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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Um fim de semana em que salvamos a vida de dois animais!

Já não sei se o meu dia preferido da semana é o Sábado ou a Sexta feira... Quando chega a Sexta feira fico tão feliz por saber que o fim de semana está quase aí mas, principalmente, por saber que vou estar com as pessoas de que mais gosto; com os meus cães; com outros animais e em contacto com a natureza. E este fim de semana não foi exceção...

 

No Sábado tinhamos combinado dar uma volta com os nossos podengos, numa ótica de controlo de predadores. Foi uma coisa pequena, apenas entre amigos, com 4 ou 5 portas. Nós levamos a nossa matilha e por um dia senti-me uma matilheira. Obviamente que teve o gosto que teve, porque ia com o meu pai e com os nossos cães, incluindo o meu polivalente braco alemão, o Martin. Além disso, outro nosso amigo levou a sua matilha de pondegos. Estes cães, experientes na caça ao coelho, iriam ter hoje uma nova aventura, com novas espécies cinegéticas.

 

Caçar com o meu pai é algo que gosto, particularmente. Normalmente, caçamos com os cães de parar. Contudo, este dia seria uma nova experiência e foi deveras encantador.

Não posso deixar de referir um gesto de amizade que me tocou profundamente. Gestos de amizade existem em todo o lado, é um facto; mas na caça a essência é outra. Um dos meus grandes amigos, quase como um pai para mim, levou-me um chapéu que lhe estava pequeno e ofereceu-me. Para muitos, isto talvez não signifique nada, mas para mim significa muito, principalmente, devido às emoções que pintam este cenário que faz parte de nós: a caça e os caçadores. Obrigada, adorei e tu sabes!

Depois de um pequeno almoço fantástico, foi hora de prepararmos tudo e nos deslocarmos até à porta. Nesta primeira macha, eu teria de ficar numa porta, devido ao número reduzido de pessoas. Lá nos deixaram nas portas e explicaram de onde viriam com os cães e os sítios mais propícios à fuga de alguma espécie.

Depois de analisar o terreno, coloquei-me debaixo de um sobreiro. Chovia muito e estava um frio intenso; mas, ainda assim, despi o casaco e tirei as luvas que me aqueciam as mãos; para estar mais à vontade com a arma. "Homem que é homem caça em mangas de camisa, faço sol ou faça chuva", como o meu pai diz sempre!

Ao meu lado, tinha uma raposa morta no chão. O cheiro era intenso, mas ainda assim aguentei, pois aquele sítio era o melhor, no meu ponto de vista. Olhava várias vezes para o que restava daquela raposa e pensava que todos deveriam ver aquilo, para perceberem que existem presas e predadores e que, apesar da raposa ser um predador e matar milhares de animais; também morre e também tem fragilidades. Cadeia alimentar; ecologia!

E por falar em cadeia alimentar e em ecologia, durante esta horinha, em que tive na porta, depressa me apercebi da presença de uma águia. Normal, para quem costuma estar em contacto com a natureza. Contudo, foi fascinante ter a oportunidade de observar o comportamento desta águia, que caçava bem perto de mim, e como se não visse que eu estava ali. Sobrevoava uma determinada zona, fixa e atenta e, de tempo a tempo descia velozmente, como que a atacar alguma coisa. Não vi quem era a sua presa; mas vi que teve um trabalho bem sucedido, pois transportava algo no bico. E por mais que nos custe aceitar, os animais matam-se uns aos outros, para comerem. Os animais menos "fofinhos" matam outros mais "fofinhos"; e o contrário também é verdade.

Ouvi um tiro, perto de mim, na porta onde estava o Zé. Sabia que tinha caçado algo; sem dúvida nenhuma. Esbocei um sorriso, feliz por ele. Passado cerca de 5 minutos, ouvi outro tiro, vindo do mesmo sítio. Tiro certeiro, novamente (e certamente).

O frio era demasiado. Estava a ficar com as mãos roxas e tive de colocar as luvas. Talvez tivesse tempo de as retirar, caso visse alguma coisa; ou então, no meio da adrenalina, nem me atrapalhassem aquelas luvas que, naquele momento em que as coloquei, tornaram-se o meu "porto de abrigo".

Ouço um grito. Estão a chamar-me. Depressa vou ter com o Zé à outra porta, que me diz "é para mudarmos de mancha, tu vens connosco".

E eu perguntei "Onde está o Martin?".

"O Martin esteve agora aqui, caçou muito bem. Acho que descobriu uma nova paixão na caça! Devias tê-lo visto a morder".

Esbocei um sorriso. Tinha de ir ter com ele e com o meu pai, para caçar com eles. Disse que iria encontrá-los e que eles fossem para as portas.

Depressa vejo o Martin. Chamo-o. Ele para, olha para mim e vem a correr na minha direção. Cumprimenta-me e eu abraço-o. Ele está todo molhado, sujo; mas tão feliz. E eu também. Finalmente estamos juntos e vamos caçar juntos.

"Pai, hoje vamos ser uns matilheiros à altura", dizia eu ao homem da minha vida.

 

Ele sorria e estava feliz também. Os nossos podengos lá andavam a caçar, entravam em todas as silvas e moitas, dando tudo por tudo. A nossa matilha é composta, essencialmente, por podengos médios; contudo temos alguns pequenos e o meu coração tremia cada vez que entravam dentro das silvas. Conhecemos bem o comportamento de um navalheiro, por exemplo, e isso assustava-me.

Estavamos a chegar a um cabeço quando vejo vacas e bezerros. Entrei em pânico, porque conheço o meu cão e saberia qual o comportamento que ele iria tomar; e não me enganei. Depressa abro a espingarda e corro para o Martin. Os outros cães, que viam isto, aproximaram-se do bezerro, quase como se lutassem para ver quem era o mais forte. A vaca aproximou-se, prestes a atacar quem ali estivesse. A nossa sorte era uma rede que nos separava da vaca. Peguei no Martin e corri, chamando ao mesmo tempo os outros cães. O meu pai ficou junto ao bezerro, a ajudá-lo a passar a vedação, para ir para junto da mãe; que tentava atacá-lo, para defender o filho. Eu estava extremamente nervosa, com medo pelo bezerro, mas sobretudo pelo meu pai. O Martin estava completamente excitado, pronto para correr o máximo que pudesse até ao bezerro; mas nunca o larguei.

O nosso outro amigo que levava os cães ajudou-nos naquela situação, começando a levar todos os cães dali para fora. Eu chamava o meu pai e pedia-lhe que viesse embora; até que conseguimos controlar toda aquela situação e "salvar" o bezerro, colocando-o junto à sua mãe.

Uma aventura para começar esta experiência como "matilheira". Já sentia o meu coração a mil, mas tentei acalmar-me... Depois de chegar a outro cabeço, soltei o Martin. Já tinhamos andado quase 1 km mas, ainda assim, a primeira coisa que ele fez foi correr para o sítio do bezerro. Impressionante a inteligência destes cães! Chamei-o e ele veio ter comigo e continuamos a caçar, em direção a umas silvas palpitosas.

Fizemos as silvas, com os cães a darem tudo por tudo, até que ouço um laticar. Sentidos apurados, coração a trabalhar! Corri para a frente. As ladras são cada vez mais intensas. Corro também eu com mais intensidade. Vejo os cães atrás de qualquer coisa, mas não consegui ver o que era. Ainda corri mais, mas certamente que fosse o que fosse, era mais veloz que eu!

No meio de toda esta azáfama, ouço outras ladras e de repente ouço tiros, do lado onde estava o meu pai. O meu pai atirou e o pico da minha felicidade depressa atingiu o seu expoente máximo. Corri novamente para trás, em direção ao meu pai que gritava "javali, javali". Passei por ele, que me fez direção para cima, no cabeço. Corri com todas as minhas forças, por aquele cabeço acima. Sabia que um podengo e o Martin tinham ido atrás dele e, portanto, queria ver se encontrava alguma coisa. Cheguei ao cimo do cabeço quase sem conseguir respirar. Tive de parar e de ver, com olhos de ver, tudo aquilo que me rodeava. Mas não havia nada, apenas o Martin e o podengo que voltavam na nossa direção!

Depois de analisarmos a situação e o terreno, chegamos à conclusão que talvez o meu pai tenha errado; coisa que não é normal nesta espécie cinegética (ahahha, desculpa pai)!

De referir que este javali estava isolado e era muito grande. Além disso, os cães já tinham sinalizado outro javali, na primeira mancha, também ele isolado; mas que foi, também ele, errado! Hoje estava a ser, sem dúvida, o dia da caça.

Continuamos a caçar. Fizemos uma ribeira, mas os cães já estavam extremamente cansados. Ainda sairam mais duas predadoras, mas falharam-nas!

Um dia incrível, que acabou com um almoço maravilhoso e um espírito de camaradagem ainda melhor! Rimos, conversamos, brincamos e, acima de tudo, fica marcado pelo amor que existe entre família, amigos e namorado! Obrigada por tudo a quem nos convidou e a quem esteve ali connosco!

 

 

 

Domingo: Salvar a vida a uma vaca

 

No Alentejo, a exploração de gado é feita por muitas pessoas, que têm com isso o seu ganha pão. É frequente irmos nas estradas e vermos vacas e bois à nossa volta. Um dos nossos melhores amigos tem um negócio de vacas e no Domingo pediu-nos ajuda para tratar de uma vaca, que tinha acabado de parir e estava muito debilitada.

Ora, bem sei que isto não tem a ver com caça; mas tem a ver com o amor que existe entre os caçadores e os animais. Esse nosso amigo, também ele caçador, levou-nos até ao sítio onde estava a vaca, deitada, sem se conseguir mexer. Num Domingo de manhã, em que chovia torrencialmente e o vento quase nos levantava até ele, é suposto que todas as pessoas gostem de estar em casa, na cama ou no sofá, resguardadas deste mau tempo.

Contudo, aqueles que cuidam e gostam verdadeiramente dos animais, nem sempre podem aproveitar esses momentos. Esta vaca precisava de ajuda e foi isso que nos fez sair da cama, ainda o Sol não tinha descoberto.

Sou muito sensível com estas coisas e com os animais. Quando vi a vaca, debilitada, sem se conseguir levantar, tive de conter as lágrimas e pensar que tudo iria correr bem.

 Transportamo-la do campo para o pavilhão, para não estar à chuva.

 

 

Eles ajudaram a vaca a levantar-se e deram-lhe comida, água e injeção com medicação. Tiveram de fazer alguma "fisioterapia", para que a perna deixasse de estar dermente. Esta vaca tinha tido um parto muito difícil, durante muito tempo, e agora encontrava-se assim, por se tratar também de uma novilha. 

 

 

Durante o tempo em que estava em pé, foi também altura de colocar uma outra vaca, com o seu bezerro nascido há cerca de 1 semana, num sítio mais recolhido e abrigado, tal era o temporal que se fazia sentir. Não foi fácil, mas conseguimos.

 

 

 

Que importância tem isto? Talvez nenhuma para muitos que se dizem defensores dos animais; mas para mim, caçadora, tem uma importância extrema; cuidar do bem estar destes animais e, quiçá, salvar a vida de um destes animais. Sim, certamente, que se não tivessemos lá ido esta vaca, este animal, já não teria aguentado mais dias.

Ainda bem que sou caçadora e ainda bem que uma das minhas maiores preocupações é o bem estar animal. Mas, sobretudo, ainda bem que faço alguma coisa para isso! E farei, até não poder mais!

 

 
A vaca em recuperação!
ML.