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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Magia numa noite de Lua Cheia

Todos querem uma solução mágica para tudo... Mas muitos recusam-se a acreditar na magia! 

Depois de uma noite de lua cheia absolutamente mágica, acredito verdadeiramente que a magia existe... Só temos de esperar... De saber vivê-la... E de perceber que a magia está nas pequenas coisas, nos mais ínfimos pormenores... Temos apenas de saber encontrá-los e vivê-los!

 

E, deste modo, venho falar-vos da noite mágica que tive... Uma noite de espera aos javalis... Uma noite em que os caçadores se preparam para ver o fruto do seu trabalho... "O quê? Alimentar javalis para depois os matarem?" Talvez não seja bem assim... Já perceberão, mais à frente...

O relógio frisava as 19:00 horas, com uns números grandes e bem salientes. Íamos mais cedo, para ver como estavam os cevadouros. No caminho, observamos um bezerro deitado no chão, sozinho, mal se mexia... O meu coração palpitou... Paramos o carro, de forma abrupta. (De referir que as vacas e os bezerros andam sempre por ali). Saímos apressadamente, para ver o que se passava. Chegamos perto do bezerro e este, que se tentava levantar e fugir, com muita dificuldade, olhava para nós com um ar de suplício. A mãe, sempre alerta, veio logo a correr, junto a nós, com medo que algo se passasse. De repente, olhamos a nossa volta e tinhamos uma manada a rodear-nos. O instinto de proteção dos animais é, de facto, fantástico. Só temos a aprender com eles...

Vimos logo que o bezerro não estava bem. As fezes muito líquidas e apresentava já sinais de desidratação. Marcámo-lo com uma cruz e depressa fomos buscar antibióticos, soro e vitaminhas que lhe demos, mal chegamos. (Dois dias depois ele já está bem, a correr e a brincar no meio do campo e com a mãe sempre a olhar por ele).

Uma noite mágica que começa com um salvamento de uma vida...

 

Ao voltarmos, para entrar no cevadouro, apercebo-me de algo. Um porco? Só via a traseira, mas algo diferente do que um javali me habituara. Rapidamente o bicho se vira e vejo que é um porco manso. Estaria perdido? Teria fugido? Que história trazia aquele porco consigo? Caminhando calmamente à frente da carrinha, este porco macho, gordo, poderia estar já há algum tempo na "vida selvagem"... Continuou caminho... Nós continuamos o nosso... Porque não o matei? Porque o meu objetivo não é matar... Só por matar... Muito menos porcos mansos... Se bem que muitos o fariam... Feliz ou infelizmente... Depende apenas das perspetivas que temos na vida...

 

Prossegui caminho... E vejo uma lebre! Normalmente, quando tenho estas visões mágicas, a melhor caraterização que encontro, a noite de espera não me corre mal... Veríamos... Se há ou não superstições... Se elas fazem ou não sentido!

Chegamos. Vimos o cevadouro, todo comido... Levou-me a pensar que seria um grupo, dado o que tinham feito. Vimos o vento, posicionamos a carrinha, abri o vidro e esperei. (Com este frio, a carrinha ainda é a opção que escolho, sendo que o tiro é sempre mais difícil).

 

O Sol punha-se, no horizonte... Começava a escurecer... E os pensamentos emergem, em segundos! Pensamos nos problemas, pensamos nas pessoas, pensamos em nós... Sobretudo, pensamos na vida! Sobretudo, pensamos... Henry Ford dizia que pensar é o trabalho mais difícil que existe. E que poucos se dedicavam a ele... 

Sendo ou não um trabalho difícil, é um trabalho que adoro; sobretudo, nestas noites de lua cheia, em que todas as "gavetinhas" desarrumadas que temos no nosso cérebro, parecem se arrumar, em segundos, apenas com o brilho do luar, com o cantar das corujas ou dos rouxinóis...

 

De repente, nesta envolvência de pensamentos, vejo as vacas a virem em direção à carrinha. Um animal bastante curioso, penso... E assim ficam, quase encostadas à carrinha, a rodearem-na e a olharem fixamente para mim... Eu olhava para elas e sorria. Certamente que não percebiam o que eu fazia! Mas percebiam que eu não era, de forma alguma, uma ameaça... E então, esta imagem levou a uma magia de noite de lua cheia! 

Uma noite no meio do campo, com a lua a brilhar, com uma manada à minha volta... A "proteger-me"? Foi essa a sensação que tive... Que nada me deteria nesse momento... Eu e as minhas novas companheiras, numa noite em que percebi que o maior problema, aqui, agora, é apenas a incapacidade física! De resto, tudo se resolve... Um bezerro com uma incapacidade, poderia não sobreviver. Mas um bezerro, ou uma vaca, sãos e fortes, poderiam correr mundos e fronteiras, à procura da felicidade... Do alimento, no caso específico deles... Não deveríamos também nós, humanos, seguir este exemplo? Unirmo-nos (tal como esta manada se une) e mover-nos até ao alcance da nossa felicidade???

 

De repente, a vaca mais velha chama as outras... Todas a seguem, sem perguntas, sem "gritos", nem "discussões"... Sem aquilo a que nós chamamos educação, democracia ou tolerância...

 

Num ápice, perco-as de vista... A noite está fria! Olho para o céu, pouco estrelado... Vejo um avião a passar... Qual será o destino? Quais serão as histórias de vida que as pessoas que vão naquele avião têm para contar? E de repente olho para uma estrela... A única que está no céu... Olho e sorrio! As lágrimas vêm-me aos olhos... Pensei na minha avó... Há algum tempo que não pensava assim, desta forma, nela... Que saudades que eu tenho! Que todos nós temos dela...

Muitos dizem que acreditam na vida depois da morte... Que os mortos nos vão dando sinais... Não penso nisso sequer. Nunca pensei, nem tenho uma opinião formada! Mas nesta noite, ao olhar para a estrela, pensei para mim que poderia ser "a minha avó". E então sorri, mais uma vez... E falei-lhe... Disse-lhe que tinha saudades dela! Que me desse algum sinal, caso estivesse efetivamente ali! Para um cético, estes sinais nunca existem, não é?

A verdade é que enquanto "falava" com esta estrela, e ia dizendo estas coisas "malucas" (ou não)... Ouvi um barulho! Um barulho estrondoso, é de ressalvar!

 

A lua iluminava bastante mas, ainda assim, não conseguia ver muito bem! Mas eu sabia que estavam lá... Ligo a mira, que nos permite ver melhor, escolher melhor e não atirar a todo o tipo de caça. Depressa me apercebo do que se passava. Nunca tinha visto tantos porcos juntos...

Rapidamente tirei a mira da cara, respirei fundo e olhei para a estrelinha, que continuava lá no céu, a cintilar. Disse "obrigada avó". Acreditando ou não, senti que tudo isto tinha sido mágico! E, neste momento, interessava-me bem mais os sentimentos, do que a razão ou a lógica! 

 

Peguei novamente na arma, liguei a mira e fiquei a deslumbrar...Porcos pequeninos, outros com cerca de 20 a 30kg... Percebi que havia duas ou três maiores, que seriam as porcas... E um ou dois machos de 50 kg, que se foram esfregar na árvore e depressa se foram embora! Cerca de 20 a 30 porcos... Fui contando, mas perdia-me... Eles comiam, brincavam, ralhavam uns com os outros... 

 

A magia, pura e simplesmente, aconteceu nesta noite... Decidi que não ia atirar! Opções... Parvoíce? Estupidez? Não! Simplesmente opções... Fiquei bastante tocada com tudo aquilo que me aconteceu... Estava nervosa... O coração palpitava mais (aliás, bem mais) do que o costume! Sabia que tudo isto tinha mexido comigo... Podendo não ter nada a ver e ser, simplesmente, uma coincidência, mexeu! Não poderia ter sido de outra forma... Se fosse, talvez não tivesse tido esta magia que teve... E agradeci! Por mais uma noite mágica de lua cheia! Agradeci por ser caçadora e por ter estas oportunidades que tão poucos têm... Ou não querem ter!

ML.

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