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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Santo António numa noite de Lua Cheia

Na nossa Sociedade, o Santo António tem uma vasta importância; nomeadamente nos Católicos, devido àquilo que Ele representa. Dizem que se pode pedir de tudo ao Santo António, no entanto, bem sabemos que este é o nosso Santo Casamenteiro, sendo dotado ainda de uma cultura literária invulgar e de um admirável dom como pregador. 

Este Santo adorado por tantos, deu-me a honra de caçar um javali esta Segunda feira e, eu "dei-lhe a honra" de ajudarmos muitas pessoas que, por circunstâncias da vida, talvez já não acreditem que os "milagres" ou as boas ações são possíveis... Fica aqui o relato disso mesmo!

 

Estava um dia quente, com um vento intenso, mas que seria favorável para o sítio onde iria fazer a espera. Cheguei ainda de dia, estacionei a carrinha e fui pé ante pé ver o cevadouro. Depois de tudo tratado, dirigi-me novamente à carrinha... Retirei a arma do saco, vesti um casaco quente, pus um chapéu na cabeça e, ineditamente, levei comigo uns binóculos que tinha no porta luvas. Sentia o vento forte. Carreguei a arma e sentei-me no chão, de pernas cruzadas...

Como ainda não era muito tarde, pensei disfrutar um pouco da paisagem onde estava. Agarrei nos binóculos, meti-os à cara e olhei! Olhei e esperei ver alguma coisa... Uma raposa, uma lebre, ou simplesmente as árvores que iam abanando cada vez mais com o vento... E numa fração de segundos, quando retiro os binóculos da cara, vejo um grupo de javalis a alguma distância.

Começou!

O coração começa logo com as palpitações caraterísticas dele... Palpitações estas sentidas somente por um caçador, creio! Não faço o mínimo de barulho. Não me mexo, quase não respiro! E coloco novamente os binóculos à cara para os ver bem... Eram 5 porcos... O maior ia à frente, lidando o grupo... Fez-me lembrar uma alcateia, com o macho alfa a liderar os outros! Iam todos em fila indiana... Descansados e tranquilos... Vinham para o cevadouro, sabia com toda a certeza! A fome começa a apertar, nesta altura! E então os javalis procuram os sítios onde sabem que têm comida à descrição; sítios esses feitos e tratados por caçadores (e só por caçadores)! 

Tirei os binóculos da cara... Eles estavam a chegar! O barulho teria de ser o menor possível, pois ainda era de dia e todo o cuidado seria pouco. Meti-me numa posição mais confortável, no chão, e segurei na arma (a última coisa que me preocupo, pois tento disfrutar o mais possível sempre). 

Os javalis entraram e foram à comida. Olhei-os mais um pouco. Estavam com fome. Havia um particularmente grande, que me tinha chamado à atenção! Seria esse o "meu" javali, pensei! Comia sofregamente... Contudo, os outros quatro javalis começaram a cheirar, tal como os cães fazem e a seguir o rasto. O meu rasto. Começaram a andar, uns atrás dos outros, e vieram para junto de mim. Eu tinha-os a cerca de 5 metros a olharem para mim. 

Um caçador percebe o que estou a falar! A emoção que é (e a dificuldade) ter javalis tão próximos, a verem-nos e a sentirem-nos e nós sem poder fazer nada. O que pensei, na altura: ou concentro-me naquele que ainda está a comer ou não caçarei nenhum! Foi isso que fiz. Abstrai-me dos olhares intensos que caiam sobre mim, a uma distância tão curta (isto durou tudo pouco tempo, claro) e olhei para o que comia no cevadouro. Pus a arma à cara e apontei-o. As ervas estão muito altas, vejo-o com alguma dificuldade. Mas, numa fração de segundos, disparo o gatilho. 

Respiro fundo! Ouço passos aqui, passos ali... Tudo a correr! E num ápice, tudo fica novamente deserto e o silêncio sobressai! Levanto-me e vou ver o que se passou! Não tenho o javali no sítio, mas pensei que tinha dado. Não há sangue... Mas vou procurar! Quantas e quantas vezes eles não deixam uma única gota de sangue...

Procuro, ainda de dia. Era difícil, os pastos estavam altíssimos, mal conseguia ver alguma coisa. Passaram 20 minutos e nada... Começava a querer escurecer... Respiro fundo e olho à volta para me concentrar! Será que tinha falhado? Olho para baixo... Tinha umas calças claras, que estavam agora apoderadas de carraças. Mas, subitamente, estavam também com manchas de sangue. Portanto, ele tinha de estar perto! Como as ervas eram muito altas não conseguia ver o sangue, mas ficou nas calças e era uma nova esperança. Depois de pensar (novamente) no trajeto que ele poderia ter feito, lá fui eu e... Estava o javali! Com um tiro no coração. E eu penso, mais uma vez, o que estes animais aguentam... 

Foi tempo de o puxar até à carrinha, com a ajuda do Zé (claro) - pessoa essencial em tudo isto, e irmos esfolá-lo.

 

Antes disso, tiramos todas as carraças do javali, para darmos para um estudo que está a ser feito a nível nacional, sobre os agentes patogénicos transmitidos por carraças. É importante contribuirmos com tudo aquilo que podemos e, como me haviam pedido, foi a minha primeira preocupação - garantir que tinhamos todo o cuidado a tirá-las (para não morrerem) e entregar a quem de direito, ainda vivas. Curioso saber que as carraças eram de 3 espécies diferentes (umas fêmeas e outras macho) e, além disso, só umas típicas de javali (as outras eram típicas de vacas e as outras de cães).

 

Ainda assim, o mais importante nesta história é o final que ela teve! E foi um final feliz, de certeza... Não só para mim, como para muitas pessoas!

Decidimos entregar a carne toda de javali (depois de esfolada foram feitos despistes de doenças). Tínhamos tudo legalizado, e a Instituição Casa Lisboa, que apoia os sem abrigo aceitou a nossa oferta. Portanto, este javali irá alimentar centenas de pessoas. Pessoas que necessitam, sem dúvida, mas, acima de tudo, pessoas que não nos julgam! Pessoas que percebem que as nuances da vida são tão difíceis e que há tantas coisas mais importantes do que sermos uns contra os outros...

ML.

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