. É como se decidissemos saltar de uma pedra, que está bem no alto de uma montanha. Sabemos que custa saltar, porque não sabemos o que está lá em baixo. Mas temos de saltar, por algum motivo. No entanto, ao saltarmos, o fim não aparece. E o sofrimento, a dor e a tristeza são tantos que deixamo-nos ir e "seja o que Deus quiser". Se alguém deveria passar por isto? 

Tenho a certeza que não. Sei que custa. Custa muito...

 

É olhar para o mundo, que outrora teria um tom ameno e colorido, e hoje está repleto de escuridão. É olhar para as papoilas vermelhas no campo, que parecerem demónios negros a emergir do solo. É chegar a casa, à nossa casa, e sentirmos que estamos numa casa assombrada, que nunca pertencemos ali. É olharmos para o nosso prato preferido e sentirmos náuseas só de pensar em comer. É estarmos num estado total de exaustão e não conseguirmos fechar os olhos, nem por um segundo. É olharmos para todas as certezas que tinhamos e vermos, subitamente, que não há mais nada na vida, a não ser a dor. E que o hoje nunca mais parece ter fim...

 

E em jeito de conclusão, não poderia deixar de me referir àqueles que festejam a morte de uma pessoa. Seja ela toureira, agricultora, pescadora, política ou sem abrigo. Quem somos nós para celebrar a morte de alguém? Quem somos nós, cheios de telhados de vidro, para dizer que "sim ele morreu e todos os toureiros deveriam morrer"? Em que mundo estamos nós? E isto porque o animal irracional sobrepôs-se ao animal racional, o Homem. E porque a vida começa a ser tão linear e equiparada a uma brincadeira de crianças. A brincadeira da Barbie e do Ken, em que ditam quando querem que eles morram. No entanto, sabemos bem que as crianças nunca querem que os seus bonecos morram. E porquê? Porque a morte é assustadora e perder um ser humano ainda mais o é. E ninguém tem o poder de festejar isto. Porque essas mesmas pessoas que o fazem são, certamente, contra a pena de morte, não é? "Coitados dos pedófilos, coitados dos violadores... Todas as pessoas devem ter uma segunda oportunidade na vida". Poupem-me esta hipocrisia mundial que está a tomar umas porpoções descomedidas. 

NINGUÉM pode ter a coragem de se dirigir à morte deste Homem como estão a fazer! Já não há respeito, já não há valores, muito menos creio que haja sentimentos... O mundo está mesmo ao contrário, mas será que alguém já reparou?

E portanto, dirigo-me a vocês, família do Victor Barrio, somente para vos dizer que sei que custa. Custa muito... Mas também sei que ele irá olhar por vocês, todos os dias, e dar-vos força para seguirem este caminho, a que muitos chamam Vida, mas a que poucos valorizam e respeitam!

ML.