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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

O tique taque do relógio numa jornada de caça

6:30 da manhã...

Começa então o tocar cintilante daquele que tantas vezes é o meu pior inimigo mas que, concomitantemente, torna-se o meu melhor amigo... Mas isto apenas em dias específicos, em dias em que me levanto para colocar o estojo da caça na carrinha, juntamente com os cães, que anseiam desesperadamente por estes momentos.

 

8 da manhã...

O encontro entre amigos é feito num pequeno café de uma aldeia ainda por descobrir. Um pequeno café, que desde as 6:30 da madrugada está aberto, para servir da melhor forma possível todos os caçadores e demais que querem começar a manhã com uma sandes de pão fresco ou um café acabado de retirar da máquina. Este café desta pequena aldeia sobrevive até então graças aos caçadores que o frequentam e graças à caça que consegue ainda mobilizar "pequenas multidões". Este encontro matinal significa muito mais do que um simples cumprimento e um simples bom dia. Significa que mais uma manhã especial está para vir e que novos momentos de companheirismo e amizade vão também surgir.

 

9 da manhã...

Chegamos à natureza, ao nosso templo de bem estar. Passamos pelo gado bravo, que olha para nós com ar desconfiado, mas que depressa continua a sua vida rotineira. Viram-nos o rabo, baixam a cabeça e continuam a comer. Mais à frente, paramos a carrinha. Abro a porta num ápice e preparo tudo. Visto o primeiro colete de caça que o meu pai usou. Já não lhe serve há alguns anos, mas a mim ainda me continua enorme. Enorme também é a ligação que tenho com o meu pai na caça, apenas usando o seu "simples" colete. Calço os botins velhos do meu avô. O meu avô já faleceu há algum tempo. Infelizmente, nunca tive o privilégio de caçar com ele. Quando comecei nestas andanças, já ele permanecia na cama, com dores e cansaço. Contudo, lembro-me do dia em que cacei a minha primeira perdiz. Com o meu tio e os seus perdigueiros. Mal chegamos a casa, fui a correr ao quarto do meu avô e contei-lhe o que tinha acontecido. Vi as suas lágrimas. As lágrimas que continham alegria mas, ao mesmo tempo, tristeza por saber que nunca mais poderia fazer aquilo que ele mais gostava. Saí do quarto dele apressadamente, não queria que este momento fosse triste. Ainda assim, sei que seja onde estiver, estará orgulhoso e feliz. Principalmente, porque continuo a usar aqueles botins dele, já com rasgos e tudo. E aquele pin dourado, com um caçador e um cão de parar. Tenho saudades tuas avô!

Soltamos os cães... Estão eufóricos! Saltam para cima de nós. Chamam-nos para começarmos o quanto antes a caçar e, por mais que queiram ir, esperam por nós. Sujam-me logo toda com as patas que andaram na lama. "Nunca deixes os cães subirem para cima de ti", dizia-me o meu avô. Ele sabe que nunca consegui seguir essa "regra". Aí não segui os seus passos...

 

10 da manhã...

Já há algum tempo que começamos a caçar... Somos três pessoas, com 4 cães! Pouca gente, poucos cães. Para mim, o ideal na caça. O terreno era duro, com cabeços altos. A temperatura estava fantástica, parecia um dia de Verão, mas o terreno molhado e húmido não nos deixava esquecer que estavamos no Inverno.

Caçar com cão de parar é simplesmente maravilhoso! Cada caçador tem as suas preferências, o seu tipo de caça, de terreno, de espécie cinegética. Mas repito: caçar com cão de parar é simplesmente maravilhoso!

Neste dia não levei o meu cão. Não tive oportunidade de o ir buscar para o levar à caça. E isso entristece-me, ao ponto das lágrimas escorrerem-me enquanto caçava e pensava nele. E já dizia o meu outro avô "caçador sem cão é um caçador panão". Senti-me um pouco panona ali, é verdade. Mas ainda assim tenho tido o prazer constante de caçar com três cadelas do melhor que já vi e, como é hábito elas caçarem comigo e com o Martin, também já me conhecem e acredito que cacem também para mim.

Principalmente, uma cadela, uma Setter, a Benny. Uma cadela que eu vi crescer e que também me fui afeiçoando. Cacei a primeira perdiz que ela parou. Cacei a primeira codorniz que ela parou. Assisti ao primeiro cobro, à primeira guia e, portanto, é quase o meu segundo cão de parar.

 

E é extraordinário assistirmos a tudo isto, aos "primeiros passos" dos nossos cachorros e, agora com 1 ano e meio de idade vermos que estão tão crescidos. E neste dia de caça vi que a minha pequena Benny estava uma grande "senhora". Esta pequena cachorra parou-me 4 ou 5 galinholas. Esta pequena cachorra cobrou todas as galinholas abatidas, com uma alegria contagiante e que nos leva a pensar "como é que há pessoas que nunca irão experenciar este tipo de situações e este tipo de amor"...

 

Meio dia...

Caçamos com os nossos cães. Depois de paragens soberbas, de grandes lances e cobros, vamos a andar no meio do mato e a Benny para. Fixa, com a cauda enriçada para cima, como se transformasse num podengo. Expressão tensa. Aproximei-me. Pensei que se tratasse de uma galinhola e então escolhi o melhor sítio para atirar, mediante a minha perceção do sítio onde ela poderia sair e do sítio onde se encontravam os meus companheiros. Espero. Olho para a cachorra. Como consegue aguentar tanto tempo sem picar a caça? É realmente inacreditável! Não a mando guiar, até porque ela sabe fazê-lo sozinha. Mas naquele momento não guia, aponta de forma fixa para a peça, que está bem perto dela. De repente, num ápice, a peça de caça sai apressada. E esta lebre, que nos ia fitando à frente, deixa-se assim "entalar" por uma cadela com pouca experiência. Foge apressadamente; com a Benny a persegui-la, como se apanhá-la fosse o seu último objetivo, naquele mato fechado e sem visão nenhuma, que estava encoberto de estevas e silvas.

 

Duas horas...

Depois de uma sandes rápida e da troca de algumas palavras e histórias dos lances durante a manhã, continuamos a caçar. Agora num mato menos fechado. Já me doíam as pernas. Andamos muito e num terreno difícil. Ainda assim, a paixão de estarmos a fazer aquilo que mais gostamos não nos deixa sequer pensar em cansaço ou em dificuldades. Tudo parece fácil, naqueles momentos em que estamos vidrados nos cães e nas espécies cinegéticas.

De repente, ouço o beep da cadela mais velha. Depressa me aproximo e vejo que a Benny já está parada também. Numa primeira estância, parou por simpatia, mas após apanhar a emanação, para porque sabe que algo está ali. A cadela mais velha é muito sensível de nariz e faz algumas falsas paragens, o que aconteceu neste caso. Largou a emanação, dizendo-nos que não estava nada ali. Contudo, a Benny continuou parada. Achei estranho. De repente, faz uma guia sozinha, e coloca-se a apontar a um determinado sítio. Galinholas não seria. Lebres não me parecia também. Talvez não fosse mesmo nada, tal como a cadela mais velha nos tinha dito... Mas como um dos lemas que aprendi neste mundo foi a dar sempre razão aos cães, esperei. Aproximei-me da Benny, para ver se, de facto, estaria ali ou não alguma coisa. E, apressadamente, saem duas codornizes, a bater a asa com a máxima força e rapidez. Claro que não atirei! Mas mais uma vez a cadela demonstrou uma maturidade e uma habilidade incrível!

 

Três horas...

Continuamos a caçar, já com algumas peças de caça que dariam para um belo jantar! Soltamos a cadela mais velha. Uma cadela já com 10 anos de idade, e que já se desorienta muito no terreno, pois já não consegue ouvir. Mas como o terreno ali era mais plano, decidimo-la levar. Mal começamos a caçar ela levanta uma lebre, para nos demonstrar que "velhos são os trapos". De repente, vemos um touro bravo à nossa frente, que deveria ter saltado uma vedação. Fiquei com medo. Principalmente, porque os touros sozinhos podem atacar, ao sentirem-se ameaçados. O touro olhava insistentemente para os cães e para nós. Continuamos a andar, confiando na sorte e na nossa destreza física, caso acontecesse alguma coisa. Mas porque também vimos que a situação estaria controlada, para os nossos cães. Ali, a maior preocupação seriam os cães que simplesmente ignoraram o touro. Entramos num bocadinho de mato e a cadela de 10 anos, "surda e velha" deita-se, ao estilo típico do setter inglês, afirmando que algo ali estava. De facto, sai uma galinhola, com um voo muito tranquilo, em nada caraterístico de uma galinhola. Depois de cobrada, a cadela velha anda 50 metros e para. "É impossível estar aí mais alguma coisa." E estava mais uma galinhola. "Esta cadela inventa caça!", e é uma grande verdade!

 

Quatro e meia...

Depois de acabarmos de caçar, só temos a agradecer aos nossos cães todos os momentos que nos proporcionaram. De facto, a alegria é tanta que não há palavras para descrever estes momentos e lances.

 

E será isto descrito como uma euforia por matar ou será alegria por participar num sistema natural, na vida pura da natureza e da ecologia, entre a presa e o predador? Serei eu menos honesta e menos humana do que aqueles que comem hamburgueres aos fins de semana, nas cadeias de Fast-food?

ML.

 

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