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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

De quem é a culpa dos incêndios?

Desculpem-me, mas não consigo parar de pensar em tudo isto dos incêndios. Não consigo parar de pensar no que poderá ter originado isto mas, sobretudo, nas pessoas e nos animais que morreram. No pânico e na aflição que se viveram. Como é que um ser humano pode estar preparado para viver momentos destes? Sim, como é que se preparam estas pessoas? Onde é que vão arranjar coragem e força para tudo isto? Realmente, o ser humano é incrível e talvez seja por isso que me dediquei a estudá-los durante anos. 

Sou curiosa. Muito curiosa. E tive de conhecer os culpados destas tragédias. Esse é um dos pontos fulcrais - conhecer quem é o culpado. Bem sei que o mal já está feito e isso não leva a nada. Mas para aquelas pessoas que perderam alguém, que perderam alguma coisa, é essencial saberem de quem foi a culpa. Porque todos sabemos que a culpa não é dos incêndios, mas sim de alguém que os ateou. Ou de alguma "força superior", como as temperaturas. Há um culpado e é nesse culpado que estas pessoas precisam de descarregar a sua raiva e a sua tristeza.

Porque agora, tudo é ainda recente, e as emoções estão muito difusas. Mas quando começarem a voltar ao dia a dia e às rotinas, os sentimentos mais negativos virão ao de cima, e terão de fazer um processo de luto.

 

Então, de quem é a culpa dos incêndios?

Diz-se que é do Governo e dos governantes que temos, porque não tomaram medidas de prevenção e porque poderiam ter evitado muitos dos incêndios que deflagraram. Estou de acordo! Há falta de uma politica florestal correcta, de ordenamento, limpeza e vigilância das matas. Isso não acontece porque foi extinto o Corpo de Guardas Florestais que existia nos Serviços Florestais e os seus efectivos foram integrados na GNR. Então e quem cuida das matas agora? Ninguém! Ou são os donos das terras que se preocupam ou são os caçadores que, por livre vontade, se dedicam à limpeza das matas, como já contei há algum tempo atrás. De resto, ainda se acredita nas histórias da Diseny e que a natureza se equilibra sozinha; e que, quando houver um fogo, "ela saber-se-á defender". Que irrisória utopia! 

Este governo colocou de lado os verdadeiros sábios florestais; aqueles que todos os dias andavam no terreno, que conheciam as florestas como a palma das suas mãos. Que sabiam o que fazer, quando fazer e como fazer. O mundo rural é deixado de lado, constantemente, para dar lugar a uma política citadina, onde importa se os cães podem ou não ir comer aos restaurantes.

 

Outro dos grandes culpados, é o tempo e as condições metereológicas. Mas, aqui, sabemos que não podemos atuar. Não temos, nem nunca teremos, o poder de parar o vento ou fazer com que chova, quando queremos. Então temos de nos adaptar a essa situação e às constantes mudanças climáticas. Mas, e permitam-me dizê-lo, se houvesse a tal prevenção de que se fala, o tempo talvez não tivesse tido o efeito que teve. No Alentejo, as temperaturas são mais altas; a seca é extrema e, se formos analisar os incêndios que aí existiram, depressa nos apercebemos que, secalhar, o tempo não é a premissa que dispulta tudo isto.

 

O ordenamento do território. Falou-se muito dos eucaliptos e de que os fogos se propagram porque teria sido num eucaliptal. Se fosse com outra espécie, as coisas não teriam acontecido desta forma. Paulo Fernandes, demonstrou que um povoamento florestal pouco gerido e com elevada densidade de matos reage ao fogo de forma semelhante, independentemente da espécie dominante. "Se houver montado em que o sub bosque não é gerido, não havendo uso agrícola ou de pastoreio, pode haver fogos de 20 mil hectares em sobreiro, como no ano passado, na serra do Caldeirã", salienta Henrique Pereira dos Santos.

Portanto, não será a forma como se gerem as florestas, mais importante do que a espécie dominante? Ou é mais fácil desculparem-se com o eucalipto?

 

Não podia deixar de pensar (e falar) nos incendiários, por mais que nos custe pensar que há pessoas assim. Mas a verdade é que estes incendiários ateiam o fogo, com o intuito de obter ganhos económicos, para expressar ideias sociopolíticas, encobrir cometimento de outros crimes, por vingança, como “comportamento decorrente de incapacidade do sujeito avaliar as consequências dos seus atos (demência, deficiência mental ou intoxicação por substancias), ou ainda com o intuito de se conetarem com o corpo de bombeiros, querendo tornarem-se num” (APA, 2006). 

O Federal Bureau of Investigation (FBI) sugere que os incendiários possuem seis motivações principais para a prática do delito: Vingança; Excitação; Vandalismo; Lucro; Ocultação de outro crime e Extremismo (Kocsis, 2010).

Em Portugal existe um estudo intitulado “Tipologias dos incendiários portugueses e as suas implicações para a investigação e estratégias de prevenção”, que projeta como objetivos a caracterização criminal, psicológica e social dos incendiários em questão. As variáveis estudadas estão relacionadas com o comportamento criminal, aspectos sociais demográficos e questões psicológicas e jurídico-penais (Soeiro & Guerra, 2014) e são as seguintes: os incendiários portugueses são, sobretudo, do sexo masculino, solteiros, entre os 20 e 35 anos de idade. São analfabetos ou com o 1º ciclo. Como ignição dos fogos utilizam velas, fósforos e isqueiros, sobretudo, em florestas.

Assustador, não é?

 

 

Existem também os pirómanos. A piromania pode ser definida como uma “perturbação rara do controlo dos impulsos, caraterizada por um padrão contínuo de comportamentos incendiários de forma propositada por prazer, gratificação e libertação da tensão” (F. Almeida & Paulino, 2012). Existe um fascínio, interesse, curiosidade e atração pelo fogo. Posteriormente, sentem prazer, gratificação ou alívio no decorrer e no testemunho do incêndio, bem como no seu rescaldo (APA, 2006). Os incêndios incitados pelos pirómanos, frequentemente à noite, são por preceito provocados à pressa e de forma desorganizada, utilizando fósforos, jornais para iniciar o delito. Por norma, provocam numerosos incêndios até serem capturados (Holmes & Holmes, 2009)

Frequentemente, estes sujeitos confessam o crime ou admitem a culpa, apesar de não sentirem remorsos, arrependimento ou responsabilidade pelo seu comportamento. Normalmente, encontrando-se calmos e são colaborantes durante a detenção”, (Almeida & Paulino, 2012,).

 

Por interesse, ou por doença mental, estas pessoas cometem crimes terríveis e, muitas vezes, são perdoadas com penas suspensas. E com isto poderíamos falar sobre a justiça no nosso país. Mas já chega de desgraças!

 

Através de dados do Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais do Centro de Investigação Comum da Comissão Europeia, é possível constatar que Portugal, bem como Espanha, França, Itália e Grécia, são dos países mais fustigados a nível Europeu pelos incêndios florestais, contudo Portugal, nos últimos anos é o país que retém o maior número de ocorrências. Porquê? 

No ano de 2013, houve um prejuízo ambiental e material na ordem dos 219 milhões de euros, sendo este valor superior em 14, 6 milhões de euros ao valor médio da década anterior. E este ano, qual será o prejuízo, tendo em conta que ardeu bem mais que em 2013? E nem falo no prejuízo para as milhares de pessoas que viveram este drama... Porque esse não pode ser pago, nunca! E esse os governantes nunca poderão comprar!

 

Talvez estes culpados percebam, de uma vez por todas, que o povo português só quer ser feliz ou, pelo menos, viver minimamente bem, num país desenvolvido e que é o melhor destino europeu para o turismo. Bem sabemos que devemos ter as nossas cidades limpas para os milhares de turistas que nos visitam e que fazem crescer a nossa economia.

E as nossas florestas? E o mundo rural? Não merecem isso?

 

(Isto é para vocês, que perderam a esperança e a vontade de viver. Para saberem que, um dia, tudo vai ficar bem e tudo irá voltar ao normal. E que os culpados serão apanhados e que a justiça será feita. Porque eu sei que, neste momento, a revolta é grande e os culpados terão de ser "apanhados"

Justiça! Neste momento, é somente isso). 

ML.

 

Bibliografia: Ferreira, Sandra. 2015. Incendiários - entre os media e a realidade. Instituto Superior da Maia

                     Dos Santos, Henrique Pereira. 2013. Fogos e eucaliptos. Jornal Público.

 

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