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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Matilheira por um dia!

Conhecemos o seu nome, mas não conhecemos as suas histórias. Sabemos que são matilheiros, mas ninguém sabe porque escolheram sê-lo. Sabemos aquilo que fazem, mas desconhecemos aquilo por que passam. Sabemos que batem mato e que têm cães, mas não sabemos o que se passa dentro do mato, ou com os seus cães. Sabemos onde estão, mas não sabemos de onde vêm. Podemos vê-los a rir, mas não sabemos o que já sofreram. Falamos de cor, mas devíamos falar com conhecimento de causa!

 

E por tudo isto, decidi ser matilheira por um dia. Mais do que conhecê-los, do que ouvir as suas histórias; há que vivê-las. E foi isso que fiz. Vivi-as! E não mudaria nada...

 

Há uns tempos, havia falado com alguns matilheiros, que me contaram as suas experiências e as vantagens e desvantagens desta nobre arte; para poder fazer um artigo que em breve lançarei. Ia ouvindo, ia lendo o que diziam, mas estava longe de conhecer a realidade. Até que numa dessas conversas, um matilheiro, o Bruno, da Matilha Trinca Espinhas, me disse "Porque é que não vens um dia connosco?". Não hesitei. Apontadamente, lhe disse que iria com ele e com a sua matilha numa montaria que tivessem. Com toda a disponibilidade, contou-me sobre as montarias que tinha agendadas e pôs-me totalmente à vontade. "Escolhe a que tu quiseres, e vens connosco".

Escolhi aquela que fosse mais próxima, pois a ansiedade já era alguma, mas porque era a montaria da zona de caça do meu pai. E faria o dois em um; iria caçar perto de nossa casa e, simultaneamente, o meu pai estaria lá (numa porta).

"Essa zona tem muito mato", dizia-me ele.

"Não te preocupes, eu estou habituada. Caço muito às galinholas, em mato duro".

E a conversa ficou por aqui...

 

Combinamos as 08:00h na sede dos caçadores. Mas às 5 da manhã, já o Bruno andava a carregar os cães e a preparar tudo para mais um dia. As temperaturas tinham descido muito, e o vento frio típico daquela região do oeste, ditava que não iria ser um dia fácil.

As inscrições estavam a decorrer. As pessoas iam tomando o seu pequeno almoço. Uns falavam de caça; outros re-encontravam-se e abraçavam-se. O ambiente quente sobrepunha-se a tudo o resto... 

Conheci o pai do Bruno e o Ricardo, que pertenciam também à Matilha Trinca Espinhas. Para além deles, havia mais três matilhas que iam fazer a mancha. Enquanto todos conviviam, eu e o Bruno fomos ver os cães, e ele foi-me contando um bocadinho da sua história. "Comecei esta matilha quando ainda tinha 14 anos. Fui a uma montaria com o meu pai mas, em vez de ir para a porta, pedi para acompanhar os matilheiros. Nesse dia matei o meu primeiro porco à faca, e ganhei a paixão por tudo isto. Decidi que era isto que queria fazer. O meu pai nunca concordou muito comigo, mas eu nunca desisti deste sonho. E ele acabou por sonhar comigo e por se envolver em tudo isto. Hoje em dia não nos víamos a viver de outra forma".

Enquanto víamos os cães, ele ia-me explicando que estes não faziam parte da "equipa principal", digamos. Tinha tido uma montaria na Quinta-feira e no Sábado e tinha levado outros cães, que agora estavam em casa a descansar. Ao todo, alimentava e cuidava de 57 cães, maioritariamente Podengos Grandes e Alanos. "O grande objetivo, neste momento, é ir apurando as minhas linhas, e torná-los cada vez melhores".

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Os monteiros começaram a ir para as portas. Olhei para o meu pai e disse-lhe "Boa sorte!". Ele riu-se e disse "eu nunca tenho sorte nenhuma." Rimo-nos os dois. Os matilheiros ficaram reunidos, à espera de um telefonema para arrancarem e, antes disso, preparamo-nos todos. Mudas de roupa; calçar as perneiras, os safões; colocar um chapéu ou uma peça de roupa fluorescente, arranjar a mochila com água e material caso aconteça alguma coisa aos cães (desde ferimentos a envenenamento).

Os outros matilheiros estavam muito espantados de "uma senhora ir para este mato". Eu ria-me, ia falando com eles, mas nunca imaginando o que era "este mato".

 

O telefone toca, podiamo-nos pôr a caminho. Lá fomos nós, até às eólicas, onde iriamos largar os cães. Eu conhecia o sítio, e já imaginava o vento que por lá se deveria fazer sentir. E, de facto, até a carrinha abanava. Estava um pandemónio. Antes de soltarmos os cães, tivemos esperar cerca de 30 minutos, pois ia haver uma caminhada e não quisemos prejudicar ninguém. As pessoas foram bastante compreensivas e, ao passarem por nós, iam admirando os cães. 

As táticas já haviam sido combinadas com os outros matilheiros e, enquanto soltavam os cães, o Diogo lançou o foguete, que ditava o início da montaria. 

 

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Os cães estavam numa euforia. Saíram da caixa com uma alegria imensa, e corriam atrás do dono, pois já sabiam o que os esperava! Começamos a deslocar-nos no terreno e vi logo que não iria ser tarefa fácil. O terreno era íngreme, composto por muito mato, sobretudo silvas. Estava molhado, e havia muita lama. E o objetivo era descer até lá abaixo.

 

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Eu estava sem luvas, pois não me tinha lembrado desse pormenor. Mas deixem-me enaltecer a prontidão com que todos me ofereceram as suas luvas, para eu não me magoar. Mas não aceitei, o erro tinha sido meu e não os queria prejudicar por isso. Mas, a título de curiosidade, deixo-vos um registo de como ficaram as minhas mãos (hoje tenho algumas dezenas de picos que ainda não decidi tirar).

 

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Não estava preparada para aquilo. Uma coisa é caçar no mato às galinholas, o que sabemos que é difícil (em alguns matos); mas outra é caçar neste mato aos javalis. Havia vezes que tinha de me segurar às silvas, para não rebolar lá para baixo. Obviamente que o Bruno ia sempre à minha frente a partir mato, mas é difícil. Muito difícil. E se já os achava uns Senhores, por fazerem o que fazem, hoje em dia o valor que lhes dou não tem tamanho. É imenso, imenso. Havia vezes que caía, outras que não conseguíamos subir para certos sítios, pois a lama não deixava que isso acontecesse. Outras vezes as silvas puxavam-me para trás e não me deixavam seguir caminho. Foi muito duro, mas viveria tudo outra vez. 

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Quando chegamos lá abaixo, perto das vinhas, entramos noutro mato, que ditava que os javalis tinham estado ali há pouco tempo.

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 Eu acho que já nem pensava em nada. Até começar a ouvir umas ladras. O Bruno grita para incentivar os cães. Eu fico calada, atrás dele, e a pensar no que iria acontecer a seguir. As ladras aproximam-se cada vez mais e o Bruno diz-me para nos desviarmos do caminho, pois os javalis podiam ali passar. O meu coração começa a acelerar. O que poderia acontecer agora? Lembrava-me de uma história que o pai do Bruno havia contado; que no dia anterior um javali foi contra as suas pernas. Estava a ficar receosa. As ladras continuam, o mato parte por todo o lado. Olho para o Bruno, que transmite um ar muito sereno. Tento ficar com o mesmo ar, mas é tão difícil. De repente, mesmo à nossa frente, um javali enorme (com mais de 100 kg) vem a passo a fugir aos cães. Cheio de calma, apesar de toda a agitação que se vivia ali. Mesmo ao pé de nós, olha pelo canto de olho e vê-nos. E é aí que decidi fugir mais velozmente. 

Eu fiquei sem palavras, e o meu coração sem força para bater (ainda) mais. Olhei para o Bruno e disse-lhe "Nunca vou conseguir descrever o que se passou aqui".

"Foi lindo, não foi?"

Como é que uma "simples" cena destas nos pode fazer sentir mil emoções, ao mesmo tempo? Sentir que somos tudo e, ao mesmo tempo, não somos nada. Sentir que isto é realmente a minha forma de viver, única, que eu não trocaria por nada.

 

O javali fugiu, com os cães atrás; mas conseguiu ser mais astuto e escapou. À hora de almoço, os caçadores contavam que tinham visto um navalheiro enorme, um monstro, a passar por eles. Se foi este javali que nos tinha feito companhia, nunca saberemos; mas é bem provável. 

Continuamos a caçar a mancha. Ouviam-se alguns tiros. Era bom sinal. Obviamente que tenho de enfatizar o trabalho dos cães, num terreno tão difícil também para eles. Mas estiveram sempre a caçar, com uma paixão incrível e uma força brutal.

Andavamos devagar, esperavamos que eles batassem bem o terreno, e procuravamos os melhores caminhos, por entre mato e mais mato.

 

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 Enquanto andavamos uns atrás dos outros, o Bruno diz ao Ricardo "Se os cães agarrarem um javali, sou eu que vou com a faca". 

E eu disse "Hoje sou eu!", mas nunca imaginando que isso iria acontecer.

Eles sorriram e concordaram.

Continuamos a bater mato. Eu ia perguntando algumas coisas ao Bruno, ele ia-me explicando. Ouvimos ladras, ouvimos tiros.

Até que ouvimos uma grande ladra. Uma vez mais, o mato começava a partir-se e a ladra era cada vez mais intensa, e mais perto de nós. Desviamo-nos do caminho, caso o javali passasse por nós; mas a um certo momento começamos a ouvir o javali. O Bruno grita "Agarraram-no". Corremos o mais que conseguíamos, num terreno em que isso é praticamente impossível. Corremos até às ladras e, num instante estavamos lá os quatro, e eu só os ouvia "A Mafalda é que lá vai".


Nem sabia bem o que ia acontecer ou como é que iria acontecer, mas tudo bem, eu vou lá. Cheguei mais perto e vi o que se estava a passar. Os cães tinham-no agarrado. Mas era praticamente impossível lá chegar, não havia espaço, estava tudo coberto de silvas. O Ricardo começou a partir mato, enquanto o Buno me ia dizendo para ter calma. O meu coração não estava a aguentar tamanha emoção.

Já o tinha feito uma vez, mas sem cães à volta. Aqui estava muito receosa, porque eram mais de 10. Concentrei-me. Primeiro que lá chegasse.... Esticava o braço, mas sem resultado. Até que me "mandei" para cima deles, tirei a faca, afastei um dos cães e espetei-a. Acabou o sofrimento. Retirei a faca, guardei-a logo de seguida e olhei para eles, que sorriam para mim e me davam os parabéns. 

Respirei fundo. Que emoção! Os cães não o queriam largar, mas rapidamente o transportamos para a porta que estava mais próxima. 

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Continuamos a bater mato, mas agora sem mais histórias para contar. Os cães já estavam cansados e o foguete havia sido lançado, para que a montaria terminasse. O frio era cortante; mas eu só sentia calor. Na porta, mal víamos as pessoas, cobertas de casacos, cachecóis e gorros. Passamos por um senhor que estava com um filho pequeno. Perguntei-lhe se gostava de caça, ele sorriu e disse que sim. Um dia iria ser matilheiro.

Olhei para ele e sorri também. E pensei que se assim fosse, iria certamente ser feliz. Iria ter muitas histórias para contar, e iria viver muitas coisas que não conseguimos experenciar enquanto estamos nas portas.

 

À medida que iam guardando os cães, iam contando e vendo aqueles que, eventualmente, poderiam não estar ali. Depressa, todos os matilheiros falam entre si, e ajudam-se mutuamente a encontrar os cães que ainda não apareceram. Foi muito bonito de ver esta entre ajuda!

 

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Entramos no carro e fomos até à sede, onde os monteiros já deveriam ter almoçado. Mas, afinal de contas, ainda não. Estavam a ver o resultado da caçada: três javalis; e a comentar o que se havia passado. Uns que erraram; outros que viram um navalheiro gigante; outros que viram uma vara a fugir, entre outras histórias.

Quando lá chegamos, fui de imediato ter com o meu pai, e mostrei-lhe as minhas mãos. Ele só disse "Então filha, o que se passou?"

E eu só respondi, numa única palavra "Foi lindo, pai"! 

Íamos contando aquilo que nos tinha acontecido. Alguns matilheiros foram dar os parabéns ao meu pai, por "ter uma filha muito corajosa e valente". Ele ia ficando todo babado e orgulhoso.

E eu...

Eu nem sei muito bem o que sentia. É difícil de explicar, sabem? Até no mato, enquanto ia vivenciando tudo aquilo, pensei nisto. "Como é que eu conseguirei descrever, por palavras, tudo aquilo que estou a viver e a sentir, neste momento?"

 

Tentei o melhor que pude. Mas vivê-lo é totalmente diferente. Todos os caçadores deveriam experenciar isto. Acima de tudo, para darem valor a estes homens. Que são Grandes! Até podem ser pagos para isto, não é esta a questão. A questão é que é preciso haver uma paixão muito grande, um espírito de sacifício, uma vontade de fazer mais e melhor, não por eles, mas pelos monteiros e, sobretudo, pelos seus cães.

 

Depois disto, todos regressamos às nossas casas. Tomamos banho, jantamos e não temos mais nada para fazer. Estes homens não, chegam a casa, de noite, e ainda têm 57 cães para tratar. Limpar canis, dar de comer e deixar tudo tratado. Só depois de tudo isto, podem respirar de alívio e dar-me por concluído mais um dia...

 

Esta é a mensagem que retenho. Um matilheiro não é nada nem ninguém, ali no meio daquele mato gigante e daqueles precipícios que, a qualquer momento, podem tirar a vida de alguém. Um matilheiro sente-se tão pequenino, no meio daqueles cães ferozes e destemidos. Sente-se ainda mais pequeno, quando não consegue cumprir os seus objetivos; muitas vezes por culpa das organizações ou da própria sorte. 

Mas, no meio de tudo isto, um matilheiro é tudo; porque sem ele a história nunca pode ser escrita.

Obrigada à Matilha Trinca Espinhas: a ti Bruno, ao teu pai e ao Ricardo, por me proporcionarem um dia tão maravilhoso mas, acima de tudo, por serem quem são e por me terem tratado da forma que trataram.

Esta história já contamos, mas muitas outras estarão ainda por escrever...

ML.

 

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