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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Levamos o Chá e o Perdigueiro Português para Inglaterra...

Tem sido ideia assente para todos, tal como escreveu Sydenham Edwards in Cinographia Britannica de 1800, que o antigo perdigueiro português tinha sido introduzido em Inglaterra por um negociante português do Porto, numa época assaz recente, entre 1780 e 1800 ... (chamou-o então erradamente de “perdigueiro espanhol” ignorando que desde 1668 a Península Ibérica voltava a ter dois Estados distintos e várias Nações, a portuguesa, a castelhana, a galega a catalã, a andaluza…). 


A partir desses perdigueiros portugueses, os ingleses fizeram o pointer inglês que, por sua vez, originou os vários pointers europeus e americanos, sendo que este ponto já está extremamente bem estabelecido nas mais recentes investigações britânicas.
Portanto os primeiros perdigueiros, então de todas as cores e praticamente sempre de cauda amputada como se usava em Portugal, terão chegado a Inglaterra, segundo os vários autores, no fim do século XVIII e de facto toda a iconografia conhecida até há pouco tempo, em inúmeras gravuras, desenhos, quadros, pinturas e obras de arte em geral começaram a representar o perdigueiro na sua “versão” portuguesa original e passados uns anos representavam-se já os pointers aperdigueirados, uns de cauda ainda amputada, outros já de cauda inteira.


Ora acontece que desde o século XIV os reinos de Portugal e Inglaterra estabeleceram uma conhecida aliança política, militar e comercial, pelo que as trocas de bens e serviços sempre foram constantes. E desde então foram estabelecidas estreitas relações destas duas nações, particularmente mediante casamentos de membros da casa real ou da nobreza.


Da pesquisa que temos tido oportunidade de realizar ao longo dos anos, versando a História do nosso perdigueiro e a sua ligação ao pointer inglês e restantes cães de parar, trazemos a público uma imagem do nosso perdigueiro em Inglaterra, igualzinho aos cães actuais, até com a mesma cor, só que… cem anos antes do que afirmavam Sydenham, Arkrwight e outros autores dedicados ao cão de parar…

 

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Trata-se de uma pintura a óleo de Dirk Stoop (1615-1686), pintor holandês, com ligações aos portugueses judeus da Flandres e Holanda e descendentes dos mercadores, artistas e endinheirados judeus expulsos de Portugal por D.Manuel I a partir de 1496. Em 1651 a convite do rei D. João IV, Dirk Stoop vem para Lisboa, tornando-se pintor da corte da Princesa Catarina de Bragança (1638-1705). Rod(e)rigo, como passou a ser chamado em Portugal, teve uma atividade artística intensa e, entre os seus trabalhos mais conhecidos em terras lusitanas, destaca-se o conjunto de oito telas com paisagens e descrições de Lisboa (1661-1662) assinadas como Ro. Stoop f. e. e dedicadas à Princesa Catarina de Bragança. Das referidas pinturas as mais conhecidas são a vista do Terreiro do Paço e do Paço da Ribeira presentes no Museu da Cidade em Lisboa, assim como a representação do Mosteiro dos Jerónimos pertencente à colecção do Museu Mauritshuis (Haia),


Dirk Stoop juntou-se à comitiva da Princesa, aquando do seu noivado com Carlos II de Inglaterra. Passou assim a viver em Inglaterra e na corte real. A pintura de Dirk Stoop (Rodrigo) que divulgamos agora, datada de cerca de 1662-1666, representa uma cena de caça em que vemos o rei Carlos II de Inglaterra (que veio a dar o nome à raça de cães de companhia Cavalier King Charles) a cavalo (um perfil lusitano/ibérico) uma trompa de caça, um galgo, um épagneul (ou espaignol de pêlo comprido) e um pouco atrás … dois perdigueiros nacionais…


Catarina de Bragança, a mesma senhora que deu a conhecer e levou para Inglaterra o chá, mas que também nos levou no dote de casamento com Carlos II de Inglaterra Bombaim entre outras cidades importantes do nosso Império espalhado pelo mundo… enquanto rainha expandiu os domínios ingleses pela América do Norte, dando o nome ao célebre distrito/condado de Queens em Nova Iorque, o 10º distrito mais populoso dos EUA e onde lhe ergueram uma estátua…
Quem diria que ela e o séquito que a acompanhou, além de levar a tradição do chá levaram também os primeiros perdigueiros portugueses…
Atentem no exemplar mais visível à esquerda e em baixo… Uma cabeça preciosa e muito típica, como teria dito o Padre Domingos Barroso séculos depois, se tivesse tido oportunidade de conhecer esta obra leiloada recentemente pela Christies em Londres…

 

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Autores do texto e pesquisa: Dr. Jorge Rodrigues (Criador Canil de Torres) e Rodrigo Ezequiel

Muito obrigada por toda a pesquisa histórica que têm feito sobre o nosso Perdigueiro Português!