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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

A Caça explicada às crianças

Um dia destes recebi uma mensagem, onde um Senhor (não vou identificar o nome) me pediu se poderia escrever um texto onde conseguisse explicar a caça às crianças; para ele mostrar à sua filha de 10 anos. Claro que aceitei o desafio, e aqui vos deixo a pequena história que fiz. 

 

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Era uma vez um menino chamado João, que vivia numa cidade muito grande, com muitos carros, lojas e pessoas. O João adorava viver naquela cidade mas o que ele gostava mesmo era de jogar no tablet. Todos os dias, depois de vir da escola, a mãe deixava-o jogar 1 hora; e depois tinha de fazer os trabalhos de casa. E aos fins de semana também podia jogar, mas aí tinha liberdade para o fazer durante o tempo que quisesse. No entanto, havia fins de semana que ele tinha de ir ao Norte, para a casa dos avós. O João não gostava muito disso, pois obrigavam-no a ir brincar na rua. E ele não tinha nada para fazer, era um tédio.

Houve um fim de semana em que lá foram até ao Norte. O João, a mãe e o pai. Chegaram a casa dos avós e abraçaram-se todos. O João, depois de jantar, foi um bocadinho ao Facebook, para conversar com os amigos. O avô, entretanto, vem ter com ele e diz-lhe:

- João, queres ir com o avô ver as estrelas?

- Não!

- Queres ir ouvir as rãs ali no lago?

- Claro que não.

- Então o que é que achas que podemos fazer juntos?

- Sei lá avô; se quiseres posso-te ensinar a jogar um jogo no tablete.

- Podes ensinar-me; se me deixares ensinar-te a viver, amanhã.

- A viver?

- Sim, João. Tens de aprender a viver, e a divertir-te, sem ser com o tablet.

O João, que já estava sem paciência para “aturar” esta conversa, respondeu-lhe que sim. Entretanto, ensinou o avô a jogar Angry Birds, mas o avô não era muito bom nisso. Devia ser da idade…

No dia seguinte, a mãe acordou o João e tomaram todos o pequeno almoço juntos.

- Mãe, o tablet? – perguntou o menino.

- Hoje não podes brincar com o tablet. Hoje vais passar o dia com o avô.

O João olhou para o avô, que estava com um ar bastante feliz.

- Onde vamos, avô?

- O que combinamos ontem?

- Estás a gozar, certo?

- Não. Se combinamos, então está combinado. Temos de cumprir as promessas que fazemos.

E o João foi com o avô, no trator, tratar do gado.

 

- A sério avô? Vamos passar o dia a olhar para as vacas?

O avô não respondeu. Ficou triste porque o João não queria conhecer as coisas que faziam o avô feliz. De repente, começa a chover torrencialmente, e o avô diz ao João para ir para o trator, resguardar-se.

O João correu com toda a sua força, entrou para dentro do trator e fechou a porta. Mas quando estava a entrar carregou num botão sem querer e começou a ouvir um barulho. Só teve tempo de olhar para o lado e ver o avô a correr na sua direção; mas de forma muito lenta. O trator começa a andar sozinho e o João ficou muito aflito, pois não sabia o que fazer. O trator anda muito rápido e começa a descer uns cabeços até que, passado algum tempo, pára. O João consegue logo sair do trator, e começa a chamar pelo avô.

- Avô, avô, avô! Por favor ajuda-me.

Mas não ouve ninguém. Começa a chorar e a ficar com muito medo por ali estar sozinho, sem saber o que fazer. A chuva continua e o João chora cada vez mais, com muita força. Começa a pensar que vai morrer e que ninguém o vai ajudar. Até que vê um lobo, a vir na sua direção. Achou que estava a sonhar. Os lobos só existem na selva. Fechou os olhos com muita força, durante algum tempo. E, depois, abriu um. Como não conseguiu ver nada, abriu os dois e, de repente, o lobo estava à sua frente.

Começou a gritar, a correr de um lado para o outro e só ouve uma voz a dizer:

- Tem calma.

O João ficou ainda mais assustado. Olhou para trás e viu que o lobo vinha na sua direção. Então parou, sentou-se e começou a chorar.

- Eu não te faço mal, disse o lobo.

- Mas desde quando é que um animal fala?

- Na vida real um animal não fala. Mas nas histórias encantadas, todos conseguimos falar.

- Mas eu estou numa história encantada?, perguntou o João, perplexo.

- É uma longa história, disse o lobo, sentando-se ao pé dele.

- Porque estás aqui?

- Para te salvar.

- Porquê?

- Porque às vezes, nós precisamos de alguém que nos salve.

- Tu já tiveste alguém que te salvou?, perguntou o João, enquanto tentava aproximar-se do lobo.

- Sim, um caçador.

- O meu avô é caçador.

- Sim, foi o teu avô que me salvou.

- Mas os caçadores não matam os animais?

- Não. Os caçadores caçam os animais.

- Qual é a diferença?

- Imagina que os caçadores são como os lobos. Nós, lobos, caçamos outros animais para comer. E porque somos predadores, essa é a nossa vida.

- Mas como é que tu podes gostar de caçadores, se eles te podem matar?

- A mim nenhum caçador lobo me mata. Pelo contrário, ajudam-me a viver.

- Como assim? O meu avô contou-me que um dia um senhor matou um lobo.

- Esses são os caçadores raposa. Imagina que são como as raposas, que matam todos os animais, sem dó nem piedade mas, na verdade, só o fazem para prejudicarem tudo e todos. Esses são os caçadores maus, aqueles a que chamamos caçadores furtivos. Não cumprem a lei. As raposas também não. Matam só por matar. Os lobos matam para comer.

- Conta-me porque é que os caçadores lobo te ajudam a viver?

- Porque me protegem. Quando eu era pequenino, a minha mãe ficou presa numa armadilha e não conseguia sair de lá. Eu fui para ao pé dela, tentei ajudá-la, mas em vão. Ninguém nos ajudou e ela acabou por morrer. Eu nunca saí de ao pé dela, até que houve um dia que ouvi uns passos e umas vozes de algumas pessoas. Fiquei com medo, mas não queria abandoná-la. E, além disso, estava com muita fome e sem forças para sair dali. De repente, vejo três senhores, vestidos de verde e com espingardas às costas. Fiquei em pânico, pensei que eles iam matar-me. Eles ficaram assustados quando nos viram e começaram a falar entre si. Houve um que veio para ao pé de mim e disse para eu não ter medo. Ouvi-os comentar “ou foram os furtivos ou foram os pastores que colocaram esta armadilha aqui”.

O João olhava para o lobo, incrédulo, e já com as lágrimas nos olhos. E o lobo continuou a sua história.

- Um desses senhores agarrou em mim e levou-me para casa dele. Deu-me leite, deu-me calor e carinho.

- E depois? O que aconteceu?

- Depois ele falou com alguém importante e todos juntos voltaram a colocar-me na minha casa, na natureza.

- E não tiveste medo?

- Muito. Mas a minha casa é aqui, apesar de saber que terei sempre uma outra casa.

- Ele ficou triste, por nunca mais te ver?

- Fingiu-se de forte, mas eu vi que tinha os olhos cheios de água.

- Então os caçadores lobo não vos matam?

- Não. Eles protegem-nos. Eles criam caça para nós nos alimentarmos, como por exemplo o coelho. Eles vão protegendo as espécies, de forma a que nenhuma entre em extinção. Eles alimentam todas as espécies, fazem bebedouros com água em vários sítios da nossa casa.

- Então porque é que depois matam animais?

- Chama-se a caça sustentável. Os caçadores fazem todo este trabalho de recuperação de espécies e de cuidado das mesmas. Mas são predadores, tal como eu. Podes-me achar o lobo mais querido do mundo, mas eu tenho de matar outros animais para comer, porque sou carnívoro, tal como um humano. E depois há situações em que os animais precisam de ser controlados.

- Como assim?, perguntou, espantado, o João.

- Imagina que o mundo era dominado por lobos. Não havia uma única ovelha, porque nós iríamos comê-las a todas. Não haveria nenhum pastor. Não haveria lã, por exemplo. Ou imagina que o mundo era dominado por javalis. Eles estragam as terras aos agricultores. Se os caçadores não ajudassem no controlo da espécie, não havia mais culturas, poderia não haver agricultores. E depois a comida? O milho? O trigo? O que comeríamos nós?

- Então os animais são maus?

- Não. Tanto os animais como as pessoas têm um espaço aqui, no mundo. Mas sabes que há animais mais fortes que outros. Quem comanda a pirâmide ecológica é o ser humano. Depois os leões, hipopótamos, jacarés… Que, por sua vez, comem outros animais; até chegar aos insetos mais ínfimos. Todos são importantes e todos se comem uns aos outros. É assim a lei da natureza.

- Eu sei, aprendi isso na escola.

- E tu, o que gostas de fazer?

- Jogar tablete. O meu avô obrigou-me a vir com ele hoje ao campo e eu não queria.

- Mas se não viesses não me tinhas conhecido, e não tinhas percebido que a vida no campo e na natureza pode ser muito gira.

- Nunca tinha vivido nada assim…

- Já imaginaste passares os teus dias, como os caçadores lobo, a descobrir a natureza? A alimentar e ajudar os animais? A caçares a tua própria carne, para comeres?

- Não tinha de ir ao talho…

- Sim. Já imaginaste o que seria passares todos os teus fins de semana a correr livremente, por onde quisesses? A brincar a toda a hora? A descobrires os animais, que se escondem em todo o sítio? A perceberes quando é que eles acasalam, quando vão dormir, quando acordam, o que fazem no seu dia a dia…

- Se calhar gostava de experimentar essa vida.

- E podes sempre continuar a jogar tablet…

- Eu queria ajudar os animais. Se eu me tornar num caçador, achas que posso ajudá-los?

- Se te tornares num caçador lobo. Um caçador raposa não ajuda! Mas o caçador lobo é dos únicos que nos ajudam. Tu podes tornar-te num e irás sentir-te útil para nós. E nós agradecemos. E muitas vezes somos mais espertos que tu, e nunca nos consegues apanhar. Mas dói menos ser caçado por um caçador do que por um lobo, eu sei disso, mas não consigo causar menos dor quando mato um animal.

- Obrigada Lobo!

- Torna-te um caçador lobo, mas acima de tudo, torna-te num ser humano incrível, amigo dos animais… Eles precisam de ajuda!

 

 

- João, João, João. Estás a ouvir-me?

Entretanto o João acorda e vê o avô com o pai, a mãe, a avó e com dois médicos. Estavam todos com um ar muito pálido e assustado.

- Como é que tu estás, meu amor? – perguntou a mãe.

O João olha para o avô e diz:

- Avô, eu quero ser um caçador lobo, como tu!

- Eu sabia que te iria ensinar a viver…

ML.

 

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(Foto retirada do site: http://www.playbuzz.com)

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