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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Ovelhas mortas em Malpica do Tejo - O outro lado da história!

Disseram-me para ver o programa que estava a dar na SIC, Linha Aberta, e que falava de cães de matilha e dos prejuízos que estavam a causar. Ontem puxei o programa para trás, que tinha dado no dia 10 de Abril. Vi com atenção. Ouvi ainda com mais atenção... E não me posso calar! 

 

Numa altura em que as propostas do PAN prendem-se com o fim da utilização de matilhas na caça, este acontecimento foi "ouro sobre azul". No entanto, há muitas nuances que devem ser comentadas. Nuances essas falsas, e que devem ser transformadas em informações verídicas e verdadeiras. Porque mesmo quando o lobo veste pele de cordeiro, um dia será descoberto...

 

Sucintamente, a notícia comentada dita o seguinte: No dia 6 de janeiro houve uma montaria com mais de 500 cães de matilha numa propriedade aberta, em Malpica do Tejo. No fim da montaria, os matilheiros (homens proprietários dos cães de matilha) foram-se embora e deixaram cães no terreno. Abandonaram-nos. Esses cães não têm chip ou, se tiverem, os proprietários não estão identificados. Esses mesmos cães atacaram rebanhos de ovelhas e mataram-nos. São mais de 300 animais mortos. (Foram mostradas imagens). Agora ninguém sabe o que fazer, têm prejuízos enormes e não conseguem descobrir de quem são os cães que estiveram presentes na montaria dia 6 de janeiro. Conclusão? Os caçadores são uma espécie terrível que, além de abandonarem os cães, agora dão prejuízo aos agricultores.

No programa, esteve presente uma Senhora Comissária Política do PAN; mas "ninguém da organização da montaria e proprietários das terras quis falar com a SIC".

 

E agora vamos analisar tudo isto tim tim por tim tim...

 

1 - Toda a minha análise da situação será baseada em factos dizendo, desde já, que existem caçadores maus e bons, como em todo o lado e que defenderei aquilo em que acredito e que me faz ser caçadora.  

 

2 - Os caçadores são as primeiras pessoas a ajudarem os agricultores, nas mais variadas situações. Por exemplo, o caso dos javalis que destroem culturas imensas de milho. Nestas alturas, os agricultores falam desesperadamente com caçadores para ajudar. Nenhum caçador quer prejudicar o agricultor.

 

3 - Em Malpica do Tejo existem dezenas de montarias durante a época de caça. Referem-se somente ao dia 6 de janeiro. Mas porque é que os cães são da montaria de dia 6 de janeiro e não de uma outra montaria qualquer? Sendo que são feitas todos os fins de semana? Como é que sabem o sítio, a organização e os proprietários onde foi realizada a montaria? Há tantos sítios diferentes e tão pertos uns dos outros, tantas organizações diferentes e tantos proprietários que poderiam ser "acusados"... Talvez o dia 6 de janeiro tenha outra história por trás, que não conheçamos...

 

4 - Montarias com 500 cães? Tenho de ver onde é que isso acontece... É um feito histórico! Nem as toupeiras aguentavam… 

 

5 - Entramos num campo mais a sério. As montarias de Malpica do Tejo são conhecidas por serem extremamente bem organizadas e com requisição de matilhas que tenham tudo em dia. O que é ter tudo em dia? Um matilheiro deverá ter a sua matilha registada e com seguro. Deverá estar inscrito na Associação Portuguesa de Matilhas de Caça Maior, entidade que o representa e defende. Um matilheiro é obrigado a colocar um chip em cada cão, com a devida identificação, assim como a ter uma licença de cada um desses cães. Além disso, as vacinas têm de estar em dia e têm de fazer um registo da matilha. Um matilheiro é obrigado a ter condições de alojamento adequadas para os seus cães. De preferência com canis laváveis com fossa. (A ideia de que os cães estão presos à corrente já não é válida). Os matilheiros são obrigados, por lei, a dar boas condições de vida aos seus animais e a não proferirem nenhum tipo de maus tratos, como dita a lei que entrou em vigor há pouco tempo. Para isso, há um certificado de assiduidade, passado pelo veterinário, com idas ao canil ver se cumprem com boas normas de higiene e segurança.

Os matilheiros preocupam-se com as condições de transporte (o carro tem de corresponder a determinadas normas de bem estar), alimentação e cuidados de saúde dos seus cães.

Os matilheiros não saem do terreno sem terem os seus cães todos presos. Mesmo que só falte um, mesmo que já sejam 3 da manhã e isso impliquei fazer uma fogueira e passarem a noite inteira ao lume, à espera dos cães. Muitos matilheiros utilizam coleiras de GPS (mas não todos). Mas todos os cães de matilha têm uma coleira que os identifica - normalmente uma coleira grossa com um número de telefone e o nome da matilha. Nunca vi nenhum cão de matilha sem uma coleira ou algo que os identificasse. (Mas talvez os cães do dia 6 de janeiro tenham tirado as coleiras uns aos outros antes de organizarem o "ataque"). Os matilheiros de hoje em dia são diferentes dos matilheiros de antigamente e isso é preciso ter em conta. Os tempos mudaram, a sociedade mudou, as pessoas mudaram.

Mas também sei que há bons e maus, como em todo o lado. Agora por uns não têm de pagar todos.

 

6 - Há uma diferença, que penso ser de fácil perceção. Cães de matilheiros e cães de matilha. Todos podem ter cães de matilha, não precisam de ser caçadores. Sabemos que há cães abandonados em muitos sítios e que podem ir acasalando uns com os outros e continuando a viver na rua, sem terem nunca nenhum dono. Nas cidades isso acontece, no campo também... 

O abandono é crime, seja para quem for. Se um matilheiro abandonar um cão, terá repercussões legais, assim como na Associação Portuguesa de Matilhas de Caça Maior, que repudia qualquer mal trato animal.

 

7 - Já passaram 3 meses desde o sucedido... Será que só agora deram por isso? É que uma matilha para matar um rebanho pode fazê-lo numa hora.

 

8 - Quando mostram as fotografias dos animais mortos, há várias coisas que podemos questionar. 

a) Porque é que não há fotografias ou filmagens da matança dos animais? As pilhas da câmara acabaram logo quando se ia ver os cães a comer as ovelhas?

b) Os cães que ali se vêm de volta dos animais mortos (e parece ser só de um dos cadáveres), se tivessem morto aquela ovelha iam ficar só a cheirar? Um dos cães que se vê, bastante magro, poderia limitar-se a cheirar e não a comer, porque poderia estar doente mas será que os outros iriam limitar-se só a olhar para a sua "obra", sem a comer?

c) Uma das fotografias apresenta uma ovelha com o abdómem bastante inchado, o que só pode significar duas coisas: ou morreu de doença, e isso iliba os cães; ou se foi morta pelos cães ia ficar alguns dias (dias esses necessários para a libertação dos gases que iriam inchar o abdómem) sem ser comida pelos vorazes cães?

d) E depois há ainda outro facto: as carcaças mais velhas que aparecem, estão no estado que seria normal de serem deixadas por outro predador, por sinal bastante abundante na zona, e não por canídeos.

e) E a colónia de abutres que vive mesmo ali ao lado? Como sabem, onde há bicho morto os abutres atacam em série. Não deixam nada, em pouquíssimo tempo.... Estes abutres serão diferentes?

 

9 - Não poderia deixar de salientar que para se falar temos de ter conhecimento de causa. Se eu não sei muito acerca de ciclismo, não vou mandar “bitaites”. E se a SIC não sabe muito acerca de caça, deve estudar um bocadinho antes de dizer certas coisas, nomeadamente que convidou as pessoas responsáveis e ninguém compareceu. Mentira! A entidade responsável pela defesa das matilhas é, como referi há pouco, a Associação Portuguesa de Matilhas de Caça Maior, que nunca foi contactada. 

E só mais uma coisa, numa montaria utilizam-se armas de fogo, ao contrário do que foi dito (e tão mal dito).

 

10 - A Senhora Comissária Política do PAN disse, e com muita razão, que deve haver mais fiscalização. Não podia estar mais de acordo e tiro-lhe o chapéu por isso! Nem imagina a dificuldade que é nós fazermos tudo legalmente, gastarmos "rios" de dinheiro para ter tudo em condições e depois aparecerem uns "chico espertos" que fazem tudo mal e que denegridem a nossa imagem. Mas isso também deve acontecer convosco, não?

 

11 - "Ainda há práticas arcaicas como matar raposas à paulada", disseram. Primeiro nós, caçadores, não matamos, caçamos. E depois... Matar raposas à paulada????? Nem consigo dizer mais nada... Só de imaginar tal situação, faz-me ter pena do ser humano. Daquele que imagina isto, e daquele que o consegue fazer. Temos de conhecer primeiro a caça e só depois falar... Talvez um dia eu conheça também o ciclismo. Se assim for, então depois falarei sobre isso...

 

12 - Disseram também que os cães de matilha podem ser perigosos até para os humanos... Não é verdade! Até aqueles cães que têm um ar assustador são meigos. Já convivi com tantos, sempre sem medo e o que recebo em troca são só lambidelas... Se eles não quiserem contacto, eles afastam-se. Nunca mas nunca vi nenhum cão de matilha ser agressivo com humanos, nem nunca ouvi história idêntica.

Obviamente que pode haver alguma situação; pois há sempre casos diferentes e cães agressivos existem em todo o lado; há cães de raça potencialmente perigosa que não fazem mal a uma mosca; como há cães que não são considerados de raça perigosa e são agressivos. Agora não se pode dizer que os cães de matilha são perigosos para os humanos, quando isso não é verdade!

 

13 – Para finalizar, quando vi todos aqueles homens na televisão, que perderam os seus animais, tocou-me. Obviamente que me tocou. Eles precisam de respostas, de ajudas e de justiça. Mas para isso é necessário encontrar o culpado e não levantar suposições. Podem ou não ser cães de matilha. Como disse, há sempre pessoas boas e pessoas más, em todos os setores. Mas só podemos acusar tendo provas concretas.

E depois de tudo isto, mesmo que tenham sido cães de matilha, deixados ou perdidos por matilheiros então vos digo: por um não pagam os outros! E por um não se pode generalizar! É como os condutores… Se só se pode andar a 120km na auto estrada, eu não irei andar a mais. Mas há quem o faça… E por isso serei eu “condenada” e colocada num patamar que dita que todos os condutores são irresponsáveis e ilegais? Parece-me bem que não…

ML.

 

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