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Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Diário de uma Caçadora

Para entenderem a minha loucura precisam, primeiro, de conhecer a minha paixão. Quero mostrar que a minha paixão é muito mais do que o simples acto de matar... Que a minha paixão é uma forma de estar na vida!

Uma noite de espera, com um final (muito) feliz!

Os tempos que correm não têm sido fáceis para a caça e para os caçadores. Ataques brutais, mentiras, difamações, humilhações e, inclusive, ameaças. Estamos num mundo onde as pessoas já não se respeitam e, acima de tudo, não têm noção de determinados valores que devem sempre ser incutidos, nomeadamente, o respeito, a liberdade, a tolerância e a humildade.

Tudo isto me afeta, sobretudo, porque há famílias que vivem da caça e há animais que vivem da caça e dos caçadores.

E hoje venho contar-vos uma história sobre isso mesmo: sobre um velho homem, humilde, do meio rural, que viu a sua vida "destruída" por uma espécie cinegética e que se não fosse a existência da caça e dos caçadores, talvez a história tivesse um final diferente... E não era um final feliz!

 

Há uns dias recebemos a chamada deste senhor que vos falo, dizendo:

- Vocês têm que cá vir. Tenho as minhas culturas todas com cerca à volta; mas já me estão a destruir tudo e eu não sei o que fazer. E estou a falar apenas de um javali. Têm de me ajudar, por favor.

 

Bom... Obviamente que a resposta foi afirmativa e aquele "têm de me ajudar, por favor", partiu-me o coração e fez-me dizer para mim mesma (e para ele) que tinha a certeza que o iriamos ajudar e, acima de tudo, sermos bem sucedidos. Apesar de saber que não seria uma tarefa fácil, pois tudo seria uma nova descoberta.

 

Não tivemos tempo de ir ver o terreno antes, o que é o mínimo a ser feito numa situação destas; para fazer a leitura do mesmo; ensaiar a posição de espera; as sombras das árvores com luar; ver os ventos e as possíveis crenças que os javalis possam ter ali.

 

No próprio dia, quando fomos fazer a espera, foi quando conseguimos conhecer minimamente tudo aquilo que nos esperava. Vimos efetivamente que a terra estava toda remexida ou foçada - algo muito comum nos javalis, quando procuram alimento, por exemplo; e que parte dos cultivos estavam destruidos e nada se aproveitava. Curioso que realmente tratava-se apenas de um javali a fazer todo este estrago. Conseguimos decifrar isso, olhando para as pegadas na terra e para o percurso feito. Estas culturas estavam todas vedadas com rede, que foi também "destruida" e, desta forma, o javali conseguia passar.

Isto é normal, dada a altura do ano e a seca que tem estado a acontecer... Portanto, as culturas de regadio (que estejam a ser regadas) são os sítios prediletos dos javalis, que não têm mais terras com humidade.

 

O vento estava instável, o que tornava todo este trabalho ainda mais difícil. Não sabíamos onde entrava o javali, a que horas entrava ou se vinha todos os dias. Tinhamos meras suposições que, enquanto caçamos, de pouco nos servem. 

Colocamo-nos num alto, onde conseguíamos ver toda a cultura deste velho homem. Colocamo-nos de frente para a passagem, de forma a que o vento estivesse mais favorável; no entanto o javali poderia entrar por outro lado, ou ter outro comportamento, que não estava previsto. Como sabemos este é um animal muito astuto e muito perspicaz. 

 

Passaram-se algumas horas e as minhas esperanças começaram a decair. Olhei para o relógio, e via as horas a passar. Ouvia apenas o barulho longe das rãs e o barulho de uns cães que viveriam próximo daquele sítio. Além disso, o barulho mais intenso era o das melgas, que me zumbiam ao ouvido de minutos a minutos. De facto, foi uma noite muito difícil também por isso. Apesar de ter dois pares de calças e vários casacos, este pequeno bicho conseguiu picar-me o corpo inteiro e conseguiu provocar-me borbulhas gigantes. Talvez deva ter feito uma reação alérgica, não sei... Ainda assim, e tentando fazer o mínimo de barulho, concentrei-me no meu objetivo. A comichão era cada vez mais intensa, mas o querer ajudar alguém superava tudo e todos. Estava realmente em aflição, e não vos consigo explicar por palavras, mas as lágrimas já me vinham aos olhos, com tanto desconforto.

 

E então... Se por sorte, ou por mero acaso, ouço um barulho. E só olhei para cima e agradeci. Não tinha visto nada, não tinha ouvido nada; mas aquilo que senti, bastou-me para perceber que algo iria acontecer. 

Começo a ouvir o arame e quase que paro de respirar; para o javali não me detetar. Vejo mais nitidamente e é só mesmo um javali. Espero um pouco, pois tenho curiosidade de ver o seu comportamento. E realmente, a primeira coisa que ele faz, quando passa a rede é começar a foçar, ou seja, a levantar a terra para achar minhocas, estragando assim todas as plantações deste velho homem.

 

Não posso esperar mais! Decido que é o momento de atirar; apesar do javali estar muito inquieto, andando de um lado para o outro, mexendo-se frequentemente. Ainda assim, coloco a arma à cara e penso que terei de fazer um bom trabalho, para o bem deste homem e desta família. Agora sim tenho de respirar fundo; como faço sempre antes de dar um tiro de carabina. Respiro fundo, esqueço a pressão que estou a fazer em mim própria e aponto, tendo a certeza que estou fixa e que nada abana. Um desvio pode ser fatal para que o tiro não seja certeiro e para que o animal fique ferido e isso é a última coisa que pretendo.

Estou sentada, com o cotovelo apoiado na perna. O javali está completamente entretido. Primo o gatilho e continuo com a cara encostada à arma. O javali cai, não sentindo nada, nem sabendo o que aconteceu. Eu respiro fundo (novamente) e olho para cima a agradecer (novamente). Fico tão feliz. Não por ter caçado um javali, mas sim pelo significado que esta caçada terá na vida desta família.

 

E o melhor de tudo isto, foi quando ligamos a este velho homem, e lhe dissemos que poderia vir ter connosco. Quando chegou, dissemos-lhe que tinhamos caçado o javali que andava a destruir as suas culturas. O homem olhou para mim e de seguida olhou para o Zé. Os olhos começaram a ficar mais vermelhos e, de repente, as lágrimas cairam. Baixou a cabeça, timidamente. Um homem do campo não chora; mas este homem precisou de o fazer, como que a agradecer tudo aquilo que se tinha passado ali.

Levantou a cabeça, ainda com as lágrimas a invadirem-lhe o rosto e disse "Obrigada"!

E este foi um dos "obrigadas" que mais me marcaram em toda a vida. Um obrigada sincero, profundo e um obrigada de quem não tinha mais nada para dar, senão aquele gesto de humildade e gratidão.

 

E agora, dou por mim a olhar novamente para cima e a dizer obrigada. Obrigada por ser caçadora e por ter estes momentos indiscritíveis!

ML.

 

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