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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Espera por mim, que ainda não me despedi de ti!

Conheci-te há poucos anos, mas parece que te conhecia desde sempre. Parece que estivemos juntas desde o primeiro dia em que nasceste….

Sempre foste a minha preferida, das três. A caçar mas, sobretudo, pela morfologia. Eras de facto uma cadela linda: a tua cabeça, o teu corpo quadrado e as cores que te pintavam. Gostava mesmo de ti, sabes…

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Ainda fizeste uma época toda a caçar connosco. E realmente ninguém te superava… Diziam que “inventavas caça” e eu vi-o com os meus próprios olhos. Muitos olhavam de lado, desconfiados, achando que não seria possível fazer aquilo que fazias. Uma vez deste-me duas galinholas de seguida, mas não fui capaz de atirar… Que falha a minha! E todos continuavam a olhar para ti, e a pensar naquilo que fazias, da forma que fazias…

Não te afastavas muito. Olhavas constantemente para trás, para ver se o teu dono estava a vir. Eras a menina dele, mas depressa teve de acabar, pois a Hindy não te deixava. Era demasiado ciumenta e tu, sempre com a tua classe e a tua calma, afastavas-te para não criares problemas e para não te chateares com a tua filha.

Mas ele também gostava demasiado de ti sabes, não sabes?

 

E tive a certeza disso num dia em que fomos todos à caça. Eu, ele e vocês as três. Foi um dos dias mais aflitivos que já tive. E tudo porque gostava demasiado de ti. Gostavamos demasiado de ti…

Estávamos todos a caçar e tu já não ouvias bem, mas nós ainda não tínhamos a certeza disso… Ouço-o a perguntar-me se te tinha visto. Olhei para todo o lado e disse que não. Começamos a chamar-te, cada vez mais alto. Cada vez com mais ansiedade e medo. Já gritávamos exageradamente, enquanto corríamos de um lado para o outro. E nada. Não te víamos, nem te ouvíamos. Ficamos nisto até ser noite cerrada e não conseguirmos ver além da luz das estrelas. Fomos para casa, com o coração nas mãos. Mal falamos um com o outro nesse dia. Chorávamos, com um sentimento completo de incompetência; mas chorávamos sobretudo por ti. Onde estarias agora? O que estarias a fazer, a pensar?

 

 No dia seguinte, ainda de madrugada, levantamo-nos para te procurar novamente. Nada… Até que ele recebe um telefonema, a dizer que te viram na estrada para Beja… O que já tinhas andado. Voamos até lá… E vimos-te já sem forças, e com as patas feridas. Choramos novamente, mas de alegria por estar contigo e por estares novamente connosco. A equipa não seria a mesma sem ti.

 

Cuidamos de ti e este susto fez-nos perceber que já estavas a ficar velhinha… Que agora a tua filha e a tua neta teriam de te substituir (apesar de nunca seres substituível). E começamos a caçar mais com elas, mas tu vinhas sempre connosco e ficavas quietinha no carro. Acho que também sentias que já não podias passar uma manhã inteira a caçar. Cansavas-te muito…

Mas, ainda assim, naqueles terrenos onde víamos que tu podias ir, sem o receio de te perdermos (pois não nos ouvias); soltávamos-te sempre… Ainda me lembro da última vez… As outras duas malucas ficaram presas e refilavam a torto e a direito, e tu vieste connosco, contente, mas com uma busca já mais curta e uma respiração já mais acelerada…

Paraste uma lebre e fizeste com que eu caçasse a minha primeira lebre. Nunca mais me vou esquecer, nem tu, estou certa…

 

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Depois de todas estas jornadas de caça, ele demorava cerca de 1 hora para te tirar a sujidade do pelo. Picos, estevas, o que quer que fosse, ficava preso ao teu pelo… Com um pente pequeno, lá te ia escovando e tu gostavas no início, mas depois refilavas e só querias fugir dali. Mas tinha de ser, para ficares bem e sem nós no pelo. Este compasso de espera por vezes irritava-me, mas ia depenando algumas peças de caça, se já estivéssemos em casa… Dizia sempre “outra vez? Já está bom”. Hoje só queria ficar horas e mais horas a ver-te ser escovada…

 

Eras a mais bem comportada. Aquela que nunca saltava para cima de mim. Ou porque já eras velhinha, ou porque simplesmente não gostavas. Mas eras a primeira a vir cumprimentar-me. E gostavas sempre de nos morder o nariz e as orelhas. Ele dizia que era a tua forma de dizeres que gostavas de nós. E nós gostávamos mesmo de ti, sabes?

Depois de te darmos comer, e de lavarmos os canis, metiamo-nos a falar contigo, e tu entendias tudo. Eras a nossa velhinha e brincávamos com isso. Todos os dias, a nossa velhinha vinha ter connosco e ficava contente por nos ver. A ele principalmente, não tenho dúvidas disso.

 

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Houve um dia que nos preocupaste demasiado (outra vez). Quando comeste sofregamente e ficaste toda inchada. Estive horas a andar contigo de um lado para o outro no jardim. Estive horas a fazer-te massagens na barriga. E estive ainda mais horas a rezar para que ficasses bem. Ele até te deixou vir cá para casa, para a sala, lembras-te? E ficaste bem…

Mas no dia 10 de Fevereiro, apesar da história se ter repetido, o final foi diferente. Eu não estava cá convosco, mas de 30 em 30 minutos ia sabendo notícias. Comeste sofregamente e estavas “embuchada”, mas desta vez era diferente, dizia-me ele. Ligou logo para o veterinário, que disse para aguardar. E vocês aguardaram os dois a noite inteira, de pé. Ele, em pânico e numa ansiedade que não lhe conhecia; tu com muitas dores e a prever, quiçá, o que iria acontecer.

Por volta das 7 da manhã ele foi contigo para o veterinário.

Tinhas feito uma torção de estômago.

Por volta das 8 da manhã eu acordo, sobressaltada, com uma mensagem que dizia “A nossa Haya já não está connosco”.

Não conseguia parar de chorar, Haya. Não deu… E continua a ser muito difícil… Liguei-lhe e ficamos a chorar ao telefone durante vários minutos…

Não me despedi de ti... Não te despedis-te de mim...

Dói muito, sabes? Dói tanto saber que já não estás fisicamente connosco. Que a nossa equipa ficou reduzida. E elas também sentem… Apesar de tudo, de te chatearem e rosnarem para ti, elas sentem… A Hindy passou a noite inteira acordada, porque sabia que se passava alguma coisa contigo… Afinal de contas era a tua filha, e todos os dias se deitava contigo…

 

E agora, Haya… O que vai ser de nós? Bem sabemos que nos temos aos quatro, mas… E tu?

A nossa velhinha? Quem nos voltará a morder o nariz e as orelhas, para dizer que gosta muito de nós?

E nós gostamos tanto de ti, sabes…

Obrigada por tudo minha cadela velhinha… Nós prometemos que cuidaremos bem dele! E que iremos tentar fazer caça, como tu fazias! E um dia iremos encontrar-nos todos aí contigo, nem que seja para me conseguir despedir de ti!

ML.

 

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