Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Quem é Caçador, nasce Caçador?

Muitas pessoas ficam surpreendidas quando lhes digo que sou psicóloga. Pensam que a minha vida é dedicada somente à caça e às espécies cinegéticas. Mas não! No meu dia a dia exerço uma profissão que me leva a questionar muitas coisas e a querer saber mais. Ser psicóloga é, sem dúvida, meter-me no lugar do outro e tentar perceber determinados comportamentos, baseando-me sempre na ciência e em estudos científicos.

Leio muitos artigos sobre este tema e houve um que me chamou à atenção: Predicting Hunting Intentions and Behavior: An Application of the Theory of Planned Behavior. Li e reli. Gostei desta abordagem e, por isso, vos deixo mais um bocadinho de ciência estudada e comprovada (e não de teorias sem fundamento).

 

Nos últimos anos, muito se fala sobre as vantagens da caça e de outras atividades associadas à vida selvagem; principalmente em termos sociais, psicológicos, emocionais e físicos; apesar de haver falta de fundamentação teórica (poucos são os estudos científicos que abordam esta temática).

Mas creio que esta pode ser a base para se perceberem certos comportamentos, nomeadamente, o gosto pela caça e pela vida selvagem e, sobretudo, que os caçadores são pessoas ditas “normais”, com um comportamento psicológico e social adaptado e equilibrado. Obviamente que falamos de forma geral, sabendo que existem bons e maus, como em todo o lado.

Este estudo de Hrubes, Ajzen & Daigle, procurou entender estas valências, tendo como suporte a Teoria do Comportamento Planeado (Ajzen, 1991) – uma teoria psicológica que pretende prever e explicar o comportamento humano em contextos particulares, com a seguinte lógica: o ser humano tem uma intenção individual de executar um dado comportamento, consoante três fatores: atitudes (crenças sobre as prováveis consequências do comportamento); crenças normativas (crenças sobre as expetativas dos outros – pressão social) e controlo percebido (crenças sobre fatores que podem prejudicar ou melhorar o desempenho do comportamento – será fácil ou difícil realizar tal comportamento?).

 

Neste estudo, o objetivo primordial era prever e explicar o comportamento de caça, através da Teoria do Comportamento Planeado. Para isso, foram usados dois grupos de estudo: 1) 388 caçadores que tiraram licença de caça em Vermont; e 2) 339 voluntários (não caçadores) que visitaram o Green Mountain National Forest (GMNF), em Vermont. Foi entregue um questionário a todas as pessoas destes grupos, que avaliava três atividades ao ar livre – caça; observação da vida selvagem; e atividades ao ar livre que não estavam relacionadas com a vida selvagem. Os itens do questionário abrangiam então várias vertentes (pedia-se para pensar nos últimos 12 meses):

 

  1. Comportamento – “Com que frequência caçaram ao longo do último ano?” (para os caçadores); “Com que frequência observaram a vida selvagem” (para o grupo de observação da vida selvagem); e “Com que frequência fizeram atividades ao ar livre?” (para o grupo que fazia atividades ao ar livre que não estavam relacionadas com a vida selvagem);
  2. Intenções – Uma escala de 1 a 7 (1 – extremamente improvável a 7 – extremamente provável) avaliou a intenção dos participantes para se envolverem na caça;
  3. Atitudes – Foram avaliadas atitudes em relação ao comportamento de caça (1- extremamente ruim a 7 - extremamente bom; 1- extremamente agradável a 7 - extremamente desagradável);
  4. Normas subjetivas – Duas escalas avaliaram este parâmetro: “A maioria das pessoas importantes para mim acham que devia caçar” (1- nada verdade a 7- completamente verdade); “A maioria das pessoas importantes para mim concordam com o meu envolvimento na caça” (aprovam vs desaprovam).
  5. Controlo comportamental percebido – Duas escalas de 7 pontos avaliaram a dificuldade de se envolverem na caça (1 – extremamente difícil a 7 – extremamente fácil); e a verdade da seguinte afirmação “Se eu quisesse, facilmente poderia caçar nos próximos 12 meses” (1 – definitivamente falso a 7 – definitivamente verdadeiro);
  6. Crenças comportamentais – Pretendeu-se avaliar as crenças dos participantes acerca dos benefícios ou custos resultantes da caça, procedendo-se a uma lista com 12 itens com resultados positivos da caça (ex. observar e aprender sobre a vida selvagem) e resultados negativos (ex. sentir-se cansado e exausto). Os participantes avaliaram a probabilidade da caça produzir cada um dos 12 itens, numa escala de 11 pontos (0 – extremamente improvável a 11 – extremamente provável); avaliando ainda a conveniência de cada item, numa escala de 7 pontos (1 – extremamente indesejável a 7 – extremamente desejável);
  7. Crenças normativas – Idêntico ao item das normas subjetivas, mas aplicado aos amigos e família;
  8. Controlo de crenças – Escala de 11 pontos avaliou crenças acerca do tempo que estão ocupados a caçar; conhecimentos e habilidades; custos; e o esforço para se dedicarem à caça;
  9. Valores da vida selvagem – Os participantes tinham de indicar a sua opinião acerca de 8 afirmações sobre a vida selvagem (ex. domínios de orientação da vida selvagem; direitos dos animais, etc.), numa escala de 7 pontos (1 – discordo totalmente a 7 – concordo totalmente).
  10. Valores de Vida – Os entrevistados têm de avaliar a importância de 56 objetivos motivacionais, numa escala de 9 pontos (1 – é oposto aos meus valores a 9 – é de extrema importância).

 

Resultados

 

Os entrevistados eram predominantemente do sexo masculino (73%) e caucasianos (79%), com média de idade de 40,5 anos. 47% dos entrevistados relataram uma renda familiar anual entre US $ 20.000 e US $ 61.000, 35% relataram uma renda acima de US $ 61.000 e 11% relataram uma renda abaixo de US $ 20.000. Mais da metade da amostra (53%) formou-se no ensino superior.

 

De acordo com a Teoria do Comportamento Planeado, os caçadores relataram atitudes extremamente positivas, assim como normas subjetivas, perceções de controlo e intenções, em relação à caça. Os outros dois grupos de controlo relataram scores negativos relativamente à intenção de caçarem. O grupo que fazia atividades ao ar livre que não estavam relacionadas com a vida selvagem relatou atitudes e normas subjetivas mais negativas, em relação à caça, do que o grupo de observação da vida selvagem.

Todos os grupos demonstram prazer no envolvimento com a vida selvagem, contudo o grupo dos caçadores indica que os direitos humanos não devem ser os mesmos que os direitos animais; ao invés dos outros dois grupos.

Os caçadores apresentaram valores mais altos no conservacionismo; estavam menos abertos a mudanças e pouco preocupados com os outros. Percebeu-se que a caça é um comportamento que se escolhe, voluntário e que se tem intenção de fazer. O comportamento da caça correlacionou-se positivamente com os valores relacionados com o aproveitamento da vida selvagem.

Constatou-se também que a influência dos valores da vida selvagem é influenciada pelas atitudes dos caçadores (ou seja, os valores influenciam os comportamentos, através das crenças e atitudes).

Percebeu-se também que as atitudes, em relação a um comportamento, derivam das crenças sobre as consequências desse mesmo comportamento; que as normas subjetivas derivam das crenças sobre as expetativas dos outros; e que a perceção de controlo deriva das crenças sobre os fatores que ajudam ou prejudicam a situação.

 

 

Em suma, a presente pesquisa demonstrou que a teoria do comportamento planeado pode ajudar a explicar a participação nas intenções e no comportamento da caça. Além disso, indica que as orientações de valor da vida selvagem e os valores fundamentais da vida podem ajudar a explicar algumas das variações nas crenças e atitudes relacionadas à vida selvagem que, determinam a decisão de se envolver ou não na caça.

 

Ou seja, ser caçador não é ser um outsider da sociedade, ou ter algum tipo de patologia mental. Ser caçador é ter um conjunto de crenças, valores, atitudes e controlo (segundo a Teoria acima citada) que nos leva a querer ser caçadores e a querer envolver-nos na vida selvagem. Estou certa de que a educação e valores transmitidos pela família e amigos; assim como as experiências de vida são fatores fulcrais para que se tome a decisão de ser caçador. Isso é visível neste estudo aqui apresentado, por exemplo, onde pessoas que não eram caçadores não tinham qualquer tipo de se associarem a esta atividade, apesar da ligação à natureza e vida selvagem.

Quem é caçador, nasce caçador?

Não acredito nisto; mas acredito sim que temos um papel fulcral com os mais jovens, nomeadamente a incutir o gosto pela caça! Temos de sentir que essa é a nossa missão, nesta pequena passagem que por aqui fazemos…

ML.

 

 

Referência Bibliográfica: Hrubes, D., Ajzen, I., & Daigle, J. (2001). Predicting Hunting Intentions and Behavior: An Application of the Theory of Planned Behavior. Leisure Sciences, 23(3), 165-178.

 

(Artigo publicado na edição de Junho da Revista Caça e Cães de Caça)

 

13010598_976184425798585_2248211995192433357_n.jpg