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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Cetraria: a arte da Caça com aves de rapina

Há muito que gostava de conhecer um bocadinho mais sobre a caça com aves de rapina. Podemos ler livros, ler artigos ou ver alguns vídeos, no entanto, creio que grande parte da nossa aprendizagem vem com o contacto com o outro. Falar com pessoas permite-me sempre aprender mais, porque posso fazer várias perguntas. Como, quando, onde, porquê? Aprender com aqueles que mais sabem é um ato de humildade; mas aprender com alegria faz-nos pensar e querer aprender ainda mais, como dizia Aristóteles. E eu irei querer aprender como se fosse viver para sempre...

 

E hoje foi exemplo disso, quando decidi falar com o Paulo Martinho e pedir-lhe para me contar mais coisas acerca da falcoaria, Património Cultural Imaterial da UNESCO.

E, de forma muito prestável, o Paulo aceitou o desafio e respondeu-me a todas as questões que coloquei. Deixo-vos aqui.

 

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1) O que é a falcoaria?

A falcoaria ou cetraria, como até é mais correto em português, é a arte de treinar aves de rapina para a caça.

 

2) Como surge a paixão por esta arte?

A paixão nasceu de muito pequenito, quando observava aves de rapina selvagens em trás os montes. Lembro-me também de todas as vezes que via a série o homem e a terra, do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente. Depois foi ir crescendo e procurando realizar o meu sonho. Com isto tudo já lá vão 19 anos de falcoeiro.

 

3) Há muitas pessoas a fazerem isto?

Pessoas que têm aves de rapina são muitas em Portugal. Agora cetreiros, na verdadeira forma do binómio: homem e ave a caçar em conjunto com um cão, não devemos ser mais de 30. E com carta de caçador e licença, seguramente que menos.

 

4) Fale-me um bocadinho destes animais... Que tipo de trabalho têm, como vivem... Será que nasceram para esta função?

As aves de rapina são animais muito especiais e diferentes do que estamos habituados, dai o fascínio que nos trazem. Um animal que caça para sobreviver, que consegue ser impiedoso, rápido, forte, treinável, mesmo sendo sempre independente e não domesticável, fascina qualquer um. As aves que usamos para voar não estão em gaiolas, vivem em bancos (poleiros), todos os dias voam e todos os dias apanham sol e têm oportunidade de se banhar ou beber. Temos que os manter fortes e musculados para poderem desempenhar cabalmente a função para a qual são adestrados: caçar, sem qualquer dúvida, o fim para o qual nasceram e foram criados.

 

5) Como é que se começam a associar estas aves à caça? E como é que o homem as começa a utilizar?

O instinto delas é mais forte, por norma mesmo sem conhecerem a caça, saem da luva em perseguição de algo que acham que conseguem capturar.

O homem há cerca de 4000 anos observou as aves a caçar e pensou que as conseguiria treinar para o auxiliarem a ter uma fonte de alimento nova.
A necessidade aguça o engenho, e assim nasceu a Arte da Falcoaria.

 

6) Há uma ligação entre vocês e estas aves?

São animais extremamente independentes, com os quais existem uma linha muito ténue que separa o regresso à luva, da fuga para o campo. Dependendo do tipo de cria que os nosso animais têm, assim se criam laços ou não.

 

7) Mas tem as aves em casa? Quantas tem?

Sim, tenho uma falcoaria onde estão todas elas. São cerca de 40 aves

 

8) O Paulo caça com espingarda? Vai frequentemente ao campo caçar?

Tenho espingarda, mas não dou tiros há uns 10 anos, como muito protesto do meu filho de 12 anos que adora tiros e caça. Vou caçar, sempre que posso, infelizmente não tem sido muito regular, mas lá vou dando as minhas voltinhas com as aves e os cães.

Por vezes também faço algumas feiras de caça.

 

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9) Todos vocês são caçadores?

A esmagadora maioria das pessoas que têm rapina, não são caçadores e não as utilizam para caçar. Uns utilizam as aves para fotografias, outros para criar, outros para espetáculos...

 

10) As pessoas que têm aves de rapina não sentem necessidade de as colocar a caçar?

Infelizmente a maioria das pessoas que têm aves de rapina, nem fazem ideia do que é caçar, só se usam delas para ganhar dinheiro, sem as conhecer sequer.

A cetraria em Portugal, tem mais de 1700 anos de prática documentada, uma vez que se trata de uma arte património da humanidade, de uma caça natural e de baixo rendimento, temos tudo para a poder praticar pelo menos durante mais 1700 anos. Vamos fazer tudo para isso!

 

11) Como seria a sua vida sem a Cetraria? O que faria mais falta?

Nem consigo idealizar os meus dias sem as aves, sem as saídas ao campo, sem observar os lances.... Nem consigo imaginar tal coisa...

 

12) Seria uma vida sem tanta emoção?

Seria uma vida bem mais calma, mas bem mais vazia...

 

Muito obrigada Paulo, pela pronta disponibilidade, pela amabilidade em responder a todas as questões e por nos explicar um bocadinho melhor o que é isto da arte da caça com aves de rapina...

E para finalizar, e já que fez referência ao grande Senhor Félix Rodriguez de la Fuente, deixo aqui um pensamento dele, que me faz tanto sentido nos dias de hoje... 

"O mundo é assustador para o cidadão comum que vive em colmeias, cidades monótonas e horrendas, ruas sujas que recebem cultura como pílulas e mensagens que nunca foram tidas como perfeitas. A nossa era será lembrada, num futuro feliz (se chegar), com verdadeiro terror. O homem precisa de liberdade, do campo, do céu, de tempo para não fazer coisas ... e aprender e imaginar. Hoje ele não pode fazer isso", (Félix Rodriguez de la Fuente).

É por isso que todos somos Caçadores. Precisamos de liberdade, da natureza, de aprender e imaginar mas, sobretudo, de sermos felizes. E creio que não há maior felicidade do que não vivermos aprisionados a auto estradas, prédios e centros comerciais. 

 

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