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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

O javali no Brasil

Tal como em Portugal, o javali é uma praga no Brasil, sendo reconhecido internacionalmente como uma das 100 piores espécies invasoras (Invasive Species Specialist Group). Segundo Rafael Salerno, Coordenador GT Javali, estes animais expandiram-se no país, desde 1989, vindos do Uruguai. Nesta altura, os javalis eram importados da Europa e do Canadá por criadores de suínos que confiaram no marketing que se fazia em torno do javali, assegurando eram "o sangue azul dos porcos", como sendo uma carne de maior qualidade (Pedrosa et al., 2015; cit. GloboRural, 1996).

Em 1991 havia somente um município em Rio Grande do Sul com incidência registrada; em 1997 eram 6; em 2002 foram reconhecidos 138; e em 2006 já eram 213 municipios (somente no Rio Grande do Sul). Em 2007 confirmou-se que mais nove estados do Brasil estavam a ser "invadidos" por javalis. 

Neste momento, 472 municípios brasileiros têm javalis, sendo o sudeste a região mais afetada; e São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul os estados com mais javalis.

Facilmente percebemos o porquê desta expansão: o javali tem uma facilidade enorme em alimentar-se de tudo (Pedrosa et al., 2015; cit. Ballari e Barrios-García, 2014) e tem taxas reprodutivas muito elevadas (Pedrosa et al., 2015; cit. Dzieciołowski et al., 1992)

 

Como muitos sabem, a caça no Brasil é proibida; mas tendo em conta os estragos que estes animais faziam, teve de se tomar medidas de controlo, decididas pelo IBAMA (Insitituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Segundo Rafael Salerno, um ponto importante a ressalvar é "a morosidade das autoridades em agir e a falta de ações enérgicas para conter estas infestações em seus estágios iniciais seja em nível federal quanto estadual."

 

Desde 1995 que começaram a caçar javalis no Rio Grande do Sul, com o objetivo do controlo da população. Nesta data, por exemplo, foram caçados 26 javalis, "mas o insucesso deveu-se à falta de experiência na caça ao javali", refere Rafael. 

Em 2011, foram caçados 510 javalis, em 11 municípios do RS, durante 1 ano, mas "havia muita burocracia e faltavam guias treinados".

Em 2004, foram caçados (durante 1 ano) 827 javalis.

Em 2005, foi autorizado o controlo do javali para o controle populacional em todo o Estado do RS, por tempo indeterminado.

Em 2007 autorizam, em caráter temporário, o abate de javalis no Estado de Santa Catarina, somente em esperas. Tiveram poucos resultados, devido "às restrições na forma de abate".

Em 2009, o Estado do Paraná regulamenta o abate de javalis, somente no Parque Estadual de Vila Velha.

 

É nesta altura que começam a assistir a um aumento das organizações de "defesa dos animais", que "ignorando as leis, pareceres técnicos e a necessidade de proteção ao meio ambiente pressionaram as autoridades pela suspensão dos abates". Mas os trabalhadores do meio rural, tal como em Portugal, estavam aflitos com todos os estragos que estes animais provocavam; e por isso as ações de controlo do javali continuaram, ainda que de forma desuniforme e sem uma liderança do órgão ambiental nacional.

 

Em 2010, revoga a instrução normativa que autorizava o controle populacional do javali por meio da captura e do abate, em todo o estado do RS. E desta forma, proibe-se quaisquer atos de caça de espécies consideradas pragas, que afetem a agricultura, a flora nativa ou coloquem em risco a integridade humana. 

"Esta medida foi tida por muitos como política e não técnica, visando a atender os mesmos grupos ligados aos “direitos dos animais”.

Rafael escreve também que "diversos produtores rurais, técnicos e autoridades, como a AGAJA - Associação Gaucha de Controle ao Javalis Asselvajados no RS, e o GT Javali, fizeram reuniões e levaram documentações de danos até o Diretor de Fauna do IBAMA, Vitor Cantarelli, que reinterada e publicamente repetiu que o abate dos animais não seria permitido, instrução que vigora até o momento."

E é aqui que começam a surgir os problemas, nomeadamente para os agricultores, que tiveram mais de 2 milhões de prejuízo, e estamos a falar somente do município de Rio Brilhante. Para além de toda a destruição agrícola, vários foram os casos de mortes de outros animais de criação.

 

Como o IBAMA não quis resolver o problema, a nível nacional, várias iniciativas estaduais surgiram, nomeadamente:

  • Estado do Mato Grosso do Sul: Portaria estadual Resolução Conjunta SEMAC/SEPROTUR/SEJUSP n.001, Estabelece medidas de emergência de controle ambiental da ocorrência de javali-europeu” e seus híbridos, e dá outras providências. Estabelece que será constituida uma "força tarefa" por meio de um Grupo de intervenção ambiental e sanitária. Na prática nenhum abate foi feito até agora e há uma crescente preocupação com a situação da cultura de milhos, mais um ano sem controlo dos animais.
  • Estado de Santa Catarina: Portaria SAR nº 20/2010, declara os javalis como animais nocivos e permite o abate por meios físicos sem restrição, incluído o uso de armas de fogo por atiradores e caçadores registrados no Exército Brasileiro.
  • Estado do Rio Grande do Sul: Portaria Nº 183/2010, Libera o abate de javalis e seus hibridos por meios físicos por tempo indeterminado.

 

Hoje em dia, são caçados alguns animais, contudo, devido à inexistência de regulamentação, "muitos produtores, atiradores e caçadores legalizados, não têm liberdade para realizar abates de forma a reduzir as populações, pois ficam sob o risco de incorrerem num crime ambiental". Em algumas regiões, diversos produtores foram presos, devido a várias denúncias, enquanto tentavam defender as suas culturas dos javalis. 

 

A situação é incontrolável para alguns, levando mesmo muitos agricultores a desistirem do seu meio de subsistência. Muitos contam que só ao fim de 2/3 anos do aparecimento dos javalis, é que começaram a constatar os prejuízos económicos que tinham.

Para além disto, os javalis são um animal que auxiliam na transmissão de doenças para a vida selvagem (Pedrosa et al., 2015; cit. Pejchar e Mooney, 2009); para a propagação de plantas invasivas (Pedrosa et al., 2015; cit. Dovrat et al., 2012).

Outro dado relevante e de extrema importância, é o negócio brasileiro dos suínos; que gera 1,5 bilhões de dólares anualmente (Pedrosa et al., 2015; cit. ABPA, 2014), e que pode ser um negócio comprometido com a invasão dos javalis.

Segundo vários estudos, nos EUA, para manter a população de javalis estável, é necessário abater anualmente trinta em cada quarenta indivíduos.

 

A Lei Brasileira 5197/1967, historicamente assumida pelo epíteto "Lei de Proteção da Fauna",  é um gargalo na gestão da vida selvagem, negligenciando a compreensão técnica e científica dos aspectos ecológicos e económicos das espécies invasoras no Brasil.

Talvez porque não vivem isto de perto; ou talvez porque não queiram mesmo compreender... Continua a ser mais engraçado (e moda) fazer-se amigo dos animais... Mas um amigo disfarçado; porque o verdadeiro amigo preocupa-se com a sua sustentabilidade enquanto espécie; mas preocupa-se ainda mais com a sustentabilidade emocional, social e física da espécie humana.

 

(Quero aqui felicitar todos aqueles que têm feito um trabalho exímio no Brasil, na defesa do controlo das espécies, nomeadamente, o meu amigo Francisco Charneca e Rafael Salerno; dando também destaque ao site "Aqui tem Javali").

ML.

 

Bibliografia:

Histórico do controlo do javali no Brasil, Rafael Salerno

Pedrosa, F., Salerno, R., Padilha, F., & Galetti, M. (2015). Current distribution of invasive feral pigs in Brazil: economic impacts and ecological uncertainty. Brazilian Journal of Nature Conservation, 13, 84-87.

 

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(Fotografia retirada do site: bomlero)

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