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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Dia dos Namorados

Mais um fim de semana que passou... Este que era esperado, por muita gente, com uma grande ânsia e inquietude. Afinal de contas era o Dia dos Namorados... Aquele dia em que todos ou quase todos os casais decidem estar juntos, fazerem juras de amor eterno, darem um passeio aqui ou ali, irem jantar ou almoçar fora... Enfim, fazerem as coisas normais de pessoas normais! 

Se sou caçadora não sou normal... Pelo menos aos olhos de muitos... E, deste modo, também não iria ter um fim de semana ou um Dia dos Namorados dito "normal". Estava com ânsia e impaciência para que o fim de semana chegasse, é verdade! Mas essa ânsia e essa impaciência não eram de jantares românticos, de ramos de flores ou de palavras mais carinhosas... Era de dias no campo, do contacto com a Natureza e da minha liberdade emocional...

Um fim de semana que, como todos os outros, prometia ser bom... Mesmo havendo manchas melhores que outras, para mim, é sempre bom e sempre magnífico. 

 

Sábado: Um dia chuvoso. Calcei os botins do meu avô, as camisolas do meu pai, pus a capa da chuva e o meu chapéu. A faca de remate e as balas (que me acompanham sempre) também estavam prontas. Retiro o cadeado da espingarda, meto-a ao ombro e caminhei até à minha porta (que diziam ser muito boa). Mas, como alguém costuma sempre dizer "as portas boas só se veêm no fim"! E no fim veríamos se tinha ou não sido boa... Como disse, um dia muito chuvoso. Contudo, sentei-me numa pedra (encharcada), e esperei... Esperei um barulho... Esperei uma silva a mexer... Esperei um melro a cantar... Esperei... Esperei... E nestes períodos de espera os sentimentos e as emoções são tantos... Tudo se torna simples... A Natureza tem o poder de me fazer ver e sentir que as coisas são tão fáceis... Que estes pequenos momentos, tornam-nos felizes. Que a felicidade está tão perto de nós... Basta, por vezes, esticarmos os braços para a agarrarmos. E neste turbilhão de pensamentos ouvem-se os cães... Levantei-me! Começo a ouvir tiros... Uns de carabina, outros de espingarda... Os porcos estão aí! De repente olho para o lado e vejo um listado... Ando com uma sorte com os bebés... Todos os fins de semana vêm ter comigo... Enchem-me o coração de alegria. Ainda parou ao meu lado... Depois seguiu viagem... Esperto como tudo! É impressionante a agilidade e a astúcia que estes bichos têm, desde logo! Entrou surrateiramente e saiu ainda mais silencioso... Os ouvidos falharam-me, mas os olhos fizeram com que conseguisse deslumbrar este momento...

Passado mais algum tempo, e sempre a sentir os cães, as ladras... Olho para o relógio e vejo que já é tarde... A volta estava a acabar. A chuva continuava a cair, já estava "ensopada"... Sentei-me novamente... Estava à espera que me dissessem que era para irmos embora! De repente, começo novamente a ouvir os cães... Ouvi um a ganir... Pensei que pudessem estar a levar "porrada" (desculpem a expressão, mas é mais fácil falarmos assim por aqui, tal como no campo) de um porco... Comecei a ouvi-los a correr atrás dele... A ladra começava a aproximar-se, mas teimavam em não sair de certo sítio... Uns cães ganiam... Outros ladravam compulsivamente... Pensei que seria um porco grande! De repente vejo-o lá no cimo com cães à frente e cães atrás... Todos corriam... Com o mesmo objetivo? Os cães de o agarrar... O porco de fugir e de se salvar... Mas todos com o instinto de presa e predadores... Ainda esperei um bocadinho... O vento estava favorável, ele iria sair onde eu estava! Calculei eu... Mas os animais são imprevisíveis e todos sabemos disso... O melhor? O melhor é pensarmos como um porco, nestas alturas... O que faríamos nós se fossemos um javali, naquele momento? As ladras começam a sentir-se cada vez mais perto, mais intensivamente e... Eis que ele aparece! A correr desalmadamente... Esperei. Esperei que se aproximasse o mais possível. Na caça temos de saber esperar. E temos de ter toda a calma e atenção do mundo. Esperei calmamente, enquanto ele corria desesperadamente... Atiro-lhe! Foi um tiro demasiado à frente, mas dei-lhe e ele acusou e quebrou! Mas com a força que tinha continua na correria com os cães atrás dele... Dou-lhe um segundo tiro de rabo... Ele continua... Corro desalmadamente atrás deles... O porco, os cães, e nós... Não é fácil... Corremos com todas as forças que temos e que, por vezes, nem sabiamos... Continuo a correr... O porco passa por um senhor que estava num porta e que lhe dá dois tiros... Mas sem sucesso... O porco começa à cabeçada à rede e a armar-se todo para os cães... Dava-lhes "porrada" como nunca vi... Atirou um cão pelos ares... E era um porco com cerca de 50 ou 60 kg. Imaginemos quando é um navalheiro grande... De repente ele passa a rede e continua a correr... Os cães continuam... Parece que não há desistentes nesta batalha! Eu desisto! Não consegui correr mais atrás deles... O meu coração parece que sai da boca... Quando parei, senti que não tinha mais forças... A adrenalina foi muita, começou a ser descarregada e sentei-me... A sorte é que uns aguentam mais que outros e continuam a correr atrás dele... Dizem que ele virava-se aos cães com uma raiva e uma força incriveis (mesmo depois de já ter tiros). Estes animais aguentam tanto... 

A fuga acaba com um tiro que lhe deram de coração, para acabarem com todo o sofrimento (tanto dos cães como dele). Ele cai à barragem e os cães "caem" também com todo o cansaço... Mais um porquinho, mais uma história e um lance fantástico que fica! Agradeço a quem não desistiu dele e a quem deu o tiro de remate... E aos cães e aos matilheiros, claro... 

 

Domingo: Um Dia dos Namorados chuvoso, com um vento muito forte e um frio que congelava até a alma dos mais apaixonados. Fomos fazer um gancho numa Associativa que tinha duas áreas diferentes onde poderiam estar os javalis. O primeiro sítio era mais curto e reduzido e seria rápido. As portas eram poucas para toda a gente e, em muitas delas, ficaram 2 a 2. Contudo, apesar das portas estarem próximas, devido à área reduzida, estavam todas em segurança. Eu fiquei com um grande caçador ao meu lado. O material todo pronto e colocaram-nos na porta. O vento, que estava muito favorável, fazia com que as lágrimas me escorrecem de forma sistemática dos olhos. Depois de lermos o terreno, de vermos as passagens, ficamos otimistas. A queda do terreno era muito favorável. Não ouvíamos muito bem os cães, devido ao tempo... Estavamos em pé, com aquela emoção que só nós caçadores (feliz ou infelizmente) conhecemos! Este, que foi dos melhores dias de caça da minha vida, foi marcado por lances muito repentinos e, devido a toda a emoção, por vezes quero lembrar-me de certas coisas que já nem consigo. Calculamos por onde é que os porcos poderiam vir, o comportamento que eles poderiam ter e... vejo os arbustos a mexer. Sabia que vinha um porco. Esperei. Normalmente não meto logo a arma à cara. Gosto de apreciar o mais que puder. Sai uma porca grande... Olho... Espero... Vinha a correr... Dou-lhe um tiro. Acusa logo! O meu companheiro de porta, depois de esperar que eu atirasse em primeiro (esperou sempre, em todos os lances), atira de seguida. O facto de estarem duas pessoas numa porta requer o dobro da concentração para atirar e não é nada fácil. Principalmente, tem de haver sintonia entre os dois caçadores. 

A porca vai para trás e acaba por morrer lá em baixo. Esbocei um sorriso porque o meu coração já estava preenchido com tanta felicidade e amor neste Dia dos Namorados. Entretanto, vem mais um porco... Mais pequeno. Dou-lhe logo um tiro de cabeça. Caiu, deu uma volta e levantou-se. Este porco tem o mesmo comportamento que a primeira porca e volta para trás, para morrer lá em baixo. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim... 2 porcos... E em tão pouco tempo... Estou eu a começar a digerir tudo isto, mas nem tenho tempo... Aparece outra porca... Enorme! Pensei que poderia ser um navalheiro. Aparece de frente e dou-lhe tempo! Queria fazer um tiro certeiro. Sabemos como é difícil e a resistência que estes bichos têm! Dou-lhe um tiro de barriga, que ela acusa logo... O meu companheiro continua, ela cai, levanta-se, vai contra a rede, com uma fúria incrível! E acaba por morrer! Era enorme esta porca (cerca de 100 a 120 kg). Mais um... Eu nem queria acreditar... Achava que aquilo estava a ser um sonho! Pensei que não poderia matar mais nada... E já só tinha uma bala! Devemos ir prevenidos, é claro... Mas nunca imaginamos tal coisa... Aparece mais uma porca que o meu companheiro atira e mata.. Depois aparece outra e ele dá-lhe um tiro no pescoço (um tiro lindo) mas, mesmo assim, ela foge e ele vai atrás dela... Dirigi-me ao senhor da outra porta, a pedir balas... Mas já não tínhamos mais nada... De repente vem outro porco... Pelo lado dele (não entrou como os outros). Eu já só tinha uma bala! O senhor falha esse porco e diz-me "Atira". Esperei o porco (isto tudo são segundos, claro). O porco passou por mim, dou-lhe um tiro de coluna com a espingarda Winchester de sobrepostos (o que eu adoro esta espingarda) e ele cai. Levanta-se a acusar alguma coisa nas pernas de trás e começa a fugir. Normalmente nestes tiros eles ficam vivos, mas sem mexer a parte de trás. Arrastam-se com as mãos, com uma fúria incrível e estão sempre prontas para nos atacar. Pensei que não poderia deixá-lo sofrer mais ou que fosse morrer longe. Virei-me para os senhores e disse "tenho de lá ir com a faca". Mas eu nunca tinha feito nada disto... Estava sozinha, com um porco macho ferido e furioso e com uma faca cortante nas mãos. Acontecesse o que acontecesse tinha de lá ir... Era eu e ele e que vencesse o mais forte (eu sei que estou em vantagem). Tirei a faca, fui a correr atrás dele para o mato (deixei a porta) e ele não se deixava apanhar bem... Passa um listado por mim nesta altura... Olhamos um para o outro e continuamos o nosso caminho, cada um para seu lado... Entretanto os senhores também correram junto a mim... E diziam "Espete a faca, espete a faca!" Pus-me de joelhos, agarrei no porco, que se mexia, esperneava, lutava contra mim... Agarrei-lhe na orelha com a mão esquerda bem firme. O meu coração deveria bater com tanta ou mais força que o coração dele... E com a mão direita espetei-lhe a faca, bem no coração... Ele parou, fechou os olhos e agradeceu-me ter morrido de forma tranquila e não ter sofrido mais... Nem estava a acreditar no que tinha feito! Os senhores que estavam comigo deram-me logo os parabéns e disseram "É uma grande caçadora e uma grande mulher"... O meu coração, que já estava cheio de felicidade, ficava cada vez mais cheio de orgulho, de amor, de alegria... Enfim! Voltei para o meu posto e fui a correr para outra porta chamar dois amigos para virem atirar connosco. Já tinha tantos porcos, que achei que eles também iriam ficar contentes de ver e atirar... Só que não apareceu mais nada... 

Não consigo descrever mais do que isto... Foram momentos únicos, de tamanha felicidade e de tamanha responsabilidade. A confiança que depositaram em mim e o respeito que tiveram em mim nunca mais serão esquecidos. Agradeço a todos os que lá estavam, a todos os que me deram os parabéns e a todos os que sorriram comigo e que partilharam esta felicidade comigo. Afinal de contas, ser caçador é também ser família! E apesar de não nos conhecermos todos, tornamo-nos família em segundos... Fomos recolher os porcos todos (para puxar a primeira porca desde lá debaixo tiveram de ser 10 homens com uma corda, imaginem...).

Ainda fomos fazer a segunda mancha, mas ficamos numa porta que sabíamos, à partida, que não seria muito boa, pois não havia passagens nem nada. Vimos ainda uma gamela a correr, linda... Nunca tinha visto! Pensei que o meu coração poderia explodir com tamanha felicidade, a qualquer momento!

Obrigada mais uma vez a todos... Ao meu GRANDE companheiro das portas e GRANDE caçador. Aos matilheiros e aos cães que sem eles nada disto seria possível. A toda a organização. A todas as pessoas que estavam lá e que viveram tudo isto comigo. E sem esquecer ao senhor ao meu lado da porta, que foi um companheiro incrível também e que estava felicíssimo com a minha caçada!

E não é por ter morto 4 ou 20 porcos num dia... É por toda esta magia que envolve tudo isto! Vocês sabem do que falo... 

ML.

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