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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Guerras entre Caçadores

Tenho como base da minha profissão a escuta ativa do outro, seja dos seus problemas, das suas lamentações, das suas alegrias ou dos seus desejos mais obscuros. Ouço de tudo um pouco, compreendo para além daquilo que, por vezes, um ser humano pode compreender. Mas faz parte. Todos somos diferentes, todos pensamos e agimos de forma única e, por isso mesmo, coloco-me no lugar de cada um, para tentar perceber o porquê das suas ações, dos seus comportamentos ou, até mesmo, das suas entoações. Mas por vezes não há respostas para estes porquês… As coisas são assim, simplesmente porque sim!

Não é fácil, sabem? Não é fácil colocarmo-nos no lugar do outro. Diria mesmo que esta é uma virtude que poucos possuem. Talvez porque sejamos demasiado egoístas mas, acima de tudo, porque fomos formatados para nos preocuparmos connosco, para alcançarmos os nossos objetivos, muitas vezes para não olharmos a meios para atingir os fins, para agirmos de acordo com o que a sociedade nos diz.

Talvez nunca tenhamos sido criados para nos submetermos ao outro. Uma submissão saudável. E quem o faz, lamuria-se…

Somos demasiado individualistas. Pensamos somente no nosso próprio umbigo. Contemplo-o frequentemente. Não serei assim tão diferente dos outros, simplesmente ouço-os e compreendo-os. Mas decerto porque sou psicóloga.

 

No mundo da caça, obviamente que nada disto é exceção. Não há melhores ou piores pessoas; há simplesmente pessoas. Seres humanos. Homens e mulheres que erram, que têm atitudes menos boas; e outras louváveis, indubitavelmente.

Mas onde quero mesmo chegar é a uma pequena palavra, que pouco significado tem para alguns mas que, para mim, é das palavras mais fortes, em termos de sentimento, mas sobretudo, em termos práticos. Sem ela não seremos nada, e isso começa a ser visível.

Esta palavra chama-se: UNIÃO!

 

A união, segundo o Dicionário de Língua Portuguesa, é “associação ou combinação de vários elementos, semelhantes ou diferentes, com o intuito de formar um conjunto”.

Vários elementos… Semelhantes ou diferentes… Mas que têm o intuito de formar algo.

E isto é tão consentâneo com aquilo que se passa, ou que se deveria passar na caça.

 

Há milhares de caçadores. Já tive oportunidade de conhecer uns quantos; e nenhum é igual ao outro. Uns têm mais convicção que outros; uns têm mais dinheiro; outros mais tempo livre; uns têm família e outros não; uns são sapateiros e outros engenheiros; uns mais simpáticos, outros mais tímidos… Mas todos eles têm algo em comum: a caça; a paixão por esta nobre arte.

E isto é tão claro, como 1 + 1 ser igual a dois. Se duas pessoas têm um interesse em comum; e se há outras duas que querem acabar com esse mesmo interesse, o que deve ser feito? Uma criança de 5 anos rapidamente me diria: as duas pessoas têm de se unir para pensar numa solução.

Isso mesmo! Essas duas pessoas deveriam unir-se para não deixarem que as outras duas fossem mais fortes que elas. Porque, efetivamente, a união faz a força. E talvez entremos agora num conto de fadas mas, o que é certo, é que ganha quem for mais unido.

E se por este caminho avançarmos, não iremos ganhar.

E a razão é demasiado simples e exorbitantemente obtusa: porque os caçadores são desunidos.

 

Não quero falar em nomes… Não quero falar em pessoas que têm cargos importantes no sector da caça… Não quero falar em associações, federações ou qualquer coisa terminada em “ões”.

Não é disso que se trata. Não é de guerras que me pretendo alimentar. Muito pelo contrário. É de união. E quando esta palavra se entranha nas nossas “veias”, outras tantas se sucedem… Amizade, companheirismo, entre ajuda, compreensão, valorização, aceitação, etc., etc.

 

Só com estes bons sentimentos, com estas boas palavras; com esta mudança de pensamentos; e com um rumo delineado por todos conseguiremos chegar a algum lado.

Agora, se se querem colocar no lugar do outro? Se querem dar o braço a torcer e colocar o orgulho de lado? Se querem admitir que nem sempre têm razão (porque afinal de contas são humanos e, como tal, erram)? Se acham que a caça não é mais importante que o vosso umbigo; o vosso poder ou, simplesmente, vocês próprios?

Se o fizerem, chegaremos lá… Agora, se continuarem com a premissa de que podem, querem e mandam… Terão o resultado mais prostrado de sempre: os nossos filhos, netos ou bisnetos não vivenciarem tantas histórias ousadas e únicas.

Mas talvez isso pouco importe… Porque será um problema deles, dos outros… Enquanto cá andam e enquanto ainda há caça para vocês, está tudo bem. Que pensamento tão egoísta, mas partilhado por tantos caçadores. Matadores, perdoem-me o engano. Matadores que só se preocupam com a quantidade, com as boas oportunidades para eles próprios e com as vangloriações que se fazem…

Mas já chega, sabem… Os verdadeiros caçadores estão cansados de tudo isto… Querem uma solução, querem que vocês se deixem de mesquinhices, de intrigas e birras, e façam alguma coisa. E basta aquela palavra mágica: a união.

Não deixem que isto termine assim. É uma história demasiado bonita, para que sentimentos maus a invadam e, sobretudo, acabem com ela.

Esta história, a história da Caça, merece ter um final feliz; merece saber que irá viver feliz para sempre… Mas para isso, como em todos os filmes, nos momentos piores, nas guerras, e nas lutas, tem de haver união e os mais unidos, os mais fortes e os justos vencerão!

Não sou ninguém para o afirmar; mas não se esqueçam, que até uma criança de 5 anos nos conseguiria responder, dizendo que a união faz a força!

ML.

 

(Artigo na Revista Caça e Cães de Caça, edição de Março )

 

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