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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Páginas da Vida

O meu nome é Ricardo, mas costumam tratar-me por Ricky. Eu até nem gostava muito, ao princípio, mas agora já me habituei. Portanto, sou o Ricky, tenho 59 anos e sou do Alentejo. Uma região cheia de encantos, cores e sabores. Uma região conhecida por tantos, mas verdadeiramente apreciada por tão poucos...

Pedira-me para responder a uma questão; uma simples questão "O que é para ti a caça?". Decidi ir mais além e contar a história da minha vida. Pode ser que assim percebam o que é para mim a caça ou o que foi para mim a caça.

Sou caçador desde que me conheço. Lembro-me de mal saber andar e já ir à caça com o meu pai. Tinhamos muitos cães, mas estavam sempre a variar. Nunca ficamos muito tempo com nenhum, porque realmente acho que nunca tivemos a sorte de ter o cão, o tal cão - bom para todo o tipo de caça. E, por esse motivo, andavamos sempre à procura de mais e melhor. Verdade se diga, não podiamos abrigar todos os cães, pois não é fácil sustentá-los. Tinhamos de fazer opções e sempre vi o meu pai a fazê-lo. Segui-lhe as pisadas...

Aos 10 anos o meu pai deixou-me dar o meu primeiro tiro, com a sua espingarda. Lembro-me como se fosse hoje. O meu coração palpitava e senti-me, naquele momento, um verdadeiro Homem. Tinha de ir a correr contar aos meus amigos e foi o que fiz. Ficaram cheios de inveja. Vi-o nos seus olhos, embora não me tivessem dito. Achava-me o maior! Eu, Ricky, um puto com 10 anos a poder dar tiros de espingarda...

Daí até matar a minha primeira peça de caça foi um pulo. Matei um coelho. Havia tantos nessa altura. Mas não me fiquei só por um... Sempre tive esta peculiaridade de querer sempre mais. Em tudo na vida. Seja na caça, no trabalho ou com as mulheres... Sempre quis mais do que aquilo que tinha ou do que aquilo que poderia ter, na verdade. Mas dei-me mal! Hoje reconheço-o. Poderia ter feito tudo de forma diferente. Era um puto imaturo, na altura. Até há bem pouco tempo, em rigor...

Dos coelhos, passei para as perdizes, pombos, tordos, patos... Tudo o que viesse à rede era peixe, como se costuma dizer. Não olhava para os números e, muitas vezes, não olhava para as espécies. Também não olhava para o facto de ser fêmea, macho ou uma cria. Gostava de atirar. Gostava de meter a arma à cara, premir o gatilho e acertar no alvo. E depois, no fim, ver todas as peças que tinha morto. Achava-me o maior. 

Um dia lembro-me de um caçador dizer-me "Ricky não achas que devias respeitar um bocadinho mais a caça e aquilo que é nosso? Temos de elevar o nosso nome, e não é com esse tipo de atitudes. Já que gostas tanto de atirar, vai para um campo de tiro, não precisas de matar é a caça toda". Mas não era a mesma coisa, eu sabia que não era...

Continuei a minha vida como caçador. Sentia que ainda corria aquela inveja, nos putos (agora também homens). Sabiam que eu era bom... Senão o melhor. Matava tudo o que aparecesse. Era sempre o caçador com mais peças de caça e com histórias e mais histórias para contar... Às vezes também acrescentava algumas histórias que, na realidade, não tinham sido bem assim... Mas ninguém iria saber, certo? 

Gostava de sentir que os outros me bajulavam... Na caça, gostavam sempre de ir comigo... Gostavam sempre de me ver atirar e tinham curiosidade em ver os meus cães. Se bem que sempre foram o meu ponto fraco. Nunca tive um cão que pudesse vanglorizar-me, como já vos contei anteriormente. Vinham uns, iam outros... Depois acabava a época de caça e o que é que eu fazia com tanto cão? Alguns tinha de deixar no campo... Eles conseguiriam escapar! Se nenhum amigo os quisesse, era a minha única solução, para não os abater. Nunca verti uma lágrima ou nunca senti uma emoção mais negativa com isso... Cães há muitos... Sempre foi o meu pensamento! Tive podengos, tive várias raças de cães de parar... Mas todos muito medrosos, todos esqueléticos... E eu dava-lhes comida três vezes por semana (diziam ser o suficiente e eu também partilhava dessa opinião). Mas mesmo assim... Na caça não me serviam para nada, ou quase nada. Ou era eu e a minha pontaria, ou então...

Lembro-me uma vez, num daqueles Domingos solarentos, mas com um frio de cortar a respiração. Fomos à caça... Foi há sensivelmente pouco tempo. Para um homem com 59 anos, o tempo já é visto de forma diferente. Fomos caçar aos coelhos, numa aldeia perto de onde vivo. Carreguei os meus podengos e encontrei-me com os meus amigos. Às 7 da manhã, já estava com uma dose de álcool no sangue. O vinho tinto sempre foi um dos meus aliados na caça. Que bom que era beber 5 ou 6 copos de vinho, antes de ir caçar. Estava tudo desmoralizado, devido à situação do coelho em Portugal (tinha começado recentemente). No fim da jornada, eu apareci com 5 coelhos e os meus companheiros não tinham nenhum. Senti-me, mais uma vez, tão poderoso. Nada me detia. Até que um amigo se vira para mim e diz "Como é que tens tantos coelhos?". Eu sabia que tinha morto metade deles parados, porque nem sequer tinham forças para correr. Seria da doença? Não sei... Mas aconteceu. Mas claro que lhes disse que tinham sido os meus cães, e a minha pontaria, que nunca me deixara ficar mal. Até que um rapazito, que nunca o tinha visto mais gordo me disse "O senhor deveria deixar os coelhos procriarem, deviamos todos tentar acabar com a doença. E não é a matar tudo o que vemos ou todos os coelhos que vemos, que vamos conseguir isso". Ri-me. Ri-me com ar de desdém dele. Um rapazito, que nem sabe o que é a caça a dar-me lições de moral? Era o que mais faltava. Ignorei-o. Aliás, lembro-me de lhe ter dito para se calar e ir aprender a ser caçador. Todos olharam para mim, como se tivesse cometido um pecado. Não os entendi, mas também não fiz por isso. Tirei os meus 5 coelhos do colete (estavam todos uns em cima dos outros) e atirei-os para o chão. Disse-lhes "podem ficar com eles, já que não os conseguem matar".

A partir daí tudo mudou. Senti que estava a chegar uma nova época da caça e uma nova época na caça. Senti que estavam a chegar novos reforços para este nosso desporto. Sim, para mim sempre foi um desporto. Uns nadam, outros jogam futebol e eu caço. Eu mato animais. Ou matava. 

Há cerca de 1 ano que deixei de caçar. Por motivos de saúde. Este maldito cancro apareceu na minha vida, como em tantas outras vidas. E não é que ele pode mesmo dar cabo de nós? Fisica e psicologicamente. Senti-me sem forças para nada. Até para caçar, o que eu mais gostava, eu já não tinha forças. Hoje estou deitado numa cama de hospital, pois desceu-me muito a tensão e tive de ser internado. Há três semanas que continuo internado. Como pode a tensão influenciar de tal forma o meu estado, para ter de ficar aqui tanto tempo?

Há uma enfermeira que deixou de me vir ajudar. Recusou-se. Percebeu que eu era caçador e perguntou-me porquê. Eu respondi "Porquê o quê?"; "Porque é que tem de matar os animais?" , disse ela. Eu respondi, o que sempre respondi a esta gente que não sabe nada "Ouça lá e porque é que você tem de comer as plantas? Vá chatear outro, porra, gentinha...". 

Não tenho razão? Cambada de ecologistas, estão sempre aqui a chatear e a serem contra nós. Se percebessem alguma coisa disto.... E, passado umas horas, entra um rapaz, também ele enfermeiro, na minha sala. Vinha na minha direção e pensei que já conhecia aquela cara de algum lado. Pensei que deveria vir substituir a outra louca. Ele olha para mim, sorri e diz: "Não se lembra de mim?" Eu reconhecia aquela cara, mas não me lembrava de onde. Pelo que tive de dizer que não. Então ele sorriu, ao mesmo tempo que me media a tensão e disse "Sou aquele rapazeco caçador que esteve consigo há alguns anos, a caçar aos coelhos. O rapazeco que não matou nada e que lhe disse que também não o deveria fazer". Senti-me a ficar de todas as cores. Eu, Ricky, um homem sem medo de nada. Senti-me tão pequenino, que achei que ninguém iria reparar mais em mim. Não sei porque fiquei assim. Não sei que tipo de poder teve aquele enfermeiro caçador em mim, mas ele fez-me corar. Ele fez-me sentir algo que outrora não imaginava ser possível.

Respondi-lhe a medo, e com um ligeiro tremor na voz "Sim, lembro". 

Ele sentiu o meu embaraço e despediu-se, dizendo que a tensão estava alta. Teria de me acalmar. Mas eu estava calmíssimo. Achava eu. Não consigo encontrar a palavra que possa definir o que me aconteceu naquele dia. Vergonha? Medo? Não sei se será bem isso. Mas como é que um rapazeco, que não sabe nada de caça, poderia mexer comigo daquela forma?

Ele voltou. Todos os dias voltava para me medir a tensão. Todos os dias me provocava aquele sentimento inexplicável. Dizia-me boa tarde, media a tensão, dizia o que eu deveria fazer e ia-se embora. Todos os dias. Até ao dia que não aguentei mais e lhe disse: "Continua a caçar?"

"Sim, continuo. É a coisa que mais gosto de fazer na minha vida, estar em contacto com a natureza, os animais e com os meus cães."

"A sua colega enfermeira é que não gosta de caça, ficou muito ofendida comigo, por eu ser caçador."

"Sabe Sr. Ricardo... Às vezes basta escolhermos as palavras certas. Basta colocarmos toda a nossa sensibilidade nessas mesmas palavras e explicar. Explicar o que é a caça, tudo o que envolve. Percebermos o porquê de serem contra a caça, para que eles possam também compreender o porquê de nós não sermos contra a caça. Basta isso. Basta que não ataquemos logo."

"Pois... Então e a espingarda? Tem morto muito?"

"Sabe Senhor Ricardo... O matar é a última instância no acto de caçar. Para mim, a caça não se resume a matar. Há tanta coisa que caracteriza a caça e só nós caçadores sentimos e vivenciamos. Isso é unico. A natureza, os animais, os cães..."

"Ah, tem cães bons é isso?"

"Os cães são bons para mim. Eu adapto um cão às minhas necessidades e, por esse motivo, tenho sempre cães bons. Temos de os adaptar à nossa realidade, a nós, e sabermos viver com as suas limitações ou pormenores, tal como eles fazem connosco, todos os dias."

"Nunca tinha pensado nisso assim. Mas que histórias tem você para contar aos outros das peças que mata? Se não mata quase nada... Que emoções vive você? Que sentido faz a caça para si, então?"

"Vivo tanto e sinto ainda mais. As histórias que eu tenho para contar? São tantas, sobrepõem-se tanto ao disparo do gatilho. O ver os animais, sentir a Natureza como o meu Mundo e cuidar dela como se fosse a minha casa. Partilhar a alegria dos meus cães e a amizade dos meus amigos caçadores. Tudo isso são histórias que não acabam mais. A caça é a minha forma de estar na vida. Mas é a caça; não o matar".

Olhei para ele, olhos nos olhos, e deslumbrei o brilho com que falava da caça. Acho que nunca tive esse brilho, que nunca vivenciei a caça dessa forma. Hoje consigo percebê-lo! Tudo o que eu vivia na caça cingia-se ao objetivo de matar. Este miúdo fez-me ver que a caça é muito mais do que o acto de matar...

Tenho pena que não possa mais viver a caça. Hoje, aqui nesta cama de hospital, penso que nunca terei esta oportunidade de sentir e vivenciar coisas que, outrora, não conhecia. E pensar que nunca fui um caçador... Um verdadeiro caçador que vive a caça, pela Natureza e pelos animais... Hoje é tarde demais... O cancro ditou o meu fim na caça! Ou eu dite-o, quando decidi tornar-me um matador, e não um caçador...

ML.

 

 

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