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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Porque nos sentimos felizes a caçar?

Gostei tanto desta entrevista feita ao Prof. Dr. Juan Carranza, e faz-me tanto sentido, que decidi traduzi-la e mostrar-vos. Espero que se deliciem com estas explicações...

 

"Desde tempos remotos, que as pessoas se alimentam de carne. As evidências mais antigas do seu consumo, em África, remontam a cerca de 2,6 milhões de anos: fósseis de grandes mamíferos com marcas de ferramentas nos ossos. Somos caçadores desde o começo da nossa existência e, até há 100.000 aos dependíamos da carne caçada, em todos os lugares do mundo. Apenas com o início da agricultura, há 10.000 / 20.000 anos atrás, diminui gradualmente a dependência da caça que, juntamente com o estilo de vida sedentário, tornam-se nos estilos de vida recentes.

Nem sempre tinha sido assim, não. 

 

A caça é uma atividade que desgasta fisicamente. Predadores como os grandes felinos, que caçam presas maiores do que eles, despendem muita energia (que os pode levar ao limite) com a busca, captura e imobilização da presa. O sucesso em conseguir comida, em sobreviver e em ser bem nutrido depende não apenas das habilidades para perseguir, capturar e caçar, mas também do gosto por fazê-lo. A seleção natural produziu dor e prazer, com os quais o cérebro informa ao corpo que algo é negativo ou positivo para a sua eficácia biológica. Através dessas sensações, os genes influenciam o organismo a fazer ou não coisas que o favorecem ou prejudicam. É por isso que um ser vivo arrisca a sua vida a reproduzir-se e assim deixar cópias de seus genes; da mesma forma que a competição dos machos pelas fêmeas é arriscada e dispendiosa; e da mesma forma que a caça envolve riscos e gasto de energia para os predadores.

 

Seleção Natural

A seleção natural fez com que estas atividades produzissem prazer, motivando o organismo a aceitar (com prazer) o risco e o esforço. Se formos caçar não temos problemas para acordar cedo, subir encostas... O coração bate com a adrenalina que nos prepara para enfrentar algo que exige capacidade de reação e tomada de riscos. A seleção natural produziu tudo isto em nós, tal como os sentimentos de empatia em relação à nossa família, por exemplo. São comportamentos opostos, mas igualmente naturais. A chave que faz o click no nosso cérebro, que nos leva a perseguir um ser vivo e a caçá-lo ou, pelo contrário, a cuidar de um ser vivo; relaciona-se com a forma como o identificamos – se está dentro do nosso próprio grupo ou não.

 

Dou-vos o exemplo dos índios Yanomami das selvas amazónicas da Venezuela e do Brasil que, hoje em dia, ainda são caçadores-coletores - homens (caçadores) - gostam de caçar e falam sobre isso à volta da fogueira e as mulheres (coletoras). 

Também em todas as famílias de Yanomami existem animais que são criados domesticamente, com quem partilham a escassa comida e até mesmo o leite das mulheres. Esses animais de estimação não são diferentes dos animais que caçam na selva, mas nenhum Yanomami pensaria em caçá-lo: nunca comem os animais que criam. Se olharmos para o passado para entender o nosso presente, a coisa mais estranha no ser humano não é caçar animais selvagens ou espécies cinegéticas, mas sim matar e comer os animais que ele mesmo criou.

 

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Atualmente, ouvimos dizer que a caça já não faz sentido, pois ninguém precisa de caçar para comer. É verdade. Agora matam-se os animais de outra forma, e bem pior, no meu ponto de vista.

Ainda assim, isso não impede que haja pessoas que gostem de perseguir e caçar um animal. Esta tendência existe. Podemos reprimi-la, mas é algo natural. Tem raízes mais profundas em nós do que, por exemplo, o futebol.

 

Caçar dá prazer. Porquê?

A explicação reside na intervenção dos centros cerebrais do prazer: o núcleo accumbens, o hipocampo, o córtex pré-frontal e a amígdala produzem neurotransmissores que geram estas sensações, fomentando os comportamentos que a provocam.

A dopamina é uma delas, e é crucial na regulação sináptica - a conexão entre os neurônios - deste circuito de recompensa, gerando a sensação de prazer. Além disso, estimula as vias excitatórias no accumbens, atuando como ponte entre o sistema límbico - importante na regulação de comportamentos somáticos, emocionais e sexuais - e sistemas motores.

A dopamina predispõe o corpo a um estado de alerta, permitindo também que surjam emoções e euforia, estimulando-nos à busca do prazer. Também aumenta o desejo sexual: é por isso que os mamíferos superiores exibem comportamentos agressivos de dominância e sexualidade. Se a síntese de dopamina ou sua libertação diminuírem, a consequência é a desmotivação e disforia (casos leves) e a depressão e a perca do desejo sexual (casos graves).

O comportamento da caça está relacionado com essas substâncias que nos predispõem à atividade e, quando há libertação das mesmas, dão-se os momentos de prazer. Tal como em todos os vícios, o cérebro está predisposto ao prazer e isso, uma vez experimentado, encoraja-nos a procurar uma e outra vez, repetidamente. É uma vulnerabilidade: os viciados são pessoas normais que encontram uma tentação. E aqui a evolução não preparou ninguém para lutar contra as tentações. Seremos viciados em caçar?

 

Não sabemos o que pensavam e sentiam os primeiros seres humanos, mas algo intuído em pinturas rupestres deixadas nas cavernas, permite-nos reconstruir as suas estruturas cerebrais - com base no comportamento e emoções. Analisando tais pinturas, abundantes em África, Europa e Ásia, podemos tirar concluir sobre o que era importante para os caçadores - o grupo, normalmente representado na caça, a atirar flechas em bisontes, antílopes ... Ou seja, tanto o grupo, como a caça eram parte dos valores humanos. Os cérebros dos nossos antepassados ​​já tinham as estruturas básicas de comportamento de cooperação e emoções, substrato de uma atividade como a caça.

 

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Grupos de Caçadores

Sempre gostei de estudar grupos pequenos de caçadores e um que me chamou à atenção foi os Baka pigmeos. Ao viver com eles, senti a harmonia que existia - são calmos e felizes na vida social, têm laços muito fortes com as famílias e uma maneira de obter sustento muito gratificante. Possivelmente, na nossa história evolutiva, vivemos com esse tipo de estratégia ecológico-económica durante milhões de anos. Há cerca de 10.000 anos a mudança foi drástica, com a primeira revolução cultural; e nos últimos 300 anos com a revolução industrial.

Quando perguntei a um dos meus amigos desta tribo, no sul de Camarões, o que era mais importante para ele, respondeu-me sem hesitar: "A floresta. Não posso passar mais de dois ou três dias sem ir à floresta".

E também lhe perguntei qual era a sua religião: "Caçar", respondeu.

A satisfação que tinham quando iam caçar era evidente. E quando voltavam com a peça caçada, o grupo comemorava, cozinhava e distribuiu a carne. Depois cantavam e dançavam ao redor do fogo, com muita alegria e espontaneidade. Nutricionalmente, a dieta destas populações é bastante saudável e até melhor que a de algumas sociedades muito desenvolvidas. Têm uma boa saúde e não sofrem de doenças da nova sociedade, tipo cancro, ou de doenças mentais. 

 

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Somos felizes a caçar 

Durante muito tempo, autores clássicos como Washburn ou Ardrey propuseram a hipótese da caça como uma explicação pelo qual o homem é um homem ... e não um chimpanzé. A resposta é simples: porque durante milhões de anos de evolução eles tiveram que caçar para viver.

E paralelamente, selecionou as adaptações para o comportamento cooperativo: falamos de qualidades como lealdade, responsabilidade e interdependência.

 

Os cidadãos dos países desenvolvidos caçam porque é uma prática que proporciona benefícios sociais, físicos e psicológicos bem definidos. 

Temos uma opinião fragmentada que deriva das informações da comunicação social; mas que não são informações diretas, medidas e analisadas com métodos e técnicas adequadas. 

Há que entender que a seleção natural fez com que o gosto pela caça em seres humanos existisse. Isso talvez ajude a compreender como somos em termos de espécie."

 

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Autor: Juan Carranza. Doutorado em Biologia, Catedrático da área de Zoologia e Diretor da Cadeira de Recursos Cinegéticos e Pesca, da Universidade de Córdoba. É também especializado no comportamento animal e gestão cinegética.

Entrevista publicada na Revista online espanhola Jara Y Sedal

Imagens retiradas da internet

 

 

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