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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

O destino que eu não escolhi para ti!

Fui buscá-lo em cachorro. Tinha cerca de 2 meses. Quando lá cheguei, olhamos um para o outro, e talvez aquilo tenha sido o que chamam amor à primeira vista. Gostei logo dele. Apaixonei-me logo por ele. E ele por mim.

Viemos juntos para casa. Na viagem, ele estava mal disposto. "Coitadinho, é a primeira vez que anda de carro", pensava eu. E enquanto ele fazia uma cara esquisita, eu ia pensando no nome que lhe iria dar. Há tantos nomes hoje em dia. Tudo é permitido para se chamar a um cão; desde nomes de pessoas, a nomes de objetos, de outros animais. É um mundo, e eu analisei este mundo por alguns momentos. Não precisei de mais. Porque mal o vi sabia que ele seria o meu King, e assim foi. Ele chamar-se-ia King. 

Olhei para ele, "King", disse eu, com um sorriso timido (confesso que tinha receio que ele não gostasse do nome). 

Ele, com aquele ar enjoado, olhou para mim e abanou o rabo.

Sim, serás o King!

 

Chegamos a casa e tudo estava preparado para receber o King. Havia uma cama à sua espera, havia uma tigela com água e outra com ração para cachorros e um brinquedo para que ele se pudesse divertir.

Ele gostou, eu senti-o. Começou a brincar, a roer as coisas e a comer como um desalmado. Assim começaram os nossos dias. Ao início, ainda choramingava, mas depois era mesmo o King lá de casa.

Todos os dias íamos passear ao campo, quando eu me despachava do trabalho. Era a maior alegria dele. Corria sem conseguir parar. Gostava de correr atrás das borboletas e dos pássaros. E, tempos mais tarde, gostava de parar as borboletas e os pássaros.

O King era um cão de caça e, quando o fui buscar, além de ser o nosso cão de companhia, iria ser o meu cão de caça, o meu fiel amigo que me acompanharia para todo o lado.

E assim foi. O King ia comigo para todo o lado. Se eu fosse ao supermercado, ele saltava logo para a carrinha e vinha comigo. Se eu fosse por gasóleo, e não o deixasse vir comigo, começava a mordiscar-me os pés e não me deixava ir embora sem ele. Éramos unha e carne, literalmente. 

E todos os fins de semana, quando podíamos, íamos à caça. Talvez esta fosse mesmo a coisa que ele mais gostasse de fazer. Tenho a certeza disso. E por isso levantava-me às 3 ou 4 da manhã, a chover torrencialmente lá fora, e a marcar -5 graus. E ia-te acordar. Abrias os olhos, percebias o que se estava a passar, e começavas a rodopiar e a dar pulos de alegria. Estavamos tão felizes. Éramos tão felizes.

 

Até ao dia em que te fui acordar, em que fizemos a mesma festa por irmos caçar e em que chegamos ao campo com a mesma energia. Abri a porta do carro e pulaste. Vieste logo para cima de mim, mesmo que eu te dissesse que isso não se fazia. Neste ponto nunca me respeitaste. Talvez fosse a quereres demonstrar o amor que tens por mim. E por isso nunca me chateei contigo.

Começamos a nossa jornada de caça. Ainda me lembro que paraste uma perdiz e que depois a cobraste, com o rabo a abanar cheio de alegria. Eu baixava-me sempre para receber o que me trazias. E tu, depois de me dares a peça de caça, davas-me também uma lambidela. Era sempre assim. Alguns olhavam para nós de forma estranha, mas nós não nos importavamos. Éramos felizes assim, ao nosso jeito.

E eis que, num terreno mais difícil, cheio de mato e estevas, comecei a estranhar não te ver. Mas pensei que poderias estar a bater terreno mais à frente. Tinhas esse dom e fazias a magia acontecer, na caça. 

Mas comecei a ficar preocupado. Uma preocupação que nunca ocorreu antes.

Chamei-te.

"King".

Bastava isto para vires. Mas não vieste. Chamei-te novamente. Três, quatro, dez, vinte vezes. E nada. Comecei a ficar demasiado aflito. O meu coração começou a palpitar com muita força e com muita dor. Não sei explicar o que sentimos quando achamos que algo de mal poderá acontecer a qualquer momento.

Apitei e apitei. Não estavas habituado ao apito, mas poderia ter algum resultado. Nestes momentos, tudo conta.

"King, King". Nada.

Comecei a correr, que nem um louco, a partir mato e estevas à minha frente. Talvez parecesse um javali a fugir de alguma coisa. Não via nada nem ninguém à minha frente. Não percebi o que se estava a passar. Não poderias ter fugido, não poderias ter-te perdido. Só tinhas 7 anos. Estavas no auge. 

Talvez houvesse alguma armadilha no terreno. Teria de descobrir. Um poço ou alguma ravina, sei lá... Corri. Corri até as forças me faltarem. Até a noite cair e até os meus companheiros me dizerem que não valia mais a pena. Eles foram-se embora, eu fiquei lá. Para mim valia a pena, perder minutos, horas, dias, fosse o que fosse, só para te encontrar.

Naquele dia, fiquei lá até a minha mulher me ligar em pânico. Expliquei-lhe o que estava a acontecer. E ela, a chorar compulsivamente, apenas me disse "Vem para casa por favor, amanhã vamos os dois aí".

Fui até ao carro e não sei dosear a dor que senti. Acho que nunca tinha sentido uma dor assim, tão forte e tão limitativa. Ela não me deixava entrar no carro e ir assim embora. Mas, por outro lado, a razão obrigava-me a ir. Era noite escura, não se via nada e eu já andava ali há 10 horas, sem comer, nem beber nada. 

Liguei o carro e fui-me embora. As lágrimas começaram a escorrer-me, com uma força incalculável. Nunca tinha chorado assim. Mas porque também nunca tinha sofrido assim.

"Onde é que tu estás, King?", pensava eu. 

 

Voltei lá todos os dias seguintes. Estava a 300 km de casa. Mas, ainda assim, voltei lá. Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta. Chegava por volta das 09h e saía por volta das 7 da noite, quando começava a escurecer. E nada. Nunca nada. Nunca tive uma única pista ou um único vestígio de ti. 

E não era só eu. Todos faziam esforços para te tentar encontrar, desde a GNR, até aos habitantes da aldeia mais próxima.

Mas nada. Nunca nada.

Todos os dias era mais difícil, porque todos os dias começava a pensar que nunca mais te iria ver. 

E nunca mais te vi. Até hoje. 

Passado dois anos consigo escrever esta história; mas passado dois anos o aperto no coração é igual. Não sei se fui eu o culpado. Não sei se há algum culpado. O que sei é que nem eu, nem tu merecíamos ficar um sem o outro. E isso aconteceu.

Mas, também sabemos os dois que, estejamos onde estejamos, seremos sempre os melhores companheiros; e sempre que eu for pôr gasóleo, tu estarás a mordiscar-me os pés.

ML.

 

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