Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Montaria do Cadaval

Desde há três anos que a Montaria do Cadaval é ponto assente na minha agenda. Não porque se caçam muitos ou poucos javalis; mas sim por tudo aquilo que esta montaria significa para mim, a começar pelas pessoas e pelo ambiente que ali se vive.

Por volta das 08:00h da manhã já muitos monteiros se encontravam na sede, prontos para tomar um pequeno almoço "à medida", desde pão com chouriço, ovos, bolo rei, rabanadas e bifanas; todos se deliciavam, enquanto iam escolhendo as portas, convivendo e partilhando a ansiedade comum num dia em que o imprevisto gere tudo aquilo que possa acontecer...

4 matilhas juntar-se-iam a nós nesta jornada de caça. 

Fomos tirar as portas, que vinham dentro de um envelope. Já havia poucos, pois tínhamos ficado mais para o fim. O meu pai tirou um e deu-me logo outro. Coloquei-o na mesa e disse "eu é que escolho o meu, pai". Mas depois pensei melhor e achei que poderia dar alguma sorte, uma porta tirada pelo meu pai. Tirei uma porta para o Zé e fomos tentar perceber se era um bom sítio. Deixem-me referir que esta é uma montaria que alberga mais de 100 portas, com várias armadas. 

Quando fui perguntar a quem conhecia melhor o terreno sobre a minha porta e a do Zé, o senhor disse-me que uma porta não era má; mas a outra não era das melhores. Quando ele me disse isto, perguntei de imediato ao Zé se não queria ir comigo para a porta. É um hábito que temos e que gostamos; estar juntos em todas estas situações. Um atira uma vez; outro atira outra; mas partilhamos estes momentos juntos, vivemo-los segundo a segundo; e isso é uma das coisas que mais nos une na caça. E assim foi, iríamos os dois para a porta.

 

O João Pereira pediu um minuto de silêncio para que todos pudessemos ouvir alguns avisos que teriam de ser feitos sobre a mancha e sobre a organização das coisas. Uma vez mais, e com muita honra, fui nomeada Diretora de Montaria. Proferi algumas palavras a todos os monteiros e matilheiros que ali se encontravam; dando principal destaque à segurança. Todos sabemos que é uma mancha muito boa, que o Cadaval tem muitos javalis (que fazem bastantes estragos aos agricultores), mas na caça sabemos que nada é assim tão linear...

 

27145164_10156216236224455_2084042302_o.jpg 

Cada armada tinha um postor. Tudo estava devidamente organizado. Pusemo-nos a caminho e rapidamente estavamos nas portas. 

Preparamos o material... Eu não levava muita coisa, apenas uma espingarda, balas e a faca de remate, pois nunca se sabe o que pode acontecer. Levei também dois bocadinhos de pão com chouriço (que tinha sobrado do pequeno almoço), para comer se nos desse fome. 

Estudamos o terreno, como é usual, e vimos que havia uma vereda dos javalis bem batida. Além disso, no sítio onde estavamos, e onde havia várias poças de água e lama, estava tudo pateado de fresco. Estes rastos deixaram-nos esperançosos, apesar de acharmos que a rota que os javalis haviam tomado não seria a mesma que iria ser monteada... Mas isso são aqueles "ses" que nunca poderemos ter certeza...

 

Pouco foi o tempo de espera até soltarem os cães e até ouvirmos as ladras. Eu e o Zé íamos susurrando algumas coisas, debatendo ideias, dando opiniões, até começarmos a ouvir as ladras cada vez mais intensas. Ele rapidamente foi um pouco mais abaixo da vereda, e eu coloquei-me mesmo em frente à mesma, um dos sítios mais prováveis de ver alguma coisa.

E depois é como se começassemos a viver o filme a sério... Até ao momento temos uma introdução de toda a história; mas quando aqui chegamos, e quando começamos a sentir estas coisas indescritíveis, é como se começasse o drama a sério do filme; ou a parte mais romântica, ou a parte em que alguém morre. Uma parte que nos faça sentir realmente alguma coisa de diferente; alguma emoção que nos abane (ainda) com mais força.

E é isto que começo a viver nestes segundos, em que ouço um javali do lado direito, nas estevas, e um javali do lado esquerdo, a andar e a parar. Olhava para o Zé, porque só lhe queria fazer sinal, mas ele estava demasiado concentrado. Entendi que já havia percebido tudo aquilo que lhe queria falar com os olhos. O coração não me dá descanso. Olho para todos os lados. Tudo parece calmo e sereno, apesar de ver algumas giestas a abanarem. Olho para o Zé novamente, que trasmite esta calma e tranquilidade. Mas só eu é que estou num turbilhão de emoções? Será que sou um outsider desta realidade?

 

É então que as estevas começam a abanar com mais força e cada vez mais na minha direção. Eu estava mesmo em frente à vereda onde, de repente, aparece um javali, a trote. Coloquei a arma à cara, devagar para ele não me topar. Apesar de estarmos frente a frente... Mas ele não me tinha visto ainda. Não me mexo. Primo o gatilho e sinto o javali a tombar. Logo de seguida, levanta-se e corre desalmadamente na minha direção. Vinha para me atacar, mas consigo dar outro tiro antes. Ele ainda chega a umas silvas e por ali fica. Tinha de ir rematá-lo com a faca, para acabar com o sofrimento. Talvez me tivesse precipitado no tiro, mas há coisas que por vezes não conseguimos controlar. 

Fui até às silvas, onde tinha um javali ferido, de frente para mim (não havia forma de ir por trás) e onde não tinha um único cão. Quando chego, para o rematar, o javali vem direito a mim, para me atacar. Dou um pulo para trás e sinto algo que nunca havia sentido: medo. Em todos os remates que fiz, em todas as situações que vivi (e algumas mais difíceis) nunca tinha sentido este medo. 

Obviamente que falamos de um javali de cerca de 50kg; obviamente que se fosse um javali maior teria de esperar pelos cães ou por outra ajuda. O Zé vem direito a mim e diz-me para ter calma, que não o posso abordar de frente. Mas rapidamente percebe que não há outra forma. E diz-me:

"Dá-me a faca, que eu vou lá".

"Não, eu é que vou, se fui eu que o feri", disse eu.

"Estás assustada".

"Mas eu vou". Acalmei-me. Concentrei-me. Coloquei o meu medo num lado qualquer e "disse" à coragem para me ajudar neste momento. Aproximei-me e o javali, que batia a boca e espumava-se ao mesmo tempo, tentou vir novamente para cima de mim. Respirei fundo, enfiei a mão para dentro das silvas (mais uma mão toda cortada) e rematei-o. Fechei os olhos com toda a força. Não sei porquê... Talvez porque descarreguei todo o meu medo e toda esta adrenalina naquela faca e naquele momento. 

Mas ainda tive de desoprimir o resto da adrenalina, com algumas lágrimas que acolhiam várias emoções. 

"Então Mafalda, o que se passa?", perguntava-me o Zé, um pouco perplexo com tudo isto.

"Não sei, foi um momento difícil para mim... Mas consegui!"

 

No meio de toda esta história, aparece-nos um cão ao pé. Um podengo português grande, lindo, com uma coleira amarela fluorescente, que continha o número de telefone do seu dono. E fica entre nós até a montaria acabar. Anda de um lado para o outro, timidamente, e não deixa nenhum cão chegar-se perto. Um cão ainda jovem, que tirou a manhã para nos guardar, a nós e aos javalis. Decidi dar-lhe um nome, e ficou o "Guardião".

 

Enquanto observava o seu comportamento, começo a ouvir outra ladra. Deixem-me referir que, durante toda a manhã, várias foram as ladras que fui ouvindo, mas poucos foram os tiros que fizeram jus a isso. Enquanto o podengo Guardião começava a andar de um lado para o outro, eu coloquei-me de frente para a vereda e o Zé pôs-se mesmo ao meu lado. Começamos a ouvir as estevas a mexerem-se e de repente vemos um javali do mesmo porte do outro, e com o mesmo comportamento, a vir na nossa direção. 

Só ouço o Zé murmurar baixinho "tem calma, deixa-o aproximar-se". Estava reticente com as minhas emoções à flor da pele... Mas tive calma, e deixei-o aproximar-se o mais possível de nós. Assim que percebo que é o momento certo aperto o gatilho e só vejo o javali no chão, seco. Fico contente, desta vez tive mais calma e fui mais eficiente, e só ouço o Zé a dizer-me "Grande tiro, grande tiro". Fico orgulhosa de mim própria. Mas estou inquieta, com uma série de emoções estranhas. Talvez ainda esteja a descarregar mais adrenalina... 

Depressa puxamos o javali, para ficar junto ao outro que já havíamos tirado das silvas. O Guardião deita-se junto a eles e fica assim durante muito e muito tempo. Está a dar-me a fome e vou buscar os meus bocadinhos de pão com chouriço mas, mal dou uma dentada, percebo que há alguém que também quer. O Guardião, o tímido podengo, que não me deixava aproximar, vem ter comigo e acabo por dar-lhe todo o pão que havia trazido. Deliciou-se e eu deliciei-me ainda mais por isso...

 

27067374_10155065761780685_4199376396627739907_n.j 

Depois de finalizada a montaria, e de nos terem ido buscar, fomos para um grande banquete, com tudo do "bom e do melhor". 

No geral, a montaria poderia ter sido melhor - apenas 6 javalis cobrados para mais de 100 portas. 

Mas, como sabemos, não podemos nem conseguimos controlar isso. Há dias que correm melhor para uns, outros que correm melhor para outros. Não acho que haja um culpado, acho sim que a caça é isto mesmo: imprevisível. E que não somos nós que detemos o poder sobre os animais; mas sim eles próprios sobre si mesmos. Eles são livres para escolherem onde e quando querem estar. Nós somos livres para ter a sorte de os encontrar... ou não...

 

Um obrigada especial ao meu amigo João Pereira e a todos os que estiveram comigo neste dia...

ML.