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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Uma aventura em noite de lua cheia

Olhei para o relógio e este já ditava que eram horas para ir fazer aquilo que mais gosto. O sol começava a pôr-se no horizonte e a lua teimava em aparecer. Fui-me colocar junto a uma passagem, que estava muito batida e que fazia-nos crer que os javalis passavam por ali todos, ou quase todos os dias. Vento constante e muito calmo. Melgas e muitas melgas. Um luar brilhante e intenso. Uma noite que prometia ser fantástica, fosse qual fosse o seu desfecho em termos de caçada.

Os ponteiros do relógio começavam a movimentar-se depressa demais. Não sentia nada à minha volta. Até que decidir olhar em redor, e deparo-me com alguns vultos. Estavamos num terreno de restolho de cevada, onde não há arvoredos, não há mato, nem silvas. Exceto alguns metros (muitos metros) ao fundo, junto à ribeira. Portanto, falamos de um terreno que tem milho e apenas um único arrife, com uma pedra a meio, e pasto acima do joelho. O

Vi os vultos. Longe. A única opção seria tentar aproximar-se. Sabia ser muito difícil mas tinha algo a meu favor e que me dava uma grande vantagem: o vento. Começamos a andar. Pé ante pé. O coração ia palpitando cada vez mais, à medida que davamos cada passo. O calor começou a tornar-se incomodativo mas, ao mesmo tempo, as melgas e mosquitos deixaram de ser um problema, pois a nossa atenção já não estava virada para os mesmos. 

Duas pessoas a deslocarem-se no restolho. O dobro do barulho. O dobro dos cheiros. O dobro da dificuldade. Tudo se apresentava, desta forma, contra nós, exceto o vento. 

Ao fim de algum tempo (muitos minutos) os vultos tornavam-se mais nítidos, mas ainda vultos. Vultos que estavam tranquilos, a comerem e a fossarem. Dado o milho ainda não ter cereal, os javalis iam comendo uns bagos de cevada no restolho. Sem se aperceberem que, a uns largos metros deles, havia vultos que estavam muito inquietos e ansiosos para que algo acontecesse e que a aventura terminasse.

Chegamos a uma parte que era já impossível continuar a pé. A sombra era demasiada. E tivemos de tomar outra decisão. Gatinhar. Gatinhar por cima de restolho, com os bicos da cevada cortada a ferir os cotovelos e as mãos. Com o transporte da arma noutra... Enfim, não foi tarefa fácil. E o vento, a certa altura era tão calmo, que fomos controlando a leve brisa metendo saliva na testa e na palma da mão, caminhando para a zona pretendida e de forma "certeira".

Mas, mais importante que tudo, foi sabermos ler a atitude dos javalis e o comportamento dos mesmos. O que poderiam eles fazer? Quanto tempo poderiam estar ali? O que iriam fazer a seguir? Etc., etc... Tudo isso foi pensado e partilhado por nós, com pequenos gestos, olhares e, sobretudo, com a empatia e a forma de estar na caça que juntos criamos. 

Já tinha passado quase 45 minutos desde que decidimos arriscar. Estavamos perto daquele tal arrife com a pedra que vos falava e teríamos de nos deslocar até lá, para ficarmos mais protegidos porque, até então, estavamos completamente "destapados". Este arrife era como uma ilha no meio de um oceano.

O Zé foi o primeiro a ir, enquanto eu controlava o comportamento dos javalis. Caso estes desconfiassem de alguma coisa, teriamos sinais para fazer um ao outro. Javali desconfiado = não ter a certeza, ficar em alerta. Tudo correu bem. Eu fui a seguir. A rastejar, silenciosamente e muito calmamente. À medida que o ia fazendo, o meu coração teimava em querer explodir, eu acho. Não estava a conseguir controlar este pico de adrenalina e, caso alguma coisa corresse mal, saberia que tinha sido o meu coração a "tramar-me". Ia rastejando, ia sentindo os pingos de água a correrem-me pela cara, tal era o calor e humidade que se faziam sentir. Ia sentindo também muitos bichos a percorrerem-me as mãos e os braços, mas nem pensava nisso, naquele momento. 

A determinada altura, o Zé fez-me sinal. Os javalis estavam a desconfiar. Olhei para eles e vi um grande, que se destacava. Particularmente grande. Pensei que agora era o tudo ou nada e que teria de conseguir chegar até ao Zé. Caso o javali desconfiasse, poderia mesmo "vir ter connosco" para ver o que se estava a passar e certificar-se que não corria perigo. Assim foi...

Cheguei ao pé do Zé que me disse isso mesmo: os javalis já nos toparam e pode ser que venham aqui ver. Em segundos toda esta aventura "terminou". Uma aventura que demorou horas mas que, no final, se dissipa em meros segundos.

Aparece o tal javali, aquele demasiado grande, perto de nós (cerca de 50 metros). Eu estava cansada! Sabia que iria fazer um tiro sem apoio, sem aquela calma particular que caracteriza uma espera e que não iria ser fácil. Tinha poucos segundos para pensar e para resolver. E foi exatamente o que aconteceu. O javali aparece, assopra e olha para nós. Eu gosto sempre de aproveitar estes momentos e ficar a deslumbrá-los, mas sabia que tal não era possível. Sabia que era tudo uma questão de segundos. E foi. Depois do sopro, o javali virou-se, para entrar nos arrifes. Coloquei-me de joelhos (já com eles feridos do gatinhar e rastejar), olhei, respirei fundo (como sempre) e atirei. Não foi um tiro seguro, com total confiança, mas foi um tiro certeiro, de pescoço, que deixou o javali seco, sem sentir o que tinha ali acontecido.

Olhei para o Zé e ele olhou para mim. Sorrimos e pensamos que tinhamos mais um lance que ficaria para a história, denotado de uma aventura incrível e extenuante. 

Rapidamente fomos ver o javali que tinha atirado, qual foi o nosso espanto do tamanho do mesmo. Mais de 140kg. 

Frequentemente, transportamos os javalis os dois sozinhos, com mais ou menos custo, mas este foi deveras impossível e tivemos de chamar ajuda. 

E mais uma vez agradeço essa ajuda e agradeço ao Zé por tudo aquilo que partilhamos juntos na caça; onde estes lances incríveis ganham ainda mais emoção e felicidade!

ML.

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