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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Fim da Época Cinegética

Falar do término de alguma coisa é sempre difícil. A sensação de sabermos que algo chegou ao fim e não voltará mais incomoda. Tomou conta de mim uma angústia, que simultaneamente fará companhia à minha fraqueza.

É o que estou a sentir neste momento; momento do fim da época de caça. É algo tão simples e esperado, eu sei. Começo as épocas de caça a saber que vão acabar, um dia. Aliás, até sei o dia... Mas não gosto! Não gosto que uma das coisas que me faz mais feliz acabe; apesar de saber que daqui a uns meses começará tudo novamente. No fundo, um ciclo vicioso de rotina, mas de uma rotina boa; que termina. E custa-nos tanto acabar com as nossas rotinas; sejam boas ou más...

De facto, termino uma série de coisas, todos os dias... Mas a melancolia de terminar mais uma época de caça impede-me de dizer "fecha a porta e não olhes pela fechadura". Tenho sempre a tendência para ir espreitar pela fechadura porque sei que o fim existe, porque algumas coisas não são para ser eternas... E porque o para sempre talvez não exista mesmo! E o "fim" da época cinegética é fulcral que aconteça e todos sabemos disso. Mas, simultaneamente, alegra-me o facto de saber que o início ou re-início também existem...

 

Talvez esteja a ser demasiado melodramática; mas esta faceta de mulher sensível (que poucas vezes emerge em mim), não me está a deixar ser de outra forma. E para não sair desta linha de pensamento/emoção, relembro convosco alguns dos momentos mais marcantes desta época de 2016/2017.

Não serão, certamente, os tiros que dei, os cartuchos que gastei ou o número de peças de caça que cacei porque, como digo sempre, isso é o mais secundário na caça. Quero relembrar momentos de caça verdadeiros; histórias reais; amizade; emoção; amor; espécies cinegéticas e lances particulares. Isto é a caça; isto é a minha forma de estar na vida... E aqui, o para sempre, faz todo o sentido!

 

Começo esta época com um convite de uma pessoa que muito estimo, para fazer uma aproximação aos veados. Mal sabia o que era uma aproximação, pois não é o meu tipo de caça; mas obviamente que aceitei, porque seria uma nova experiência e uma nova forma de ver a caça, quiçá.

E realmente foi uma das experiências mais bonitas que tive neste nosso mundo e na altura resumi-o como: "O bramar de um sonho". Um sonho que eu desconhecia, mas que depressa se tornou nisso mesmo, quando cheguei ao campo e comecei a ouvir o bramar dos veados. É uma sensação única, envolta num som único e tocante.

Um lance muito difícil mas bem conseguido que não seria possível sem a ajuda e presença do guia. Claro está que estes momentos só são vividos com tal intensidade, devido à presença de pessoas especiais e de podermos partilhá-los com as mesmas.

Iniciei a época da melhor forma, com uma alegria imensa e com a certeza de que a caçar vivo e sinto emoções que quem não é caçador não pode experenciar nunca.

 

Uma das coisas mais importantes e com a qual me identifico a 100% é a caça menor e, ao re-lembrar esta época, a caça menor, com os meus cães é, de facto, aquilo que mais marca.

O ano passado tive uma época excelente de caça maior, nomeadamente ao javali. Vários foram os fins de semana que caçamos a esta espécie cinegética e poucos foram os dias em que não tivesse uma história para contar, com lances maravilhosos. Deixei um pouco a caça menor para trás, mas este ano já tinha prometido a mim mesma que não iria voltar a fazê-lo. E principalmente pelos meus cães, que anseiam a semana toda que chegue a Sábado de madrugada, para pularem para a carrinha e irem de viagem até ao campo, para fazerem o que mais gostam.

E, desta forma, este ano vivi pouco as montarias e os ganchos e dediquei-me mais à caça menor, nomeadamente ao meu tipo de caça preferido: a perdiz vermelha e, a um tipo de caça que descobri e estou completamente fã: a caça à galinhola.

Sendo ou não uma moda entre os caçadores, a caça à galinhola é de facto apaixonante e, acima de tudo, viciante. Uma caça em que a adrenalina está no seu auge. Uma caça em que, por vezes, não vejo mais nada à frente, senão estevas e mato. Uma caça em que, a qualquer momento, temos outros bichos a olhar para nós... Uma caça em que sinto que os nossos cães são felizes e fazem um trabalho exímio.

Como todos sabem, a caça à galinhola é dificílima, seja para os cães, para os caçadores ou mesmo para a prática de tiro. Talvez sejam essas dificuldades que a tornam tão mágica a especial...

Ficam os lances, as paragens dos nossos cães, os cobros, as aventuras e as histórias que, quiçá, um dia contarei também eu aos meus netos!

 

A caça à perdiz também me trouxe momentos fantásticos. Claro está que não posso comparar uma perdiz brava das outras, mas tive a sorte de caçar a ambas e, em todos os momentos, a magia fica no ar. Principalmente, porque é o tipo de caça que mais partilho com o meu pai e creio que só isso já a torna na minha caça de eleição. Caçar em família é algo que tem um toque peculiar, difícil de ser transmitido por meras palavras.

 

Durante esta altura, deixo de fazer esperas; dedicando-me apenas à caça de dia, digamos assim. Contudo, e mesmo com a caça menor, tive oportunidade de ir a algumas montarias e ganchos.

Tenho de destacar duas coisas que, para mim, foram marcantes. A primeira foi ter sido diretora da montaria do Cadaval. Fiquei com o coração cheio de orgulho (e responsabilidade) e fiquei muito feliz com a oportunidade que me foi dada novamente. Escrevi sobre isso e partilhei-o com todos vós.

Outro dos momentos mais marcantes, foi ter sido "matilheira" por um dia, com o meu pai e a nossa matilha de pondegos (juntamente com o meu Martín). Foi uma experiência incrível, em que as minhas emoções estavam à flor da pele. Poder caçar com o meu pai, com a nossa matilha e o meu braco alemão e a uma espécie cinegética que gosto particularmente foi, sem dúvida, um dos grandes momentos desta época.

 

Não poderia deixar de referir todas as pessoas que estiveram comigo durante este tempo. Familiares e amigos verdadeiros. Porque a caça é isto e só quem é humilde o suficiente consegue percebê-lo e, acima de tudo, vivê-lo. Sem invejas nem ganâncias, sem olhar ao que o outro caça e sem intrigas e mentiras.

Um verdadeiro caçador presa, acima de tudo, a amizade e o companheirismo. "Porque podes estar a afogar-te num poço, que eu irei sempre salvar-te", esta talvez deva ser a mensagem mais importante a ser retida; mas mais importante ainda a ser sentida, de coração.

Já o disse várias vezes e continuo a achar o mesmo; nós caçadores somos os nossos próprios inimigos e talvez isso comece com certas atitudes no campo, com os animais ou com os companheiros. Refletir sobre este comportamento talvez seja uma peça fundamental deste puzzle intitulado de "como ser bom caçador", que vamos construindo ao longo da nossa vida.

 

Obrigada a todos os meus amigos. A todos os convites que nos fizeram. A todos aqueles com quem tive oportunidade de caçar e de partilhar lances e histórias...

Obrigada aos meus dois grandes companheiros de caça, mas acima de tudo, de vida. Sem vocês, nada disto seria igual, nem conseguiria sentir metade das coisas que sinto... Obrigada por rirem comigo, mas acima de tudo por chorarem comigo e por estarem sempre dispostos a "salvarem-me do poço".

Obrigada ao meu Martín, que tantas alegrias me deu e que tantas lágrimas me fez verter... A nossa ligação é única e qualquer coisa que tu faças, irá sempre mexer comigo... Às vezes, bastava olhar para ti, a caçar, felicíssimo, para as lágrimas escorrerem-me... Mas deixemos esta faceta de mulher sensível de lado...

À Benny, à Haya e à Hindy... Sem vocês sei que também não iria conseguir viver metade das coisas que vivi... No fundo, já são um bocadinho minhas também...

 

E daqui a uns largos dias voltaremos a poder experienciar, todos juntos, novas aventuras e experiências... E com a certeza de que ninguém nos poderá tirar isto! E se pudesse definir tudo isto numa única palavra, sem dúvida que "VIDA" seria a minha palavra de eleição...

A caça é a minha VIDA!

A minha VIDA é caçar... E isso engloba tudo aquilo que vos contei, desde família, amigos, amor, amizade, felicidade, sorrisos, choros... Creio que a isto se chame, de facto, VIDA!

 ML.

 

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 Foto de Câmara Municipal do Cadaval.

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Foto de Diário de uma Caçadora.