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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Os Cinco Sentidos na Caça

Compreendemos o mundo através de sistemas complexos no cérebro; mas construímos o mundo (o nosso mundo), através dos cinco sentidos - tato, visão, paladar, audição e olfato.

Cada um destes órgãos está adaptado a responder a determinados estímulos, possuindo receptores sensoriais (quimiorreceptores; fotorreceptores e mecanorreceptores) que os transformam em impulsos nervosos. Por isso nos lembramos de determinado momento quando ouvimos uma música ou quando sentimos certos cheiros. Os cinco sentidos têm um papel fundamental na formação de hábitos e na vida quotidiana e, sem dúvida, são o grande motor da qualidade de vida.

 

Muitas vezes damos pouca importância aos cinco sentidos, principalmente porque nunca vivemos sem eles (exceto quando estamos doentes ou temos alguma patologia mais grave) e por isso também não imaginamos como seria se não pudéssemos ver ou, por exemplo, tocar. A tal dificuldade de nos colocarmos no lugar do outro...

Mas creio que o ponto chave é bem mais que isso... O que é que os cinco sentidos poderão representar para nós, enquanto pessoas mas, sobretudo, enquanto caçadores? Será que os nossos cinco sentidos estarão mais apurados?

 

VISÃO

A visão é captada pelos nossos olhos, onde há a presença de fotorreceptores (bastonetes e cones), localizados na retina, capazes de responder a estímulos luminosos. 

Este é um dos sentidos mais poderosos da nossa existência. O poder de conseguirmos ver tudo o que nos rodeia, desde a imensidão do oceano ao transporte de um pauzinho de uma formiga. 

Na caça, a visão é a nossa ferramenta major. Precisamos dos olhos. Precisamos de ver, em frente, à esquerda, à direita e atrás. Ver tudo o que nos rodeia porque isso permite-nos sentir milhares de coisas diferentes. 

Vemos natureza, vemos animais, vemos ar puro, vemos nuvens e sol, vemos terra molhada e lama, vemos flores na primavera e orvalho nas manhãs frias de inverno. Vemos amigos, vemos lances que nunca mais sairão da nossa memória. Vemos o que mais ninguém consegue ver.

Vemos a caça na sua verdadeira essência. Não será essa a melhor forma de saber olhar?

 

AUDIÇÃO

A audição é possível graças à orelha, que possui mecanorreceptores, localizados na cóclea (orelha interna), capazes de captar as ondas sonoras. 

Esta é uma capacidade que se vai (normalmente) deteriorando, ao longo do tempo, tal como a visão.

Este é o sentido que mais desenvolvi desde que caço. Hoje em dia tenho a plena consciência que a minha audição está muito mais apurada que há uns anos. Dou atenção àquilo que ouço. 

E ser caçador é, sem dúvida, saber ouvir. Ouvir todos os pequenos pormenores, ouvir o vento, a chuva e o sol. Ouvir as estevas, as silvas e as giestas e saber diferenciá-los. Ouvir passos, pé ante pé e querer "abrir" ainda mais a orelha, para ver se escutamos com mais intensidade. Ouvir pássaros e distinguir o seu canto. Ouvir uma rede a mexer, uma gargalhada mais alta ou um latido que quer dizer alguma coisa. 

Ouvir a caça na sua verdadeira essência. Não será a melhor forma de saber ouvir?

 

TATO

O tato é responsável por perceber vibrações, dor, captar a pressão, assim como as diferenças de temperatura. Entre os principais receptores encontrados na pele, existem os corpúsculos de Meissner, de Pacini, de Krause e de Ruffini.

É importante o toque, sem dúvida. Tocar nas roupas de caça, de madrugada, para as vestirmos. Tocar nas botas e fazer os nós certos para que aguentem uma jornada inteira. Tocar na espingarda, nos cartuchos e na faca de remate. Todos eles nos transmitem sensações diferentes. Tocar nos nossos cães e fazer-lhes festas até se cansarem. (Esse é o meu toque preferido ou quando abraço alguém de que gosto). Tocar nas peças de caça, limpá-las, prepará-las, cozinhá-las. Tocar nas folhas molhadas e sentirmos as mãos a gelarem. Não podemos calçar luvas, incomoda. Tocar no mato que se estende à nossa frente e não nos deixa passar. Tocar nas silvas e picar-nos. Tocar numa lebre bebé e “curar-nos” os picos das mãos. Tocar no frio e no calor, no seco e no molhado e sentir que tudo é diferente, tudo se transforma e tudo pode ser vivido vezes sem conta.

Tocar na caça na sua verdadeira essência. Não será a melhor forma de saber tocar?

 

PALADAR

O paladar, juntamente ao olfato, é responsável por garantir a perceção do sabor e textura dos alimentos. A boca é o local onde esse sentido é percebido, o que acontece em virtude da presença de saliências conhecidas como papilas gustativas, capazes de perceber sensações táteis, além da distinção de sabores, como o doce, azedo, salgado, amargo e umami.

A caça e o paladar estão muito ligados, desde há milhares de anos. Caçou-se para comer, para se desenvolver o ser humano e também para aguçar o paladar.

Hoje em dia come-se o que se caça mas, além disso, come-se nas jornadas de caça, onde o paladar experiencia os mais variados sabores, desde um bom chouriço a um vinho tinto, ou a uma sandes de bifana a uma mão de vaca. Pratos transmontanos, pratos alentejanos ou algarvios. Todos os sítios têm as suas tipicidades; todas as tipicidades contam uma história.

Há comidas que são caça e que sabem a caça (por mais inexplicável que seja esse sabor). Há dias de caça que são apenas para satisfazer o paladar.

Saborear a caça na sua verdadeira essência. Não será a melhor forma de sentir o paladar?

 

OLFATO

O olfato está relacionado com a capacidade de perceber odores. Essa perceção é possível graças à estimulação do epitélio olfatório, localizado no teto das cavidades nasais, sendo rico em células nervosas (quimiorreceptores).

Cheirar dá-nos mil sensações, faz-nos pensar em sítios, em momentos, em felicidade. O cheiro de uma flor ou o cheiro de um cozinhado delicioso da avó.

Na caça os cheiros também se aliam a nós… Alguns cheiros podem não ser tão agradáveis mas já não vivia sem eles. O cheiro de uma raposa ou de um porco. O cheiro da chuva. O cheiro dos cães (outro dos meus cheiros prediletos). O cheiro da espingarda ou o cheiro da pólvora. O cheiro do orvalho. O cheiro do frio ou o cheiro do calor. O cheiro da primavera, que se distingue tão bem do cheiro de outono. O cheiro dos outros. O nosso próprio cheiro.

Cheirar a caça na sua verdadeira essência. Não será a melhor forma de sentir o olfato?

 

 

"Provo o som

Oiço a imagem

Vejo o tato

Toco no cheiro

Cheiro o gosto

E de um objeto fiz um rosto."

Marques, I. (2015)

 

ML.

 

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