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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

"Não deixes os cães saltarem para cima de ti!"

Hoje lembrei-me de ti, sabes?

Estava aqui a arrumar umas coisas e vi uma fotografia nossa, de há muitos anos atrás, no Casal, com os perdigueiros. Lembras-te avô?

Nunca tivemos conversas profundas, talvez porque eras um pouco fechado e talvez porque eu ainda não tinha crescido o suficiente para isso. Mas, mesmo assim, passavamos muito tempo juntos e, mesmo sem essas conversas, vivemos coisas únicas.

Lembras-te quando eu ainda era pequena, e ia ter contigo ao Casal, para te ajudar a tratar dos cães? Passavas os dias com eles. Treinavas todos os dias. Cuidavas de todos os animais que tínhamos, desde os pavões, às fracas, aos gamos, aos pombos e aos patos. O que tu adoravas... E ainda tinhas tempo para as tuas "engenhocas", como todos diziam. 

Ia ter contigo e ficava a brincar com os cães, durante horas. Eles lambiam-me, punham-se em cima de mim e, de vez em quando, só te ouvia a dizer "Não deixes os cães saltarem para cima de ti". Eu nunca te ouvia, nessas situações. E tu ficavas irritado. 

Lembro-me de um dia em que estavamos os dois, tu nas tuas engenhocas, e eu com os cães, e tivemos de ir rapidamente para a maternidade, pois a cadela estava a ter os bebés. Fomos apressadamente até lá, e fiquei deslumbrada quando tivemos de a ajudar a ter os bebés. Aliás, tu ajudas-te. Eu fiquei a olhar, maravilhada. Os bebés iam saindo e tu ias-me explicando o que estava a acontecer. Eu deveria ter cerca de 5 anos, mas lembro-me como se fosse hoje. 

Talvez me tenhas transmitido toda esta paixão que tenho pelos animais. Contigo aprendi a diferenciar uma fraca de uma galinha; e a perceber que os cães têm de ter regras e ser obedientes. 

 

Os anos foram passando e tu continuas-te, todos os dias, na tua rotina. Eu já não te acompanhava tanto. Estava mais crescida e tinha-me tornado numa adolescente. Uma adolescente difícil, creio eu. E tinha outras prioridades, como todos os adolescentes: sair com os amigos, estudar, e voltar a sair com os amigos. Uma típica adolescente difícil, sem dúvida. Mas, ainda assim, havia dias em que ia ter contigo e te ajudava a lavar os canis. Ou em que queria só brincar com os cães.

"Não deixes o cão ir para cima de ti", dizias. "Está bem avô" e, uma vez mais, fazia "ouvidos moucos".

 

Os anos iam passando. Tiveste de deixar o Casal e viste a tua vida mudar da noite para o dia. Foste com o tio para a Quinta e, lá, começaste uma nova rotina, mas com o mesmo amor e com a mesma dedicação. Continuavas a caçar. Continuavas a treinar os cães, os nossos perdigueiros. 

Até ao dia em que começaste a ficar doente. Mas, com toda a força que tinhas, ninguém dava por isso. (Ou tentavamos não dar). Íamos às exposições de cães juntos. Era um stress. Tantos cães que levavamos, tanta ansiedade que tínhamos. Nós e eles, certamente... Tu passavas os teus cães, o tio os dele e eu também vos ajudava nisso... Nunca tive nenhum, mas sempre senti que tive todos... Havia momentos, nessas mesmas exposições, em que ficavamos só os dois, e íamos conversando. Apesar de pouco, sempre fomos conversando à nossa maneira. Tinhas um feitio difícil, dizia a mãe e o tio, mas comigo nunca o senti. Talvez porque o meu feitio também fosse assim...

 

Continuavas doente. E no dia em que me decidi tornar caçadora, tu já estavas bem mais doente. Mas, ainda assim, fui ter contigo à Quinta e contei-te. Ficaste tão contente. Acho que nunca havias imaginado isto; que um dia seguiria as tuas pegadas, mas a verdade é que não poderia ter sido de outra forma.

Lembro-me da última vez que foste caçar. Tinhas caçado uma lebre. "Doente e velho ainda consigo caçar uma lebre". Lembras-te de dizer isto? 

Depois foste piorando. Dia após dia. Ficavas naquela cama, e tinhas sempre tanto frio. A Miminha comprou-te um robe bem quentinho e uma mantinha com corações, para tu usares e sentires-te melhor. Sorriste quando ela te ofereceu. Hoje em dia, eu tenho essa manta e ela aquece-me todas as noites. Talvez esteja um pouco mais perto de ti, não sei...

Já era difícil saires da cama. Lembro-me do último Natal que passamos juntos. Oferecemos-te chocolates. Eras tão gulsoso. Ficaste contente, mas expressaste-o de forma diferente. Já não esboçavas aquele sorriso como antes. Já não querias estar ali connosco, na sala, enquanto abríamos presentes. Estavas com frio e querias ir para a cama.

E foste. E lá continuaste... Eu ia lá ter contigo, às vezes e dava-te um beijinho e perguntava se precisavas de alguma coisa. Dizias sempre que não. Só se fosse um copo de leite.

A mãe "ralhava" comigo porque não ia ver-te mais vezes. Não gostava avô. Não gostava de te ver assim e preferia não ir. Bem sei que este meu feitio é tramado, parece que me desligo, mas sou assim.

Houve um dia em que fui à caça com o tio e com os nossos perdigueiros. Tu já não podias ir e estavas com muita pena. Nesse mesmo dia cacei a minha primeira perdiz. Eu estava tão feliz. Quando chegamos à Quinta corri para o quarto para te contar e mostrar. Ficaste tão, mas tão feliz e orgulhoso. Acho que foi o último dia em que vi esse sorriso verdadeiro.

Depois disso, não o vi mais... A esse sorriso.

E depois disso cada vez estavas mais frágil. Tu, um homem como eras, assim naquele estado. Foste para um lar, durante pouco tempo. Fui lá algumas vezes mas, cada vez que entrava ali, só me apetecia sair. Lembrava-me muito a avó, sabes? Odiava aquele cheiro, aquelas pessoas, tudo o que envolvia aquele sítio. Ia-te ver e só me queria ir embora. Não por ti, mas por saber que tinhas de ali estar. Uma vez até jantei contigo lá e com outros senhores. Todos falavam e conviviam, menos tu. Não tinhas paciência para aquilo, eu sei. Eu também não. 

Houve um dia em que já não te apeteceu levantar mais da cama, mas ainda assim esperaste que a mãe chegasse para te despedires dela e para ires para o outro mundo. Ela sabia que estavas à espera dela e ela agradece-te por isso. 

Foste em paz. Mas deixaste uma grande angústia em todos nós. 

 

Foi o dia do teu funeral, em que tivemos todos de nos despedir de ti. Um ambiente triste e pesado, com muitas pessoas que te quiseram ir dar um último adeus. Será que tens noção disso?

Ninguém quis abrir o caixão mas a tia, a tua irmã, quis ir dar-te um último beijo. Não havia ninguém para a acompanhar. A mãe não queria, o tio também não. E a Matilde muito menos. Sabia que me iria custar horrores, mas eu teria de ir acompanhar a tia, até porque tinha um último presente para ti.

O senhor abriu o caixão. A tia chorava e despedia-se de ti. Eu não consigo explicar o que senti, mas sei que é algo que dói muito. Mas ainda tinha o tal presente para te dar e, junto a ti, junto ao teu coração, coloquei algumas penas da primeira perdiz que cacei. Aquela, que te contei, lembras-te? Elas foram contigo porque, no fundo, quis que algo meu, algo nosso, fosse junto a ti para esse outro mundo. 

Se sou caçadora, a ti também te devo. E portanto estaremos sempre juntos, neste e no outro mundo. 

Sabes que caço com os teus botins, o teu chapéu e as tuas camisolas? Eu sei que sabes. Eu sei que segues os meus passos, aí desse outro mundo.

"Cada um se deita na cama onde faz", era o que nos dizias todos os dias. Eu espero estar a fazer a minha cama de forma exímia, porque quero deitar-me nela como tu te deitaste na tua.

Obrigada Avô Américo! E desculpa, mas ainda continuo a deixar os cães virem para cima de mim.

ML.

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