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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

O que significa ser Caçador!

Eram 5:30 quando tocou o despertador. Acordei num ápice, até porque o sono nunca havia sido profundo, durante a noite. O nascer do sol estava ainda a meia hora de distância, quando entramos no carro, para mais uma longa viagem. A ânsia de querermos chegar ao destino, leva-nos a sentir que há determinadas alturas em que o tempo passa mais devagar do que é costume.

A adrenalina começa a tomar conta de mim. Os sons! Os sons são tão nossos, tão únicos. O som dos cães a sairem, o som das culatras a bater, o cantar dos passarinhos e as vozes que se escutam alegremente. No fim de contas, é preferir o silêncio da natureza ao ruído das cidades... E esse é o som mais bonito de toda esta jornada!

 

O sol tentava entrar nas nuvens, timidamente; enquanto eu percorria trajetos cheios de histórias para contar, e aproveitava a solidão típica de um caçador em meados de novembro. Enquanto andava, sentia os cheiros da natureza, o cheiro da chuva e as folhas com orvalho. Sentia o cheiro da vida. Da vida que eu escolhi.

Tinha o chão aos meus pés, mas o céu era o meu limite... E até lá sonharia bem alto, com uma ousadia particular, em que os "mas" não são admitidos. Tudo é claro, e tudo é simples, como uma ribeira que faz o tique taque da água que escorre constantemente.

Vi um melro, que saiu de forma assustada entre as silvas. Com o seu cantar peculiar, dava conta que algo poderia ali estar. Um javali ou uma raposa, um saca rabos ou até um cão. Certo é que o coração dispara e a adrenalina incide sobre nós (novamente).

Olho para a minha espingarda e não consigo ficar indiferente.Esta espingarda poderia contar-me tantas histórias. Era do meu avô. Ele ficaria tão feliz se soubesse que a uso. Não sei se a uso como ele a usava, mas é certo que a trato com todo o cuidado. Recordei-o. Mas cada vez que o recordo dói. Dói como o álcool que entranha numa ferida aberta. Mas não sentir nada, dói ainda mais.

Aprendo constantemente mas, quiçá, serei uma eterna criança. Não quero saber tudo, nem ser racional. No campo, enquanto vivo a verdadeira vida, não vale a pena pensar racionalmente. Nem pensar sequer... Vivo somente!

 

Tenho o meu cão parado. Olha de lado para mim, como se estivesse a chamar-me. Vou rapidamente ter com ele e sinto-o ficar mais tranquilo, apesar de toda a tensão que tem naquele momento. Será que ele fá-lo por mim ou por ele? Creio que seja um bocadinho dos dois. Fá-lo porque me adora; mas fá-lo essencialmente porque adora caçar. E com isto é um cão completo, e feliz à sua maneira. Bem feliz, estou certa!

É a cama de uma lebre. Não está lá, já deve ter fugido. Espertas! Ele percebe-o, e continua a caçar, com o rabo a ditar toda a sua felicidade.

 

Sinto um frio na barriga e um nó no estômago. As pernas tremelicam várias vezes ao dia. Sinto que tenho de ser ágil para ter sucesso e que terei de adotar novas técnicas quando não o consigo. Descomplico tudo aquilo que parece ser complicado. Essa é outra parte mágica da coisa.

 

Depois de atirar a uma perdiz, o cão corre alegremente para a ir buscar. E lá vem ele, com um ar maravilhoso, a trazer-ma. Agarro nela, e agarro-me ao cão. Sinto-me feliz, não por mim, mas por nós. Fizemos um bom trabalho, companheiro. Ele salta para cima de mim, e lambe-me as mãos. Agarro na perdiz, limpo-a, e olho para ela. Uma perdiz já velha, que teve um fim que nem sentiu. Talvez nunca tivesse sido atacada por nenhum predador. Comecei a pensar no que iria fazer com ela: uma canja ou um estufado?

 

Passamos por três burros e pelas vacas com os bezerros. Estão todos tão curiosos. O meu cão não gosta, mas acalmo-o. Penso no quão sortuda sou. Na qualidade de vida que tenho. Nas paisagens que vejo, nos sons que ouço e nos cheiros que sinto. Tudo tão peculiar da nossa natureza.

 

E isto resume-se, somente, a uma bolha. A uma bolha de felicidade, em que apenas nos consegue envolver a nós, caçadores. Talvez por isso os outros, aqueles que não caçam, não consigam perceber o que se passa dentro dessa bolha. E é dificil, porque ela não rebenta...

Queremos continuar a manter o nosso cérebro no lugar onde ele se encontra: no coração!

E essa é a melhor parte de um verdadeiro Caçador!

ML.

 

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