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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Os acidentes de Caça!

Cada vez mais são frequentes as notícias que relatam acidentes durante o ato cinegético; seja acidentes com arma de fogo ou acidentes que estão associados ao próprio indivíduo (por exemplo, quedas, desequilíbrios, AVC, etc.).

Se me perguntassem qual o conselho que daria a um iniciante nestas lides, não pensaria duas vezes e teria de falar-lhe na “regra dos três S” – segurança, segurança e ainda segurança. É imprescindível que tenhamos isto em conta, quer para nosso bem, quer para o bem dos outros.

Quando estamos a caçar, temos o poder de conseguir controlar aquilo que fazemos, nomeadamente, o manuseamento de armas de caça, assim como o disparo do gatilho. Bem sei que há pessoas que não se conseguem controlar, ou que ficam demasiado nervosas, ou que não vêm mais nada à frente, mas… Não há desculpas! E se isso realmente acontece, então têm que se auto controlar.

Porque não podemos permitir que aconteçam acidentes destes, estúpidos acidentes, em que pessoas perdem vidas… Porque já bastam aqueles que não temos controlo….

 

A comunicação social pouco se importa com os caçadores, a não ser que haja notícias que vendam e, os acidentes de caça fatais, infelizmente, são uma dessas notícias. Mas, para além disso, pouco se sabe sobre as lesões que ficam, nas pessoas que sofreram um acidente de caça que não tenha sido fatal. Há muito pouca informação e, principalmente, muitos poucos estudos científicos sobre esta temática.

Nos EUA, 5% da população total tem licença de caça (cerca de 16 milhões de pessoas). Em 2013, mais de 7.000 americanos estiveram envolvidos em acidentes de caça, mas a maioria não foi fatal. Estes números tendem a subir. Os envolvidos nestes acidentes (EUA, Alemanha e Dinamarca) são, sobretudo, homens com experiência na caça, entre os 40 e 50 anos, e que caçam frequentemente.

Interessante, pois os estudos referem que os caçadores mais jovens estão menos envolvidos em acidentes de caça, apesar de terem comportamentos mais imprudentes (ex. irem todos camuflados para um ato de caça).

Relativamente aos acidentes de caça, normalmente, ocorrem durante o próprio ato, com armas de fogo: não ver a vítima, não usar a arma de forma apropriada, balançar a arma durante o tiro e, menos comum, confundir a vítima com um animal.

 

Num estudo recente, de 2015, Bestetti, V. et al., If Hunters End Up in the Emergency Room: A Retrospective Analysis of Hunting Injuries in a Swiss Emergency Departmen, analisaram as causas, os padrões e a gestão de lesões em acidentes de caça (não fatais) em pacientes do Hospital Universitário de Berna, na Suíça; comparando-os com as lesões de caça em todo o mundo.

O Departamento de Emergência do Hospital Universitário de Berna fornece cuidados de emergência a cerca de 1,8 milhões de pessoas, tratando mais de 35 mil adultos por ano.

Neste estudo de Bestetti et al. houve um período de observação dos pacientes de 14 anos (2000-2014) e incluiu adultos que sofreram lesões na caça e que estavam a ser tratados neste Hospital, descritos na Tabela 1.

 

Como foi feita a lesão

Número

Percentagem

Projétil de arma de fogo

4

21

“Coice” da arma

3

16

Faca

4

21

Queda

6

32

Outros (ex. feridas dos sapatos)

2

10

(Table 1: Mechanisms of injury)

 

Destes 19 pacientes, 16 eram do sexo masculino e a idade média era de 50 anos (16 aos 74 anos).  A maioria das lesões foram provocadas pelo próprio. Sete pacientes sofreram lesões na cabeça; cinco nos membros superiores, e outros cinco pacientes nos membros inferiores. Dois pacientes sofreram lesões no tronco. Onze destes pacientes necessitaram de intervenção cirúrgica.

Conclusões do estudo: apenas os acidentes de caça fatais, na Suíça, são reportados ao Swiss Advisory Centre for Accident Prevention; contrariamente aos EUA, onde é obrigatório reportarem-se todos os acidentes, fatais ou não. Não há mais nenhum estudo científico, na Suíça, que aborde as consequências das lesões ocorridas na caça. Os resultados deste estudo são consistentes com os resultados de estudos internacionais: a maioria dos acidentes de caça não fatais ocorrem em homens com uma média de idades de 50 anos. A arma mais envolvida em acidentes de caça é a espingarda, seguindo-se a faca. Neste estudo, a maior parte dos acidentes eram feitos pelo próprio, contrariamente a outros estudos (na Alemanha, a maior parte dos acidentes de caça são feitos por terceiros). Esta ambivalência pode ser explicada pela diferença no grau de ensino; e pela diferença no conteúdo de treino com armas e exames de carta de caçador.

Tal como nos EUA, este estudo suporta evidências de que as quedas durante o ato de caça são a principal causa de lesões não fatais. Nos EUA, as lesões por quedas (ex. a disposição das árvores; perda de equilíbrio e quedas no chão) podem representar até dois terços das lesões ocorridas e 8% representaram lesões neurológicas permanentes ou morte.

A especialidade médica mais frequente nestes casos de lesões é a ortopedia, o que consiste com os resultados de outros estudos internacionais (ex. Halanski e Corden, 2008).

 

Para que estes acidentes sejam evitados há duas coisas essenciais: os caçadores usarem algum acessório com uma cor choque, para que sejam visíveis em todos os sítios. E, por outro lado, haver uma maior e melhor educação sobre armas de fogo. Colocar uma arma nas mãos de uma pessoa requer muito cuidado e muita experiência. E há que saber diferenciar um tiro com chumbo de um tiro com bala. Há muitas diferenças e há pessoas que não têm a mínima noção disso mesmo.

 

Em Portugal, não há dados consistentes sobre acidentes de caça não fatais, pelo que a comparação com estes estudos aqui apresentados é difícil. Mas, parece-me a mim, que também existem e numa larga escala.

Afinal de contas, se estamos a caçar, estamos suscetíveis que algo nos aconteça, não é? Contudo, há acidentes que podemos e devemos evitar. Connosco próprios ou com os outros. E, para isso, nunca nos devemos esquecer da regra dos três S: segurança, segurança e ainda mais segurança. Porque neste aspeto, seremos sempre eternos aprendizes!

 

ML. 

 

(Artigo publicado na Revista Caça e Cães de Caça, edição Janeiro de 2018) 

 

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