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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Balanço da época cinegética

Melancolia, misturada com uma pitada de tristeza e uma colher de saudade…


Estes são os ingredientes base que fazem parte desta “receita” pós época de caça. Ingredientes um tanto ou quanto amargos, que nos fazem fazer caretas e não querer provar mais estes períodos de tempo. Mas eles existem e fazem todo o sentido. A época de defeso ainda agora começou, mas com ela muito trabalho aí vem. Será tempo de limpar o mato, de cuidar das espécies, de alimentá-las, de cuidar dos seus abrigos e de ver novas crias a andarem de um lado para o outro. Apesar de uma época mais melancólica, a época do defeso é muito compensatória para um verdadeiro caçador. Mais do que se sentir útil, sente que realmente o amor pelos animais e pela natureza encontra aqui o seu expoente máximo.

Mas uma época cinegética passou, e muitas coisas foram ditas, vividas e sentidas. Amizades que se fazem, lances que se vivem, sorrisos que se trocam, lágrimas que se perdem, quilómetros que se percorrem e trilhos que se descobrem. Tudo é novo, tudo se remete a uma nova experiência, e tudo fazemos como se fosse a primeira vez.

 

Várias foram as vezes que falei da magia da caça e isto faz parte dessa magia.
O incerto… A aventura… A adrenalina… O frio… A chuva… O calor, depois de subir um vale… As ladras dos cães… Os sons da natureza… Os sons da humanidade… Os sons dos animais… Somos nós, que nos redescobrimos, que aprendemos a lidar connosco e com os outros… Somos nós que temos de nos “desenvencilhar” de situações menos boas; mas temos capacidade para isso (e muito mais)… Somos nós, caçadores, que vivemos a caça, que vivemos os dias como se fossem os últimos e que aplicamos na íntegra a lei do “carpe diem”!

 

Esta época cinegética em nada fugiu à magia das outras…. Cacei algumas peças, dediquei-me mais à caça da galinhola com cão de parar, em terrenos muitas vezes difíceis e duros. O tempo não ajudou, um ano extremamente complicado, sem chuva, com muito calor. Poucos foram os dias em que tive frio a caçar. O terreno estava (e continua) muito duro, quer para nós, quer para os animais; e isso, certamente, influenciou muita coisa na caça… Mas os tempos estão a mudar… Será que teremos de mudar também com eles?

Fui a algumas montarias, a poucos ganchos. Fui matilheira por um dia, e aqui os terrenos mais do que difíceis eram quase impenetráveis. Cacei com alma, com garra e com vontade. Comi muitas perdizes, muitos patos e muito javali. Terminei a época com um jantar de galinholas delicioso. Ri-me com amigos, convivi com eles, contamos umas anedotas e fomos para casa felizes.

 

Mas nada é perfeito. (E ainda bem que assim o é). Infelizmente perdemos a nossa cadela mais velha de caça. A parte mais difícil de tudo isto. Bem pior que furar silvas ou cair em terrenos enlameados. Perder a Haya recentemente, tornou esta época de caça ainda mais especial, pois foi a última que tivemos o privilégio de caçar com ela e de partilhar momentos únicos com a nossa “velhinha”.

 

Lágrimas…
Suor…
Sorrisos…
Cansaço…
Paixão…
Poucas horas de sono…
Quilómetros na estrada…
Almoços deliciosos…
Lambidelas de agradecimento…
Cães que marcam a nossa história…

Há coisa melhor que ser Caçador?

 

A nível geral, a situação não mudou e aqui tenho pena, muita pena que nada se faça ou pelo menos que se tente fazer… Poucos apoios aos caçadores, por parte do estado. Ataques e mais ataques, por parte dos animalistas. Pouca preocupação com os caçadores, por parte das entidades de caça responsáveis. Aumento dos preços, decréscimo das oportunidades…

Coelho bravo… Perdiz… Lebre… Soluções? Não as vi… Não as vejo… E precisamos de algo já! Os caçadores precisam de alento para continuar. Os animais precisam de ajuda para subsistir e, também eles, continuarem. A natureza precisa de tudo isto.
As espécies migratórias por cá estiveram, mas talvez tenham sido sacrificadas… Ou não? Não caço ao tordo nem ao pombo, portanto também não gosto de comentar aquilo que não faço/vivo. Relativamente à galinhola, o tempo que por cá se fez não ajudou muito; contudo, havia zonas com muita densidade.

 

Mas, Caçador que é Caçador já espera a próxima época.
Ansiedade, misturada com uma pitada de alegria e uma colher de esperança…
Há melhor receita que ser Caçador?

ML

 

(Artigo publicado na Revista Caça e Cães de Caça, Edição de Abril)

 

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