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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Festejos do Europeu numa Noite de Lua Cheia

Portugal tinha ganho o Europeu há dois dias atrás... A festa ainda era muita, a felicidade estava estampada na cara de toda a gente e os sorrisos coloriam o dia a dia, nas cidades e no campo.

Depois de mais um dia de trabalho cansativo, saí à pressa com o objetivo de fazer uma espera. A lua tinha começado há pouco tempo e eu gosto particularmente deste mês para fazer esperas (apesar da transição cíclica da altura do ano, onde os javalis tendem a ir procurar os regadios, onde os milhos preferencialmente são o seu ponto forte nos próximos 2 a 3 meses). Apesar das melgas e mosquitos, o tempo quente também me dá um gosto particular, pois sofro muito com o frio.

Não tive tempo para mais nada e, portanto, meto-me à estrada rapidamente, com a alegria de quem teve a hipótese de sair da grande cidade e ir para o campo, no final da tarde de um dia de semana. Realmente a vida da cidade é tão entediante (pelo menos para mim, claro).

Cheguei, preparei tudo apressadamente e fui para o cevadouro, depois de ter visto o que se estava a passar. O Zé foi também comigo, e ficou a meu lado... Gostamos de caçar juntos e conseguimos moldar-nos às situações; isto porque duas pessoas a caçar juntas numa espera ou numa montaria é sempre mais difícil.

 

Sentámo-nos no chão, eu com a carabina a meu lado e ele com o monóculo, para ver o que ia acontecendo. Vimos duas lebres, que estavam a lavar-se, contentes e tranquilas; mas depressa se foram embora. Ainda tivemos tempo para presenciar raposas, que logo nos indicaram que estavamos bem colocados, pois nunca nos pressentiram. Foi um momento fantástico. Duas raposas jovens a brincarem uma com a outra e, de repente, ouvem-se uns guinchos. Uma das raposas tinha atacado um coelho e estava com ele na boca. Depois fugia da outra, para que não a apanhasse, nem lhe roubasse o coelho. Começaram à briga... Corriam e brigavam... Foi um dos momentos mais bonitos e raros que tive como caçadora. E são momentos destes que nos fazem querer sempre mais! E são momentos destes que nos fazem também perceber que isto é, efetivamente, a vida - a presa e o predador; a cadeia alimentar. E portanto tudo faz sentido, quando deixamos a Mãe Natureza atuar. Ela é perfeita e constantemente dá provas disso mesmo!

 

Olhei para o Zé, que olhou para mim e disse "Momento bonito este". Ambos sorrimos. Sabíamos que esta noite (ainda) de festejos da vitória portuguesa já estava ganha, também para nós. Continuamos a comentar tal situação e de repente ouço um barulho. Um daqueles instintos que tenho, o ouvir bem, ou ter uma certa percepção, não sei. Continuei a olhar para o Zé e disse-lhe apenas: está ali um porco. 

A noite já tinha caido e o Sol desaparecido do horizonte. Olho para o cevadouro, mas obviamente que não iria ver nada, estava ainda muito escuro. Coloco a arma à cara para ver o que se estava a passar e vejo um porco macho, sozinho. 

No entanto, uma situação insólita se passou. O Zé começa a tossir e a engasgar-se desalmadamente. Não estava a conseguir controlar e estava a ficar aflito. Ora, a minha preocupação claramente que foi ele e não o porco. E ri-me. Ri-me depois de perceber que ele estava bem, embora muito aflito. Ri-me porque estou ali para me divertir. Pensei que o javali tivesse ouvido e pressentido tudo isto mas, ainda assim, fui verificar e ele ainda estava a comer. Mas olhava constantemente para nós. Estava a pressentir. Contudo, caçavamos a 100 metros do cevadouro, o que com o vento a favor, atenuou toda esta situação.

Olhei novamente para o Zé e disse-lhe "calma, tranquilo" e novamente sorri. Pus a arma à cara e fiquei a deslumbrá-lo, como tento fazer com todos. Mas ele estava instável. Olhava muito para mim e eu sabia que tinha de me "despachar". Contudo, sentia-me ansiosa para disparar. Há dias em que estamos assim... E eu, depois de um dia extenuante no trabalho, de fazer tudo a correr, estava assim. Sentia-me cansada e a adrenalina é sempre muita e estava a mexer comigo. Retirei a arma da cara e respirei fundo. Coloco novamente a arma à cara, espero o javai colocar-se na posição que me dá mais confiança e disparo. Disparo, mas tinha a arma travada. 

E tudo re-começa novamente. Todo o trabalho de atenção e concentração teria de ser repetido. E tinha um javali que estava ligeiramente inseguro, a detetar qualquer coisa. Respiro fundo novamente. Mas não desisto. 

Coloco a arma à cara, outra vez. O javali está olhos nos olhos comigo. Poderia atirar-lhe já, mas tenho de estar segura ao máximo. Ele coloca-se na posição que prefiro e disparo. Depois de todos estes contratempos, disparo. E sinto-o a cair automaticamente, sem sofrer, sem sequer saber o que tinha acontecido.

Como digo muitas vezes, viveu feliz até ali, em liberdade e morreu "ainda mais feliz", porque não sentiu, não sofreu e não ficou ferido, como acontece em outras situações (por exemplo, nas indústrias alimentares).

 

E assim celebrei, de uma forma diferente, é certo, a vitória do nosso país no Europeu. Mais uma noite mágica de lua cheia, desta vez banhada a verde e vermelho!

ML.

 

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