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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

O bramar de um sonho

Como já saiu na Revista Caça e Cães de Caça toda a reportagem da aproximação ao veado, já vos posso contar o lance e os momentos magníficos que vivemos. Aqui fica...

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“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”, António Gedeão.

 

Creio que não há melhor forma de começar esta nossa aventura com uma das coisas mais importantes da vida: os sonhos. E é graças a esses sonhos, a esta forma de estar na vida que conseguimos ter estes momentos tão puros e tão felizes.

 

Sábado chegamos ao Rosmaninhal e fomos recebidos num ambiente muito caloroso, onde depressa a amizade e companheirismo tornar-se-iam alicerces fundamentais do nosso fim de semana.

Ao fim da tarde partimos para o campo, onde iríamos tentar fazer uma aproximação aos veados. Tudo isto era novo para mim. Este tipo de caça, este tipo de espécie cinegética, estes terrenos do Rosmaninhal e até a arma que iria atirar.

Neste tipo de caça é fundamental termos um bom guia, confiança em nós próprios, naquilo que fazemos e, acima de tudo, a sensibilidade que deve estar patente nos caçadores. Sensibilidade essa que nos permite caçar e sonhar, simultaneamente.

Eram 18:30h e, ao ir até ao local indicado, vejo 2 fêmeas e 1 vareto deitados, ao lado da estrada. Poucas foram as vezes que vi estes animais ao vivo, principalmente em liberdade. E é uma imagem indiscritivel, que depressa nos leva aos tais sonhos que temos…

Chegamos ao local, e depois do guia me ter explicado várias coisas acerca da 300 Magnum com que iria atirar, ficamos atentos ao bramar de algum veado macho na zona; enquanto trocavamos também breves impressões para que a estratégia fosse meticulosamente preparada. De seguida, foi tempo de partir, pé ante pé, com os sentidos apurados, até o bramar do veado que soasse mais próximo. O tempo seco, a chuva que ainda não tinha caído, tornou este nosso trajeto muito complicado. O barulho que fazíamos era demasiado vigoroso, com a agravante de serem três pessoas a deslocar-se.

 

O sol começava a pôr-se no horizonte, para dar lugar a uma lua cheia, grande e brilhante que, ao crescer, iria iluminar-nos e brilhar para nós. Olhei para a lua. Sabia que era uma das únicas coisas que partilhavamos e que todos os veados bramariam para ela.

 

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Avistamos algumas fêmeas e ouvimos veados a bramar. Realmente os sonhos podem ser vividos de forma tão intensa e não precisamos de muito. Muitas vezes digo que precisamos apenas dos 5 sentidos para sentirmos que estamos vivos e que, efetivamente, podemos ser felizes. Neste momento, a audição encheu-me o coração por completo e tinha a minha noite preenchida.

 

Um jantar fantástico nos aguardava, preparado pelo Srº Rolo, numa herdade soberba, com pormenores que nos fazem sentir em casa; desde os quartos, à sala e à cozinha. Mais uma vez, mesma a estas horas, sabiamos que estavamos num fim de semana cinegético, tal era a simpatia, a genorosidade e a amabilidade desta gente. Relatos de caça, histórias antigas e questões sobre o futuro da caça foram debatidos, numa mesa que primava pela felicidade.

 

Sábado. 5:30 da manhã. O despertador toca. Acordo num ápice, como em todos os dias de caça. A ansiedade e o ligeiro nervosismo já me tinham particularizado a noite, e certamente me iriam perseguir ao longo do dia.

Comemos qualquer coisa rápida, porque àquela hora não conseguimos encher o estômago, que também ainda está um pouco adormecido. Sentei-me na carrinha e olhei pela janela, contemplando a lua cheia, que iluminava toda a Natureza. Parecia que não estava cansada, que ainda poderia estar ali horas e horas…

Chegamos ao local. Este mesmo local onde tínhamos estado ontem. Ouvia-se o bramar dos veados ao longe, mas de forma distanciada. O auge da brama naquela zona tinha sido há sensivelmente oito dias, contou-nos o proprietário Srº Rolo. Depressa nos fizemos ao caminho, hoje ainda com mais tacto, pois saberíamos que um pé em falso poderia pôr toda a caçada em risco. Novamente pé ante pé, com todos os sentidos apurados, tal como se fossemos cães de parar. Tensos, mas felizes, teríamos de descobrir onde estava a peça de caça.

De arma às costas, de binóculos ao pescoço e de coração a palpitar lá íamos nós. Novamente três pessoas que se deslocavam muito juntas, de forma muito silenciosa e que, de vez em quando, tinham de parar e contemplar, com os binóculos, se os veados estariam por ali. Uma coisa que é fulcral e ainda não referi. Estavamos numa propriedade aberta, ou seja, toda a dificuldade era totalmente diferente porque, caso houvesse alguma oportunidade, seria somente essa mesmo. Que poderia ser bem aproveitada ou não e, caso não fosse, não haveria outra, pois os veados fugiriam todos, livres e destemidos.

Andamos durante algum tempo. Os segundos tornam-se minutos. Os minutos transformam-se em horas e as horas em longos dias, daqueles que teimam em acabar. O Sol começava a nascer e a lua teimava em pôr-se. As cores do céu eram muito mais do que o mero azul turquesa. Entre vermelhos, amarelos e laranjas, e entre os verdes e castanhos da Natureza, tudo encaixava na perfeição. E aqui pensei “se a perfeição existe, tenho a certeza que é aqui, neste sítio, a esta hora”.

 

Chegamos ao sítio onde o guia tinha mais esperança. Todos os anos os veados costumam estar por ali. Colocamos os binóculos e, de forma minuciosa, vimos todos os cantinhos; mas neles não estavam lá.

 

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O guia olhou para nós, um tanto ou quanto cabisbaixo e disse “é a primeira vez que não vejo veados aqui. Isto não vai ser fácil”. Poderia ter desmoronado, ficado triste; mas não! Todos aqueles momentos ali vividos já me tinham realizado muitos sonhos. Porque para sonhar não precisamos de muita coisa. Pelo menos eu não. E, no meio de tudo isto, ouvimos um bramar forte e intenso, aproximadamente a 300 metros num vale! Serão coisas do destino? Serão obra de Deus ou de alguma força superior? Ou apenas sorte? Não sei o que lhe chamar; o que é certo é que, de repente, o coração palpita ainda com mais intensidade e a tal ansiedade e ligeiro nervosismo começam a ficar cada vez mais intensos. Outro bramar. Depressa colocamos os binóculos e vemos o que se poderá estar a passar. Avistamos três fêmeas, que apareceram na linha do horizonte, num cabeço limpo a virem na nossa direção, muito devagar, a caminho do encame no mato, e que vinham comendo as últimas filhas da madrugada. Ficamos atentos, pois ouviamos um bramar de um veado na cova por trás. E, passados uns segundos (aqueles segundos que parecem horas), aparece uma imagem deslumbrante. Um veado grande e bonito, no cimo da serra, tal e qual como nos filmes. Até que percebemos que está um veado grande e muito bonito no cimo do vale, tal como nos filmes. Uma posição imponente, com umas hastes grandes que se destacam no céu azul, a cabeça erguida e um bramar acentuado. E esta é mesmo daquelas imagens que valem mais que mil palavras…

Sabíamos que nos teríamos de aproximar! Era um bom veado e uma oportunidade que não deveríamos perder, apesar de ser muito difícil. Começamos a andar, sem fazer o mínimo barulho; mas era tão difícil. A ansiedade era cada vez maior, assim como aquele ligeiro nervosismo. De repente, ouvimos novamente o bramar ao nosso lado, mas que desvalorizamos, pois já teríamos o nosso “alvo” em mente. Vemos um veado ainda com hastes pequenas, a sair pela encosta acima, de forma veloz. Tinha dado connosco e isso era um mau indício. Estavamos já mais perto do “nosso veado” até que, fomos brindados novamente pela sorte, pelo destino ou por outra coisa qualquer. O guia aponta para o nosso lado esquerdo, onde estava um veado muito bom, com umas hastes lindas, a cerca de 160 metros. Ele só me disse “é aquele. Tem calma. Tens tempo”. E num ápice, as emoções conseguem dar cabo de nós. Aquela tal ansiedade e aquele tal ligeiro nervosismo depressa se apoderam de mim e são eles que vão resolver esta caçada, porque sinto que são bem mais fortes do que a calma e imperturbabilidade que poderia ter naquele momento e que nunca terei. E sei que aqui não há tempo para olhar bem, para respirar fundo uma e duas vezes, para pensar nisto ou naquilo. Não há tempo! Aqui os minutos viram, sem dúvida alguma milésimos de segundos e qualquer falha pode ser “fatal”.

 

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O guia foi essencial para que eu conseguisse fazer o que fiz, sem dúvida alguma. Depois de colocada a carabina em cima do apoio, eu aponto para o veado, de forma muito rápida. Sinto que tremo por todos os lados e que não estou 100% segura. Ou consigo acalmar-me ou alguma coisa pode não correr bem. Olho, ele está na posição ideal para eu atirar. É lindo este animal! Meto o dedo no gatilho e, suavemente, disparo. Ele cai. Ouço “acertas-te, mas faz outro tiro”. Olho, sem ser pela mira. Tenho de olhar com olhos de ver. Ele levanta-se. Eu aponto-o novamente, agora noutra posição e disparo novamente. Tudo isto é passado com muita tensão, muita ansiedade e nervosismo. Mas, no fundo, com uma adrenalina enorme. Aquela adrenalina que nos chega para dizer que estamos vivos e que, naquele momento, somos as pessoas mais felizes do mundo.

O veado cai. E fica no chão. Esperamos cerca de 5 minutos. Falamos do lance, do tiro, do que fazer, do veado que é… Mas esta conversa ainda não é real para mim! Tenho de ir ter com ele. Tenho de o ver. Tenho de ter a certeza que isto é o bramar de um sonho.

Começamo-nos então a aproximar. Eu ia à frente, transportando a arma, como se esta fosse o nosso escudo de salvação. E, no fundo, caso acontecesse alguma coisa seria ela a resolver, sim! E eu! Estava nervosa. Tudo dependeria de mim e daquela arma. E, envolta nestes pensamentos, vejo o veado a levantar-se, com muita dificuldade e a fugir. Nem estava a acreditar que esta aventura ainda não tinha terminado e que ainda teria de aguentar o meu coração durante mais algum tempo. Olho para o guia que me diz que teremos de avançar rápido para acabar com tudo isto. Desta vez fui eu e o guia apenas. O Zé ficou com os binóculos a controlar o veado, que a custo tentava fugir, muito ferido. Não tinha a noção do comportamento destes animais, mas são muito valentes e aguentam muito, tal como os javalis. Andamos apressadamente até termos o veado no nosso ponto de mira. Coloco a arma à cara para acabar com todo este sofrimento rapidamente. Mas vemos que o veado está “tranquilo” e que temos tempo de fazer um tiro mais calmo e seguro. Coloco a arma apoiada e encosto a cara, observando o veado pela mira. Este começa a querer subir a encosta, a custo. Olho e disparo automaticamente, sem pensar sequer. O veado dá um salto e cai com um último suspiro. E eu suspiro também, e as lágrimas começam a emergir. A emoção é tanta e tão forte que não consigo descrever mais nada. Somente dizer que tudo isto foi um bramar de um sonho; sonho esse que se tornou real!

Obrigada! Um obrigada ao guia por tudo aquilo que me proporcionou e por toda a calma e confiança que teve em mim. Obrigada ao Srº Rolo, por toda a simpatia e todo o cuidado extremo que teve connosco. Obrigada ao Luís que foi também um grande companheiro. Obrigada ao Senhor que esfolou e cuidou do veado. E obrigada ao Zé, por ser o meu maior companheiro, por saber acalmar-me sempre nestes momentos, apenas com as palavras mágicas “tem calma, faz como sempre fazes, dedo suave no gatilho”. És uma peça fundamental nestes sonhos que têm comandado a nossa vida.

ML.