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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Uma espera num cevadouro (muito) especial!

Creio que a palavra que melhor carateriza um caçador de esperas é, exatamente, o saber esperar. E é preciso ter uma caraterística peculiar para saber esperar. Mais do que ter paciência, mais do que insisistir e voltar a insistir, um esperista tem, necessariamente, de ter um "dom". Coloco esta palavra entre aspas, porque falar de um dom expõe uma certa responsabilidade em tudo isto. Mas realmente esse "dom", essa forma de estar na natureza, de se saber comportar, de não se mexer durante horas, de suster a tosse ou um espirro, quando teimam em sair, de aguentar horas ao frio, mesmo com o pingo do nariz a cair; e de preferir as noites frias e solitárias do campo, às noites quentes em família; é único, e somente alguns conseguem alcançar. 

Não é fácil. E todo o esperista sabe disso. Fora as noites e noites de espera, em que a única coisa que se sente é o vento na nossa cara, ou as melgas a zumbir aos nossos ouvidos. Mas ainda bem que assim é. Porque quando algo acontece, a sensação é incrível. Parece que nos tornamos crianças novamente, e entramos num daqueles filmes de bruxas e magias; e que voamos e rodopiamos juntamente com pózinhos mágicos e fumo de todas as cores. Talvez seja uma comparação estranha, mas acredito que quando nos sentimos crianças felizes, podemos imaginar tudo. 

 

Há uns tempos que andava a sentir somente o vento ou as melgas. Há muito tempo. Não consigo fazer esperas todos os dias de lua mas, ainda assim, tento ir as vezes que me são possíveis. Bem sabemos que quanto mais insistirmos, mais sorte poderemos ter. Mas também a sorte vai e vem, e talvez seja uma utopia. Talvez não seja sorte, mas sim resultado de um trabalho árduo e bem feito. Não sei, também não importa agora...

Mesmo descrente fui. Mesmo descrente irei todas as vezes que conseguir. Porque mais que caçar um javali, há uma envolvência tão grande numa noite de espera, que não a posso perder nunca (nem quero).

Ainda para mais no sítio onde era, a Herdade da Caravela; e o facto de andarmos a preparar o cevadouro há pouco tempo, juntamente com o pai do Zé, que todos os dias lá ia tratar e cuidar. Todos os dias pensava numa forma de atrair os javalis; com todo o carinho, simplesmente com a esperança que eu caçasse ali um porco.

A noite estava agradável. As altas temperaturas de Outubro vieram permitir que eu ainda fizesse uma espera nesta altura do ano, o que não é normal. Normalmente em Agosto/Setembro termino a minha época de lua; mas este ano continuei. 

Que noite tão tranquila. Que brisa tão serena. O vento estava favorável, coloquei a cadeira no chão e sentei-me. Mais uma noite, que poderia ter tantas histórias para contar. Mais uma noite, em que eu própria faria as histórias na minha cabeça, reais ou não, e imaginava tudo aquilo que podia e que conseguia. Somos livres, sabem? Numa espera temos essa sorte (e aqui é uma sorte mesmo). Não sei se há outros sítios ou outras coisas que nos permitam ser tão livres e tão simples como na caça. Mas também não me interessa, porque consegui aqui encontrar o meu ponto de equilíbrio e felicidade.

Imaginei, e voltei a imaginar. Situações, coisas, histórias... As melgas iam-me fazendo companhia... A bolota começa a cair e o barulho é mais persistente. "Calma, são apenas as bolotas", pensava eu. Contudo, o barulho que senti foi mais intenso. Olhei para trás, muito devagarinho, e uma raposa andava apressada com uma finalidade qualquer. Passou a cerca de 5 metros de mim. Entre as sombras dos sobreiros e o luar brilhante, consegui vê-la bem. Era grande. Estava com pressa. Não deu por mim, apesar de estarmos tão perto uma da outra. Continuou a sua vida. E eu percebi que estava bem colocada. O que iria acontecer a seguir, já não dependeria de mim, mas sim da sorte (se quiserem) ou da vontade dos javalis.

 

Continuei nos meus pensamentos, até começar a dormitar. Há dias mais difíceis que outros, enquanto fazemos esperas, mas este foi particularmente fácil. Dormitei. Abria os olhos, de vez em quando, para me assegurar que tudo continuava tranquilo. Voltei a dormitar. Até que o Zé, que estava numa cadeira a meu lado, toca no meu braço.

Já vos contei também que normalmente fazemos espera juntos. Um dia caça ele, outro dia caço eu. Gostamos assim. E acreditem que poder partilhar os lances com alguém, ao vivo e a cores, tem sempre um sabor especial. 

Ele toca-me no braço. Abro os olhos repentinamente. Olho para ele, que me susurra "Não te mexas". E não me mexi. Até a respiração eu sustive. E é logo nestas alturas que o meu coração dispara. Acho que todos o conseguem ouvir. Como é que um javali não ouviria também? Sinto uns passos. Sinto um sopro. Ele está a caminhar para nós. Olho para o Zé, sem me mexer, e ele reforça toda a situação com um "não te mexas". Eu tinha a arma ao meu colo, estava caída para a frente, e ainda tinha algumas folhas no chão que fazem sempre barulho. 

Ouvi outro sopro, desta vez ao meu lado esquerdo. Ele estava mesmo ali. Porque os olhos também falam, os meus perguntaram ao Zé se ele estava perto de mim. Ele acenou com a cabeça. 

"Pára coração, pára". Foi só o que pensei. Mas ele não parava, cada vez batia mais depressa, e fazia mais barulho. "O javali vai perceber que estamos aqui", foi logo o que pensei. Continuava a soprar, a preparar-se para entrar no cavadouro. Pelo barulho do seu trajeto, parecia que estava apressado para lá chegar, mas desconfiado.

Depois do último sopro, e das minhas quinhentas rezas para que ele não nos sentisse, o Zé diz-me "Ele está a ir para o cevadouro. Olha, tem cuidado e prepara-te". Muito devagar, levanto-me, agarro na arma e olho para o cevadouro. Vejo um vulto com um trote apressado até à árvore. O comportamento dele levou-me a pensar, automaticamente, que se trataria de um javali macho. Não havia mais nenhum javali com ele, a posição de um macho a andar, e um comportamento que traduzia alguma sabedoria e astúcia. 

Isso deixou-me ainda mais ansiosa. E, por isso mesmo, teria de me concentrar e fazer as coisas rápida e eficazmente. Normalmente, gosto de observar. Posso ficar minutos a vê-los, a perceber um pouco mais sobre o seu comportamento... Mas hoje não. Hoje teria de ser já. E assim foi. Coloquei a arma a cara, devagar e sem fazer ruído algum. Destravei-a. Só tive tempo de perceber que o javali já se estava a esfregar num sobreiro. Ia acima, e vinha abaixo... Não pensei em mais nada... Disparei o gatilho; sem sequer pensar que o tiro não seria preciso, pois o javali estava em movimento. Ele ficou no chão. Normalmente, tiro logo a arma da cara. Desta vez, e talvez tenha sido o meu instinto a falar mais alto, continuei com a arma na cara, a controlar o comportamento do javali. Bem sabemos que aguentam muito e estes maiores, por vezes, aguentam ainda mais. Ao fim de 30 segundos no chão, o javali levanta-se e corre, com muita dificuldade, para junto da ribeira. Nesta altura, primo novamente o gatilho, para tentar acabar com tudo isto. E realmente terminou. Para ele, e para mim, que estava num estado de adrenalina pura.

Olhei para o Zé. Ele olhou para mim. Sorrimos. 

Mais um lance que fica para a nossa história como caçadores de esperas. 

Mais um lance que me leva a querer que estes pequenos momentos, enchem a minha vida de felicidade! Principalmente, quando há uma história envolvente de um sítio que nos marca e do carinho entre família!

ML.

 

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