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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

E se eles contassem histórias de caça?

Sentei-me debaixo de um sobreiro e olhei para o meu cão. Bonito, robusto, uns olhos dóceis, que ditavam que também estava cansado. Esperto, percebeu que eu o observava e, num instante, dirigiu-se até mim, roçou a sua barriga nas minhas pernas e deitou-se tranquilamente. Olhei novamente para ele, com olhos de ver. Pensei naquilo
que estaria a pensar. Pensei se ele pensaria sequer. “Será que ele pensa ou o que faz é já automático, uma sequência de comportamentos?” Obviamente que não existe racionalidade nos animais mas, por vezes, pergunto-me “E se eles fossem racionais?; E se eles pensassem, se falassem… E se eles contassem histórias?”
Ia pensando em tudo isto, enquanto olhava para o meu cão. Ele já dormitava e eu para lá caminhava… Sentíamos o frio de inverno, que nos entranhava pelo corpo adentro mas, simultaneamente, o tímido sol aquecia-nos, à sua maneira… Estavamos à espera dos outros companheiros. O meu cão havia ferido a almofada, e decidimos deixar
de caçar.
Os olhos fechavam-se cada vez mais, até que adormeci e sonhei. Sonhei com aquilo que imaginava, enquanto acordada. E se os cães contassem histórias? Como seria?
Então sonhei que o meu cão contava-me a história da nossa caçada de hoje, enquanto me via a adormecer…
E a história começa como todas as outras…

 

Era uma vez…
Era uma vez uma menina que adorava animais, especialmente cães. E esta é a história dessa menina e do seu cão. Da Mafalda e do Martim, que se conheceram enquanto eu ainda era bebé.

Quando a vi pela primeira vez, ela abraçava-me e chorava. Achei um pouco estranho tanta emoção, mas senti que poderíamos ser grandes amigos. E não estava errado. Hoje sinto que somos os melhores amigos do mundo. Ela conhece-me como ninguém e eu também acho que já a ajudo em muita coisa, ou pelo menos tento. Já vivemos tanta coisa juntos e partilhamos tantos momentos. Hoje foram apenas mais alguns. Fomos caçar. Passo a noite agitado. Sei sempre o dia em que vamos. E então não durmo quase nada… E quando ouço a porta de casa a abrir, ainda de madrugada, começo aos pulos de alegria. Mas não posso ladrar, por causa dos vizinhos, e então contenho-me. Pulo para a minha caixa, a minha dona ainda está com uma cara de sono, e principalmente com muito frio. Eu já não sinto nada; nem sono, nem frio; só alegria e ansiedade.

 

Chegamos ao campo e a primeira coisa que ela faz é soltar-me. E eu corro e pulo de alegria. Conheço os outros cães que por ali andam. Uns mais simpáticos que outros, mas não gosto de dar muitas confianças; e principalmente não gosto que a Mafalda lhes dê muita confiança. Ela já se está a vestir. Já vejo na cara dela que está feliz e “em pulgas” para começarmos. De vez em quando, sinto-a a olhar para mim. Sabe que não vou a lado nenhum sem ela mas, ainda assim, quer assegurar-se de que estou ali. Já a vejo a colocar a cartucheira e a abrir a espingarda. Estamos prontos.

Ela não precisa de dizer nada, já estou aqui bem perto, para começar. Eles combinam a linha, onde é que vai cada um, e eu já não estou a aguentar muito mais. “Então, quando é que começamos?”, penso eu. Eles começam a andar e ela só me diz “Bora Martim”. Já sei que já posso começar a fazer aquilo para que nasci. Sim, para que nasci. Tenho a certeza de que esta é a minha função, e nasci para ser caçador e para estar ligado a alguém, enquanto caço.

Essa ligação é forte, demasiado forte para conseguirmos explicar por palavras. Só a sentes, só a vês, só a vives.

Comecei a caçar. Batia a esquerda, batia a direita. De vez em quando, via um cão ali, outro aqui, mas não lhes passava cartão. Só se ouvisse o beep de algum deles é que tinha de correr até lá; caso contrário, permanecia onde devia estar. Mas havia coisas que não conseguia controlar. A Mafalda ficava zangada comigo mas, mesmo assim, eu tinha que correr até ao barulho dos beep. Poderia estar lá caça e esse é o meu maior vício, tu sabes e espero que me compreendas um dia.

Sinto um cheiro diferente. Está aqui qualquer coisa. Coloco o focinho no chão, para sentir melhor, e ando pé ante pé, para me certificar que a peça de caça não se levanta e de que estou a apontá-la bem. Ela está aqui. Não me posso mexer mais. Estou tenso, demasiado tenso. Vem rápido Mafalda. Ela até está a olhar para mim e não sei se me consigo controlar durante muito mais tempo. Ela chegou. Deu-me umas festas, para me acalmar. Senti-o. Ela vê que a peça está já ali. Uma lebre. E como eu gosto de correr atrás delas. Estou a ter um auto controlo enorme. Ela sabe disso e depressa a levanta. E eu não consigo mais, e depressa corro atrás dela. Também sei que a minha dona não gosta que o faça, mas nunca ralhou comigo, e portanto eu continuo. Dá-me um prazer incrível correr atrás delas, sabem? Bem sei que elas são mais rápidas e mais astutas que eu; mas ainda assim vou com todas as minhas forças. Pode ser que um dia tenha sorte….

Ouço-a dizer “Não consegui atirar, o Martim esteve sempre metido com ela”. Isso é bom ou mau? Não percebi agora… Talvez a tenha atrapalhado. Não devia ter feito aquilo… Mas não consigo! Mesmo assim, mesmo depois de ter feito isto, cheguei-me junto a ela. Sabia que me ia abraçar. Abraça sempre, mesmo quando eu me porto mal. Nunca soube dar-me uma boa educação. A sorte dela é que o pai me educa, e eu tenho-lhe muito respeito. A ela também, mas sei que posso abusar que, apesar de ficar chateada, depressa lhe passa. E voltou a abraçar-me, e disse-me “Vamos continuar”.

Ando com garra, tenho uma paixão incrível por aquilo que faço. Nenhuma esteva me perturba o caminho; e nenhum sargaço me impede de continuar. Dou tudo por tudo, sem querer receber nenhuma recompensa, pois a maior que tenho é ser o que sou e fazer o que faço. Paro. Sinto algo. E paro de repente. Não creio que esteja muito longe. A Mafalda aproxima-se, manda-me guiar, mas eu não quero. Sinto que não há necessidade. Ela compreende e procura onde pode estar a peça. Estou com certas dúvidas, mas ainda assim aguento firme a minha paragem. Percebo que ela não encontra nada, e percebo que a peça já não está ali. Desfaço a paragem e continuamos a caçar. Subimos e descemos cabeços, horas e horas a fio, debaixo de um frio que nos gela as mãos, mas nunca a alma. Eu não o sinto, e sei que ela também não.

 

Andamos durante algumas horas. Sinto alguns rastos, mas não consigo detetar nenhuma peça de caça. Mas isto faz parte, a isto se chama caçar. Quantos e quantos dias nós vamos os dois e não vemos nada. Absolutamente nada. E há sítios que nem rastos eu sinto. Mas ela nunca desiste e eu também não. A certa altura, vejo um cão parado. Vou a correr para lá. Tenho que ir, como se as minhas pernas comandassem a minha mente. Mesmo que eu não queira, não consigo evitar. Paro também. Não sinto nada, mas paro. O outro cão sai da paragem e sai dali. Não sei se se assustou ou se simplesmente percebeu que não era nada. Mas, ainda assim, concentro-me. E sinto que realmente algo esteve ali. A Mafalda já está perto de mim. E eu começo a guiar, para perceber onde pode estar a peça. Se é pena ou pelo. Se for pelo, então dificilmente a encontro. Mas se for pena, poderá ter ido a patas, mas estar ali perto. Continuo a guiar. O cheiro é cada vez mais intenso. Ela está ali perto. Até que não consigo andar mais. Está ali, eu tento apontar com o meu focinho e espero que a minha dona o perceba. Ela olha para mim, pede-me para ter calma. “Calma como?”, penso eu. Ela está já aqui. E eu preciso de a morder.

É uma galinhola. Mas não quer levantar-se. Terá medo? Saberá quem eu sou? O que estamos ali a fazer? A Mafalda levanta-a e derruba-a com um tiro. Boa, penso eu. Corro com todas as minhas forças para a ir cobrar. Finalmente vou morder uma peça de caça hoje. Encontro-a, apanho-a com a boca e levo-a à Mafalda, alegremente. Ela ajoelha-se e recebe. Dá-me muitas festas e agradece-me, dizendo que sou o melhor cão do mundo. Sabes Mafalda, e tu és a melhor dona do mundo, mas não to consigo dizer.

 

Ela guarda a galinhola. Está feliz, eu sei. Conheço-a tão bem. Já está cansada. Também eu. São quase horas de almoço… Comemos pouco…. Já tenho água disponível em todo o lado o que, para mim, é muito importante. Mas ainda assim ela leva sempre a minha garrafa de água no colete, não vá eu ter uma sede espontânea… Olhei para ela. Tem aquele chapéu laranja, para que todos a possam ver. Tem as faces rosadas do frio e do cansaço. E tem aquele sorriso típico de quem está num dia de caça.

Continuamos a caçar, até eu sentir alguma coisa dentro de umas silvas. Sentia um cheiro estranho, diferente… Mas sabia que deveria estar ali alguma coisa… Começo a ladrar. Mafalda, vem cá, ajuda-me. Está aqui alguma coisa. Ela corre na minha direção. Incentiva-me a ir lá dentro, mas não sei se quero entrar. Atira uma pedra e eu dou um pulo para lá para dentro. Ela sabe que não resisto a isso… Ao mesmo tempo que entro, parece que algo está a sair. Um javali. Sim, um javali. Não muito grande, mas apetecível para mim. Ele foge, ela não lhe atira (não percebo porquê). E eu corro com todas as minhas forças atrás dele, e ladro e uivo e faço todos os barulhos possíveis para que ele pare ou para que tente atacar-me, pois quero estar frente a frente com ele. Sinto que a Mafalda corria também atrás de nós, mas parou, pois sabe que não nos consegue apanhar. Eu fui quase até ao fim do mundo atrás dele, até deixar de o ver e de o sentir.

Voltei para trás rapidamente, mas senti-me um pouco perdido. Devo ter andado kms e mais kms atrás dele. Corro. Corro muito para encontrar rapidamente a minha dona. Até que, num fundo longínquo, ouço um apito que entoava com força. Sei que é ela. Corro novamente como se não houvesse amanhã. Até o apito ser cada vez mais presente. Até chegar ao pé dela. “Então Martim, o que se passou aí?” Não te consigo responder, mas lambo-te as mãos, para perceberes que foi algo de bom. Gosto de ver os javalis e de os perseguir.

 

“O que se passa na tua pata?”
Olho para ela, que estava com uma cara aterrorizada.
O que terei eu, pensei.
“Tens uma ferida na tua almofada, Martim. Oh meu deus. Não te dói?”

Eu bem que tinha sentido qualquer coisa, entre o entra e sai nas silvas, mas com toda a emoção nem me apercebi do que havia sido. Agora estava a doer-me um pouco mais, realmente. Talvez porque tenha parado, porque tenha arrefecido, não sei… Mas também creio que a expressão da cara dela me doía mais. Ouço-a a chamar o pai, em pânico, que se pôs a olhar para a minha pata. Só lhe disse para ter calma, que era o desgaste e que me devo ter magoado em algum sítio.

Ela já estava de lágrimas nos olhos. Não é preciso isso, tem calma, eu estou bem. Mas não lhe conseguia dizer. Ela já chorava. Entretanto acalmou-se e disse ao pai que já não caçávamos mais, e que iríamos esperar por eles. Sentou-se numa pedra. Olhava fixamente para mim, mas deveria estar a pensar em algo. Eu dirigi-me a ela, e encostei a minha barriga às suas pernas. Queria-lhe dizer para não se preocupar e que gostava muito dela. E depois deitei-me. Precisava de descansar. Deitei-me junto a ela. E espero fazê-lo todos os dias do resto da minha vida. Porque são estes dias e estes momentos que me fazem ter a certeza de que não podia ser mais feliz.

 

Acordo, sobressaltada. O Martim ainda dorme… Olho para ele e sorri-o. Creio que todos os dias ele me conta histórias e que todos os dias essas histórias permitem que seja uma melhor caçadora e uma melhor pessoa.

ML.

 

(Artigo publicado na Revista Turcaça - Edição online Outubro, Novembro e Dezembro 2017)

 

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