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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Um sopro do coração

Um sopro do coração... 

É assim que começo hoje... Porque é assim que começo todos os meus fins de semana... Com um sopro do coração, que invoca por mais dois dias de pura felicidade... Dois dias em que este meu coração pode viver várias emoções e experiências... Em que este meu coração vai bater de forma mais intensa, vai suster-se quando assim tem de ser, vai tranquilizar ou, paralelamente, "explodir" com tamanhas sensações... Mais uma vez, falar-vos-ei deste meu fim de semana que, infelizmente, já terminou. Terminou, também ele, com um sopro do coração... Um sopro de tristeza e melancolia, mas com recordações infinitas.

 

Sábado: O despertador toca. Abro os olhos, vejo que ainda está escuro lá fora... É cedo, deve estar frio, tenho duas princesas (podengo português) a dormir profundamente a meu lado, mas tenho que me levantar! Custa-me mais por elas, do que por mim... Eu levanto-me com a maior alegria, como é óbvio... Hora de equipar-me à caçadora (e não à matadora) e levar bastante roupa, porque davam temperaturas muito baixas. Numa montaria, sempre quietos, e com muito frio, não é fácil. Chego à montaria (uma daquelas à séria) e já estão a tirar as portas. Eu ia ficar juntamente com uma pessoa na porta, que era postor nessa montaria e tinha uma porta para ele e que me tinha feito o convite, e eu aceitei.

Sorteio realizado, o pai nosso proclamado e lá vamos nós... Mesmo que não sentisse nada, já estava maravilhada com a mancha que iríamos ter. As fotografias que coloco aí em baixo acho que descrevem melhor do que qualquer palavra minha. Era uma mancha enorme (eram mais de 60 portas), dividida entre portugueses e espanhóis. Depois de colocarmos alguns caçadores nas suas portas, fomos para a nossa, que se situava num género de uma cova entre duas linhas de água. O vento não era intenso e o sol brilhava cada vez mais. O calor fazia-se sentir... Estudei todo o terreno, os sítios para atirar e achei que seria difícil. Muito mato, silvas, estevas velhas... Perderia facilmente um porco, se não fizesse um tiro certeiro, num segundo também certeiro. 

Sentei-me (desta vez levei cadeira, que nunca levo). Respirei fundo, fechei os olhos e senti o sol intenso a bater-me na cara... Que saudades do Verão... Parece que no Verão todos os problemas se desvanecem... E cientificamente sabe-se que há muitas depressões sazonais no Outono/Inverno devido a isso mesmo, ao tempo. Bem... Não vamos divagar sobre depressões ou sobre o tempo... Divaguemos antes sobre a Natureza! Vejo duas perdizes bravas a voarem por cima de mim... Pousam e começam a cantar. Acompanharam-nos toda a manhã, com os seus cantos... Quanto é que isto não vale, não é? 

Os cães e os matilheiros passam por nós (eram cerca de 16 matilhas). Ouviram-se tiros toda a manhã. Pelo menos, estava muita gente a divertir-se, sem dúvida... Os cães passam, na maioria podengos, a caçar, a seguirem rastos, a fazer o que os deixa mais felizes: caçar! 

Num ápice vão-se embora... Não detetam nada ao nosso redor! Os tiros continuam... Eu vou apreciando as borboletas... Umas amarelas, mas a maior parte são brancas... O cantar das perdizes continua... E, de repente, começa o cantar de um melro... Levanto-me e, simultaneamente, sai um melro de umas silvas espantado, na encosta. Vem aí um javali... Já o sinto..

Muita gente me pergunta qual o meu segredo ou truque... Como é óbvio, não é nenhum... Tenho tido sorte! Mas, além disso, também sinto! Ou seja, consigo (não me perguntem como) sentir os porcos a alguma distância. Sentir quando vêm... Quando param... Nas esperas, por exemplo, mesmo que adormeça, sinto logo quando estão a vir... Um dom??? Talvez uma sensibilidade acrescida, direi...

E nisto tudo entra um porco... Entre mato e silvado, vejo-o de relance, na subida enorme de uma encosta... Meto a arma à cara, mas rapidamente a retiro, porque sei que não vou conseguir dar um tiro daqueles (àquela distância e no meio de tanto mato). Como prefiro não dar tiros sem ter a certeza de nada, tiro a espingarda da cara e... Pum! O meu companheiro dá um tiro! Foi um dos melhores tiros que já vi na minha vida... Melhores e mais difíceis. O porco cai, o meu companheiro corre encosta acima para rematá-lo (vimos logo que não tinha caído seco). De repente, ele grita "traz a faca rápido". Vi logo que o porco já deveria estar em sofrimento. Corri o mais que pude... Subi aquela encosta como se fosse a Rosa Mota... Cheguei num ápice, por entre silvas e troncos de árvores, entrego-lhe a faca. A porca estava deitada no chão, a tentar atacar! Batia os dentes e era difícil lá chegar, mas conseguimos. Depois para a puxar é que foi mais difícil mas, como é óbvio, teríamos também de conseguir, pois isso faz parte. Matar, rematar (quando assim tem de ser, para o animal não sofrer mais), cobrar, e puxar os porcos para a nossa porta... Infelizmente, alguns caçadores, aliás, matadores, não o fazem!

A porca ficou ao nosso lado... Para além das borboletas e das perdizes, agora tinhamos moscas a zumbirem o tempo todo! Mas faz parte da caça! Volto-me a sentar... Sinto um porco à minha frente, nas silvas! Sei que já está ali há algum tempo... Não posso fazer nada, até virem os cães, portanto ficamos a guardá-lo. 

Sentada, envolta com os meus pensamentos e com a Natureza... Sinto qualquer coisa. Levanto-me num ápice! Sinto que vem lá do fundo... Os meus olhos nem fecham... O meu coração já deu vários sopros! E lá vem ele... Estrada fora... Calmo e tranquilo... Passo a passo! Gosto tanto quando eles vêm assim! Apreci-os de forma mais calma e tranquila, do que quando vêm a furtar-se aos cães. O meu companheiro de porta nem sequer o viu nunca! Porque estava mais no meu alcance! Espero que ele se aproxime o mais possível, senão seria um tiro muito longe e arriscado. Não me mexo... Fico como uma estátua... Até que aqueles olhos arregalados focam-se nos meus... Era agora ou nunca! Ou atirava (e era um tiro difícil, claro - tiro de cabeça a uma distância considerável) ou ele escapava de forma súbita, entre as milhares de silvas que se encontravam na sua esquerda e na sua direita. Aponto-lhe e o meu dedo prime o gatilho. O tiro era muito longe, a mais de 40 metros e eu estava de espingarda... Como estou e estarei sempre... Sem carabinas, sem miras, sem modernices... Mas é só o meu gosto pessoal! Eu e a espingarda... Eu e dois canos sobrepostos... Somente! 

O porco vira-se de repente para o lado direito e sobe encosta acima, por entre mato e mais mato... Deixo de o ver... Ainda dou um tiro, sem sucesso, porque era impossível... Pensei tê-lo errado com o primeiro tiro! Contudo, senti que o porco não ia a 100% quando começou a subir a encosta... Mas, pelo sim pelo não, que o tivesse errado, em vez de o ter ferido!

Sento-me... Triste? Triste não, porque sabia ser muito difícil; mas sempre com dúvida do que teria acontecido ali... E ficariam para sempre essas mesmas dúvidas! 

De repente, passam os cães... Entram nas silvas e sai um melro... Aquele porco que estava ali há algumas horas sai... Mas saiu por dentro das silvas e nunca o vi, só o sentia e ouvia! Mais um belo momento...

Passa novamente um cão... Vai no rasto do porco que eu tinha atirado e nunca mais o vejo... Nem ouço! Falhei-o de certeza! Passada mais um bocado vem um podengo... Grande e lindo... Vai também no rasto e perco-o de vista nas silvas e nos meus ouvidos! 

A fome aperta e como umas bolachas que tinha levado, pois já sabia que a montaria iria ser demorada. De repente ouço um barulho do meu lado direito... Por entre aquelas silvas e uma pequena ribeira que havia nas minhas costas. Era porco. Passam dois cães e vão lá, mas nada... Nem sinal! Mas eu senti que havia ali qualquer coisa. Mais um bocadinho e começo a ouvir uma mexida... Uns passos aqui e ali e um silêncio absoluto... Levanto-me, com a espingarda nas mãos e fico tipo estátua durante mais de meia hora. Durante mais de meia hora que ouço qualquer coisa ali... Essa qualquer coisa começa a fazer um som... Não consigo explicar o que é... Mas um som que transmitia dor e sofrimento... Achei aquilo estranho mas, num ímpeto, lembrei-me que poderia ter acertado no porco e ele poderia estar a sofrer. Seria ele? Ou seria qualquer outra coisa? Não me mexo... O meu coração nem um único sopro pode presentear... Os segundos viram minutos, e os minutos parecem horas... Sei que o que está ali, está a sofrer! E nunca mais sai... E, num segundo, que virou um dos momentos mais bonitos da caçada, sai um porco das silvas, nas minhas costas e sobe encosta acima... Sobe com muita dificuldade... Vejo logo que está ferido e automaticamente tenho a certeza que lhe acertei naquele tiro! Meto a espingarda à cara, para tentar acabar com todo o sofrimento, mas era quase impossível, pois estamos a falar de tiros muito longes e com mato e mato... Disparo! Ele continua a correr... Não o vejo mais e também não o ouço mais. Passamos os arames, a pequena ribeira e vamos a correr... Havia sangue... Tendo ou não acertado com este último tiro, havia sangue e ele estava ferido. Ainda tentamos procurá-lo, mas era impossível. Sem cães... Sem nada que nos cortasse caminho de tantas silvas... Fiquei em desespero! Não poderia perder um porco assim... Principalmente porque sabia que estava a sofrer... 

Esperei os matilheiros. Por sorte, estavam a vir e gritei-lhes que viessem rápido. Expliquei-lhes a situação e pedi-lhes que me ajudassem a encontrá-lo. Os matilheiros, já cansados e desgastados de tanto andarem, foram incríveis e foram logo procurar o porco. Os cães, também me foram ajudar... Pegaram logo no rasto do porco, andaram poucos metros, os matilheiros corriam atrás e começam a ouvir-se ladras... Eu tive de esperar ali... Indefesa e sem poder fazer mais nada... Sentimo-nos tão pequeninos, perante determinadas situações. Eles estavam com o porco, mas as ladras ficavam cada vez mais distantes... 

Que astúcia e que força têm estes animais... Astúcia que o levou a meter-se dentro da linha de água e que dificultou o faro dos cães que iam passando... Força e paixão que levaram os cães a nunca desistirem e a correrem kms e kms... Deixei de os ouvir. Perderam o porco... Soltei um suspiro, um sopro do coração e comecei a arrumar as coisas (pois já tinham dado ordem para acabarmos). De repente, vejo um matilheiro correr na minha direção e que me grita "Já agarramos o seu porco. É um navalhecas. Tem um tiro na mão, de frente. Parabéns".

Obrigada. Obrigada a vocês que me ajudaram a cobrar este difícil navalhecas. Obrigada aos cães por não desistirem. Obrigada a alguém ou a alguma coisa (não sei e acho que nunca saberei o nome) por me dar oportunidades destas e lances destes. Obrigada ao meu pai por me ter feito caçadora. Obrigada ao meu companheiro de porta por me proporcionar momentos destes. Como dizemos sempre, ninguém sabe da dificuldade que é estarem duas pessoas numa porta a atirarem.

 

Domingo: Abro a janela e está outro dia de Sol brilhante. Respiro fundo e agradeço por ter mais um dia que se adivinha bom. Basta-me estar no campo, em contacto com a Natureza, para ser bom.

A mancha era grande e bonita. Colocaram-nos na estrada, frente à ribeira. Pegadas frescas e passagens batidas de há horas pressuponham uma manhã divertida. Sentei-me... E esperei! Nunca me tinha acontecido, mas adormeci. Aquele Sol intenso batia-me na cara e levou-me a fechar os olhos durante algum tempo. Não se ouviu barulho dos cães, nem dos matilheiros durante umas horas... Paralelamente, ouvia as perdizes a cantarem... Também nesta mancha foi contemplada por perdizes bravas, borboletas, pombos torcazes... Será que já se avizinha a Primavera? 

Depois de ter estado com os olhos fechados para o céu durante algum tempo, olho e deslumbro uma águia. Uma protegida águia. Estava a pairar por cima das perdizes e começou a descer... Nem estava a acreditar naquilo que estava a ver! Não gosto de águias, não gosto de cegonhas... Atacam os lebrachos e os perdigotos com uma fúria... Enfim... A águia começou a subir o voo, deixou as perdizes e foi-se embora! 

Ao fim de algumas horas, ouço os cães a iniciarem a ribeira. Queria-me colocar mais para a frente, mesmo junto à ribeira, mas as portas estavam mais atrás e não quis faltar ao respeito a ninguém. Mas sabia que seria muito difícil um porco sair da ribeira cá para fora, pois lá dentro têm várias proteções. Começo a ouvir um cão a ladrar e o som cada vez mais a aproximar-se. Entre várias paragens e outras mexidas, sinto o porco... Penso que deva ser um porco velho, pela forma como se move. Anda mais velozmente durante uns instantes, depois para... Poucos cães lhe fazem frente... E deixo de o ouvir! Os matilheiros passam por mim e dizem "não há porcos nenhuns aqui". Eu digo "está aqui um porco", mas é desvalorizado por eles, afirmando que era raposa (e eu com a certeza que era um porco). Continuam ribeira abaixo e finalmente encontram os porcos. Nesta altura já me cheguei à ribeira (e os companheiros das outras portas também), pois sabíamos que seria melhor. Sinto os porcos todos na ribeira... Estou cá de fora e ela é coberta de silvas. De repente, sinto que os porcos estão a vir para trás... Olho para a frente e vejo-os a passar do outro lado da ribeira, um a um. O alcance de tiro não é fácil. Tenho muito pouca visibilidade, devido às silvas, mas vou correndo para encontrar uma aberta que me permita disparar. O primeiro porco passa e não consigo, pois não cheguei a tempo... Vem outro porco, calmamente, como se nada fosse com eles. Aponto a espingarda, quase a primir o gatilho e de repente parou tudo, pois lembro-me que pode estar alguém do outro lado (a fechar a ribeira) e pode ser perigoso. Baixo a arma e deslumbro os javalis a passarem, mas muito rapidamente, pois o meu campo de visão é muito redutor. Como preso muito a segurança, decidi não arriscar - e depois fiquei a saber que não estava ninguém do outro lado. Foi uma má comunicação, mas fica para a próxima, pois a forma como vivemos e deslubramos os porcos com espingarda ou sem espingarda é sempre diferente. 

Pensei que tinha de fazer alguma coisa, pois sentia os porcos todos dentro da ribeira e não podia fazer nada. Sentia-me impotente. Travo a arma, deito-me no chão e passo na passagem dos porcos, para tentar entrar na ribeira. Cheio de silvas. Vou por cima, tento entrar nas silvas, passá-las como se fossem flores de jardim... Arranho-me toda mas consigo chegar ao topo da ribeira (é um alto, a ribeira está em baixo, coberta de silvas). Pensei "porque é que não fiz isto mais cedo?" se o tivesse feito, teria visto os porcos, mas seria uma falta de respeito com quem me colocou na porta e com os meus outros colegas e, portanto, nunca o iria fazer.

Sinto os porcos novamente. Os matilheiros já estavam a passar outra vez por nós e avisamos que os porcos estavam lá dentro. Incentivam os cães a irem e começam logo as ladras... Os porcos vão para a frente, os cães apanham um e acaba a caçada... Acaba, mas com a certeza que ainda ficaram lá porcos e quiçá um grande navalheiro.

Mas a caça é mesmo isto! E ainda bem... É destes lances que vivemos e temos de os tornar únicos, mesmo sem porcos abatidos (porque claro que isso não é tudo). 

Ao fim da tarde, fui fazer uma espera... Fui ver os cevadouros, todos mexidos... É totalmente diferente quando vamos fazer uma espera a um sítio qualquer, uma única vez; do que quando temos os "nossos" cevadouros e tratamos deles... Imaginamos uma série de coisas... Quantos porcos vão, que porcos são, o que fazem eles nos cevadouros... Será que também se zangam lá? Será que os porcos vão "namorar" as porcas no nosso cevadouro? As histórias que vou fazendo...

Estava a andar para ir para o carro (iria fazer a espera dentro do carro), quando vejo duas garças reais a levantar voo. Simplesmente lindo! Deu-me um sopro no coração! Depois vêm as curiosas das vacas ter comigo... Quase que eram cães a pedir mimos! Aproximavam-se todas, uma a uma, a cheirarem-me... Acho que, para isso, para que não as assustemos e para que se cheguem a nós também temos que ter uma sensibilidade peculiar ou não? 

Acredito nessa tal sensibilidade peculiar... Acredito que a tenha e acredito que todos os fins de semana o sopro do meu coração seja maior devido a tal sensibilidade...

Estava uma noite gelada... Os porcos não apareceram, mas também não fiquei muito tempo... Começa uma trovoada intensa, caem bolas enormes de gelo e achei melhor ir embora e dar mais um desfecho feliz ao meu fim de semana, com um último sopro do coração, que foi ver uma lebre na estrada a fugir à frente do carro...

ML.

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