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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Histórias do Mundo: Os cães da Tanzânia que apanham furtivos

Quando falamos em caça, podemos ir a todos os lados do mundo, porque há sempre histórias para contar. A caça tem essa particularidade, de ser intemporal e, simultaneamente, de se perder nas raízes mais longíquas, onde o pôr do sol perde-se de vista.

Falamos em caça legal. Mas, infelizmente, também sabemos que existe quem não respeita as regras e quem comete crimes. A caça ilegal ou furtiva, é crime e ainda é praticada por muitas pessoas, principalmente, em busca do troféu. A essas pessoas chamamos furtivos; mas nunca caçadores; porque um verdadeiro caçador não comete crimes deste tipo. É preciso apanhar estes criminosos e, por isso mesmo, hoje trago-vos uma história do mundo, bem longe fisicamente, mas tão perto emocionalmente...

 

Numa pequena terra do norte da Tanzânia, Olekashe, um homem que já serviu no exército da Tanzânia, ajuda a apanhar homens que caçam ilegalmente e a resolver os crimes que por ali possam existir. Há uns tempos que havia sido recrutado pela African Wildlife Foundation (AWF).

No decorrer deste seu trabalho, Olekashe conta com uma equipa de cães pisteiros, altamente treinados, que o ajudam quando mais precisa.

Uma vez, Olekashe e a sua equipa de cães, rastrearam um grupo de furtivos durante mais de 7 horas, que haviam roubado marfim de elefantes. Ao fim de todo este tempo, Rosdaz, um cão ainda novo, ergue-se sobre as patas traseiras, e coloca as patas da frente, firmemente, sobre a cintura de um homem. Este, que tinha uma t-shirt de cor garrida, fica imóvel, olhando fixamente para a frente, para ninguém ver a culpa nos seus olhos. 

Rosdaz tinha conseguido capturar o fugitivo. Já Rocky, um cão de 7 anos, bastante experiente, em vez de saltar sobre o homem, fica ao seu lado, ladrando compulsivamente. Estes cães são treinados para perseguir e fazer barulho quando localizam o alvo.

 

Este tipo de investigação demonstra a importância destes cães pisteiros, nestas aldeias, em que os crimes passam por pequenos roubos, até à caça ilegal.  

 

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A Tanzânia tinha a segunda maior população de elefantes do continente, depois de Botswana; contudo, com a caça furtiva e ilegal, perdeu mais de 60% dos seus elefantes, entre 2009 e 2014. Tinham de arranjar soluções para este problema, principalmente de baixo custo, e os cães pisteiros foram a chave para o sucesso. 

O uso de cães altamente treinados, como Rocky e Rosdaz, foi utilizado pela primeira vez pela organização de conservação Honeyguide, em 2011, no oeste do Kilimanjaro.

 

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Os cães provaram ter habilidade para a função. Entre 2014 e 2015, os furtivos tinham caçado 17 elefantes; e este número caiu para zero em 2016. "Hoje em dia, um elefante morre naturalmente e, além disso, as suas presas ficam intactas", diz Olekashe. "Isto nunca aconteceu antes".

 

A carne e ossos de animais mortos, são moídas e misturadas, numa panela de alumínio enorme com três outros ingredientes: batata doce, lentilhas e melaço. Tudo isto irá produzir cerca de 75 quilos de biscoitos para cães, o suficiente para alimentar os quatro cães pisteiros de Honeyguide: o Rocky, o Rosdaz, o Jerry e o Chester, por mais de duas semanas.

"Às vezes, a carne provém de vacas que foram mortas por grandes carnívoros, como os leões", diz Ole Kirimbai, presidente da Honeyguide. 


"Estes cães seguem as pessoas até onde elas moram. O melhor é não ser um furtivo e caçar ilegalmente". Olekashe e a sua equipa tratam destes animais de forma exímia. Relatam o esforço que fazem para mantê-los alimentados e protegidos de todas as ameaças que ocorrem (por exemplo: mordidas de serpentes, doença do sono - mosca tsetse, picos do mato, temperaturas muito elevadas, etc.).

 

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Esta equipa ainda tem a sorte de encontrar cuidados veterinários na cidade vizinha - Arusha; contudo, há locais onde isso não acontece, como é o caso do Serengeti, no Parque Nacional de Serengeti.

 

Este parque, que fez uma parceria com a Honeyguide, teve de fazer uma reformulação para que pudessem admitir cães numa área protegida. Tudo estava apreensivo, mas hoje em dia, Mbwambo, o guarda do parque, diz que "o relacionamento entre um cão e o seu treinador deve ser como um casamento". E continua, dizendo "Trabalhamos em equipe e só assim conseguimos resultados."

 

Eles têm extrema atenção aos cães, devido às doenças que podem apanhar. Todos os fins de semana, os treinadores lavam-nos com um produto anti carraças. Fazem abrigos que têm em conta o evitamento da mosca tsetse. Quando é necessário, Mbwambo administra uma vacina da doença do sono (uma intervenção originalmente desenvolvida para camelos), que exige uma dose cuidadosa. "Se deres muito, vais matar o teu cão", salienta Mbwambo. Além disto, todos os meses são recolhidas amostras de sangue, para verificar os anticorpos contra a doença do sono.

Antes de entrar no mato, os treinadores aplicam repelente de insetos a cada cão, e têm sempre água em abundância com eles. "Um cão ofegante não consegue detetar um cheiro", conta Mbwambo.

 

Portanto, como podemos ver, todos os cães são tratados de forma muito cuidada, percebendo-se claramente que já fazem parte da família. Todos os dias estes cães são treinados. Há tardes em que andam numa grande variedade de terrenos, desde chão queimado a mato com arbustos espessos.

Também neste parque, têm um grande problema com os indivíduos que caçam ilegalmente. A caça furtiva de animais selvagens com armadilhas continua a ser um dos maiores desafios de conservação no Serengeti; ao contrário de Ranch Manyara, onde não utilizam armadilhas, com medo de ferir gado, uma das únicas fontes de subsistência.

 

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O que começou como um teste, com apenas alguns cães, há menos de uma década, tornou-se agora numa ferramenta essencial nos esforços da conservação em África. As equipes de cães pisteiros de Honeyguide operaram em todo o norte da Tanzânia. À medida que vão conhecendo este trabalho, a Honeyguide estabeleceu canis em Manyara Ranch e fez parceria com os Parques Nacionais da Tanzânia (TANAPA) e com as autoridades dos parques nacionais de Serengeti. Desde 2014, conseguiram prender mais de 20 criminosos; destruíram mais de 400 armadilhas e confiscaram várias peças de marfim.

 

"Na conservação, temos recursos limitados", diz Damian Bell, diretor executivo da Honeyguide. "Os cães são caros de manter, mas já provaram ser eficazes para ajudar a comunidade, e para controlar a caça ilegal e o crime". 

Mais uma vez vemos a importância dos cães. A importância do controlo de homens criminosos, que caçam ilegalmente. A importância de se diferenciar a caça legal, que ajuda na conservação; da caça ilegal, que não tem o mínimo de sentido. 

Damian Bell diz que "não há segredos na Tanzânia". E eu creio que esta mensagem é fulcral para nós caçadores ou que, pelo menos, deveria ser. Não há segredos. Não temos que ter nenhum segredo. Essa é a essência da caça, tudo é puro, tudo é livre, tudo é mágico. Basta vivermos, sem medos, e sem segredos. 

ML.

 

(Bibliografia: http://www.biographic.com/posts/sto/where-the-dogs-lead)

 

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