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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

A Caça NÃO é um desporto!

O que é a caça? O que significa caçar?

Penso várias vezes nestas questões, principalmente porque a forma que penso sobre elas é diferente da forma que todos os outros pensam. Os seres humanos são tão iguais mas, por outro lado, tão diferentes. E a Caça consegue-nos mostrar isso mesmo. Que apesar de termos o mesmo gosto, a mesma paixão; temos maneiras diferentes de pensar sobre isso e, sobretudo, de falar sobre isso.

Quis ir mais além e perceber, de uma forma básica, o que nos diz o nosso Dicionário de Língua Portuguesa sobre a palavra Caça. E eis que surge o seguinte: derivação regressiva de caçar; substantivo feminino; Arte de caçar; Ato de caçar; Conjunto dos animais que se caçam; Perseguição ao inimigo ("caça", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Simples. Demasiado simples. Não me transmite nada mais. Não há um sentimento associado ou uma história entre palavras. Mas estamos a falar de um Dicionário, onde essas coisas não existem (creio eu).

Então como posso eu saber o que é a Caça? Falar sobre a Caça e pensar sobre ela?

Ou leio livros, artigos, textos e tudo aquilo que me poderá levar a pensar e fantasiar sobre este tema; ou então falo com outras pessoas, com outros caçadores.

E é aqui que quero chegar. Falar de caça com outros caçadores. Bem sei que todos nós partilhamos esta mesma paixão; mas que nos exprimimos de diferente forma. Não quer dizer que a minha seja a melhor mas, normalmente, gosto de fazer um exercício que nem todos fazem: colocar-me no lugar do outro. Ao colocar-me no lugar do outro que, neste caso, não é caçador, creio que há coisas que temos de ter em atenção; principalmente, quando se diz que a Caça é um desporto.

Várias vezes o ouço. Várias vezes o leio, sobretudo nas redes sociais. “A caça é o desporto que mais gosto”; “Todos temos um desporto que gostamos; o nosso é a caça”, etc., etc.

Nada mais errado! A Caça NÃO é um desporto. Senão vejamos:

Analisando a palavra desporto, depressa nos apercebemos do seu verdadeiro significado. Esta é uma palavra que deriva do francês “desport” e surge na Língua Portuguesa por volta do século XV, com o significado de divertimento. (Divertimo-nos a matar animais???)

No século XIX, esta palavra implementa-se em Portugal, com o seu verdadeiro significado: atividade física; entretenimento; diversão e competição.

Ora, agora pergunto: alguém caça para se entreter? Alguém compete enquanto caça? Alguém caça animais por diversão? Estou certa que não e, por isso mesmo, não podemos dizer que a Caça é um desporto.

A Caça é tão mais que isso. É uma arte, uma nobre arte.

 

Então porque ainda associam a Caça ao desporto?

Isto surgiu em Inglaterra, com o conceito Sportsman. Este conceito atribuía algumas regras (tal como no desporto) ao homem que ia à caça. E, portanto, se existiam regras em todos os desportos e se isso começou também a ser aplicado na caça, a caça seria um desporto. Nada mais errado!

Posteriormente, no século XIX, surge outro termo: o Professional Hunter, onde a caça estava associada a fins comerciais. Um dos grandes exemplos disso mesmo foi Buffalo Bill, que caçava búfalos e vendia a carne para os operadores das estradas de ferro.

Então, isto veio também suportar a ideia de que a caça seria um desporto; pois já havia profissionais que faziam disto vida; assim como no desporto, onde havia os grandes atletas, os profissionais, que faziam disso vida. Mas, mais uma vez, o conceito estava errado. Mas arrastou-se e veio até aos dias de hoje.

E, hoje em dia, esta é uma das consequências de tudo isto. E quando há caçadores que intitulam a caça de desporto, é difícil contrariar outras mentalidades.

“Matam por desporto”; “em vez de jogarem futebol, matam animais”; “quem pode gostar de matar animais por desporto” (…) Estes são os típicos comentários mais ouvidos. Mas é normal. É normal, devido às atitudes que muitos caçadores têm. É normal porque não nascem num mundo onde possam conhecer a essência da caça. Não conhecem as histórias que existem. Não sabem o que é sentir o coração a palpitar de uma forma inigualável. Não percebem que se mata por consequência e não por objetivo. Nunca lhes contaram a história do antes e do depois da caça a uma presa.

E sabem… Não os podemos condenar! Talvez apenas possamos condenar a ignorância, o não quererem saber mais e colocarem logo juízos de valor. Mas, no fundo, fora isso; como poderemos condená-los? Se, entre nós caçadores, não conseguimos expressar-nos da melhor forma. Não conseguimos ter as melhores atitudes. Não conseguimos exprimir aquilo que realmente é a caça. Se intitulamos esta arte de desporto.

Mas… Será que algum de nós sabe verdadeiramente o que é a Caça? Será que a Caça pode ser explicada somente por palavras? Talvez sim, talvez não…

Mas estou certa de que eu nunca conseguirei exprimir nestes meus escritos aquilo que sinto física e psicologicamente. Podem existir palavras, mas talvez eu ainda não as conheça… Talvez nunca venha a conhecê-las.

E, enquanto isso, deixo-vos aqui um excerto que me arrepiou. E talvez este caçador tenha conseguido conhecer as palavras mágicas que exprimem a magia que eu e todos nós vivemos.

 

“Não mates, caça! Porque não é o mesmo matar e caçar. Perseguição, aproximação e a morte da peça, sempre exigiu esforço físico caçador e acuidade mental. E, enquanto o exercício da caça contribua para o desenvolvimento dos seus músculos e do aguçar dos seus sentidos, seja para você uma atividade nobre, regida pela eterna ética biológica. Uma única peça que te exija uma tarde inteira de perseguição, uma espera dolorosa desafiando o vento norte ou um cálculo laborioso de estratégia de caça, representará a maior realização e dedicação que cem infelizes animais abatidos confortavelmente e sem fadiga. Porque não é a quantidade de capturas que forma e enobrece o caçador, mas a qualidade das mesmas”, Félix Rodriguez de La Fuente (naturalista) (1928-1980)

ML.

 

(Artigo publicado na Revista Caça e Cães de Caça, Edição de Dezembro)

 

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