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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Uma espera que deveria ter sido filmada!

Muitas são as noites que passo a fazer esperas... Muitas são as noites em que nada acontece e poucas são as noites em que temos histórias para contar! Histórias maravilhosas para contar. E ontem foi uma dessas noites. Uma noite que ficará na minha história como caçadora e que para ser melhor, só mesmo com uma máquina de filmar, para que pudesse registar todos aqueles momentos que vivi.

 

Cheguei ao campo, ainda era de dia. Aliás, durante a noite esteve sempre de dia, pois a lua cheia iluminava intensamente tudo o que nos rodeava. Decidimos ir para um sítio diferente, perto de culturas de milho, onde os javalis gostam de ir fuçar e de estragar. Nesse mesmo sítio, havia uma charca grande. 

Cheguei logo receosa com o frio e com as melgas; duas das coisas que mais me perturbam enquanto faço esperas. Estava frio, vento; mas os casacos ajudaram. Em relação às melgas, nada ajudou. E eu só as via a voarem por cima de mim, às dezenas. Enfim, "ossos do ofício", quiçá... 

 

Depois de estar "equipada", sentei-me e esperei... Mas espero pouco tempo, porque deparo-me logo com duas raposas, que brincavam e lutavam uma com a outra. Estive a observá-las durante algum tempo, até que  começo a vê-las correr na direção da charca; onde estavam dois gansos-do-egito ou gansos-do-nilo gansos, com três crias. O que acontece a seguir é de uma beleza extrema e custa-me não conseguir partilhá-lo convosco, com a mesma emoção que vivi.

Começo a ver as duas raposas, fofinhas e queridas, a rondar a charca. E começo a ver os dois gansos, lindos e imponentes, aflitos e a soprarem, defendendo o seu território. Então as raposas tentavam atacar as crias dos gansos, que não compreendiam o que se estava a passar; ao contrário dos progenitores, que as defendiam com "unhas e dentes". Levavam as crias para a ponta da charca contrária onde estavam as raposas; contudo estas, mais espertas que tudo, corriam na direção dessa margem, para tentarem matar as crias. Os gansos iam soprando, e iam nadando para o outro lado; assim como as raposas, que corriam também para o outro lado, prontas a atacarem.

A fêmea nunca abandonava as crias e, a uma dada altura, o macho começou a voar, aflito, para ver se conseguia desviar a atenção das raposas das crias, mas foi em vão. Elas estavam fixas nas crias.

 

Enquanto assistia a tudo isto, à aflição dos gansos; e à astúcia das raposas; iam pensando na realidade de hoje em dia. No que se passa no Parlamento, assim como nas "bancadas" do governo; em que tantos falam sobre a caça à raposa, mas que tão poucos conhecem a realidade. Estou certa de que ninguém dessa "bancada" assistiu a tal realidade. Ninguém dessa "bancada" compreende que as raposas matam milhares de outros animais e que se continuarem a proliferar, sem controlo, algumas espécies de animais terão de ser salvaguardadas ou acabarão por desaparecer (ex. coelho bravo). 

Por isso digo que este momento deveria ter sido filmado. Gostava que vissem, com os vossos próprios olhos, a aflição destes animais que sabiam que não tinham escapatória possível. Ou as raposas se cansavam ou os gansos morriam de exaustão.

 

Obviamente que acabei com aquele sofrimento e, mal as raposas deram comigo, fugiram. E os gansos ficaram. Ficaram na charca, mais descansados, pelo menos durante algum tempo. 

 

As horas foram passando e a noite, com muita claridade, foi entrando naqueles campos de milho e naquela charca. O frio fazia-se sentir e as melgas tinham acalmado. Ao longe, via um trator com as luzes que, muitas vezes, apontavam na minha direção. Um homem que ainda estava a trabalhar a estas horas, se calhar com família em casa, que não tiveram a companhia dele para jantar ou para ver televisão durante a noite. O homem manuseava o trator, que preparava a terra para plantação.

 

Não via nada. Não ouvia nada, a não ser as rãs na charca. Senti que estava na hora de ir embora e fomos ter com o Gil. Chegamos ao local e paramos a carrinha. O homem que trabalhava no trator estava agora pertíssimo de nós. As luzes do trator continuavam ligadas e agora ofuscavam-me a visão. Creio que ele reparou em nós nesse momento e, logo de seguida, sai do trator e corre na nossa direção, dizendo:

- Estão ali os javalis. Preciso que me ajudem, eles destroem-me tudo. Têm de fazer alguma coisa, por favor. São milhares de euros investidos e eles já conseguiram dar cabo de muita coisa. Um de vocês que venha comigo de trator, para vermos se os encontramos.

 

O Zé foi com este senhor que estava desesperado. Eu fui pela estrada, caso os javalis saissem para lá. Claro que o meu coração já estava a bater desenfreadamente. Claro que esta espera já estava retratada na minha história de caçadora como uma grande espera. Ia pensando naquilo que tinha visto, nas dificuldades que este homem teria, a ter de trabalhar de noite, e ia olhando para todos os lados, para ver se via alguma coisa. O luar ajudava (e muito), pois estava quase de dia e conseguia visualizar tudo muito bem.

 

Andava calmamente na estrada, pé ante pé. O tractor já ia bem mais à frente, do meu lado direito. Comecei a andar com mais rapidez até que tive de parar repentinamente. Do meu lado direito tinha umas silvas e, qual o meu espanto quando vejo um javali enorme a sair das silvas, a passar à minha frente e a olhar para mim, a cerca de 5 metros. Não sei explicar-vos o que senti. Sei que tive de suster a respiração. O javali olhou para mim e o luar iluminava-nos a ambos. Ele continuou a passo e rodou para a minha esquerda. Neste movimento dele, eu baixei-me, muito devagarinho e coloquei a arma à cara. O javali parou e olhou para mim de frente. Estavamos ambos, frente a frente, a olhar um para o outro, a 5 metros de distância. O meu coração estava prestes a explodir. O coração do javali deveria estar mais calmo, certamente. Segurava na arma e concentrava-me para o que teria de fazer até que, de repente, pelo canto do meu olho direito vejo mais vultos. Olho para o lado e vejo 4 javalis mais pequenos. 4 javalis que seriam os filhos deste javali que estava cara a cara comigo. 4 javalis que já não eram listados, que já não mamavam, mas que seguiam a mãe. 

Automaticamente, coloco a arma para baixo e fico a olhá-los. O javali continua a olhar para mim, com as orelhas fitas, parecia um podengo. Os mais pequenos aproximam-se. O javali grande manda um sopro enorme e vira-se de repente para fugir. Corre desalmadamente, e os pequeninos vão atrás, mas não o conseguem apanhar. 

 

Eu olho para o Gil, com um sorriso enorme, envolto já em lágrimas de felicidade, que me diz:

- Mas estás parva? Não atiraste porquê?

E eu simplesmente respondi: 

- Porque hoje não era para eu atirar. 

 

Há dias assim... Há dias em que a magia de uma espera se traduz somente nisto: em ver e em sentir. 

ML.

 

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