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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

E tu, o que sabes sobre o mundo rural?

Quem está sentado a uma secretária, rodeado por pessoas e computadores, com vista privilegiada para os prédios da cidade; e com um cheirinho peculiar de poluição; o que sabe sobre o mundo rural?

Essas pessoas, que passam mais de 2 horas por dia no trânsito, o que sabem sobre as gentes do campo, para opinarem? Ou para darem ordens, disfarçadas de preocupação e bem estar...

 

A vida no campo não é o mesmo que um fim de semana num hotel rural no Alentejo, onde podemos ver os cavalinhos e as vacas... "Que giros que são"! Na vida no campo isso é uma consequência (uma boa consequência) do trabalho, do suor e das lágrimas...

Existem pessoas, pessoas de verdade, de carne e osso, que nunca precisaram de aprender a ler ou a escrever, de fazer teses de mestrado ou doutoramento, para saberem mais sobre esta vida que qualquer outro chico esperto, armado em "doutor" do mundo rural.

Existem pessoas que têm 80 e muitos, 90 e muitos, até mais de 100 anos de idade. Que vivem em aldeias isoladas, que caminham todos os dias para ir buscar o pão à padeira, que o vai deixar na carrinha, de aldeia em aldeia. Essas pessoas vivem, e não se limitam a sobreviver. Muito por culpa do espírito de amizade e companheirismo que existe entre todos. Não há lares naquelas aldeias. As casas de uns e outros fazem bem esse serviço.

 

No mundo rural os campos são verdes mas, muitas vezes, estão secos e não têm graça. Não se assemelham (nem por perto) às fotografias maravilhosas que vemos na internet, ou ao fundo do ambiente de trabalho do Windows. Há temperaturas extremas; há momentos em que vem muita água e outros em que não chove nada. E as pessoas adaptam-se, tal como a natureza... Nesses campos, existem tantas coisas que podem não agradar a todos... Existe lama, quando chove muito, que nos pode "atascar"; existem abelhas e carraças, na altura de mais calor, que nos podem "atacar"... Existem gafanhotos que saltam para cima de nós e podem assustar os mais sensíveis... A vida no mundo rural não é um conto de fadas. Principalmente para os que lá vivem, no entanto, não conseguiriam estar noutro lado.

 

E como é que alguém que vive numa cidade, que se levanta às 7 ou 8 da manhã, para entrar no escritório às 9h; e que sai às 5 da tarde (porque, por lei, não é permitido fazerem mais que 8 horas diárias) ainda pode opinar sobre o trabalho agrícola, pecuário, ou tudo o que for relacionado a isso?

No mundo rural, os trabalhadores levantam-se com o nascer do sol. Às 6:30h de inverno e às 5h de verão. E começam logo a trabalhar. Não há tempo para ir beber um café e comer um pastel de nata. Não é que não queiram, mas isso não existe entre estrada de terra batida e sobreiros a perder de vista... Trabalham debaixo do tempo que se fizer sentir. Não há medo de chuva ou de sol. A pele vai ficando enrugada mais cedo, porque não existem protetores solares para esta gente. Mas também não apanham muitas doenças. Pelo menos é o que se diz... Poucas vezes se constipam... Talvez o sistema imunitário esteja mais fortalecido... Deveríamos fazer um estudo científico com esta gente, não? Perceber que genética existe ali… Mas querem lá eles saber disso... Não há tempo... Este é escasso... Têm de tratar dos porcos, das vacas, dos cães, dos patos, das galinhas, dos perus e do borrego que vai ser morto na páscoa. 

Será isto demasiado cruel para alguém que vai comprar o borrego ao supermercado, e não tem qualquer tipo de ligação com este animal? Mesmo que o seja, o respeito pela liberdade é algo demasiado importante mas que, cada vez mais, tem sido descartado... Pela gente do mundo urbano!

 

Esta encruzilhada entre o urbano e o rural é deveras poderosa; no mundo urbano apenas se vê o esplendor do mundo rural; mas no mundo rural não existem linhas ténues; porque a história é dura e está estampada no rosto de quem lá vive; apesar da dinâmica se ter modificado com o virar do século. Na teoria ambos os espaços se complementam, mas na prática... Será que é assim mesmo?

 

Trabalhar de solo a solo, esperar que as manhãs emerjam para se começar um novo dia, sem tecnologias, sem senhores doutores e sem multidões apressadas de um lado para o outro. Come-se o que se planta, mas também se vai ao supermercado. Trocam-se batatas por alhos, e cebolas por limões. Quem tem dá; quem não tem inventa também para dar. Cuida-se do que é nosso, mas faz-se sempre um jeitinho para o vizinho do lado. Partilham-se coisas materiais; mas partilha-se sabedoria, amizade e solidariedade. Um por todos, todos por um... Na selva do mundo urbano isso já não é bem assim...

 

Dizem-se asneiras, sem pensar que alguém vai olhar de lado. Anda-se de trator, com receio que este se vire a qualquer momento. Correm-se riscos. E a vida torna-se numa adrenalina, porque há sempre histórias novas para contar. Vai-se cedo para a cama, e o galo canta para dizer bom dia. 

Os homens ainda são brutos e as mulheres usam lenços na cabeça e não fazem a depilação. As crianças ainda jogam à bola na rua. Ainda existe um domingo onde há a procissão e onde se agradece a todos os santinhos. As mulheres cozinham e os homens acartam a lenha para acender a lareira. Mas alguns já metem os pratos na mesa...

 

Os tempos modernizaram-se, até mesmo neste mundo rural, mas nunca se modernizarão costumes e tradições tão enraizadas. Por mais que o meio urbano o queira fazer...

 

E tu, o que sabes sobre o mundo rural, se nunca experiencias-te esta vida, por mais descrita que esteja nos livros?

Nada! 

E se nada sabes, então não queiras mudar o que não te diz respeito! 

Viver na simplicidade torna a vida mais pura...

ML.

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