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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Dia de Caça com frio e muitas emoções à mistura

Com um fim de semana prolongado, e em plena época de caça, estranho seria se tivesse outro programa a não ser caçar. Esta já se tornou na minha forma de vida e, por isso mesmo, faça chuva ou faça sol, as indecisões prendem-se somente com o sítio onde vamos caçar, com os cães que vamos levar ou com as horas que iremos combinar.

 

Eram 07:00h quando o despertador tocou. Tínhamos combinado às 07:30 num café ali próximo. Levantei-me num ápice, e vesti-me. Tinha duas cadelas ainda a dormir, com a preguiça de sairem da cama, aliado ao frio que já se sentia. Comi qualquer coisa rápido, e fui colocar os cães na carrinha, que já pulavam de euforia. 

O frio sentia-se mas, acima de tudo, via-se. A carrinha estava coberta de gelo, indicando que as temperaturas tinham sido extremamente baixas, de madrugada.

Depois de conseguirmos ver alguma coisa nos vidros, fomos ter com o grupo ao tal café. Já todos nos esperavam, enquanto bebiam café, e contavam umas histórias. Isto é uma das coisas que mais gosto na caça: o convívio e a amizade. Fui caçar com o Zé, com o meu pai e com dois dos meus melhores amigos. Se poderia ser melhor? Creio que não. Ter estas pessoas à minha volta, preenche-me o coração e leva-me a caçar, a cada instante, com um sorriso nos lábios, e também com a preocupação de saber se todos estão bem e a divertir-se.

 

Chegamos ao campo e vimos um bando de perdizes bravas, que caminhava, passo a passo, à nossa frente. Seria isto um bom presságio? Conseguiriamos vê-las depois, enquanto caçavamos? Certamente que nos deu logo um alento diferente e uma adrenalina (ainda) maior.

Saímos dos carros, pé ante pé, tentando fazer o menor barulho possível. Com a temperatura a registar -6 graus, despi todos os casacos que me aqueciam, e fiquei de camisa, pois sabia que a caminhada que me esperava era longa e difícil. Tremia de frio, enquanto vestia o colete e os safões. Coloquei a cartucheira à cintura, o apito ao pescoço e um chapéu fluorescente, para que todos me vissem, enquanto caçavamos. Uma garrafa de água no colete, e um maço de lenços. Estava pronta. Mas antes, fui abraçar o Martín, que pulava de alegria e corria de um lado para o outro, feliz por saber que estavamos ali para caçar.

 

Tudo pronto, a linha dividida e foi tempo de subir encostas e andar mato adentro. Os cães saíram com muita força, e nunca conseguimos dar com as perdizes. As bravas são assim... Astutas e difíceis... Começo a ouvir um beep. Um cão estava parado. Corri para a frente, mas entretanto ouço um tiro. "É uma galinhola", gritavam. Os cães rodopiavam de felicidade, à nossa frente, esquerda, direita, com a cabeça mais acima da linha dorsal e, ao mesmo tempo, com a cabeça no chão, quando encontravam algum rasto. 

"Uma lebre", gritavam outros. E os cães corriam atrás dela, porque tinha sido impossível atirar. Estavamos dentro de um mato cerrado. E ouve-se novamente um beep. Outra galinhola que, desta vez, foi cobrada pelos cães. 

Continuamos a andar, e com um sorriso diferente. Os cães já tinham visto caça e já a tinham cobrado. Nada melhor para um caçador e para um cão de parar...

 

 

 

 Os lances que vivíamos, iam protagonizando a nossa manhã. Ia ouvindo uns tiros aqui e outros ali... Era bom sinal!

Juntei-me mais ao Zé, que tem duas cadelas de excelência para a caça às galinholas. De repente, ouvimos novamente o beep e corremos na sua direção. O Zé assistiu a cadela, que fez uma guia brilhante. A galinhola sai, num voo típico e repentino e, ao mesmo tempo, passa uma perdiz brava por cima de nós. Destino ou telepatia, o Zé atirou à galinhola e eu atirei à perdiz. Não combinamos, mas talvez soubessemos o que cada um iria fazer. O Martín corre para cobrar a perdiz e a Benny corre para cobrar a galinhola. E vêm ambos na nossa direção, com a caça cobrada, e com o rabo a dar a dar. Baixamo-nos para receber e agradecer este momento. Não sei se lhe chame sorte, uma cena de filme ou outro nome qualquer; o que é certo é que foi maravilhoso poder partilhar este momento, desta forma.

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 Sorrimos os dois, e continuamos a caçar. O frio já não nos incomodava, o sol batia-nos nas costas e ajudava a que nos sentissemos mais quentes. O mato "encurralava-nos" e não deixava que o frio penetrasse por ali. 

A um certo momento, depois de fazermos uma pausa nos carros e combinarmos a linha para um outro terreno, íamos todos a caçar quando começo a ouvir um latido de um cão. Um latido diferente, que se aproximava cada vez mais. Pensei que poderia ser um cão atrás de uma lebre. Cada vez mais perto de mim. Coloquei-me na estrada, perto da vedação, onde poderia ser mais fácil de avistar esta fuga. O barulho era forte, a partir mato. Não achei que uma lebre fizesse todo este ruído. Corri para a frente. Até que avistei, a poucos metros de mim, um javali macho, a correr. Passou por mim e olhou-me, olhos nos olhos. Não sei se brilhavam mais os meus ou os dele... Estava deitado ao sol, naquela encosta, um javali macho, isolado. Talvez um navalheiro... Consegui ver que era macho, tamanho médio, mas nada mais que isso. Neste momento que durou talvez cerca de 5 segundos, vejo o cão atrás dele. O Martín, que estava ali perto, quando pegou no rasto do javali, foi atrás dele a latir de uma forma que nunca tinha visto. Eu corri com todas as minhas forças atrás deles, mas nunca mais o vi. Parei e ajoelhei-me, respirando sofregamente. Passado um pouco, os cães corriam novamente na minha direção, como que a dizerem que ele se tinha ido embora... Chamei-os e continuamos a caçar.

 

Ainda havia água em alguns pontos do terreno, o que ajudava (e muito) os cães a ganharem mais energia. Descansavamos todos um bocadinho, mas rapidamente queríamos era continuar a descobrir. A descobrir novos lugares, novos desafios, novos animais e novas histórias para contar.

 

Vi a Benny e a Hindy paradas. A Hindy apontava para algo que estava bem perto do seu nariz. Andei apressadamente até ela, mas a lebre que estava na cama, correu em ziguezague pelo mato. E, ainda assim, a Benny correu também sofregamente atrás dela, pelo que o tiro seria impossível de ser dado.

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 Mas a caça é isto... É tão isto! Vermos várias espécies cinegéticas, mas atirar a poucas. Àquelas que conseguimos, àquelas que queremos. Elas têm sempre uma oportunidade de fuga. E são bem mais as vezes que conseguem, do que aquelas que não. 

Este poderia ter sido um dia de caça como tantos outros... Mas sabem, para mim não há um dia igual a outro. Todos os dias são diferentes, com peculiaridades únicas. E é isso que me faz ter esta paixão. Não há um dia igual, um momento idêntico. Tudo é novo, tudo se contrói, pouco a pouco, e tudo é uma constante aprendizagem.

Depois de andarmos 18km neste mato difícil, fomos almoçar. Todos estavam felizes e a união que existe entre nós é contagiante. Fomos a uma "tasca" de uma aldeia que pouca gente nova tem. Os senhores quando nos viram entrar ficaram espantados mas, ao mesmo tempo, felizes. Falaram connosco, perguntaram-nos coisas, socializaram com alguém diferente. Aprenderam connosco e nós com eles.

Porque todos os dias são dias para isto, para sermos amigos, camaradas e, acima de tudo, pessoas simples! E é essa simplicidade e este amor que nutro pelos outros e pela caça que me tem preenchido enquanto pessoa e que me preenche a cada segundo que piso uma nova esteva no mato.

ML.