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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Querem acabar com a caça nos Açores!

"Uma caçadora nacional com coração açoriano". Um dia o Drº Gualter Furtado, um amigo pelo qual nutro muito respeito, disse-me esta frase. E, no fundo, acho que sou uma caçadora um bocadinho de cada sítio. Quando caço nas várias zonas do país, já me sinto como se de lá fosse... 

Mas o que é facto, é que tenho um carinho enorme pelos Açores mas, principalmente, pelo povo açoriano que sempre me recebeu tão bem. Talvez me sinta mesmo com uma "costela" açoriana. Certo é que vivo as emoções pelas quais eles lá passam, sobretudo no que diz respeito à caça.

 

E é também por isso que hoje escrevo sobre os Açores, sobre os açorianos mas, sobretudo, sobre a caça nos Açores e sobre o que lá querem fazer. Como aqui, claro. A situação não se altera muito. Mas lá eles são demasiado unidos e não vão deixar que nada aconteça, estou certa. 

 

No dia 7 de Novembro de 2017, saiu uma notícia no Jornal Correio dos Açores, que explicava a situação atual: na sequência da Proposta de Decreto Legislativo Regional que aprova o “Novo Regime Jurídico da Gestão dos Recursos Cinegéticos e do Exercício da Caça na Região Autónoma dos Açores”, recentemente apresentada pelo Governo na Assembleia Legislativa Regional, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) apresentou a sua posição sobre as medidas que considera fundamentais para que caça e conservação do ambiente possam ser compatíveis.

Medidas essas que, no fundo, querem acabar com a caça nos Açores. Dou-vos vários exemplos: suspensão da caça aos patos, alegando que populações de Pato-real, Marrequinha e Piadeira, "estão presentes nos Açores essencialmente como migradoras, sempre num número muito reduzido" (in Diário de Notícias); suspender a caça à galinhola e à narceja, alertando que se tratam de "espécies com populações nidificantes em estado de conservação preocupante nos Açores" (in Diário de Notícias); querem acabar com a utilização de furão e de aves de presa como meios de caça; defendem a proibição do uso de cartuchos carregados com projéteis de chumbo na região; e querem impedir a caça nas imediações dos trilhos pedestres classificados, permitindo o seu usufruto em qualquer altura do ano e da semana.

 

Sabem o que me custa, no meio de tudo isto? É perceber que, quem faz estas propostas NADA sabe sobre recursos cinegéticos, sobre a vida dos animais, tal como os processos de migração ou de sobrevivência; nada percebem da importância da Falcoaria ou dos caçadores... Enfim, mais do mesmo, estou certa! Porque se a grande preocupação fosse o bem estar animal, então estaríamos todos juntos nessa caminhada. Mas obviamente que a grande preocupação se eleva a outros patamares, políticos, monetários...

 

Mas vou pegar nas palavras do Sr. Olivio Ourique, Presidente do Clube Cinegético e Cinófilo da Ilha Terceira, para que percebam o porquê destas ideias serem tão disparatadas.

“Relativamente ao proposto para os patos, é uma demonstração de ignorância em questões cinegéticas. Os Açores não são uma rota de migração de patos. Os patos que aqui surgem são desviados das suas rotas originais pelas tempestades. Os patos que surgem nos Açores ficam por cá apenas alguns dias para descanso, retomando as suas rotas logo que restabelecidas as energias para seguir o seu rumo. São espécies que existem em grandes abundâncias em outras partes do mundo, e que apenas uma percentagem residual passa pelos Açores. As mesmas não se reproduzem na Região. A retirada das espécies de patos passíveis de caçar no calendário venatório só iria implicar uma sobrecarga de caça em outras espécies cinegéticas que se encontram em situação mais crítica nos Açores. Repugnamos a insinuação desta entidade quando sugere que os caçadores abatem qualquer espécie de patos e não apenas as que se encontram no calendário venatório. O caçador só abate uma espécie depois de se certificar da mesma, pelo que as espécies que não se encontram no calendário venatório não correm perigo de ser abatidas. Mais uma vez mostram a sua desconsideração pelos caçadores insinuando que os mesmos abatem qualquer tipo de espécie, sem se preocupar com o que está estabelecido pela lei”.

E continua, agora falando das questões relativas ao chumbo: “já existe legislação que proíbe o uso de munições de chumbo no ato da caça em zonas húmidas classificadas, pelo que esta questão não se coloca. Para além disso, a grande maioria dos projécteis são lançados a dezenas de metros das lagoas, uma vez que o disparo é sempre com os patos no ar e a distância atingida supera geralmente largamente o diâmetro das Lagoas”.

Proibir a caça à galinhola não faz sentido nenhum, pois "sendo a galinhola sedentária, neste momento verificamos que os Açores são das regiões do mundo com maior densidade populacional de galinholas, atendendo à relação de número de exemplares distribuídos por área geográfica. Tem-se verificado nos últimos 3 anos um aumento populacional significativo (estudos da DRRF e CIBIO). Temos verificado nidificação desde Fevereiro a Julho e duas “posturas” por ano. Mantendo os atuais calendários, em termos de período do ano, tempo de caça e quantidade de peças, a sustentabilidade da espécie está assegurada. Somos dos principais interessados que a espécie seja gerida de uma forma sustentável. Sem espécies cinegéticas não há caça…”.

No que toca à caça de furão, Olívio Ourique diz que “ o furão não existe em quantidades que possam de alguma forma perturbar as restantes espécies”.

Relativamente à restrição de caça junto dos trilhos pedestres, “não percebemos como sequer é possível apresentar uma proposta neste sentido. A caça não pode ser praticada a menos de 250m de estradas e edificações. No entanto, o caçador vai mais além desta restrição, tendo todo o cuidado aquando do momento do tiro. Não temos conhecimento de relatos de turistas ou praticantes de trilhos pedestres que tenham sido atingidos ou prejudicados por qualquer método de caça possível de praticar na região. De referir que centenas de caçadores que se deslocam à região (o esquecido turismo cinegético) que alugam carro, ficam em bons hotéis, que vão aos melhores restaurantes, estes acrescentam mais-valias à nossa região, e se cada vez mais restringimos a caça, estamos a perder este mercado”.

 

Também o Presidente da Associação de Falcoaria Portuguesa, Pedro Afonso, tomou uma posição, referindo que apesar da história milenar e disseminação pelo mundo desta forma de caça, não existe qualquer evidência teórica ou empírica de que a utilização de aves de presa para falcoaria coloque em risco os ecossistemas nativos; e que a proibição da utilização de aves de presa como meio de caça no arquipélago dos Açores representa, literalmente, uma proibição direta da Falcoaria. Esta é uma atividade classificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade em Portugal e que o estado Português tem o dever de preservar conforme se comprometeu ao abrigo de convenções internacionais.

 

No dia 11 de Novembro, no Jornal Açoriano Oriental, a notícia era clara e explícita "Governo rejeita críticas dos ambientalistas à lei da caça". A Diretora Regional dos Recursos Florestais, Anabela Isidoro, afirma que "a proposta do Governo Regional é credível e teve em conta o conhecimento científico, cumprindo as regras nacionais e internacionais (...) as críticas que surgem agora pecam por serem feitas de ânimo leve e sem sustentação científica". 

E mais, refere que "a atividade cinegética é fundamental na regulação das abundâncias de algumas espécies que, em excesso, causam prejuízos e desequilíbrios, e que a coexistência das atividades cinegética, agrícola e turística é possível e necessária".

 

Boas notícias!

Caçadores Açorianos não desistam e continuem nessa luta, que têm feito de forma exímia. Dr. Gualter obrigada por tudo o que tem conseguido, sem dúvida é um alicerce fundamental.

Quando há rigor científico e verdadeiros sentimentos e objetivos em prol dos animais, tudo irá ter ao caminho certo!

Força!

ML.

 

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(Imagem retirado do site: http://www.udinetoday.it)