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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Proibido caçar na ilha de São Miguel

A notícia saiu em vários meios de comunicação açorianos e diz o seguinte:

"A Secretaria Regional da Agricultura e Florestas, através da Direção Regional dos Recursos Florestais, informa que, a partir de sexta-feira, 29 de dezembro, é proibido caçar em toda a ilha de São Miguel devido a um novo surto da nova variante da Doença Hemorrágica Viral (DHV) que está a afetar a população de coelho-bravo. A partir de sexta-feira, fica igualmente proibido libertar cães de caça em qualquer tipo de terreno onde exista ou ocorra fauna cinegética. A decisão de interditar a caça e a circulação de cães de caça visa “minimizar a disseminação da doença, até que seja determinado o fim do surto e os seus efeitos na população do coelho bravo local (Oryctolagus cuniculus L.) sejam devidamente avaliados.

 

O vírus transmite-se por contacto direto entre coelhos doentes, contato com material orgânico proveniente de coelhos doentes ou através de vetores vivos e de objetos contaminados, podendo os caçadores e os cães de caça funcionar como um meio de disseminação da doença.

 

A Secretaria Regional da Agricultura e Florestas informa ainda que a salvaguarda das culturas agrícolas, em situações pontuais e localizadas, será sempre possível com o recurso à correção da densidade populacional do coelho-bravo.

 

No final de novembro decorreu na ilha de São Miguel uma nova recolha de amostras de coelho-bravo para dar continuidade ao estudo sobre a evolução da Doença Hemorrágica Viral (DHV2) nos Açores, implementada pela Direção Regional dos Recursos Florestais, com a colaboração do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-UP), que ocorre desde 2015.

 

A nova variante do vírus da Doença Hemorrágica Viral, identificada em França em 2010 e que em 2012/13 desencadeou um surto no continente português, com uma elevada taxa de mortalidade, chegou aos Açores em novembro de 2014, tendo sido a Graciosa a primeira ilha a ser afetada."

 

(Notícia retirada do site radioatlantida.net)

 

Depois de falar com quem de direito, trarei mais detalhes sobre esta triste notícia.

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Os acidentes de Caça!

Cada vez mais são frequentes as notícias que relatam acidentes durante o ato cinegético; seja acidentes com arma de fogo ou acidentes que estão associados ao próprio indivíduo (por exemplo, quedas, desequilíbrios, AVC, etc.).

Se me perguntassem qual o conselho que daria a um iniciante nestas lides, não pensaria duas vezes e teria de falar-lhe na “regra dos três S” – segurança, segurança e ainda segurança. É imprescindível que tenhamos isto em conta, quer para nosso bem, quer para o bem dos outros.

Quando estamos a caçar, temos o poder de conseguir controlar aquilo que fazemos, nomeadamente, o manuseamento de armas de caça, assim como o disparo do gatilho. Bem sei que há pessoas que não se conseguem controlar, ou que ficam demasiado nervosas, ou que não vêm mais nada à frente, mas… Não há desculpas! E se isso realmente acontece, então têm que se auto controlar.

Porque não podemos permitir que aconteçam acidentes destes, estúpidos acidentes, em que pessoas perdem vidas… Porque já bastam aqueles que não temos controlo….

 

A comunicação social pouco se importa com os caçadores, a não ser que haja notícias que vendam e, os acidentes de caça fatais, infelizmente, são uma dessas notícias. Mas, para além disso, pouco se sabe sobre as lesões que ficam, nas pessoas que sofreram um acidente de caça que não tenha sido fatal. Há muito pouca informação e, principalmente, muitos poucos estudos científicos sobre esta temática.

Nos EUA, 5% da população total tem licença de caça (cerca de 16 milhões de pessoas). Em 2013, mais de 7.000 americanos estiveram envolvidos em acidentes de caça, mas a maioria não foi fatal. Estes números tendem a subir. Os envolvidos nestes acidentes (EUA, Alemanha e Dinamarca) são, sobretudo, homens com experiência na caça, entre os 40 e 50 anos, e que caçam frequentemente.

Interessante, pois os estudos referem que os caçadores mais jovens estão menos envolvidos em acidentes de caça, apesar de terem comportamentos mais imprudentes (ex. irem todos camuflados para um ato de caça).

Relativamente aos acidentes de caça, normalmente, ocorrem durante o próprio ato, com armas de fogo: não ver a vítima, não usar a arma de forma apropriada, balançar a arma durante o tiro e, menos comum, confundir a vítima com um animal.

 

Num estudo recente, de 2015, Bestetti, V. et al., If Hunters End Up in the Emergency Room: A Retrospective Analysis of Hunting Injuries in a Swiss Emergency Departmen, analisaram as causas, os padrões e a gestão de lesões em acidentes de caça (não fatais) em pacientes do Hospital Universitário de Berna, na Suíça; comparando-os com as lesões de caça em todo o mundo.

O Departamento de Emergência do Hospital Universitário de Berna fornece cuidados de emergência a cerca de 1,8 milhões de pessoas, tratando mais de 35 mil adultos por ano.

Neste estudo de Bestetti et al. houve um período de observação dos pacientes de 14 anos (2000-2014) e incluiu adultos que sofreram lesões na caça e que estavam a ser tratados neste Hospital, descritos na Tabela 1.

 

Como foi feita a lesão

Número

Percentagem

Projétil de arma de fogo

4

21

“Coice” da arma

3

16

Faca

4

21

Queda

6

32

Outros (ex. feridas dos sapatos)

2

10

(Table 1: Mechanisms of injury)

 

Destes 19 pacientes, 16 eram do sexo masculino e a idade média era de 50 anos (16 aos 74 anos).  A maioria das lesões foram provocadas pelo próprio. Sete pacientes sofreram lesões na cabeça; cinco nos membros superiores, e outros cinco pacientes nos membros inferiores. Dois pacientes sofreram lesões no tronco. Onze destes pacientes necessitaram de intervenção cirúrgica.

Conclusões do estudo: apenas os acidentes de caça fatais, na Suíça, são reportados ao Swiss Advisory Centre for Accident Prevention; contrariamente aos EUA, onde é obrigatório reportarem-se todos os acidentes, fatais ou não. Não há mais nenhum estudo científico, na Suíça, que aborde as consequências das lesões ocorridas na caça. Os resultados deste estudo são consistentes com os resultados de estudos internacionais: a maioria dos acidentes de caça não fatais ocorrem em homens com uma média de idades de 50 anos. A arma mais envolvida em acidentes de caça é a espingarda, seguindo-se a faca. Neste estudo, a maior parte dos acidentes eram feitos pelo próprio, contrariamente a outros estudos (na Alemanha, a maior parte dos acidentes de caça são feitos por terceiros). Esta ambivalência pode ser explicada pela diferença no grau de ensino; e pela diferença no conteúdo de treino com armas e exames de carta de caçador.

Tal como nos EUA, este estudo suporta evidências de que as quedas durante o ato de caça são a principal causa de lesões não fatais. Nos EUA, as lesões por quedas (ex. a disposição das árvores; perda de equilíbrio e quedas no chão) podem representar até dois terços das lesões ocorridas e 8% representaram lesões neurológicas permanentes ou morte.

A especialidade médica mais frequente nestes casos de lesões é a ortopedia, o que consiste com os resultados de outros estudos internacionais (ex. Halanski e Corden, 2008).

 

Para que estes acidentes sejam evitados há duas coisas essenciais: os caçadores usarem algum acessório com uma cor choque, para que sejam visíveis em todos os sítios. E, por outro lado, haver uma maior e melhor educação sobre armas de fogo. Colocar uma arma nas mãos de uma pessoa requer muito cuidado e muita experiência. E há que saber diferenciar um tiro com chumbo de um tiro com bala. Há muitas diferenças e há pessoas que não têm a mínima noção disso mesmo.

 

Em Portugal, não há dados consistentes sobre acidentes de caça não fatais, pelo que a comparação com estes estudos aqui apresentados é difícil. Mas, parece-me a mim, que também existem e numa larga escala.

Afinal de contas, se estamos a caçar, estamos suscetíveis que algo nos aconteça, não é? Contudo, há acidentes que podemos e devemos evitar. Connosco próprios ou com os outros. E, para isso, nunca nos devemos esquecer da regra dos três S: segurança, segurança e ainda mais segurança. Porque neste aspeto, seremos sempre eternos aprendizes!

 

ML. 

 

(Artigo publicado na Revista Caça e Cães de Caça, edição Janeiro de 2018) 

 

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A Caça Submarina

A Caça submarina tem vindo a fazer parte da minha vida, nos últimos tempos. Nunca liguei à pesca ou a atividades relacionadas com o mar; mesmo tendo um avô que era um pescador nato, ganhando várias medalhas; e mesmo tendo um primo que também lhe seguiu as pegadas. Ouvia algumas histórias que eles iam contando, comia vários peixes que pescavam e, ao Domingo, o meu primo dava-nos umas navalheiras deliciosas. Mas nunca passou disto... Nunca tive a curiosidade de saber mais, ou de ir um dia com eles à pesca.

 

Até ao dia em que conheci o Zé e, acima de tudo, conheci a sua paixão pela caça submarina. Mas do que se tratava isto? Nunca tinha ouvido sequer a expressão "caça submarina". Comecei então a acompanha-lo. No início, ficava na praia, enquanto ele ia caçar. Trazia uns peixes quaisquer, e até cheguei a comê-los grelhados. Eram deliciosos, mas não conhecia a sua história; quem eles eram; como se caçavam, porque é que se caçavam...

 

Então houve um dia em que decidi ir com o Zé no barco. Ele ia caçar, eu ficaria a ver e a tentar perceber algumas coisas.

"Se calhar vais enjoar".

"Não te preocupes, eu não enjoo", dizia-lhe eu.

"Normalmente estamos um dia inteiro no mar, vais-te cansar."

Mas eu não queria saber. Já tinha decidido que iria. 

Levantamo-nos cedo. Bem cedo. Até parecia que íamos para a caça. Ele já tinha o material todo arrumado, e lá fomos. Era um dia de Verão, o sol brilhava no Alentejo, mas quando chegamos a Sines, as nuvens encobriam-no e só sobressaía o vento, que nos arrepiava os pêlos dos braços. Preparar as coisas, arrumar todo o material e colocar o barco na água. Esta estava gelada, os peixes que rodopiavam nos meus pés eram imensos e o barco era alto. Subi, e partimos. Tirei o chapéu, não fosse ele voar nesta trajetória. Vesti o colete e não dizia uma palavra. Estava ansiosa demais. O que me esperaria? O mar estava um pouco agitado, aliado ao vento frio que se sentia. Levei vários casacos que não caraterizavam aquela altura do ano. O Zé preparou-se, assim como os outros, e depois de apoitarem o barco, lá foram eles. Tive medo de estar ali em cima sozinha. Tudo me passava pela cabeça, principalmente, depois de todas as histórias que já tinha ouvido. Tubarões (o Zé tinha tido um tubarão frade de 5 metros a passar-lhe por cima, há uns tempos atrás)... Barcos que se viravam... Tempestades... Ondas gigantes...

"Calma, estamos em Sines, tudo é calmo e tranquilo". E dormitei. Entrentanto, lá vinham eles ao barco, depositavam o que já tinham caçado e voltavam... O Zé, nesse dia, caçou um polvo gigante. Fiquei assustada, nunca tinha visto um polvo daquele tamanho, com uns tentáculos gigantes. Ria-me. Quem diria que iria passar por aventuras destas.

 

Depois desse dia, todos os outros vieram naturalmente. Depois desse dia, tornei-me na "melhor amiga" daquele barco e daqueles caçadores. Ficava lá em cima o dia inteiro, dormitava, lia um livro, comia e apanhava sol. Ajudava-os a carregar a caça, dava-lhes comida, assim como o material que precisassem. Sentia-me útil, de certa forma. Depois lavavamos o material, arranjava os peixes e finalizavamos mais uma jornada.

 

A Caça submarina começou, também a mim, a inspirar-me e a apaixonar-me. Ouvia histórias, durante horas, e deliciava-me. Mas confesso, também me assustava. Tinha medo, pensava que, em segundos, poderíamos perder a vida. Sim, é assustador, mas é verdade. Numa questão de segundos, tudo pode acabar. É demasiado perigoso e por isso estou certa de que só os melhores o conseguem (e podem) fazer.

 

Chegou o dia em que eu própria quis experimentar fazer caça submarina. Estava nervosa, sempre tive tanto respeito ao mar e iria fazer uma coisa destas. Mas decidi ir. Foi na Praia da Ingrina, num pleno dia de verão. O Zé equipou-me a rigor, e andou sempre comigo. Nesse dia, cacei um polvo. Não sei como consegui, digo-vos, porque a forma como estes animais se protegem e se escondem é exímia. São os verdadeiros mestres do disfarce. Fiquei maravilhada por ter conseguido. Mal chegamos a casa, assamo-lo nas brasas. Talvez tenha sido o melhor polvo que comi em toda a minha vida.

 

Depois desse dia, outros se sucederam.

Encostas a máscara na água e rapidamente te desligas do mundo e de tudo aquilo que te rodeia. É como se houvesse um interruptor na linha de água, que separa a nossa vida, da vida dentro do mar.

A vida dentro do mar é tão diferente. Tens milhares de coisas novas, a cada mergulho. Tens peixes que te acompanham a toda a hora. Conchas, corais, pedras, relevos diferentes e cores únicas. Um mundo que a cada dia te apaixona (ainda) mais!

 

Mas mais do que caçar, vive-se! Estou a tentar arranjar palavras para descrever o que se sente, o que se experimenta, o que se vive; mas é difícil. Há histórias únicas debaixo do mar. Quando começamos a perceber o comportamento das espécies, das milhares de espécies que por ali vivem, tudo começa então a fazer (ainda) mais sentido. Percebemos porque temos de ser seletivos, como devemos caçar, quais os melhores truques a fazer, e como é que cada espécie deve ser abordada. Todas tão diferentes, mas todas tão únicas. 

Senti-me tão pequenina. Senti que a vida é tão passageira, que há tantas coisas para além de nós próprios... Que o mar é uma imensidão de sonhos, de histórias e de sentimentos... Tanta coisa que se viveu lá, tanta coisa que é apagada por uma simples onda.

Talvez isso seja também a vida. De um dia para o outro, uma nova onda pode modificar tudo o que damos como garantido. Mas até lá temos que viver ao máximo, fazer aquilo que mais gostamos e que mais felizes nos deixa. Talvez a Caça Submarina me tenha ensinado isso mesmo...

Aproveita ao máximo, desliga-te de tudo, vive o presente, e sê feliz!

 

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Querem acabar com a caça nos Açores!

"Uma caçadora nacional com coração açoriano". Um dia o Drº Gualter Furtado, um amigo pelo qual nutro muito respeito, disse-me esta frase. E, no fundo, acho que sou uma caçadora um bocadinho de cada sítio. Quando caço nas várias zonas do país, já me sinto como se de lá fosse... 

Mas o que é facto, é que tenho um carinho enorme pelos Açores mas, principalmente, pelo povo açoriano que sempre me recebeu tão bem. Talvez me sinta mesmo com uma "costela" açoriana. Certo é que vivo as emoções pelas quais eles lá passam, sobretudo no que diz respeito à caça.

 

E é também por isso que hoje escrevo sobre os Açores, sobre os açorianos mas, sobretudo, sobre a caça nos Açores e sobre o que lá querem fazer. Como aqui, claro. A situação não se altera muito. Mas lá eles são demasiado unidos e não vão deixar que nada aconteça, estou certa. 

 

No dia 7 de Novembro de 2017, saiu uma notícia no Jornal Correio dos Açores, que explicava a situação atual: na sequência da Proposta de Decreto Legislativo Regional que aprova o “Novo Regime Jurídico da Gestão dos Recursos Cinegéticos e do Exercício da Caça na Região Autónoma dos Açores”, recentemente apresentada pelo Governo na Assembleia Legislativa Regional, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) apresentou a sua posição sobre as medidas que considera fundamentais para que caça e conservação do ambiente possam ser compatíveis.

Medidas essas que, no fundo, querem acabar com a caça nos Açores. Dou-vos vários exemplos: suspensão da caça aos patos, alegando que populações de Pato-real, Marrequinha e Piadeira, "estão presentes nos Açores essencialmente como migradoras, sempre num número muito reduzido" (in Diário de Notícias); suspender a caça à galinhola e à narceja, alertando que se tratam de "espécies com populações nidificantes em estado de conservação preocupante nos Açores" (in Diário de Notícias); querem acabar com a utilização de furão e de aves de presa como meios de caça; defendem a proibição do uso de cartuchos carregados com projéteis de chumbo na região; e querem impedir a caça nas imediações dos trilhos pedestres classificados, permitindo o seu usufruto em qualquer altura do ano e da semana.

 

Sabem o que me custa, no meio de tudo isto? É perceber que, quem faz estas propostas NADA sabe sobre recursos cinegéticos, sobre a vida dos animais, tal como os processos de migração ou de sobrevivência; nada percebem da importância da Falcoaria ou dos caçadores... Enfim, mais do mesmo, estou certa! Porque se a grande preocupação fosse o bem estar animal, então estaríamos todos juntos nessa caminhada. Mas obviamente que a grande preocupação se eleva a outros patamares, políticos, monetários...

 

Mas vou pegar nas palavras do Sr. Olivio Ourique, Presidente do Clube Cinegético e Cinófilo da Ilha Terceira, para que percebam o porquê destas ideias serem tão disparatadas.

“Relativamente ao proposto para os patos, é uma demonstração de ignorância em questões cinegéticas. Os Açores não são uma rota de migração de patos. Os patos que aqui surgem são desviados das suas rotas originais pelas tempestades. Os patos que surgem nos Açores ficam por cá apenas alguns dias para descanso, retomando as suas rotas logo que restabelecidas as energias para seguir o seu rumo. São espécies que existem em grandes abundâncias em outras partes do mundo, e que apenas uma percentagem residual passa pelos Açores. As mesmas não se reproduzem na Região. A retirada das espécies de patos passíveis de caçar no calendário venatório só iria implicar uma sobrecarga de caça em outras espécies cinegéticas que se encontram em situação mais crítica nos Açores. Repugnamos a insinuação desta entidade quando sugere que os caçadores abatem qualquer espécie de patos e não apenas as que se encontram no calendário venatório. O caçador só abate uma espécie depois de se certificar da mesma, pelo que as espécies que não se encontram no calendário venatório não correm perigo de ser abatidas. Mais uma vez mostram a sua desconsideração pelos caçadores insinuando que os mesmos abatem qualquer tipo de espécie, sem se preocupar com o que está estabelecido pela lei”.

E continua, agora falando das questões relativas ao chumbo: “já existe legislação que proíbe o uso de munições de chumbo no ato da caça em zonas húmidas classificadas, pelo que esta questão não se coloca. Para além disso, a grande maioria dos projécteis são lançados a dezenas de metros das lagoas, uma vez que o disparo é sempre com os patos no ar e a distância atingida supera geralmente largamente o diâmetro das Lagoas”.

Proibir a caça à galinhola não faz sentido nenhum, pois "sendo a galinhola sedentária, neste momento verificamos que os Açores são das regiões do mundo com maior densidade populacional de galinholas, atendendo à relação de número de exemplares distribuídos por área geográfica. Tem-se verificado nos últimos 3 anos um aumento populacional significativo (estudos da DRRF e CIBIO). Temos verificado nidificação desde Fevereiro a Julho e duas “posturas” por ano. Mantendo os atuais calendários, em termos de período do ano, tempo de caça e quantidade de peças, a sustentabilidade da espécie está assegurada. Somos dos principais interessados que a espécie seja gerida de uma forma sustentável. Sem espécies cinegéticas não há caça…”.

No que toca à caça de furão, Olívio Ourique diz que “ o furão não existe em quantidades que possam de alguma forma perturbar as restantes espécies”.

Relativamente à restrição de caça junto dos trilhos pedestres, “não percebemos como sequer é possível apresentar uma proposta neste sentido. A caça não pode ser praticada a menos de 250m de estradas e edificações. No entanto, o caçador vai mais além desta restrição, tendo todo o cuidado aquando do momento do tiro. Não temos conhecimento de relatos de turistas ou praticantes de trilhos pedestres que tenham sido atingidos ou prejudicados por qualquer método de caça possível de praticar na região. De referir que centenas de caçadores que se deslocam à região (o esquecido turismo cinegético) que alugam carro, ficam em bons hotéis, que vão aos melhores restaurantes, estes acrescentam mais-valias à nossa região, e se cada vez mais restringimos a caça, estamos a perder este mercado”.

 

Também o Presidente da Associação de Falcoaria Portuguesa, Pedro Afonso, tomou uma posição, referindo que apesar da história milenar e disseminação pelo mundo desta forma de caça, não existe qualquer evidência teórica ou empírica de que a utilização de aves de presa para falcoaria coloque em risco os ecossistemas nativos; e que a proibição da utilização de aves de presa como meio de caça no arquipélago dos Açores representa, literalmente, uma proibição direta da Falcoaria. Esta é uma atividade classificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade em Portugal e que o estado Português tem o dever de preservar conforme se comprometeu ao abrigo de convenções internacionais.

 

No dia 11 de Novembro, no Jornal Açoriano Oriental, a notícia era clara e explícita "Governo rejeita críticas dos ambientalistas à lei da caça". A Diretora Regional dos Recursos Florestais, Anabela Isidoro, afirma que "a proposta do Governo Regional é credível e teve em conta o conhecimento científico, cumprindo as regras nacionais e internacionais (...) as críticas que surgem agora pecam por serem feitas de ânimo leve e sem sustentação científica". 

E mais, refere que "a atividade cinegética é fundamental na regulação das abundâncias de algumas espécies que, em excesso, causam prejuízos e desequilíbrios, e que a coexistência das atividades cinegética, agrícola e turística é possível e necessária".

 

Boas notícias!

Caçadores Açorianos não desistam e continuem nessa luta, que têm feito de forma exímia. Dr. Gualter obrigada por tudo o que tem conseguido, sem dúvida é um alicerce fundamental.

Quando há rigor científico e verdadeiros sentimentos e objetivos em prol dos animais, tudo irá ter ao caminho certo!

Força!

ML.

 

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(Imagem retirado do site: http://www.udinetoday.it)

 

"Não deixes os cães saltarem para cima de ti!"

Hoje lembrei-me de ti, sabes?

Estava aqui a arrumar umas coisas e vi uma fotografia nossa, de há muitos anos atrás, no Casal, com os perdigueiros. Lembras-te avô?

Nunca tivemos conversas profundas, talvez porque eras um pouco fechado e talvez porque eu ainda não tinha crescido o suficiente para isso. Mas, mesmo assim, passavamos muito tempo juntos e, mesmo sem essas conversas, vivemos coisas únicas.

Lembras-te quando eu ainda era pequena, e ia ter contigo ao Casal, para te ajudar a tratar dos cães? Passavas os dias com eles. Treinavas todos os dias. Cuidavas de todos os animais que tínhamos, desde os pavões, às fracas, aos gamos, aos pombos e aos patos. O que tu adoravas... E ainda tinhas tempo para as tuas "engenhocas", como todos diziam. 

Ia ter contigo e ficava a brincar com os cães, durante horas. Eles lambiam-me, punham-se em cima de mim e, de vez em quando, só te ouvia a dizer "Não deixes os cães saltarem para cima de ti". Eu nunca te ouvia, nessas situações. E tu ficavas irritado. 

Lembro-me de um dia em que estavamos os dois, tu nas tuas engenhocas, e eu com os cães, e tivemos de ir rapidamente para a maternidade, pois a cadela estava a ter os bebés. Fomos apressadamente até lá, e fiquei deslumbrada quando tivemos de a ajudar a ter os bebés. Aliás, tu ajudas-te. Eu fiquei a olhar, maravilhada. Os bebés iam saindo e tu ias-me explicando o que estava a acontecer. Eu deveria ter cerca de 5 anos, mas lembro-me como se fosse hoje. 

Talvez me tenhas transmitido toda esta paixão que tenho pelos animais. Contigo aprendi a diferenciar uma fraca de uma galinha; e a perceber que os cães têm de ter regras e ser obedientes. 

 

Os anos foram passando e tu continuas-te, todos os dias, na tua rotina. Eu já não te acompanhava tanto. Estava mais crescida e tinha-me tornado numa adolescente. Uma adolescente difícil, creio eu. E tinha outras prioridades, como todos os adolescentes: sair com os amigos, estudar, e voltar a sair com os amigos. Uma típica adolescente difícil, sem dúvida. Mas, ainda assim, havia dias em que ia ter contigo e te ajudava a lavar os canis. Ou em que queria só brincar com os cães.

"Não deixes o cão ir para cima de ti", dizias. "Está bem avô" e, uma vez mais, fazia "ouvidos moucos".

 

Os anos iam passando. Tiveste de deixar o Casal e viste a tua vida mudar da noite para o dia. Foste com o tio para a Quinta e, lá, começaste uma nova rotina, mas com o mesmo amor e com a mesma dedicação. Continuavas a caçar. Continuavas a treinar os cães, os nossos perdigueiros. 

Até ao dia em que começaste a ficar doente. Mas, com toda a força que tinhas, ninguém dava por isso. (Ou tentavamos não dar). Íamos às exposições de cães juntos. Era um stress. Tantos cães que levavamos, tanta ansiedade que tínhamos. Nós e eles, certamente... Tu passavas os teus cães, o tio os dele e eu também vos ajudava nisso... Nunca tive nenhum, mas sempre senti que tive todos... Havia momentos, nessas mesmas exposições, em que ficavamos só os dois, e íamos conversando. Apesar de pouco, sempre fomos conversando à nossa maneira. Tinhas um feitio difícil, dizia a mãe e o tio, mas comigo nunca o senti. Talvez porque o meu feitio também fosse assim...

 

Continuavas doente. E no dia em que me decidi tornar caçadora, tu já estavas bem mais doente. Mas, ainda assim, fui ter contigo à Quinta e contei-te. Ficaste tão contente. Acho que nunca havias imaginado isto; que um dia seguiria as tuas pegadas, mas a verdade é que não poderia ter sido de outra forma.

Lembro-me da última vez que foste caçar. Tinhas caçado uma lebre. "Doente e velho ainda consigo caçar uma lebre". Lembras-te de dizer isto? 

Depois foste piorando. Dia após dia. Ficavas naquela cama, e tinhas sempre tanto frio. A Miminha comprou-te um robe bem quentinho e uma mantinha com corações, para tu usares e sentires-te melhor. Sorriste quando ela te ofereceu. Hoje em dia, eu tenho essa manta e ela aquece-me todas as noites. Talvez esteja um pouco mais perto de ti, não sei...

Já era difícil saires da cama. Lembro-me do último Natal que passamos juntos. Oferecemos-te chocolates. Eras tão gulsoso. Ficaste contente, mas expressaste-o de forma diferente. Já não esboçavas aquele sorriso como antes. Já não querias estar ali connosco, na sala, enquanto abríamos presentes. Estavas com frio e querias ir para a cama.

E foste. E lá continuaste... Eu ia lá ter contigo, às vezes e dava-te um beijinho e perguntava se precisavas de alguma coisa. Dizias sempre que não. Só se fosse um copo de leite.

A mãe "ralhava" comigo porque não ia ver-te mais vezes. Não gostava avô. Não gostava de te ver assim e preferia não ir. Bem sei que este meu feitio é tramado, parece que me desligo, mas sou assim.

Houve um dia em que fui à caça com o tio e com os nossos perdigueiros. Tu já não podias ir e estavas com muita pena. Nesse mesmo dia cacei a minha primeira perdiz. Eu estava tão feliz. Quando chegamos à Quinta corri para o quarto para te contar e mostrar. Ficaste tão, mas tão feliz e orgulhoso. Acho que foi o último dia em que vi esse sorriso verdadeiro.

Depois disso, não o vi mais... A esse sorriso.

E depois disso cada vez estavas mais frágil. Tu, um homem como eras, assim naquele estado. Foste para um lar, durante pouco tempo. Fui lá algumas vezes mas, cada vez que entrava ali, só me apetecia sair. Lembrava-me muito a avó, sabes? Odiava aquele cheiro, aquelas pessoas, tudo o que envolvia aquele sítio. Ia-te ver e só me queria ir embora. Não por ti, mas por saber que tinhas de ali estar. Uma vez até jantei contigo lá e com outros senhores. Todos falavam e conviviam, menos tu. Não tinhas paciência para aquilo, eu sei. Eu também não. 

Houve um dia em que já não te apeteceu levantar mais da cama, mas ainda assim esperaste que a mãe chegasse para te despedires dela e para ires para o outro mundo. Ela sabia que estavas à espera dela e ela agradece-te por isso. 

Foste em paz. Mas deixaste uma grande angústia em todos nós. 

 

Foi o dia do teu funeral, em que tivemos todos de nos despedir de ti. Um ambiente triste e pesado, com muitas pessoas que te quiseram ir dar um último adeus. Será que tens noção disso?

Ninguém quis abrir o caixão mas a tia, a tua irmã, quis ir dar-te um último beijo. Não havia ninguém para a acompanhar. A mãe não queria, o tio também não. E a Matilde muito menos. Sabia que me iria custar horrores, mas eu teria de ir acompanhar a tia, até porque tinha um último presente para ti.

O senhor abriu o caixão. A tia chorava e despedia-se de ti. Eu não consigo explicar o que senti, mas sei que é algo que dói muito. Mas ainda tinha o tal presente para te dar e, junto a ti, junto ao teu coração, coloquei algumas penas da primeira perdiz que cacei. Aquela, que te contei, lembras-te? Elas foram contigo porque, no fundo, quis que algo meu, algo nosso, fosse junto a ti para esse outro mundo. 

Se sou caçadora, a ti também te devo. E portanto estaremos sempre juntos, neste e no outro mundo. 

Sabes que caço com os teus botins, o teu chapéu e as tuas camisolas? Eu sei que sabes. Eu sei que segues os meus passos, aí desse outro mundo.

"Cada um se deita na cama onde faz", era o que nos dizias todos os dias. Eu espero estar a fazer a minha cama de forma exímia, porque quero deitar-me nela como tu te deitaste na tua.

Obrigada Avô Américo! E desculpa, mas ainda continuo a deixar os cães virem para cima de mim.

ML.

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Cães envenenados na zona do Norte/Centro

"Está a ser uma calamidade, aqui na zona do Norte /Centro. Envenenam os cães e não há nada que possamos fazer".

 

Foi assim que começou a conversa com alguns caçadores desta mesma zona. Estão em sobressalto devido aos acontecimentos dos últimos tempos: o envenenamentos dos cães de caça.

Segundo a Quercus, este ano, já morreram mais de 20 cães envenenados. Normalmente, colocam isco com veneno, nomeadamente, a estricnina. 

"Basta os cães lamberem um isco com esse produto, que já não conseguem andar mais de três metros", refere um dos caçadores. 

Para além da estricnina, que cada vez é mais difícil arranjar à venda no mercado, outro método que utilizam é isco (por exemplo carne), com pregos pequenos. Mas, desta forma "os cães morrem mais lentamente", referem, "e não há nada nem ninguém que os consiga salvar".

Além disto, os proprietários dos cães também têm manifestado problemas de saúde, por terem estado com os animais que ingeriam iscos com veneno.

 

Motivos? Porque fazem isto? Quem faz isto?

Não sei. Creio que esta é a resposta que todos dão porque, na verdade, não podemos acusar ninguém sem provas concretas. Mas, o que é certo, é que estes episódios são recorrentes. 

"Eu tenho as minhas suspeitas, mas não tenho provas que incriminem as pessoas. Sabe, há muita inveja, muitos problemas que já são paralelos a nós. E descontam é nos cães. Isso não se faz. Se querem vingar-se ou prejudicar alguém que o façam, mas que não seja com os nossos melhores amigos", diz, de forma triste e sentida um caçador que já perdeu 3 cães.

 

Havendo ou não razões, por parte seja de quem for, esta não é a solução. Não sei se são pessoas que o fazem por vingança, não sei se o fazem por maldade; se o fazem porque não gostam dos caçadores ou se o fazem simplesmente porque sim. O que sei é que esta atitude é simplesmente desprezível e, hoje em dia, é um crime. Essas pessoas podem ir para a prisão. E deviam... Deviam ser punidas, e bem punidas. Como é que se consegue envenenar um animal? Saber que o vai matar? Um animal de caça, que é propriedade de alguém? Um animal que tem donos que, supostamente, o adoram e o vêm como parte da família? Ah sim, punidos e bem punidos...

 

Mas tudo isto vem de encontro à teoria que tenho sobre este novo mundo e esta nova sociedade. Não há limites, não há respeito, não há nada de nada. As pessoas são más, mesquinhas, tristes e com um pensamento totalmente distorcido. Não olham a meios para atingir os fins. A troco de quê? Para quê? Oh mundo, que diferente que estás... Repleto desta gente cobarde!

 

GNR; SEPNA e afins poderiam ajudar-nos na solução deste problema? É que ninguém sabe mais o que fazer, a não ser chorar e lamentar a morte dos animais...

ML.

 

Estricnina_frasco.jpg

(Imagem retirada do site: http://www.antidoto-portugal.org)

 

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